Filipe IV (em castelhano: Felipe IV; Valladolid, 8 de abril de 1605 – Madrid, 17 de setembro de 1665), também chamado “O Grande” e “O Rei Planeta” por seus apoiantes, e "O Opressor" por seus detractores, foi Rei da Espanha, Portugal, Nápoles, Sicília, Sardenha e Países Baixos, durante a União Ibérica. Subiu ao trono em 1621 e reinou na Espanha até 1665, ano de sua morte. É lembrado pelo seu grande patrocínio às artes e pelo seu domínio sobre a Espanha durante a Guerra dos Trinta Anos. Reinou sobre Portugal com o nome de Filipe III.

Apesar de o Império Espanhol ter alcançado aproximadamente 12,2 milhões de quilômetros quadrados de área na época de seu falecimento, o reino estava em declínio em outros aspetos, reflexo das inúmeras reformas fracassadas das políticas Filipinas.

Vida esquerda|miniaturadaimagem|VELÁZQUEZ, Diego Rodríguez de Silva. Felipe IV, cazador. 1632-1634. Óleo sobre tela, 189 x 124 cm.|290x290px|alt= Filipe IV nasceu no Palácio Real de Valladolid em 8 de abril de 1605 como o filho mais velho de Filipe III e sua esposa, Margarida da Áustria. Aos 10 anos, casou-se com Isabel de França, de 13 anos, e teve sete filhos com ela. Entretanto, o único homem, Baltasar Carlos, morreu aos 16 anos, em 1646.

Após a morte de sua primeira esposa, casou-se novamente com Marianna da Áustria, a fim de fortalecer as relações com os Habsburgo, na Áustria. Em seu segundo casamento, teve cinco filhos, porém apenas dois deles - Margarita Teresa e o futuro Carlos II da Espanha - atingiram a idade adulta.

Apesar de ter sido retratado durante muito tempo pela História como um monarca fraco, que dominava uma corte barroca debochada e delegava excessivas atribuições a seus ministros, os historiadores, a partir do século XX, passaram a considerá-lo mais enérgico - tanto física quanto mentalmente - do que seu pai. Filipe IV era um bom cavaleiro, um caçador afiado e um devoto das touradas. Em particular, parecia ter uma personalidade mais leve. Quando era mais jovem, dizia-se que ele possuía um senso de humor agudo e um "grande senso de diversão". Ele frequentou academias particulares em Madri durante todo o seu reinado - eram salões literários alegres que tinham por objetivo analisar literatura e poesia contemporâneas com um toque humorístico. Apaixonado por teatro, às vezes era criticado pelos contemporâneos por seu amor a esses entretenimentos "frívolos".

Outros contemporâneos capturaram sua personalidade privada como "naturalmente gentil e afável". Aqueles próximos a ele alegaram que era academicamente competente, com uma boa noção de latim e geografia, além de saber falar bem francês, português e italiano. Como muitos na sua época, Filipe IV tinha um grande interesse em astrologia. Sua tradução manuscrita dos textos de Francesco Guicciardini sobre história política ainda existe.

O monarca teve inúmeras amantes, principalmente atrizes. A mais famosa delas foi María Inés Calderón (La Calderona), com quem teve um filho em 1629, João José, criado como príncipe real. No final do reinado e com a saúde de Carlos José em dúvida, havia uma possibilidade real de que seu filho bastardo visse a reivindicar o trono, o que contribuiu para a instabilidade dos anos da regência.

Política Interna Ver também: Crise espanhola de 1640miniaturadaimagem|VELÁZQUEZ, Diego Rodríguez de Silva. Retrato equestre do conde-duque de Olivares. 1636. Óleo sobre tela, 313 x 239 cm.|259x259px|alt=esquerda|miniaturadaimagem|CRUZ, Juan Pantoja da. Felipe III de Espanha. 1603. Óleo sobre tela, 65 x 47 cm|alt=|276x276pxFilipe IV assumiu o trono espanhol aos 16 anos, após o falecimento de seu pai, Filipe III, em 1621. Inicialmente, seu reinado foi celebrado devido à troca de monarcas, uma vez que seu pai havia sido reconhecido por permitir que Francisco de Sandoval, o futuro duque de Lerna, exercesse grande influência sobre o reino por conta da amizade existente entre eles, sendo considerado um favorito do rei. 

Essa forma de governar utilizada por Filipe III tornou-o cada vez mais impopular, uma vez que ia contra a crença popular de que um rei não deveria governar através de outros e acarretou no governo espanhol beneficiando inúmeros nobres, servos e familiares de Lerna em detrimento das outras regiões o que indica um certo favoritismo por parte do monarca. Estes tinham enorme prestígio dentro da Corte como conselheiros, o que tornava o rei propenso a fazer política conforme os interesses daqueles que o influenciavam.

Além disso, o governo de Filipe III foi marcado pela corrupção e enriquecimento do duque de Lerna e aqueles que lhe eram próximos e o reino enfrentava uma série de problemas econômicos, já que uma colheita ruim, a fome e a peste bubônica chegaram a matar 10% da população.

O governo de Filipe IV, por sua vez, iniciou uma reforma administrativa ao remover os últimos membros da família Lerna Sandoval, reestruturar o Conselho da Fazenda e reduzir o conselho do rei em apenas quatro conselheiros.

Segundo o Conde de Olivares, primeiro ministro de Filipe IV, embora fosse interessante que o monarca fosse amado por seus vassalos, ele não devia conceder benefícios a eles de modo a desfalcar o Tesouro Real, já que o reino se encontrava em situação financeira delicada por conta de governos anteriores. Além disso, o rei deveria ater-se a conquistar reinos estrangeiros. De acordo com suas palavras, o monarca era o principal apoiador e defensor da Igreja Católica em toda a Europa.

Pouco tempo depois de assumir o trono, as primeiras reformas socioeconômicas de Filipe IV foram postas em prática. Leis contra o luxo foram criadas e a justiça passou a ser regulada. Como o Tesouro espanhol encontrava-se bastante reduzido, em razão da expulsão dos mouros, o conde Olivares passou a buscar novas formas de diminuir custos de modo a promover uma economia de gastos no reino. Sendo assim, Olivares propôs a realização de um inventário dos bens pertencentes à Coroa para que fosse possível conseguir recursos com a disposição deles.

Em 1625, o conde Olivares propôs ao rei a unificação total da Espanha, de modo a aumentar de forma exponencial seu poder econômico e político. Tal manobra tinha a intenção de, nas palavras do autor, “ressuscitar a Monarquia”.

O estado decadente da monarquia espanhola despertava as palavras dos intelectuais que, em prosa e verso, criticavam a forma de governo de Filipe IV. Um exemplo são os versos de Quevedo, que foram mantidos em San Marcos de León:miniaturadaimagem|300px|Estátua do Rei Filipe IV, em Madrid. TACCA, Pietro. 1634-1640. Metálico (bronze) e pedra, 4 x 3,5 m.|alt=miniaturadaimagem|300px|Moeda de ouro cunhada em 1633 sob seu reinado, grande símbolo de reconhecimento na esfera pública. Oficinas de Real de Segovia. Centro Segoviano. 1633. Ouro, 7,15 cm|alt="[...] Para cem reis, a Espanha nunca

pagou as quantias que o seu reinado. 

E o povo de luto desconfia que lança gabela na respiração. 

Embora os imensos frutos do céu o enviem,

ele enfurece nossa fome como estéril. 

[...] Veja que os pobres, sozinhos e ocultos,

silenciosamente o invocam com mil gritos. 

Um ministro da paz come gajes

mais do que na guerra, pode gastar dez linhagens.

Mas, como existem despesas na Itália e na Flandres,

cessam os supérfluos e os grandes agregados familiares,

e não com o sangue de mim e de meus filhos,

os lagos abundam de alegria. 

Quadrados de madeira custam milhões,

removendo vigas e tábuas dos templos. 

Os palácios crescem, cem em cada um

e o grande San Isidro, nem eremitério nem enterro. 

Quem o escreve com sangue inimigo na lança.

Por mérito próprio, vem o esplendor colina,

para a guerra finge elogios,

e não a tinta do bajulador."

Política Externa esquerda|miniaturadaimagem|287x287px|Estátua de Filipe IV da Espanha (1692), segundo modelo de Bernini. Pórtico da Basílica de Santa Maria Maggiore em Roma.Filipe IV foi muito comprometido em relação às políticas externas, de modo a transparecer por meio de sua decisões seu caráter como monarca respeitado e honrado. Sua política externa era como um espelho das percepções, imagens mentais e ideias que prevalecem na sua época.

Tratando de sua reputação, pode-se dizer que foi muito estimado e respeitado por diversos outros monarcas da Europa, visto como uma autoridade digna de prestígio. Como garantia de seu poderio, possuía os elementos principais da honra: boa posição social, linhagem aristocrática de valor e a fé católica.

A própria história ilustra o peso da figura de Filipe IV como um imponente católico e descendente de uma linhagem de importantes reis. Filipe IV sabia a importância de sua imagem mais que seus próprios ministros, por isso, em 1661, encomendou ao jurista Francisco Ramos Del Manzano uma história de seu reinado para defender "a reputação das nações e vassalos das minhas coroas[...]". Desta forma, vale refletir sobre os feitos da Coroa hispânica, que em sua maioria eram intencionados para manter a reputação do reinado.

Guerra dos 30 anos alt=|miniaturadaimagem|312x312px|LAUMOSNIER, Jacques. A entrevista de Luís XIV e Filipe IV na ilha dos Faisões. 1660. Óleo sobre tela, 89,1x130 cm Filipe IV reinou durante a maior parte da Guerra dos Trinta Anos. O monarca foi convencido por Baltazar de Zúñiga a intervir militarmente na Boêmia junto ao imperador Fernando II. Feito isso, foi convencido, também, a promover uma política externa mais agressiva na Espanha e aliar-se ao Sacro Império Romano de forma a renovar as hostilidades com os holandeses em 1621 e forçá-los à negociação de um acordo de paz que beneficiasse os espanhóis.

Apesar dessa mudança na política de Filipe IV, suas atitudes não eram ao todo belicosas. O rei parecia genuinamente entristecido pelo fato de que seu povo teve que pagar em sangue seu apoio às guerras durante os reinados anteriores.

Embora custosa aos bolsos espanhóis, a guerra travada contra os holandeses havia rendido bons frutos, dentre eles a retomada da cidade-chave de Breda em 1624. Entretanto, no fim da década de 1620, Filipe se viu obrigado a priorizar a guerra nos Flandres em detrimento da Guerra de Sucessão de Mantuan (1628-1631) em apoio à França.

O aumento das tensões com a França tornou a guerra contra este aliado cada vez mais inevitável. Apesar de ter se mostrado forte durante os primeiros anos da guerra hispano francesa (1635), a partir de 1640, a Espanha sofreu com conflitos internos relacionados aos custos da guerra contra os franceses.

Para que pudesse haver uma contenção de gastos, Filipe IV cortou os recursos destinados à guerra dos Flandres para que a guerra hispano-francesa tivesse prioridade em seu reinado, e pouco depois, acabou por dar ordens aos seus embaixadores para buscarem um tratado de paz entre as Coroas.

Apesar de ter conseguido um tratado de paz - a Paz de Vestfáslia - para resolver os conflitos com Holanda e Alemanha, a guerra contra a França se arrastou. Filipe manteve-se firme em sua luta ao notar sinais de fraqueza por parte da Coroa francesa por conta das rebeliões de Fronda de 1648, e responsabilizou-se por promover uma ofensiva que lhe garantisse a vitória sobre os franceses.

Todavia, esta vitória nunca surgiu, e em 1658, o monarca espanhol estava pronto para assinar um acordo de paz. Em 1659, foi assinado o Tratado dos Pirenéus, que estabelecia, dentre outras coisas, o casamento da filha de Filipe IV, Maria Teresa, com o jovem Luís XIV, finalmente encerrando este episódio da História. esquerda|miniaturadaimagem|SALGADO, Veloso. Coroação de D. João IV. 1908. Óleo sobre tela, 325 x 285 cm.|302x302px|alt=

Guerra da Restauração Em 1640, uma conspiração liderada pela nobreza proclamou o Duque de Bragança como rei João IV de Portugal, derrubando o governo do monarca espanhol em Lisboa e dando início à Guerra de Restauração. O início da guerra foi complicado para D. Filipe, tendo que lidar não só com Portugal, como também com as revoltas na Catalunha.