miniaturadaimagem|242x242px|Arqueólogos exploraram um extinto cemitério no terreno da Cúria Metropolitana. Porto Alegre, RS, em 2012. A arqueologia comunitária é uma das vertentes da arqueologia que busca envolver comunidades nas pesquisas arqueológicas e nas iniciativas de representação de seu patrimônio cultural. O campo possui muitas afinidades com a arqueologia pública. Há um debate sobre se os termos são intercambiáveis ou se a arqueologia comunitária não seria uma forma de arqueologia pública. Porém, também foi sugerido que a arqueologia pública se distancia da arqueologia comunitária ao focar na produção e no consumo de "mercadorias" arqueológicas.Os termos aparecem como intercambiáveis em McDavid, 2002: 304 e Marshall, 2002: 214 O design, os objetivos, as comunidades envolvidas e os métodos em projetos de arqueologia comunitária possuem muita variação, mas há dois aspectos gerais presentes em todos os projetos de arqueologia comunitária. Em primeiro lugar, a arqueologia comunitária envolve as comunidades "no planejamento e na execução de projetos de pesquisa que lhe são de interesse direto".Trigger (2007:260) Em segundo lugar, os arqueólogos comunitários geralmente acreditam que possuem uma visão altruísta sobre o outro dando voz às comunidades. Muitos estudiosos no assunto argumentaram que não existe um método pré-definido de colaboração da comunidade na investigação arqueológica.Kerber (2006a) Embora não seja encontrado em todos os projetos, há uma série de propósitos e objetivos recorrentes na arqueologia comunitária. Similaridades também são encontradas em diferentes países e regiões - devido a semelhanças em comunidades arqueológicas, leis, instituições e tipos de comunidades.Moshenska (2009)

Comunidades

Definições Em um sentido estrito, comunidades são agregados de pessoas que raramente possuem a mesma cultura e nunca têm a mesma opinião.Marshall (2002:215) Dentro da arqueologia comunitária é possível dividir as comunidades em três tipos diferentes, mas intercambiáveis: as comunidades locais, as comunidades de descendência local e as comunidades de descendência não local ou diaspórica.Marshall (2002:216); Singleton and Orser (2003:144)

Comunidades locais e comunidades de descendência não local Comunidades de descendência são aquelas que estão ancestralmente ligadas a um local. Comunidades de descendência local são aquelas em que os descendentes vivem nas proximidades de um mesmo local. As comunidades de descendência diaspórica “são grupos que estão ligados a um local, mas que vivem em outro local, potencialmente a centenas ou mesmo milhares de quilômetros de distância”.Singleton and Orser (2003:144) Colaborações arqueológicas com comunidades de descendência local incluem aquelas realizadas em sítios proto-históricos e que colaboram com indígenas ancestralmente ligados a eles, assim como em escavações de plantations na qual colaboram descendentes locais de escravizados que trabalharam nela.Hollowell (2006); Hollowell-Zimmer (2003); Singleton (2003); Shackel (2007); McDavid (2003); McDavid (2002)

Comunidades locais de não descendência As comunidades locais são simplesmente comunidades que vivem "dentro ou perto de um local"Marshall (2002:216) e as comunidades locais de não descendência são aquelas que não acreditam ter uma relação ancestral com o local. Esta categoria inclui proprietários de terras, voluntários, empresas e stakeholders locais. Alguns pesquisadores acreditam que muitas das principais questões da arqueologia comunitária são aplicáveis a comunidades locais de não descendência e que essas colaborações são cruciais para os arqueólogos que buscam compreender o contexto social local de seu trabalho.Atalay (2007)

Questões fundamentais

Decolonização

A arqueologia é uma prática cuja história está enraizada no colonialismo. Muitos arqueólogos e comunidades afirmam, inclusive, que a arqueologia nunca escapou de seu passado colonial.Ver Pyburn, 2003; Pyburn, 2004; Atalay, 2006; Trigger 2007; Pyburn, 2008b Um dos principais objetivos dos arqueólogos comunitários e dos projetos de arqueologia comunitária é decolonizar a arqueologia.Atalay, 2006; Pyburn, 2008a; Pyburn, 2004; Spector, 1993 Ao decolonizar a arqueologia, os arqueólogos estão tentando dar às comunidades mais controle sobre cada estágio do processo arqueológico. Por exemplo, alguns programas começaram a reunir líderes indígenas globalmente para discutir métodos compartilhados de decolonização por meio da colaboração arqueológica.Ver Atalay, 2006; Atalay, 2007; Pyburn, 2008b A arqueologia comunitária, o compartilhamento de conhecimento arqueológico, dentre outros tópicos, foram vistos como partes cruciais da decolonização.Atalay, 2006; Pyburn, 2008a; Pyburn, 2004 Publicar pesquisas arqueológicas em licenças de acesso aberto para facilitar o uso desse material é outro aspecto da decolonização.

Autorreflexão A arqueologia comunitária pode amenizar ou prevenir formas de violência contra comunidades causadas pelas práticas tradicionais da arqueologia. A autorreflexão é pensada como uma espécie de olhar para um espelho metafórico e inclui tentativas de tornar explicitamente visível a violência - como a colonização - da qual a arqueologia fez parte implicitamente.Spector, 1993 Os arqueólogos podem lançar mão da autorreflexão nos primeiros contatos com as comunidades como forma de quebrar a dinâmica de poder desequilibrada entre comunidades não acadêmicas e arqueólogos.Moser et al., 2002: 234 A autorreflexão entre arqueólogos - como discussão com membros da comunidade, redação de diários de campo e trabalhos profissionais sobre autorreflexão - também pode ser um meio de identificar aspectos antiéticos e violentos de projetos arqueológicos.Edgeworth, 2006

Contato com o público O contato com o público, em arqueologia, é uma forma de apresentar descobertas arqueológicas a não arqueólogos e é geralmente um aspecto crucial da maioria dos projetos de arqueologia comunitária.Specter, 1993; Herscher; McManamon, 1995; Jameson, 2003; Lynott, 2003; Wille, 2008 Esse contato pode assumir várias formas, desde uma única palestra para uma escola local até acordos de longo prazo com as comunidades para o desenvolvimento de programas de cooperação elaborados.Atalay (2007) Muitos pesquisadores acham que a arqueologia e as descobertas arqueológicas são excessivamente distorcidas pela mídia e por associações ocidentais, e que o contato direto com o público é a melhor maneira de informar não arqueólogos sobre o que os arqueólogos realmente fazem e encontram em seu trabalho.Pyburn, 2008a A participação do público pode também significar um envolvimento da comunidade local em todo o processo que envolve a pesquisa arqueológica. Isso permite que as comunidades sejam agentes ativos junto aos arqueólogos tanto nas prospecções dos sítios quanto nas escavações.

Abordagens

Interpretação pela comunidade A interpretação de descobertas arqueológicas pela comunidade é um aspecto quintessencial da arqueologia comunitária. De forma ampla, ela também é vista como um aspecto importante da "arqueologia decolonizadora", pois empodera os não arqueólogos para interpretar o passado.Atalay, 2006 Vários arqueólogos comunitários criaram projetos que dão à comunidade um papel importante na interpretação e disseminação de informações arqueológicas.Marshall (2002) A participação da comunidade acontece na interpretação das descobertas, assim como em qualquer aspecto do projeto, como sua teoria Atalay, 2006 e seus objetivos.Clarke, 2002; Moser et al., 2002; Kuhns 2008; Watson; Waterman, 2008 O envolvimento da comunidade mina o controle exclusivo que os arqueólogos tiveram sobre o passado material e dá aos não arqueólogos a chance de interpretar o passado.Spector (1993) Muitos arqueólogos argumentam que a incorporação do conhecimento local é importante para a sobrevivência da arqueologia como disciplina acadêmica.Miller (1980); Watkins (2003) O grau de controle interpretativo que as comunidades têm em projetos arqueológicos varia desde o uso por arqueólogos de interpretações obtidas em entrevistas e consultas à comunidadeSanger et al. (2006:325) até publicações acadêmicas escritas por membros da comunidade baseadas em questões suscitadas por eles ao longo do projeto.Ver Wiynjorroc et al., 2005 e Dean; Perrelli, 2006

Compromisso de longo prazo Etnógrafos e especialistas em desenvolvimento socioeconômico mostraramPyburn (2007:177) que uma relação de longo prazo é necessária para desenvolver entrosamento e respeito mútuo com a comunidade local. Eles também argumentam que, para a colaboração ser bem-sucedida, os arqueólogos devem assumir um compromisso de longo prazo com a comunidadePyburn (2003) a fim de compreender a dinâmica do contexto social de suas pesquisas. Sem essa profundidade de conhecimento, os arqueólogos correm o risco de tomar decisões com consequências indesejadas.Pyburn (2007) Por exemplo, as colaborações e repatriações têm sido mais bem-sucedidas onde arqueólogos e povos originários se encontram regularmente e desenvolvem amizade e respeito mútuo.Versaggi (2006:30); Dean and Perrelli (2006:142-143) Nina Versaggi apontou em suas pesquisas que "permitir que o processo demore é o que importa".Versaggi (2006:30) Levando esse dado em consideração, muitos arqueólogos comunitários buscam planejar conduzir colaborações duradouras desde o início do projeto.Knecht (2003) Moser et al. (2002)

Etnografia e conhecimento da comunidade Como método para conhecer a comunidade, os arqueólogos têm defendido o uso da etnografia em projetos de arqueologia comunitária.Pyburn (2007) Embora a maioria dos estudiosos ache que não é necessário que todos os arqueólogos se tornem etnógrafos de formação, é desejável um certo grau de conhecimento etnográfico antes de iniciar um projeto.Pyburn (2007:177) Alguns projetos de arqueologia comunitária contam com dados etnográficos coletados por membros da equipe de pesquisa.Bartu as cited Atalay (2007:257)

Museus e instituições miniaturadaimagem|Membros da etnia Mashantucket Pequot no Mashantucket Pequot Museum and Research Center, 1997. A construção de museus ou outras instituições que possam atuar como centros educacionais, repositórios de materiais arqueológicos e centros de colaboração científica e sociocultural com a comunidade em questão é um objetivo comum de longo prazo para muitos projetos de arqueologia comunitária. Esse objetivo vem sendo cada mais alcançado.Moser (2002); Knecht (2003); Smith (2003); Jones and McBride (2006) Os museus se tornaram centros de divulgação e colaboração tanto para as comunidades locais quanto para as comunidades não locais.Wille (2008) Um exemplo bem conhecido de um museu criado por uma colaboração entre ameríndios e arqueólogos é o Mashantucket Pequot Museum and Research Center, que é "o maior museu de propriedade de indígenas americanos nos Estados Unidos".Jones and McBride (2006:275) Ele tem vários laboratórios e coleções para fins de pesquisa científica e uma equipe que inclui cinco arqueólogos contratados no regime de tempo integral.Jones and McBride (2006)

Publicações voltadas para a comunidade Outro método usado na arqueologia comunitária para o compartilhamento e a distribuição de conhecimento arqueológico é a publicação ou apresentação de materiais especificamente para a comunidade. Isso inclui livros, panfletos, histórias infantis,Jones and McBride (2006) livros de exercícios orientados para escolas,Moser et al. (2002:238-239) histórias em quadrinhos,Atalay (2007:260-261) sites,McDavid (2002, 2003) palestras abertas, programas de rádio, de televisão e de notícias, encenações dramáticas, criações artísticas e literárias, publicações de acesso aberto e demais formas.

Pesquisa participativa A pesquisa participativa é outro método que os arqueólogos têm usado em projetos de arqueologia comunitária.Strand et al. (2003); Hemment (2007); Pyburn (2007); Kuhns (2008)

Críticas

Quem fala pela comunidade?