miniaturadaimagem|495x495px|De Robert Fludd, Utriusque cosmi historia, Oppenheim/Frankfurt, 1617–1621 A analogia microcosmo-macrocosmo (ou, equivalentemente, analogia macrocosmo-microcosmo) refere-se a uma visão histórica que postulou uma semelhança estrutural entre o ser humano (o microcosmo, ou seja, a pequena ordem ou o pequeno universo) e o cosmos como um todo (o macrocosmo, ou seja, a grande ordem ou o grande universo).Os termos microcosmo e macrocosmo derivam do grego antigo μικρός κόσμος (mikrós kósmos) e μακρός κόσμος (makrós kósmos), o que pode significar "pequeno universo" e "grande universe", mas cujos sentidos primários são "ordem menor" e "ordem maior", respectivamente (cf. ). Dada essa analogia fundamental, verdades sobre a natureza do cosmos como um todo poderiam ser inferidas de verdades sobre a natureza humana e vice-versa.Sobre o macrocosmo e microcosmo em geral, ver, p. ex., ; ; .
Um importante corolário dessa visão é que o cosmos como um todo pode ser considerado vivo e, portanto, ter uma mente ou alma (a Alma do Mundo), uma posição avançada por Platão em seu Timeu.Ver . Além disso, essa mente ou alma cósmica era frequentemente considerada divina, principalmente pelos estoicos e por aqueles que foram influenciados por eles, como os autores da Hermética.Sobre os estoicos, ver ; sobre a Hermetica, ver . Consequentemente, às vezes se inferia que a mente ou alma humana também era de natureza divina.
Além dessa importante aplicação psicológica e noética (isto é, relacionada a Nous), a analogia também foi aplicada à fisiologia humana.See, e.g., . Por exemplo, as funções cosmológicas dos sete planetas clássicos às vezes eram consideradas análogas às funções fisiológicas dos órgãos humanos, como o coração, o baço, o fígado, o estômago, etc.Ver o desenho mostrado à direita, que correlaciona o sol (considerado como um planeta no modelo geocêntrico) com o coração.
A visão em si é antiga e pode ser encontrada em muitos sistemas filosóficos em todo o mundo, como por exemplo na antiga Mesopotâmia,. no antigo Irã; . ou na antiga filosofia chinesa.. No entanto, os termos microcosmo e macrocosmo referem-se mais especificamente à analogia conforme foi desenvolvida na filosofia grega antiga e seus descendentes medievais e modernos. Ela perpassou por doutrinas do esoterismo ocidental e oriental como a magia, alquimia e astrologia, além de sistemas de medicina e psicologia.Nicola, Ubaldo (1999). Illustrated Atlas of Philosophy. Giunti Editores. p. 224Djurdjevic, Gordan (2014). «A Web of Relations: Interpreting Indian Yoga and Tantra as Forms of Esotericism». In: India and the Occult. Nova Iorque: Palgrave Macmillan. p. 21-33.
No uso contemporâneo, os termos microcosmo e macrocosmo também são empregados para se referir a qualquer sistema menor que seja representativo de um sistema maior e vice-versa.
História
Antiguidade Entre os antigos filósofos antigos gregos e helenísticos, notáveis proponentes da analogia microcosmo-macrocosmo incluíram Anaximandro (c. 610 – c. 546 AEC),Ver, p. ex., . Platão (c. 428 ou 424 – c. 348 AEC),Ver especialmente . os autores hipocráticos (final do quinto século ou início do quarto século AEC e em diante),Ver ; . e os estoicos (terceiro século AEC e em diante).Ver Em períodos posteriores, a analogia foi especialmente proeminente nas obras dos filósofos que foram fortemente influenciados pelo pensamento platônico e estoico, como Fílon de Alexandria (c. 20 AEC – c. 50 EC),Ver, p. ex., . os autores da Hermética grega inicial (c. 100 a.C. – c. 300),Ver . e os neoplatonistas (terceiro século em diante).Ver, p. ex., . A analogia também começou a ocorrer desde uma data inicial na literatura religiosa, como na obra enciclopédica zoroastriana chamada Bundahishn, ou no antigo texto rabínico chamado Avot de-Rabbi Nathan.; .
Na Antiga Mesopotâmia, o microcosmismo holístico era manifesto na figura do rei, visto como um "ser humano perfeito" que integrava o divino e o humano, e portador da ordem cósmica em seu governo através do paralelismo celeste e terreno. A estreita relação entre macrocosmo e microcosmo também era conhecida em sistemas de adivinhação, por exemplo nos haruspícios e outras leituras de entranhas, em que o estudo da correspondência entre a abóbada celeste e os elementos vivos e não vivos da terra permitia significados como auspícios capazes de predizer o destino. Entre os etruscos, e posteriormente na prática passada aos romanos, a vontade divina podia ser observada nos sinais do fígado, dividido em zonas que correspondiam a setores da morada dos deuses no Céu. Nas práticas mânticas chinesas, desde o Período dos Estados Combatentes os diversos sistemas cosmológicos, como de yin e yang e dos cinco elementos, competiam entre si e passaram a se associar a padrões de fenômenos espaciais, temporais, corporais e a auspícios, tal como nos hexagramas; na dinastia Han, o sistema da "cosmologia correlativa" entre os reinos do Céu, Terra e humanidade fazia correlações simbólicas com números.
Grécia e mundo helenístico miniaturadaimagem|318x318px|O Escudo de Aquiles, descrito na Ilíada como tendo sido forjado por Hefesto, continha uma representação do cosmos, cujas figuras da descrição foram interpretadas como se movendo nos círculos divididos. "Nele ele forjou a Terra, nele o Céu, nele o Mar; o incansável Sol e a Lua em plenitude; nele todas as constelações com as quais o Céu é circundado" (Ilíada 18.483–489). Na Grécia Antiga, a visão do cosmos como uma entidade animada se refletia na política, que identificava a ordem natural do universo com as leis da cidade.“Há uma profunda analogia de estrutura entre o espaço institucional no qual o kosmos humano se expressa e o espaço físico no qual os milesianos projetam o kosmos natural. [...] Destas correspondências entre a estrutura do cosmos natural e a organização do cosmos social, Platão se mostra ainda plenamente consciente no século IV" (Jean Pierre Vernant, em Le origini del pensiero greco, VII, La nuova immagine del mondo). O homem grego foi então inserido em uma harmonia existente entre a pólis e seus habitantes, assimilada àquela existente na natureza entre o todo e suas partes individuais.Zeller, Eduard; Mondolfo, Rodolfo (1974). La filosofia dei Greci nel suo sviluppo storico. La Nuova Italia. p. 258 A máxima de Delfos "conhece-te a ti mesmo" é associada a uma versão expandida ao macrocósmico, que é dita como tendo sido a completa inscrita no Templo: "conhece a ti mesmo—e tu conhecerás todos os mistérios dos deuses e do universo".
Entre os pré-socráticos, Anaxímenes foi considerado por Clemens Baeumker e Meyer como um fundador da analogia (porém considerado por John Burnet como recebendo influências), que é evidenciada em um fragmento dele: "assim como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, é a respiração e o ar que abrangem o mundo inteiro".Conger, George Perrigo (1922). Theories of Macrocosms and Microcosms in the History of Philosophy. Nova Iorque: Columbia University Press. Anaxágoras em sua doutrina das homeomerias afirmou que há "uma porção de tudo que está em todas as coisas". Há relato de que Metrodoro de Lâmpsaco identificou os deuses como uma alegorização dos órgãos do corpo humano, seguindo a característica de Anaxágoras de relacionar as partes do universo e as partes do corpo.
No pitagorismo havia correspondências matemáticas e musicais em harmonia e Número, como afirma F. M. Cornford:Cornford, F. M. (1922). «Mysticism and Science in the Pythagorean Tradition». In: Mourelatos, Alexander P. D. (14 de julho de 2014). The Pre-Socratics: A Collection of Critical Essays (em inglês). [S.l.]: Princeton University Press"A razão para supor que a doutrina "alma=harmonia" remonta a Pitágoras é que ela parece decorrer da correspondência entre macrocosmo e microcosmo e ser exigida pela concepção fundamental da imitação de Deus, considerada como a sintonia da alma em consonância com a harmonia celestial, a única que manifestará euharmostia na perfeição. "Todo o Céu é harmonia e número." O macrocosmo é uma criatura viva com uma alma, ou princípio de vida, e um corpo. É fácil inferir que a alma do mundo é uma harmonia ou sistema de números (como é descrito pelo Timeu pitagórico em Platão)—aquela mesma harmonia que se manifesta no sentido da ordem dos corpos celestes e deve ser reproduzida na sintonização da alma individual"Esse pensamento aparece na consideração de paralelos e opostos em pitagóricos como Alcmeão e Filolau, este último tendo descrito uma embriologia segundo a qual o bebê recém-nascido contém apenas o elemento do calor, mas que, ao respirar, passa a absorver o oposto, o do frio, harmonizando-se de forma análoga ao que ocorre em sua cosmologia do Fogo Central, em que o nascimento do cosmos se dá quando o fogo central limitado puxa o ar do Ilimitado ou que o Um absorve o tempo e vácuo como em respiração.
Os fragmentos de Empédocles indicam uma visão orgânica do cosmos em seus ciclos sucessivos de Amor e Contenda, descritos pela analogia de "membros físicos" manifestos no Deus Esfero, com sua correspondente emissão e retração, união e separação: "Mas quando a Contenda se tornou grande em seus membros e assumiu suas prerrogativas, uma vez que o tempo foi estabelecido para ambos, por sua vez, por um amplo juramento" (fragmento 30) e "pois um por um, todos os seus membros o Deus começou a tremer" (fragmento 31). Isso foi também precedido de explicações de microcosmo sobre os órgãos e membros do corpo: "Isso se manifesta na massa de membros mortais. Em um momento nossos membros se unem para ser um no amor e obter um corpo, no auge da vida florescente; em outro momento, novamente divididos por contendas malignas, eles vagam uns separados dos outros ao longo do litoral da vida" (fragmento 20). Além do mais, Empédocles considerava esse sistema como em harmonia e organizado pelos quatro elementos (por ele chamados de "raízes"), e que sensação e pensamento ocorriam devido à correspondência dos mesmos elementos, do semelhante em semelhança com as coisas.
Houve também consideração de paralelismo e isomorfismo das dimensões cósmicas em Heráclito, na doutrina do Logos, que ele admitia como um só e o mesmo, tanto macroscopicamente como razão e lei na realidade divina, quanto como paradigma para a lei da pólis e na razão da realidade humana: Heráclito exortava a conduta reta que incorporaria essa ordem da natureza.Lebedev, Andrei V. (2017). «The Metaphor of liber naturae and the Alphabet Analogy in Heraclitusʼ logos-Fragments (with some remarks on Plato's "dream theory" and the origin of the concept of elements)». In: Fantino, Enrica; Muss, Ulrike; Schubert, Charlotte; Sier, Kurt. Heraklit im Kontext. Col: Studia Presocratica. 8. Berlim/Boston: De Gruyter. Há indícios de que ele teria feito uma metáfora musical e gramatical de parte e todo para explicar o universo como um "livro da natureza", que possuía o "logos" (que em grego significava também "texto"), formado por sílabas que teriam como componentes simples as "letras" (grámmata ou stoicheia, esta última palavra foi adotada por Platão posteriormente para se referir aos elementos clássicos).
A ocorrência mais antiga da combinação gramatical "microcosmo" em si é vista em Demócrito, porém utilizando-se duas palavras separadas em grego, na sua obra perdida chamada Mikros Diakosmos, conforme no fragmento 34 se lê: "no homem, que é um pequeno cosmo (en tô anthrôpôi mikrôi cosmôi onti)".