miniatura|350px|direita| Centro de Rotherham (Setembro de 2016) O escândalo da exploração sexual infantil de Rotherham consistiu no abuso sexual organizado de crianças que ocorreu na cidade de Rotherham, no Norte de Inglaterra, desde o final da década de 1980 até à década de 2010, e no facto de as autoridades locais não terem agido com base em relatos do abuso durante a maior parte desse período.

A investigadora Angie Heal, que foi contratada por funcionários locais e os alertou para a exploração infantil ocorrida entre 2002 e 2007, descreveu-a desde então como o "maior escândalo de protecção infantil na história do Reino Unido". As provas do abuso foram registadas pela primeira vez no início da década de 1990, quando os directores dos lares investigaram relatos de que crianças ao seu cuidado estavam a ser apanhadas nas ruas por taxistas. A primeira condenação em grupo teve lugar em 2010, quando cinco homens britânico-paquistaneses foram condenados por crimes sexuais contra raparigas com idades entre os 12 e os 16 anos. A partir de Janeiro de 2011 Andrew Norfolk, do The Times pressionou a questão, relatando em 2012 que o abuso na cidade era generalizado, e que a polícia e o conselho do distrito tinham conhecimento do mesmo há mais de dez anos.

O relatório de Alexis Jay de 2014 revelou que pelo menos 1.400 crianças, maioritariamente brancas, foram sujeitas a uma terrível exploração sexual em Rotherham por grupos de homens, predominantemente de origem paquistanesa, entre 1997 e 2013. Este novo tipo de crime, com o seu particular modus operandi, verificou-se também em muitas cidades do Reino Unido, tais como Rochdale, Newcastle, Oxford,Keighley, Telford, Peterborough, Derby, Sheffield, Huddersfield, Aylesbury e Bristol. Com uma pequena variante — os abusadores eram na sua maioria marroquinos — foi encontrado também na Holanda cerca de 2000.

Contexto Com uma população de cerca de 110 mil habitantes em 2011, Rotherham é a maior cidade dentro do Burgo Metropolitano de Rotherham, em South Yorkshire. Cerca de 11,9 por cento dos citadinos pertencia a grupos étnicos negros e minoritários, cerca de oito por cento da população do burgo. Três por cento do bairro pertenciam à comunidade de origem paquistanesa. Havia 68.574 cristãos na cidade em 2011, 23.909 sem religião, 8.682 muçulmanos, 7.527 não declarados, e um pequeno número de hindus, sikhs, judeus e budistas.https://www.citypopulation.de/en/uk/yorkshireandthehumber/ O desemprego era superior à média nacional, e 23% das casas eram habitação social.

A área tem sido tradicionalmente um reduto do Partido Trabalhista, e até Sarah Champion ter sido eleita em 2012, nunca tinha tido uma deputada. O conselho era igualmente dominado por homens; uma fonte interna, trabalhista, disse ao The Guardian em 2012: "A classe política de Rotherham é masculina, masculina, masculina". Em Maio de 2014 havia 63 membros eleitos no Conselho do Concelho Metropolitano de Rotherham: 57 Trabalhistas, quatro Conservadores, um UKIP e um independente. As eleições de Agosto desse ano assistiram a uma mudança para o UKIP: 49 Trabalhistas, 10 UKIP, 2 Conservadores e 2 independentes. O governo dissolveu o conselho em 2015 após o relatório Casey e substituiu-o por uma equipa de cinco comissários.

Terminologia O termo "exploração sexual infantil" (CSE: child sexual exploitation) foi utilizado pela primeira vez em 2009 num documento do Departamento de Educação do Reino Unido. Tinha a intenção de substituir o termo "prostituição infantil" , que implicava um nível de consentimento. A CSE é uma forma de abuso sexual infantil em que é oferecido às crianças algo -- dinheiro, drogas, álcool, comida, um lugar para ficar, ou mesmo apenas afeto - em troca de atividade sexual. A violência e a intimidação são comuns.

Projeto Risky Business Os primeiros relatos de aliciamento localizado em Rotherham datam do início dos anos 90, quando vários gestores de lares de crianças locais criaram um grupo para investigar relatos de que táxis conduzidos por homens paquistaneses estavam a chegar a lares para levar as crianças.

miniatura|220px|direita| Jayne Senior no Palácio de Buckingham em Novembro de 2016 Em 1997 o Conselho de Rotherham criou um projecto local para jovens, o Risky Business, para trabalhar com meninas e mulheres com idades entre os 11-25 anos que se pensava estarem em risco de exploração sexual nas ruas. Jayne Senior, mais tarde (2016) galardoada com a Ordem do Império Britânico pelo seu papel na descoberta do abuso, começou a trabalhar para a Risky Business como coordenadora por volta de Julho de 1999. As utilizadoras eram maioritariamente brancas: das 268 que utilizaram o projeto de Março de 2001 a Março de 2002, 244 eram brancas, 22 eram as assim chamadas "britânico-asiáticas", e 2 eram negras.

Jayne Senior começou a encontrar provas, por volta de 2001, do que parecia ser uma rede de aliciamento localizada. A maioria dos clientes do Risky Business vinham anteriormente de Sheffield, que tinha um "distrito de luz vermelha". Agora, as meninas eram mais jovens e vinham de Rotherham. Meninas com apenas 10 anos faziam amizade, talvez com crianças da sua idade, antes de serem passadas para homens mais velhos que as violavam e se tornavam os seus "namorados". Muitas das meninas eram de famílias perturbadas, mas não todas. As crianças recebiam álcool e drogas e em seguida diziam-lhes que tinham de pagar a "dívida", fazendo sexo com outros homens. Os perpetradores começavam a obter informações pessoais sobre as meninas e as suas famílias - onde os seus pais trabalhavam, por exemplo - detalhes que eram usados para ameaçar as raparigas se elas tentassem retirar-se. As janelas das casas das famílias eram partidas; foram feitas ameaças de violar as mães e as irmãs mais novas. As crianças passavam a acreditar que a única forma de manter as suas famílias seguras era cooperando.

Num dos casos que chamou a atençao do Risky Business, uma criança foi repetidamente violada dos 13 aos 15 anos, e acreditava que a sua mãe seria a próxima vítima: "Costumavam seguir a minha mãe porque sabiam quando ia às compras, a que horas tinha ido às compras, para onde tinha ido" Uma menina de 15 anos foi informada de que estava "a uma bala" da morte. Meninas eram encharcadas com gasolina e disseram-lhes que estavam prestes a morrer. Quando ela disse ao seu "chulo" que estava grávida e não sabia quem era o pai, uma menina de 15 anos foi espancada com um martelo de orelhas até ficar inconsciente. Uma criança de 12 anos com um "namorado" de 24 anos teve uma mãe que convidou os perpetradores para a casa da família, onde a menina fez sexo oral aos homens por 10 cigarros.

De acordo com Senior, a Risky Business acabou por ter tanta informação sobre os perpetradores que a polícia sugeriu que ela começasse a reencaminhá-la para uma caixa de entrega electrónica, a "Caixa Cinco", na rede informática da Polícia de South Yorkshire. Disseram-lhe que isto protegeria a identidade das fontes da Risky Business. Soube mais tarde que a polícia não tinha lido sequer os relatórios que ali tinha deixado, e que aparentemente não podiam ser acedidos por outras forças.

O Risky Business foi visto como um "incómodo" e encerrado pelo conselho em 2011.

Relatório Weir em 2001

Estudo piloto do Ministério do Interior Em 2000, Adele Weir, uma advogada de Yorkshire, foi contratada pelo Conselho de Rotherham como oficial de investigação e desenvolvimento num estudo piloto do Programa de Redução da Criminalidade do Ministério do Interior, "Tackling Prostitution": What Works" Uma secção do estudo foi dedicada aos "jovens e prostituição", e três cidades - Bristol, Sheffield e Rotherham - foram destacadas nessa secção. Weir foi contratada para escrever o relatório sobre Rotherham. Parte do objectivo do seu projecto era: "Recolha de informações e provas sobre homens alegadamente envolvidos na coacção de mulheres jovens à prostituição, com as quais a polícia poderia prosseguir investigações e/ou processos judiciais".

Investigadores da Universidade de Bedfordshire, incluindo a analista social Margaret Melrose, estiveram envolvidos como avaliadores do Home Office. A directora de Weir era a gestora da Risky Business, e ela foi instalada nos escritórios da Risky Business no Centro Internacional de Rotherham, onde trabalhou com Jayne Senior. De acordo com Weir, ela encontrou "más práticas profissionais desde a fase inicial" do conselho e da polícia; as questões de proteção infantil foram, na sua opinião, "ignoradas, descartadas ou minimizadas" Mapeamento Em resposta a uma queixa da polícia de que as provas de abuso de crianças em Rotherham eram episódicas, Weir compilou um mapeamento de 10 páginas em 2001, mostrando o que aparentacva ser uma rede de abuso local. Em prova submetida à Comissão dos Assuntos Internos (Home Affairs Committee) em 2014, escreveu que tinha encontrado "um pequeno número de suspeitos de abuso que eram bem conhecidos de todos os serviços importantes em Rotherham"  Usando matéria obtida pela Risky Business, e dos serviços de saúde, serviços sociais, registos policiais, um projecto de sem-abrigo, e serviços de "abuso de substâncias", o relatório de Weir incluiu nomes de suspeitos, matrículas dos carros usados para transportar as crianças, as ligações dos suspeitos a negócios locais e a pessoas fora da área, e as relações entre os suspeitos e as meninas. Os suspeitos incluíam membros da família Hussain, que se pensava estarem entre os cabecilhas da rede, que foram presos em 2016. Weir estimava nessa altura que haveria mais de 270 vítimas.

Relatório ao Ministério do Interior O relatório de Adele Weir para os avaliadores do Home Office ligava 54 crianças abusadas à família Hussain, a partir de Outubro de 2001. Dezoito crianças tinham nomeado um desses homens, Arshid Hussain (então com cerca de 25 anos), como seu "namorado", e várias tinham engravidado Uma das 18 meninas de 14 anos de idade na altura engravidou duas vezes. Em 2014 ela disse ao programa Panorama que os assistentes sociais tinham manifestado preocupação por Hussain estar perto de um bebé devido à sua história de violência, mas não tinham, segundo a vítima, manifestado a mesma preocupação por ela; disse ao Panorama que a sua relação com ele era consensual. (Em Fevereiro de 2016 Arshid Hussain foi condenado por múltiplas violações e encarcerado durante 35 anos). O relatório Weir acrescentou que os membros da família Hussain eram "alegadamente responsáveis por grande parte do crime violento e do tráfico de drogas na cidade". Utilizavam telemóveis indetetáveis - dizia o relatório - tinham acesso a carros caros, estavam ligados a uma empresa de táxis, e podem ter estado envolvidos em hotéis que eram utilizados pelos serviços sociais para alojamentos de emergência. Várias meninas enviadas para esses hotéis queixaram-se de lhes ter sido oferecido dinheiro, logo após a sua chegada, caso tivessem relações sexuais com vários homens. Outras meninas foram visadas em estações de comboios e autocarros.