Esta é uma lista de personagens da mitologia grega que dominam as águas. [Commelim, P. Mitologia Grega e Romana, Ediouro, Rio de Janeiro, s/d.]
Pontos
Pontos, o mar, é mencionado apenas nas genealogias. Seu filho Nereu, o velho do mar, antiga e benigna divindade marinha, ainda está bem próximo das forças elementares da natureza. A julgar por Hesíodo, Pontos sozinho deu origem a Nereu (Teogonia, 233-236); nas versões mais tardias, ele teve de unir-se a Gaia para gerar o filho. Ponto é a primeira divindade que surge como força primal das águas e é personificado como o mar primitivo. Nasceu de Gaia por partenogênese, e é irmão mais velho de Urano. É muito confundido com o titã Oceano. Nas lendas atuais, Pontos é o líder e mestre de todos os rios sinistros que banham o tártaro. Esta dualidade de Pontos, como o gerador da vida, e o líquido da morte, nos traduz que vida e morte têm um ponto comum. Pontos é o pai, junto de Gaia, de várias divindades marinhas como Fórcis, Ceto, Taumante, Euríbia, Proteu e Nereu.
Nereu
O velho deus do mar Nereu vivia no fundo do mar, era capaz de assumir qualquer forma, sabia de tudo o que acontecia e conhecia todos os segredos. Era defensor da justiça e da sabedoria. Héracles (ou Hércules) recorreu aos seus amplos conhecimentos durante o 11º trabalho. Depois da destituição de Urano, casou-se com Dóris, filha do titã Oceano, e teve cinquenta filhas, as nereidas. Proteu, outro antigo deus do mar, era conhecido por Homero e concebido de forma muito semelhante a Nereu: era velho, capaz de se metamorfosear em qualquer coisa e de responder a qualquer pergunta. Não é improvável, a julgar pela confusão que envolve a natureza exata das antigas divindades marinhas, que Nereu e Proteu (e também Fórcis) sejam apenas aspectos diferentes de uma única e antiquíssima entidade, possivelmente pré-helênica.
Oceano
Para os antigos Oceano primitivamente era um rio imenso que envolve o mundo terrestre. Na mitologia é o primeiro deus das águas, filho de Urano e de Gaia; é o pai de todos os seres. Homero diz que os deuses eram originários do Oceano e de Tétis. Conta o mesmo poeta que os deuses iam muitas vezes à Etiópia visitar Oceano e tomar parte nas festas e sacrifícios que ali se celebravam. Conta-se enfim que Hera, desde o seu nascimento, foi por sua mãe Reia confiada aos cuidados de Oceano e de Tétis, para livrá-la da cruel voracidade de Cronos. Era não somente venerado pelos homens, mas também pelos deuses. Nas Geórgicas de Virgílio, a ninfa Cirene, ao palácio do Peneu, na fonte desse rio, oferece um sacrifício ao Oceano; três vezes seguidas, ela deita o vinho sobre o fogo do altar, e três vezes a chama ressalta até a abóbada do palácio, presságio tranquilizador para a ninfa e seu filho Aristeu.
Tétis e as Oceânidas
Tétis, filha de Urano e de Gaia, casou com o Oceano, seu irmão, e foi mãe de três mil ninfas chamadas Oceânidas. Dão-lhe ainda como filhos, não somente os rios e as fontes, mas também, Etra, Persea, mãe de Circeu, etc. Conta-se que Zeus, tendo sido amarrado e preso pelos outros deuses, Tétis pô-lo em liberdade, com auxílio do gigante Egeon ou Briaréu. Ela se chamava Tétis, palavra que em grego significa "ama, nutriz", sem dúvida porque é a deusa da água, matéria-prima que, segundo uma crença antiga, entra na formação de todos os corpos. O carro dessa deusa é uma concha de maravilhosa forma e de uma brancura de marfim nacarado. Quando percorre o seu império, esse carro, tirado por cavalos-marinhos mais brancos do que a neve, parece voar, à superfície das águas. Ao redor dela, os delfins, brincando, saltam no mar; Tétis é acompanhada pelos Tritões que tocam trombeta com as suas conchas recurvas, e pelas Oceânidas coroadas de flores, e cuja cabeleira esvoaça pelas espáduas, ao capricho dos ventos. Tétis, deusa do mar, esposa de Oceano, não deve ser confundida com Tétis, filha de Nereu e mãe de Aquiles.
Poseidon
Poseidon, filho de Cronos e de Reia, irmão de Zeus e de Hades. Logo que nasceu, Reia o escondeu em um aprisco da Arcádia, e fez Cronos acreditar ter ela dado à luz a um potro que lhe deu para devorar. Na partilha que os três irmãos fizeram do Universo ele teve por quinhão o mar, as ilhas, e todas as ribeiras. Quando Zeus venceu os Titãs, Poseidon encarcerou-os no Tártaro, impedindo-os de tentar novas empresas. Ele os mantém por trás do recinto inexpugnável formado por suas ondas e rochedos.
Poseidon governa o seu império com uma calma imperturbável. Do fundo do mar em que está sua tranquila morada, sabe tudo quanto se passa na superfície das ondas. Se por acaso os ventos impetuosos espalham inconsideradamente as vagas sobre as praias, causando injustos naufrágios, Poseidon aparece, e com a sua nobre serenidade faz reentrar as águas no seu leito, abre canais através dos baixios, levanta com o tridente os navios presos nos rochedos ou encalhados nos bancos de areia, - em uma palavra, restabelece toda a desordem das tempestades. Sua mulher era Anfitrite. De Poseidon, ela teve um filho chamado Tritão, e muitas ninfas marinhas; diz-se também que foi a mãe dos Ciclopes.
Anfitrite
A nereida Anfitrite, era a condutora do coro formado pelas ninfas. Poseidon apaixonou-se perdidamente por Anfitrite e queria desposá-la. Mas levada pelo excesso de pudor, a virgem refugiou-se nas profundezas do mar. Para procurar a amada, Poseidon manda um delfim para encontrá-la e convencê-la a se casar. E assim foi feito. Anfitrite deixa-se levar pelo delfim e retorna com o animal e casa-se com Poseidon. Como demonstração de gratidão, Poseidon coloca o delfim no céu, formando a constelação de Golfinho.
Proteu
Proteu, deus marinho, era filho de Oceano e de Tétis ou, segundo uma outra tradição, de Posidão e de Fênice. Segundo os gregos, a sua pátria é Palene, cidade da Macedônia.
Dois dos seus filhos, Tmolos e Telégono, eram gigantes, monstros de crueldade. Não tendo podido chamá-los ao sentimento da humanidade, tomou o partido de retirar-se para o Egito, com o socorro de Posidão, que lhe abriu uma passagem sob o mar. Também teve filhas, entre as quais as ninfas Eidoteia, que apareceu a Menelau, quando voltando de Troia esse herói foi levado por ventos contrários sobre a costa do Egito, e lhe ensinou o que devia fazer para saber de Proteu os meios de regressar à pátria.
Proteu guardava os rebanhos de Posidão, isto é, grandes peixes e focas. Para o recompensar dos trabalhos que com isso tinha Posidão deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro. Mas não era fácil abordá-lo, e ele se recusava a todos que vinham consultá-lo.
Eidoteia disse a Menelau que, para convencê-lo a falar, era preciso surpreendê-lo durante o sono, e amarrá-lo de maneira que não pudesse escapar, pois ele tomava todas as formas para espantar os que se aproximavam: a de leão, dragão, leopardo, javali; algumas vezes se metamorfoseava em árvore, em água e mesmo em fogo; mas se se perseverava em conservá-lo bem ligado, retomava a forma primitiva e respondia a todas as perguntas que se lhe fizessem. Menelau seguiu ponto por ponto as instruções da ninfa. Com três dos seus companheiros, entrou de manhã, nas grutas em que Proteu costumava ir ao meio-dia descansar, juntamente com os rebanhos. Apenas Proteu fechou os olhos e tomou uma posição cômoda para dormir. Menelau e os seus três companheiros se atiraram sobre ele e o apertaram fortemente entre os braços. Era inútil metamorfosear-se: a cada forma que tomava, apertavam-no com mais força. Quando enfim esgotou todas as suas astúcias Proteu voltou à forma ordinária, e deu a Menelau os esclarecimentos que este pedia.
No quarto livro das Geórgicas, Virgílio, imitando Homero, conta que o pastor Aristeu, depois de haver perdido todas as suas abelhas, foi a conselho de Cirene, sua mãe, consultar Proteu sobre os meios de reparar os enxames, e para lhe falar, recorreu aos mesmos artifícios.
Cila e Glauco
Cila era uma Ninfa, filha de Fórcis, que cativou o deus do mar Glauco. O deus, apaixonado, pediu ajuda a Circe para seduzi-la. Mas Circe, que o amava secretamente, ficou ofendida e tramou uma vingança contra a rival. Na ilha onde vivia Cila havia uma fonte na qual a ninfa se banhava todos os dias. Circe derramou na fonte um sortilégio funesto e Cila sentiu a água borbulhar na fonte até a cintura e seus quadris doerem como se fossem rasgados. No mesmo instante se viu cercada de bestas caninas que se mordiam e a feriam também. A Ninfa se arrastou para fora da fonte e correu para o mar, todavia percebeu que as bestas nasciam de seus quadris e estavam ligadas a ela. Assutado com a transformação abominável de Cila, Glauco a rejeitou. A Ninfa, cheia de ressentimento e rancor, escondeu-se no topo de um rochedo próximo ao mar de Sardenha. Ali ninguém nunca mais viu sua face, mas mesmo assim ela deixa que suas feras estiquem os pescoços e gargantas famintas e agarrem os marinheiros desavisados que passam pelo lugar com suas naus.
As Sereias
Eram filhas do rio Aqueló e da musa Calíope. Ordinariamente contam-se três: Parténope, Leucósia e Lígea, nomes gregos que evocam as idéias de candura, brancura e harmonia. Outros lhes dão os nomes de Aglaufone, Telxieme e Pisinoe, denominações que exprimem a doçura de sua voz e o encanto de suas palavras.
Conta-se que, no tempo do rapto de Prosérpina, as Sereias foram à terra de Apolo, a Sicília, e que Ceres, para puni-las por não haverem socorrido sua filha, transformou-as em aves.
Ovídio, ao contrário, diz que as Sereias, desoladas com o rapto de Prosérpina, pediram aos deuses que lhes dessem asas para irem procurar sua jovem companheira por toda a terra. Habitavam rochedos escarpados às margens do mar, entre a ilha de Capri e a costa da Itália.
O oráculo predissera às Sereias que viveriam tanto tempo quanto pudessem deter os navegantes à sua passagem. Mas, desde que um só passasse sem para sempre ficar preso ao encanto de suas vozes e de suas palavras, elas morreriam. Por isso essas feiticeiras, sempre em vigília, não deixavam de deter com sua harmonia todos os que chegavam perto delas e cometiam a imprudência de escutar seus cantos. Elas tão bem os encantavam e seduziam que eles não pensavam mais em seu país, em sua família, em si mesmos. Esqueciam de beber e de comer, e morriam por falta de alimento. A costa vizinha estava toda branca dos ossos daqueles que assim haviam perecido.
Entretanto, quando os Argonautas passaram em suas paragens, elas fizeram vãos esforços para atraí-los. Orfeu, que estava embarcado no navio, tomou sua lira e as encantou a tal ponto que elas emudeceram e atiraram os instrumentos ao mar.
Ulisses, obrigado a passar com seu navio diante das Sereias, mas advertido por Circe, tapou com cera os ouvidos de todos os seus companheiros, e se fez amarrar, de pés e mãos, a um mastro. Além disso, proibiu que o desatassem se, por acaso, ao ouvir a voz das Sereias, exprimisse o desejo de parar. Ulisses, mal ouviu suas doces palavras e suas promessas sedutoras, apesar do aviso que recebera e da certeza de que morreria, deu ordem aos companheiros que o soltassem, o que felizmente eles não fizeram. As Sereias, não tendo podido deter Ulisses, precipitaram-se no mar, e as pequenas ilhas rochosas que habitavam, defronte do promontório da Lucárnia, foram chamadas Sirenusas.
As Sereias são representadas com cabeça de mulher e corpo de peixe,da cintura até os pés. Nas mãos têm instrumentos: uma empunha uma lira, outra duas flautas e a terceira gaitas campestres ou um rolo de música, como para cantar. Também são pintadas com um espelho. Nenhum autor antigo representou as Sereias como mulheres-peixe, como muita gente atualmente as representa.