Maria José, renomeada Angélique, em francês, Marie-Josèphe Angélique, (Madeira, c. 1705 - Montreal, 21 de junho de 1734) foi uma mulher negra portuguesa, que viveu escravizada na Nova França, mais tarde província do Quebec, no Canadá. Foi julgada e condenada por atear fogo à residência da sua proprietária, causando um incêndio que acabaria por queimar boa parte da atual Velha Montreal, enforcada até a morte e depois queimada. A sua inocência ou culpabilidade, e os motivos que a teriam levado a atear o fogo, são causa de aceso debate entre os historiadores.
O caso de Maria José tem sido descrito como a primeira resistência histórica documentada de uma mulher negra contra a crueldade do esclavagismo no Canadá.
Biografia Maria José nasceu cerca de 1705, na Madeira,"Nomination de la Place Marie-Josèphe-Angélique." Ville de Montréal. February 14, 2012. ilha do arquipélago homónimo pertencente a Portugal, no Oceano Atlântico. Antes de 1725 foi vendida a "Niclus Bleck", flamengo - com toda a probabilidade Nicolas Bleeker, mercador de Fort Orange, em Albany, estado de Nova Iorque, importante ator no lucrativo tráfico negreiro da épocaBeaugrand-Champagne 2004, p. 62 - que a trouxe para a Nova Inglaterra. Aí terá vivido alguns anos, sendo vendida em 1725 a François Poulin de Francheville, importante negociante francês de Montreal, passando a pertencer à sua mulher, Thérèse de Couagne, após a sua morte em 1733. Deverá ter sido Couagne quem renomeou Maria José como "Angélique", em lembrança da sua falecida filha. Não obstante, quando perguntado o seu nome ao longo do processo, responde sempre que se chama Marie-Joseph. esquerda|miniaturadaimagem|295x295px|Vista de Montreal em 1724. Vitral da igreja de Saint-Pierre-et-Saint-Paul, em Hiers-Brouage, França. A escravatura na Nova Inglaterra e na Nova França funcionava sobretudo para o serviço doméstico, uma vez que, ao contrário da parte sul dos futuros Estados Unidos, a economia não se baseava no trabalho escravo em grande escala nas plantações. Maria José passou, assim, a trabalhar em casa dos Francheville, em Montreal, trabalhando ocasionalmente na pequena fazenda da família na ilha de Montreal, usada sobretudo para produzir suprimentos para as expedições comerciais de Francheville.
A 28 de junho de 1730 foi batizada, tendo como padrinho o mercador Alexis Lemoine, dito "Monière", cunhado da sua dona, Thérèse de Couagne. Em janeiro de 1731 teve um filho com Jacques César, escravo negro de Madagáscar, pertencente a Ignace Gamelin, amigo de Francheville, e em maio de 1732 dois gémeos, com o mesmo pai. O menino viveu apenas um mês, tendo os gémeos morrido ao fim de cinco meses.Beaugrand-Champagne, pp. 164–165
A vida de Maria José na Nova França parece ter sido especialmente infeliz, tendo esta assumido a declaração de que "havia pouco valor nos franceses", embora negasse ter dito que os queimaria, se os achasse, assim que voltasse à sua terra.
Primeira fuga Ao longo do ano de 1733, Maria José envolveu-se num relacionamento com Claude Thibault, servo contratado, branco, ao serviço dos Francheville. Após a morte de Francheville em novembro de 1733, a viúva ficou ocupada com muitas transações, mantendo a operação dos seus negócios e a liquidação da propriedade. No início de 1734, ocupada com os negócios imobiliários em Trois-Rivières, e com receio da "malícia" de Maria José, de Couagne pediu ao cunhado, Alexis Monière, que ficasse com a escrava e Thibault até o seu retorno.
A 22 de fevereiro, enquanto Thérèse de Couagne se encontrava fora, Maria José e Thibault encetaram a fuga para a Nova Inglaterra, através do rio São Lourenço congelado. Pararam apenas para recuperar o pão que Thibault havia escondido num celeiro em Longueuil, na preparação para a fuga. Um pequeno incêndio em casa de Monière, iniciado nos cobertores de ambos, precedeu a deserção, fato que seria mais tarde recordado durante a acusação de Maria José, como eventual precedente para o uso do fogo como manobra de distração para uma eventual fuga.
A dificuldade da viagem no inverno obrigou os dois a se refugiarem na floresta, em Châteauguay, perto da estrada de Chambly, até que o tempo melhorasse, aí permanecendo acampados durante uma semana. O objetivo do casal era passar da Nova Inglaterra à Madeira, em Portugal, que Maria José chama no processo "a sua terra".
Foram capturados ao fim de duas semanas de fuga, e devolvidos a Montreal por três capitães da milícia,Beaugrand-Champagne 2004, p. 49 atuando na qualidade de polícia local. Thibault foi preso a 5 de março, sendo solto a 8 de abril, dois dias antes do incêndio. Maria José visitou-o várias vezes enquanto esteve na prisão, levando-lhe comida.
Maria José foi simplesmente devolvida a Thérèse de Couagne, que não a disciplinou de forma alguma pela tentativa de fuga, possivelmente porque já teria intenção de a vender. Conforme mencionado durante o julgamento, de Couagne viu-se incapaz de controlar Maria José, vivendo em permanente medo dela, tendo por isso intenção de aceitar a oferta de um dos sócios comerciais do seu falecido marido, François-Étienne Cugnet, de comprá-la por 600 libras de pólvora. A oferta dependia de Thérèse de Couagne cobrir as despesas de envio de Maria José para a cidade de Quebec, onde morava Cugnet. Segundo o seu próprio depoimento, Maria José vivia no medo de ser vendida, acabando como escrava nas plantações das ilhas - as Índias Ocidentais, sendo essa a motivação para a tentativa de fuga anterior.
A tensão era grande entre Maria José e a sua proprietária. Thérèse de Couagne dispensou uma criada livre, Louise Poirier, devido a disputas e desentendimentos entre Maria José e a criada. Maria José prometeu a de Couagne que faria todo o trabalho melhor que Poirier, possivelmente esperando que um bom desempenho da sua parte faria com que Thérèse de Couagne desistisse da intenção de vendê-la. A viúva cedeu, mas prometeu a Poirier que voltaria a contactá-la depois que Maria José fosse enviada para a cidade de Quebec.
Após ser libertado, Thibault visitou a viúva Francheville pedindo os salários em atraso antes da deserção. O pagamento foi feito, tendo Thérèse de Couagne - segundo ela mesma, imprudentemente - dito a Thibault que havia vendido Maria José, que não queria ficar com ela, e que ele nunca mais colocasse os pés em sua casa. Thibault ignorou a ordem de ficar longe, visitando Maria José várias vezes quando de Couagne não estava em casa. Uma vez que era início de abril, ambos sabiam que o São Lourenço depressa seria transitável para navios, permitindo a passagem para a cidade de Quebec, e que o tempo de Maria José em Montreal estava a esgotar-se.
Incêndio de 10 de abril de 1734 miniaturadaimagem|255x255px|Detalhe dum mapa de Montreal de 1734, mostrando os edifícios destruídos pelo fogo no incêndio de 10 de abril desse ano Às sete horas da noite de 10 de abril de 1734, um sábado, os habitantes de Montreal saiam da oração da noite quando a sentinela soou o alarme: "Fogo!". Um incêndio havia começado no lado sul da rua Saint-Paul, estando a alastrar a leste da rua Saint-Joseph (rua Saint-Sulpice). Segundo o relato do coronel Radisson, vizinho paredes-meias dos Francheville, o alarme foi dado pela própria Maria José, a pedido de Thérèse de Couagne. Radisson acompanhou-a, com dois baldes de água, ao local da ignição, um pequeno sótão no telhado da casa, junto à casa dos pombos. Vendo que não havia escada de acesso, e que o fogo alastrava por todo o lado, retirou-se para salvar os seus haveres. Durante o incêndio, o próprio Thibault apareceu, ajudando a salvar os pertences dos Francheville através do apotecário do Hôtel-Dieu, e para os jardins do hospital.
O fogo foi tão intenso que a polícia não conseguiu chegar perto. Muitas pessoas tentaram se abrigar no Hôtel-Dieu, mas devido a um vento forte que soprava de oeste, o fogo alastrou e destruiu o hospital em menos de três horas. Quarenta e cinco casas foram destruídas e, devido ao pânico generalizado, muitos itens foram roubados de casas e do convento.
O seguinte registo do diário da religiosa Véronique Cuillerier, ilustra a rapidez do incêndio e a dificuldade de tentar controlá-lo:A 10 de abril , enquanto tudo estava quieto e nossos pensamentos longe de algum acidente fatal, às 7 da noite, durante o nosso tempo de lazer, ouvimos um grito de fogo. Naquele momento, todas nós nos levantamos para avistar de onde vinha. Foi avistado numa casa vizinha. Corremos para conter o fogo, mas o Senhor não nos permitiu. Todos se refugiaram na nossa igreja, pensando que seríamos poupados, mas as chamas subiram tão intensamente em direção à igreja, que ficava do outro lado da rua das casas em chamas, que logo nos encontramos engolfados.Embora a própria Thérèse de Couagne recusasse a suspeição de ter sido Maria José a autora do incêndio, pois havia estado com ela o dia todo, a 11 de abril, começaram a circular boatos acusando Maria José de ter causado o incêndio; mais tarde, à noite, o jardineiro do convento, Louis Bellefeuille dit LaRuine, chegou a lhe falar cara a cara sobre esses boatos, que ela negou.Cooper 2006, p. 196; Beaugrande-Champagne 2004, pp. 181–182 A origem dos boatos parece ter sido os comentários feitos por Marie-Manon, jovem escrava panis pertencente aos vizinhos de Couagne, os Bérey des Essars, que alegou ter ouvido Maria José dizer que a sua dona não dormiria em sua casa naquela noite.Beaugrand-Champagne 2004, p. 84 Quando o fogo foi extinto, a opinião popular era que Maria José havia ateado o incêndio. Encontrada no jardim dos pobres do Hôtel-Dieu, f levada para as prisões do rei, para aguardar que uma acusação formal fosse movida contra ela. Um mandado foi também emitido mais tarde para Thibault. Embora tenha sido visto novamente na manhã da terça-feira após o incêndio, dois dias depois, quando os oficiais de justiça foram prendê-lo, havia desaparecido e nunca mais foi visto na Nova França.Beaugrand-Champagne 2004, p. 67
Julgamento e execução miniaturadaimagem| Primeira folha do processo contra Maria José, Montreal, 1734, hoje na Biblioteca e Arquivos Nacionais do Quebec.|esquerdaMaria José foi acusada e julgada. A lei francesa da época permitia que um suspeito fosse preso com base no "conhecimento público", quando a comunidade concordava que o suspeito era culpado.Lachance 1978, p.63 Nas seis semanas seguintes, a acusação convocou um grande número de testemunhas, nenhuma das quais declarou ter visto Maria José atear o fogo, embora todas afirmassem ter a certeza de que ela o tinha feito. Testemunharam longamente sobre o caráter de Maria José como uma escrava mal comportada que frequentemente respondia aos seus donos, mas nenhuma evidência sólida foi apresentada quanto à sua culpabilidade pelo incêndio.