O grupo dos decápodes inclui camarões, siris, lagostas, lagostins e caranguejos, sendo o grupo de crustáceos mais bem conhecido. São de tamanho grande, a maioria é comestível e têm importância econômica no que diz respeito à atividade pesqueira. Têm aproximadamente 15.000 espécies descritas,Wolfe, J. M., Breinholt, J. W., Crandall, K. A., Lemmon, A. R., Lemmon, E. M., Timm, L. E., ... & Bracken-Grissom, H. D. (2019). A phylogenomic framework, evolutionary timeline and genomic resources for comparative studies of decapod crustaceans. Proceedings of the Royal Society B, 286(1901), 20190079. constituindo um quarto de todos os crustáceos conhecidos e é ordem mais estudada. Seus representantes são de maioria bentônicos, mas há representantes de água doce (lagostins e algumas espécies de camarões), terrestres (algumas espécies de caranguejos) e planctônicosRuppert, E. E., Fox, R. S., & Barnes, R. D. (2005). Zoologia dos invertebrados: uma abordagem funcional-evolutiva. In Zoologia dos invertebrados: uma abordagem funcional-evolutiva.
A cabeça geralmente possui rostro fixo na posição mediana anterior, com dois pares de antenas birremes, exopodito de cada uma das segundas antenas com forma de escama antenal utilizada para controlar direção das correntes de água. A base das antenas contém o estatocisto e nefridióporo. Olhos compostos são pedunculados
Os primeiros três segmentos torácicos são fundidos à cabeça para formar o cefalotórax. Os apêndice desses três segmentos são maxilípedes e atuam como peças bucais. Os outros cinco pares de apêndices torácicos são chamados de pereópodes, de onde deriva o nome Decapoda ( =10 pernas). O primeiro par de pereópodes forma um quelípode preênsil ou pinça, sendo mais desenvolvido e quelado. Geralmente os pereópodes não possuem exopoditos, portanto são unirremes. Epipoditos dos pereópode são modificados em brânquias.
A carapaça se funde na região do dorso com os oitos segmentos torácicos. Os cinco últimos segmentos torácicos se distinguem do cefalotórax, mesmo estando cobertos e presos à carapaça. As projeções laterais da carapaça são mantidas afastadas do corpo e delimitam as câmaras branquiais laterais, onde se localizam as brânquias. O abdome, também chamado de pléon, é posterior ao tórax.
Filogenia de Decapoda Em 1951, a estimativa de espécies existentes de decápodos era de 8.31, distribuídas entre 1.000 gêneros, com Brachyura contabilizando 4.428 espécies.Chace, F. A., Jr., 1951. The number of species of decapod and stomatopod Crustacea. Journal of the Washington Academy of Sciences, 41(11): 370–372 Estudos mais recentes elevaram as estimativas de número de espécies para valores acima de 10.000 espécies.Martin, J. W. & G. E. Davis, 2006. Historical trends in crustacean systematics. Crustaceana, 79(11): 1347–1368 Atualmente, acredita-se que existam 14.756 espécies de Decapoda, além de 3.300 fósseis, e 2.725 gêneros dentro do grupo, sendo Brachyura o maior deles, contendo 6.835 espécies.DE GRAVE, Sammy et al. A classification of living and fossil genera of decapod crustaceans. Raffles Bulletin of Zoology, 2009.
A atual classificação de Decapoda é baseada nos trabalhos iniciais de H. Milne Edwards, Dana, Latreille e seus contemporâneos. A partir de estudos mais sofisticados e análises moleculares e morfológicas foi possível chegar a uma classificação mais estruturada e estável, mas sem consenso total:Martin, J. W. & G. E. Davis, 2001. An updated classification of the Recent Crustacea. Natural History Museum of Los Angeles County, Science Series, 39: 1–124.
Existem duas subordens: Dendrobranchiata e Pleocyemata.
Dendrobranchiata é dividido nas superfamílias Penaeoidea e Sergestoidea Pleocyemata é dividido nas seguintes infraordens: Caridea, Stenopodidea, Astacidea, Achelata, Anomura, Brachyura, Glypheidea, Polychelida, Axiidea, Gebiidea, Dromiacea, Raninoida, Clyclodrippoida.
centro|commoldura|Árvore filogenética dos grandes grupos de Decapoda, produzida baseada no artigo Phylogeny of Decapoda using two nuclear protein-coding genes: Origin and evolution of the Reptantia. Molecular Phylogenetics and Evolution.Tsang, L. M., et al. "Phylogeny of Decapoda using two nuclear protein-coding genes: origin and evolution of the Reptantia." Molecular Phylogenetics and Evolution 48.1 (2008): 359-368.
Diversidade evolutiva do grupo O tema central da evolução dos decápodes é a transformação de um ancestral alongado, natante e com corpo semelhante ao de um camarão, em um animal mais curto, achatado, reptante e morfologicamente semelhante a um caranguejo. A classificação dos decápodes é baseada na extensão dessa transformação. Apesar de a classificação dos decápodes ser muito complexa, para efeito de simplificação pode-se dizer que existem três formas de corpo básicas de decápodes: semelhante a um camarão (Penaeidea, Stenopodidea, Caridea), semelhantes a uma lagosta (Astacidea, Thalassinidea, Palinura) e semelhante a um caranguejo (Anomura, Brachyura).
Decápodes semelhantes a camarões O corpo dos camarões tende a ser cilíndrico ou achatado lateralmente, com um abdome muscular bem desenvolvido. É comum observar a presença de um rostro serrilhado e em forma de quilha no cefalotórax desses organismos. As pernas são geralmente finas e os quelípodes podem estar presentes ou não. O exoesqueleto é comumente fino, flexível e não calcificado. Os pleópodes são grandes e apresentam franjas de cerdas, essas são as principais estruturas envolvidas na natação, embora haja mecanismos para a realização de movimentos bruscos para trás, como a rápida flexão ventral do abdome e o leque caudal, utilizados em situações de escape. miniaturadaimagem|210x210px|Camarão- rosa, presente na costa leste dos Estados Unidos A maioria dos camarões apresenta hábito bentônico e usam os pereópodes para andar sob o substrato. Embora seja possível nadar com o uso desses apêndices, esse tipo de deslocamento é intermitente nesses animais. Eles vivem entre as algas e outras macrófitas, embaixo de pedras e conchas e dentro de buracos e fendas de corais e rochas.
Alguns, incluindo muito peneídeos e camarões do gênero Cragnon, cavam tocas rasas em substratos não consolidados por meio do batimento dos pleópodes.Hagerman, Lars, and Anna Szaniawska. "Behaviour, tolerance and anaerobic metabolism under hypoxia in the brackish-water shrimp Crangon crangon." Marine Ecology Progress Series (1986).Pinn, Eunice H., and Alan D. Ansell. "The effect of particle size on the burying ability of the brown shrimp Crangon crangon." Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom 73.2 (1993): 365-377. Os padrões de atividade desses camarões podem estar relacionados com o fotoperíodo e com os ciclos de marés.Dyer, M. F., and R. F. Uglow. "Heart and scaphognathite beat behaviour in laboratory-held Crangon crangon (L.)." Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 32.3 (1978): 209-218. Já o camarão-rosa Farfantepenaeus duorarum, presenta na costa leste dos Estados Unidos, mantém-se quieto sobre o sedimento ou se enterra durante o dia, mas locomove-se ativamente durante o período noturno.Ogburn, Matthew B., et al. "Endogenous swimming activity rhythms of postlarvae and juveniles of the penaeid shrimp Farfantepenaeus aztecus, Farfantepenaeus duorarum, and Litopenaeus setiferus." Journal of experimental marine biology and ecology 440 (2013): 149-155. Nos Estados Unidos, a pesca do camarão concentra-se principalmente ao longo da costa sudeste do Atlântico e no Golfo do México. Os peneídeos representam o grupo mais primitivo dentro dos decápodes.Chan, Tin-Yam, et al. "Phylogenetic relationships among the genera of the Penaeidae (Crustacea: Decapoda) revealed by mitochondrial 16S rRNA gene sequences." (2008).
Os camarões-de-estalo (Alpheidae) são comuns e apresentam distribuição bastante ampla.Cunha, Andressa Maria, et al. "Morphological and molecular analyses support the amphi-Atlantic distribution and taxonomic status of the snapping shrimp Alpheus intrinsecus Spence Bate, 1888 (Crustacea: Decapoda: Alpheidae)." Zootaxa4303.4 (2017): 573-589. Esses animais vivem em buracos e fendas, em esponjas ou embaixo de conchas, rochas e corais, ou ainda podem construir buracos ou abrigos.AnKer, Arthur. "A worldwide review of stygobiotic and stygophilic shrimps of the family Alpheidae (Crustacea, Decapoda, Caridea)." Subterranean Biology 6 (2008): 1-16. Eles possuem de 3 a 6 cm de comprimento e possuem uma das quelas muito maior que a outra. Há a presença de dois discos, um na base do dedo móvel erguido e outro no dedo fixo, que apresentam força adesiva entre si e evitam o fechamento espontâneo do dedo. Quando a contração muscular supera a força adesiva e o dedo móvel se fecha e nesse processo há a produção de um estalo devido ao processo de cavitação que ocorre próximo desses discos.Ritzmann, Roy E. "Mechanisms for the snapping behavior of two alpheid shrimp, Alpheus californiensis andAlpheus heterochelis." Journal of Comparative Physiology A: Neuroethology, Sensory, Neural, and Behavioral Physiology95.3 (1974): 217-236. Esse mecanismo de estalo é utilizado para algumas espécies para a predação (quebrar pequenos mariscos e atordoar peixes), mas também é um mecanismo que funciona em confrontos agonístico (ameaça) entre indivíduos e provavelmente ajuda a manter um padrão uniforme de distribuição entre os membros da população.Koukouvinis, Phoevos, Christoph Bruecker, and Manolis Gavaises. "Unveiling the physical mechanism behind pistol shrimp cavitation." Scientific reports 7.1 (2017): 13994. miniaturadaimagem|Indivíduo pertencente ao gênero Sergia, conhecidos por apresentarem bioluminescência Alguns camarões de diversos táxons, conhecidos coletivamente como camarões limpadores, removem ectoparasitas e outros materiais indesejáveis das superfícies de peixes de recifes. O camarão pode subir em um peixe e até mesmo entrar na boca e na câmara branquial à procura de parasitas, os quais serão removidos e comidos.
Camarões pelágicos que vivem a mais de 500 metros de profundidade (as zonas epipelágica e mesopelágica superior do oceano) tendem a ser transparentes ou semitransparentes e apresentam poucos cromatóforos laranjas e vermelhos , enquanto aqueles encontrados abaixo dos 500m apresentam uma coloração mais ou menos homogênea que varia do vermelho escuro ao vermelho escarlate.Omori, Makoto. "The biology of pelagic shrimps in the ocean." Advances in marine biology. Vol. 12. Academic Press, 1975. 233-324. Muitos desses últimos também apresentam órgãos bioluminescentes, ou fotóforos, localizados internamente ou na superfície do corpo, apresentando grande diversidade na morfologia dos fotóforos e em seu funcionamento e expressão.Herring, Peter J. "Bioluminescence in the Crustacea." Journal of crustacean biology 5.4 (1985): 557-573. Entre as espécies bioluminescentes mais bem conhecidas destacam-se as pertencentes aos aos gêneros Sergestes e Sergia cujo mecanismo de luminescência pode ser tanto por órgãos especializados quanto pela secreção na água ao redor do organismo formando uma espécie de nuvem luminosaHerring, Peter J. "Bioluminescence in decapod crustacea." Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom 56.4 (1976): 1029-1047.
Decápodes semelhantes a lagosta Os outros integrantes de Decapoda são animais bentônicos adaptados para caminhar, semelhantes a lagostas ou caranguejos, e apresentando uma tendência do corpo ser achatado dorsoventralmente. As pernas, na maioria dos casos, são mais robustas que as dos camarões, com o primeiro par tipicamente adaptado em quelípodes. Os pleópodes não são adaptados para natação. Em muitos táxons, a forma primitiva do corpo encontra-se agora mais encurtada devido ao dobramento ventral do abdome sob o tórax . miniaturadaimagem|229x229px|Upogebia major, representante dos Thalassinidea (decápodes de águas rasas ou entremarés).