O incêndio na creche Casinha da Emília foi um incêndio que matou doze crianças na creche Escola Municipal de Ensino Infantil Casinha da Emília em 20 de junho de 2000, na cidade de Uruguaiana, no estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. O fogo foi causado por uma peça de roupa caindo em um aquecedor elétrico no piso de uma sala onde as crianças dormiam sozinhas. As vítimas eram sete meninas e cinco meninos entre 2 e 3 anos de idade.

Antecedentes A creche Escola Municipal de Ensino Infantil Casinha da Emília (denominada Creche Centro Municipal de Educação Infantil Casinha da Emília na época), fundada em 1986, fica no bairro Cohab 2, na cidade de Uruguaiana, para atender famílias de baixa renda da região. O bairro fazia parte da extinta Cohab, órgão responsável por moradias populares no estado. O estabelecimento já tinha sofrido um incêndio um ano antes, apesar de não fazer nenhuma vítima até então.

Carmem Marília Lopes Borne, que tinha 47 anos na época, era diretora da escola há cinco anos. Segundo os depoimentos feitos pelos funcionários, ela tinha um "descaso" com o seu emprego, já que dificilmente estava presente na instituição.

Incêndio No dia 20 de junho de 2000, a turma Maternal 2 da creche, na qual doze crianças estavam presentes e dormindo em um pequeno quarto de 18,90m² (sendo a sala 3 do Maternal 2), estava sob os cuidados de duas jovens estagiárias, Ana Luiza Villela, de 19 anos, e Márcia Catiusa Machado, de 17. Por ordem da diretora, elas foram buscar doações para uma festa junina, que estava planejada para ocorrer na creche nos dias seguintes. As estagiárias pediram que uma auxiliar de cozinha, Iara Maria Ribeiro, tomasse conta da turma. Contudo, Iara hesitou, pois o pedido não teria sido feito diretamente pela diretora, embora ela soubesse que as crianças estavam sozinhas.

As roupas das crianças do Maternal 2 estavam penduradas na parede da sala 3 da turma. Também havia um aquecedor elétrico da marca uruguaia James, ligado desde às 11h para aquecer os pequenos que estavam dormindo. Esse modelo, de 25cm de comprimento e 1200w de potência, estava no chão da sala, ao alcance das crianças. Às 13h30, uma das roupas caiu em cima do aquecedor, o que deu início ao incêndio. O fogo começou devagar devido a falta de ventilação na sala, que tinha apenas 20% de concentração máxima de oxigênio por causa das janelas estarem fechadas, mas logo se espalhou rapidamente pelos colchões e cobertores. Na hora, não havia ninguém para socorrer os bebês. Os funcionários apenas perceberam o fogo quando já estava intenso e estourando janelas. A servente Giomar Nazzizeno Martins foi a primeira a perceber a tragédia que estava ocorrendo, e logo foi buscar um balde d'água para tentar apagar o fogo. O carpinteiro José Batista da Silva também percebeu logo cedo e constatou que a creche não tinha nenhum extintor de incêndio que funcionasse. Enquanto os alunos de outras turmas do local eram resgatados e levados para outras escolas, a vizinhança e os familiares das vítimas também foram alertados a respeito da situação. As crianças presas na sala já estavam em um estado semi-inconsciente devido ao excesso de monóxido de carbono.

Os bombeiros foram chamados em seguida, às 14h15. Segundo eles, a porta da sala estava fechada e dilatada devido ao calor, embora a diretora tenha negado. Todas as doze crianças morreram, seis carbonizadas e seis asfixiadas, e essas últimas foram encontradas abraçadas em um canto perto da porta. O quarto inteiro foi destruído pelo fogo. Apenas uma criança da turma, Matheus Bittencourt Rodrigues, de 3 anos, sobreviveu por não estar presente na hora. No total, 117 crianças estavam presentes na creche naquele dia. Supostamente, a diretora não estava na escola no momento do acidente, e sim em um salão de beleza. “Ela chegou com tinta nos cabelos, toda enrolada no papel laminado, isso não fui só eu que vi. Todo mundo que estava ali viu”, disse Sandra Prates, mãe de João Fernandes Prates da Silva, uma das vítimas do incêndio.

Consequências

Investigação No final da tarde, a polícia começou a interrogar funcionárias, sem afastar a hipótese de negligência no salvamento. A prefeitura afastou os 18 funcionários até que todos os fatos fossem esclarecidos. O secretário de Saúde da cidade, José Luiz Saldanha, declarou que a prefeitura designou médicos e psicólogos para atender os parentes das crianças mortas. Alguns familiares foram hospitalizados em estado de choque. Após serem analisados pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Uruguaiana, os corpos das vítimas foram liberados no início da noite para que o velório delas fosse realizado. No dia seguinte, foram enterradas em túmulos especiais no Cemitério Municipal de Uruguaiana.

Raquell Peixoto, delegada responsável pelo caso, avaliou que "[h]ouve negligência ao deixar crianças entre 2 e 3 anos, sozinhas em uma sala com aquecedor ligado". Ela comentou que o local tinha diversas irregularidades: "Não tinha alvará, não tinha extintor de incêndio, não tinha aparelho telefônico que pudesse ligar e pedir ajuda de imediato". A Polícia Civil chegou a indiciar as duas estagiárias, a auxiliar de cozinha e a diretora por homicídio culposo. Márcia não foi denunciada pelo Ministério Público porque era menor de idade, e Ana foi absolvida pela Justiça. No entanto, Carmem foi condenada a 1 ano e 6 meses de detenção, e Iara foi condenada por dois anos. Depois, as penas foram substituídas por serviços comunitários.

Os familiares, revoltados com as mortes dos seus filhos, pediram indenização. O advogado Pacífico Saldanha comentou que cada pai e mãe recebia uma pensão de seiscentos reais mensais, mas a indenização de 125 salários mínimos havia sido paga para apenas duas famílias.

Depois da tragédia Após o evento, a escola continuou funcionando, sendo expandida e reformada para que suas irregularidades fossem corrigidas. O prefeito de Uruguaiana na época, Neito Bonotto, suspendeu as aulas para que o prédio fosse reconstruido. A reforma custou R$ 30 mil. Nos dias de hoje, tem o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio aprovado e o alvará dos bombeiros locais, sendo apenas fechada apenas durante a pandemia de COVID-19. A sala onde ocorreu o incêndio enquanto a turma Maternal 2 dormia se tornou uma sala multiuso. Segundo a prefeitura, aquecedores elétricos não são mais utilizados. Cada turma agora tem vários funcionários, que são concursados na área da pedagogia, cuidando das crianças.

Em 2026, vídeos no Instagram foram postados mostrando a creche enfrentando problemas com goteiras e vazamentos de água em dias de chuva, um problema comum em escolas públicas no Brasil. O Ministério Público foi acionado pela situação de risco. A prefeitura de Uruguaiana já anunciou que o projeto para a reforma do teto do estabelecimento está concluido.

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