Carlos Márcio José da Silva (São Paulo, 14 de dezembro de 1969), BISCOITO PODCAST. #72 Muito além do Bate Cabelo (com Márcia Pantera). Spotify. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/73jQ0ftaMFAHpINmbMXZth. Consultado 20 novembro de 2021 conhecido artisticamente como Márcia Pantera, é uma drag queen, modelo e ator brasileiro.
Antes de ser drag queen, Márcio chegou a iniciar uma carreira profissional no vôlei, jogando por 4 anos no time titular do Suzano Vôlei. Ainda no período como jogador, Márcio teve seu primeiro contato com o transformismo, através de um show da boate Nostro Mondo, em que desenvolveu grande fascínio pela arte. Posteriormente começou a se montar e performar em boates LGBTQIAP+ paulistanas.
Como Márcia Pantera, Márcio criou o “bate cabelo” - movimento muito utilizado em performances de drag queens nacionais e internacionais. Teve uma parceria de longa duração com o estilista Alexandre Herchcovitch - que considera Márcia sua “musa inspiradora”. Também construiu uma carreira de ator, tendo estrelado filmes como Verona (2013) e Corpo Elétrico (2017), ambos em colaboração com o diretor Marcelo Caetano. Em 2020, foi homenageado pelo Festival Mix Brasil com o Prêmio Ícone Mix Brasil pelos seus trabalhos nas boates paulistanas.
Vida pessoal
Juventude
Carlos Márcio José da Silva é um dos quatro filhos de Maria Aparecida Ferreira da Silva, que os criou junto da avó Benedita José da Silva.SOUNDCLOUD. Entrevista Márcia Pantera. Disponível em: https://soundcloud.com/natalialaralocucao/entrevista-marcia-pantera. Consultado 20 novembro de 2021 Nasceu e cresceu na periferia da cidade de São Paulo, no bairro pobre da Brasilândia, e quando conta sua história gosta de reforçar a origem humilde, como forma de incentivar outros jovens negros, LGBTQIAP+ e periféricos a seguirem seus sonhos.
Aos 12 anos se descobriu gay, mas somente aos 17 deu o primeiro beijo em outro homem. Em entrevistas já contou que recebe muito amor e apoio dos familiares (mesmo que inicialmente tenha encontrado certa resistência com primos), por isso considera a família um dos principais pilares de sua vida.RED BULL. Eu sou... Márcia Pantera. Disponível em: https://www.redbull.com/br-pt/eu-sou-marcia-pantera-projeto-aqueenda. Consultado 20 novembro de 2021 No começo da carreira como drag, sua mãe e avó o ajudavam com os figurinos, já hoje suas tias e primos acompanham suas performances sempre que possível.
Em 2001 conheceu Kennedy Gomes, seu grande amor, com quem é casado até o presente.
O jogador de Vôlei
Foi no colégio que começou sua história com o vôlei.#ParadaSPaoVivo 2021 - Dia Estúdio, Dia Estúdio, disponível em: <https://diaestudio.com/projeto/paradaspaovivo-2021/ > Consultado em 20 de Novembro de 2021 Chegou a experimentar futebol e basquete, mas não gostou dos empurrões e brigas, além da ausência de maior coletividade, que só conseguiu encontrar no vôlei. Houve uma época em que se viciou pelo esporte e até pensou em largar os estudos.
Márcio conta que era ponta muito explosivo, ou em suas palavras “um ponta babado”. Aos 15 anos montou uma equipe gay com colegas de bairro, chamada “Pinheirinho”. A organização chegou despertar a fúria de muitos homens héteros, que os ameaçavam e tentavam incitar brigas. Usava a discriminação sofrida como combustível para suas performances no jogo e seu maior prazer era provocar os homofóbicos.
Jogou por muito tempo nas quadras da Brasilândia e Freguesia do Ó, região onde cresceu. Nesse período começou a se destacar, recebendo uma oportunidade para jogar no time de Suzano. Chegou a ser aprovado em testes para clubes como Palmeiras e Paulistano, porém ao descobrirem ser gay, era dispensado e hostilizado. Durante seu período como jogador teve alguns relacionamentos com companheiros de time, em entrevistas conta que se encontravam escondidos no meio da noite e depois voltavam aos respectivos dormitórios.
Márcio queria se tornar jogador profissional de vôlei e é apaixonado pelo esporte, tanto que até hoje continua jogando para manter a forma física.
O primeiro contato com a Arte Drag Desde pequeno o sonho de Márcio era ser modelo. Com nove ou dez anos, assistia a um programa de desfiles na TV de sua casa e se encantou pelo “glamour” do mundo da moda. Colocava uma toalha na cabeça, pegava um salto de sua mãe e imitava os movimentos das modelos PANTERA, Marcia, Vamos perder pessoas que amamos, diz Marcia Pantera, VEJA SÃO PAULO, disponível em: https://vejasp.abril.com.br/blog/musica/vamos-perder-pessoas-que-amamos-temos-de-ser-carinhososdiz-marcia-pantera/. Consultado 20 novembro de 2021
O contato com drag queens só ocorreu durante a adolescência, na boate Nostro Mondo. Márcio era apenas um frequentador da balada quando, aos 17 anos, assistiu ao show de Marcinha do Corintho, ficou impactado e cogitou fazer o mesmo que a performer. Foi também nessa noite que deu seu primeiro beijo.
Alguns anos mais tarde, se montou pela primeira vez para participar de um concurso nesta mesma boate QUEM. Márcia Pantera sobre 33 anos de carreira: “Negro, periférico, gay. Minha história poderia ser outra, mas não desisti.” Disponível em: https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2021/07/marcia-pantera-sobre-33-anos-de-carreira-negro-periferico-gay-minha-historia-poderia-ser-outra-mas-nao-desisti.html. Consultado 20 novembro de 2021. Não tinha trajes, peruca e nem sabia se maquiar, mas conseguiu improvisar. Pegou meias e um vestido - que acabou customizando – de sua mãe e usou seus patins sem as rodas, pois não tinha nenhum salto que o servisse. Já na boate, recebeu auxílio da transformista Cheyenne Crec Crec, que o maquiou e lhe emprestou a peruca. No momento do concurso, Márcio ainda não sabia como dublar, então sambou ao som de "Disputa de Poder" THE LIBRARY IS OPEN» #20 Untucked: Vossa Majestade, Márcia Pantera. The Library is Open. Disponível em: https://thelibraryisopen.com.br/podcast/entrevistas/20-untucked-vossa-majestade-marcia-pantera/. Consultado 20 novembro de 2021, de Simone, durante sua apresentação. A performance fez o maior sucesso, lhe garantindo a vitória e como prêmio foi convidado a integrar a equipe de show da boate.
As drogas na vida de Márcia Durante uma brincadeira na casa de amigos, teve seu primeiro contato com as drogas, mais especificamente o crack, que serviram durante muito tempo como válvula de escape.
Com o passar do tempo, começou a fazer uso mais intensivo delas, parando até mesmo de trabalhar, comendo de lixeiras, vivendo na rua e vendendo itens pessoais para sustentar o vício que durou mais de 10 anos. Durante esse período perdeu sua avó, sua mãe e o irmão Carlos Eduardo, este também para as drogas GAY BLOG BR. Ícone do bate-cabelo, Márcia Pantera fala do auge na era pré-internet: “Hoje é um jogo de disputa por seguidores.” Disponível em: https://gay.blog.br/entrevistas/icone-do-bate-cabelo-marcia-pantera-fala-do-auge-na-era-pre-internet-hoje-e-um-jogo-de-disputa-por-seguidores/. Consultado 20 novembro de 2021. Por estar tão entorpecido, não conseguiu viver o luto de seus parentes.
Contudo, após a morte de sua mãe decidiu mudar de vida. Márcio se apoiou na Márcia e em Deus, como conta em entrevistas, para sair dessa situação. Apesar da dependência, largou as drogas e superou esse período difícil em sua vida. Atualmente está limpo desde 2009 e não tem problema em falar dessa fase, pois acha que pode ajudar outras pessoas a saírem desse vício.
Carreira Artística Seu nome de drag queen não surgiu completo. Durante os primeiros dois anos de carreira, usava apenas "Marcia" - numa adaptação para o feminino de seu nome de batismo -, mas ainda era preciso um complemento para algo menos genérico. O “Pantera” apareceu quando trabalhava na boate Columbia, onde era hostess. Já buscava por um sobrenome quando, num dia de desfile, encontrou o ex-modelo brasileiro Marcus Panthera (irmão da apresentadora Monique Evans) no camarim - por quem nutria certa admiração. Os dois tiveram uma conversa amigável e ao fim Márcio teve a ideia de se apropriar do “Pantera”, recebendo o apoio de Marcus.
As maiores inspirações para a Márcia Pantera são as mulheres, em especial Naomi Campbell; mas também se guia pelos trabalhos de suas parceiras de noite como Marcinha do Corintho, Condessa Mônica e muitas outas SANTÍSSIMA TRINDADE DAS PERUCAS. 57: MARCIA PANTERA - Precursora do Bate Cabelo. Spotify. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/4op7d14VuJG8z0l1l8chgw?uid=6db02ee58715cca8ef8b&uri=spotify%3Aepisode%3A4op7d14VuJG8z0l1l8chgw. Consultado 20 novembro de 2021.
Aos poucos foi conquistando o espaço nos palcos e nos corações do público, de quem sempre recebeu carinho e aplausos. A carreira como transformista se tornou sua profissão principal entre 1980-1990, pois foi quando notou ser uma atividade rentável e aprendeu a colocar preço em suas performances A CAPA. Com 22 anos de carreira, Márcia Pantera faz fortes revelações sobre a vida e trabalho de drag queen | Disponível em: https://acapa.disponivel.com/com-22-anos-de-carreira-marcia-pantera-faz-fortes-revelacoes-sobre-a-vida-e-trabalho-de-drag-queen/. Consultado 20 novembro de 2021.
Parceria com Alexandre Herchcovitch A vida de Márcio cruzou com a do estilista Alexandre Herchcovitch muito antes da fama os alcançar. No início dos anos 1990, esses dois paulistanos se conheceram na fila de entrada da boate Nostro Mondo. Na época, Herchcovitch era estudante de moda e se animou a desenhar roupas para a drag. Em entrevistas, o performer conta que muitos se ofereciam para criar figurinos, porém só com Herchcovitch a proposta se concretizou, desenvolvendo uma parceria que já dura décadas .
Intitulada como “musa inspiradora” de Herchcovitch, Márcia Pantera modelou em diversos desfiles do estilista, inclusive como destaque dos eventos. Foi em consequência dessa parceria que, em 1993, a drag participou do Phytoervas Fashion - primeiro evento de moda no Brasil - e mais tarde, em 2010, desfilou na São Paulo Fashion Week . Em paralelo aos desfiles, Herchcovitch desenhou mais de 500 figurinos para Márcia Pantera. A performer estipula ter por volta de 15 peças, o restante vendeu ou foi roubada.
Durante certo tempo, as pessoas acreditavam haver uma relação para além da amizade entre os artistas, mas Márcio assegura que são praticamente irmãos. Apesar de hoje não trabalharem juntos com tanta frequência, o laço entre o estilista e sua musa continua. Quando Márcio solicita alguma peça para sua drag, Herchcovitch a desenvolve sem cobrar os custo, como em todas as vezes que vestiu o performer para seus shows.
O “Bate Cabelo” miniaturadaimagem|Márcia Pantera (2016) Márcia Pantera é a precursora da arte do “bate cabelo” - um movimento já popularizado nas performances de drag queens Brasil afora, no qual os artistas balançam suas perucas no ritmo da música.
Inicialmente as performances de Márcia eram mais voltadas à dublagem de divas como Diana Ross, Whitney Houston, Shirley Bassey, Donna Summer entre outras. Assim como a de tantas transformistas faziam. No entanto, com o surgimento e popularização do Blackbox e outros grupos de house, começou a transição do seu estilo de show para algo mais autoral.
Sua grande contribuição para o cenário drag surgiu por volta de 1992 . Em uma performance, ao som de Michael Jackson, Márcio tentou reproduzir alguns passos popularizados pelo cantor e, após o encerramento, o amigo Alexandre Herchcovitch comentou sobre o movimento feito por Márcio - que em um desequilíbrio jogou o cabelo com muita força para trás, numa espécie de chicote - e da plateia essa agitação deu um efeito bacana. A partir disso, a drag e o estilista passaram a fazer algumas melhorias e adaptações, até chegarem no que hoje se conhece como “bate cabelo”.