Bucara ou Bukhara ( / ; ; ; ; ) é a quinta maior cidade do Usbequistão e capital da província homónima (Buxoro viloyati). Em 2020 tinha habitantes (), a maior parte deles falantes de , uma variante do persa. A área de Bucara é habitada pelo menos desde há e a cidade existe desde o É uma cidade histórica, situada na Rota da Seda, que durante muito tempo foi um centro de comércio, estudo, cultura e religião. Foi capital do Império Samânida e do Canato de Bucara e nela nasceu o proeminente erudito e teólogo islâmico Albucari . Conta com cerca de 140 monumentos importantes do ponto de vista arquitetónico e histórico e em 1993 o seu centro histórico, onde se encontram várias mesquitas e madraças, foi declarado Património Mundial pela UNESCO.
Etimologia O nome exato de Bucara na Antiguidade é desconhecido. O oásis onde se situa tinha esse nome e possivelmente foi só no que a cidade tomou o nome.
Há várias teorias para a origem do nome. Uma delas é que deriva do sânscrito ("mosteiro budista"), muito próxima dos termos usados pelos uigures e chineses budistas apar designar os seus locais de culto. No entanto, não foram encontrados quaisquer artefatos relacionados com cultos budistas ou maniqueístas na cidade ou no seu oásis. No e início do , a cidade era referido como Bokhara nas publicações em e como Buhe ou Puhe () entre os chineses han.
Segundo a Encyclopædia Iranica, o nome Bucara deriva possivelmente do termo soguediano βuxārak ("Lugar de Boa Fortuna"). Na sua História de Bucara, terminada em 943 ou 944, escreveu: «Bucara tem muitos nomes. Um deles era Numijkat. Também se chamou Bumiskat. Tem dois nomes em . Um é "Madinat al Sufriya", que significa cidade do cobre e outro "Madinat al Tujjar", que significa cidade dos mercadores. Mas o nome Bucara é mais conhecido do que todos os outros nomes. No Grande Coração não há outra cidade com tantos nomes».
Segundo Ali-Akbar Dehkhoda, Bucara significa "cheio de conhecimento", uma referência ao facto da cidade ter sido um importante centro de conhecimento, ciência e estudo. Desde a Idade Média que a cidade aparece como nas fontes árabes e persas. Na grafia usbeque atual, escreve-se Buxoro. No poema épico italiano Orlando Innamorato, publicado em 1483 por Matteo Maria Boiardo, a cidade aparece com o nome de Albracca e é descrita como uma das maiores cidades de Catai. Nessa cidade muralhada e na fortaleza, Angélica e os cavaleiros de quem se torna amiga enfrentam o ataque de Agricã (Agricane em ), imperador da Tartária. A descrição deste cerco por Agricã assemelha-se ao cerco histórico de Gêngis Cã a Bucara em 1220.
História A cidade foi fundada no numa área onde há vestígios de povoamento que remontam ao . O oásis de Bucara atraiu o interesse dos estados vizinhos muito cedo. O mais tardar no , durante o reinado de Dario, o Grande, já tinha sido conquistado pelos persas aqueménidas. Em , após a conquista da Pérsia por Alexandre, o território de Soguediana, do qual fazia parte Bucara, tornou-se uma possessão grega até ao Entre o fim do e meados do , a cidade fez parte do Império Cuchana; foi no início desta época que se começou a estabelecer o comércio com os países a ocidente e a oriente. No Bucara foi integrada no Império Heftalita.
Em 710 a cidade foi ocupada pelas tropas árabe-islâmicas durante o Califado Omíada: o general , governador da província omíada de Coração, estabeleceu a sua autoridade sobre o príncipe local. Aparentemente, o herdeiro do trono de Bucara, Tuguechada, converteu-se rapidamente ao islão e reinou entre 710 e 739. Nesse período a cidade tornou-se um importante centro de cultura e fazia parte da província de Coração, cuja capital era Merv. Bucara ocupava então cerca de 30 a 35 hectares e tinha uma muralha com sete portas; as ruas estavam orientadas segundo os pontos cardeais e estavam organizadas como um tabuleiro de xadrez.
No final do ou em 903 a cidade tornou-se a capital da dinastia persa dos samânidas e o seu aspeto modificou-se. A muralha passou a ter onze portas, o rabad (arrabalde) expandiu-se em volta da parte muralhada (chakhristan) e a população aumenta significativamente, com as profissões a determinarem o local de residência. Foram construídos numerosas mesquitas e mausoléus, entre eles o de Ismail Samani. A capital samânida foi um polo intelectual e religioso de primeira importância no mundo islâmico, onde residiram numerosos eruditos, poetas e escritores, como Avicena (Abu Ali ibne Sina; 980–1037), Rudaqui e Albiruni .
thumb|left|Moeda de ouro de 20 estáteres do Reino Greco-Báctrio com a efígie do rei , a maior moeda de ouro conhecida da Antiguidade, encontrada em Bucara; atualmente no , Paris
Em 999 Bucara foi invadida pelos turcomanos caracânidas. Durante o domínio caracânida foram construídos vários monumentos que ainda existem atualmente, como o Minarete Kalyan (ou de Arslan-Khana), as mesquitas Magok-i Attari e Namazgah e o mausoléu Chashma Ayub. Entre 1102 e 1238, a cidade foi governada pela família de cádis dos Ali-Burã. Sendo um entreposto comercial importante, na Idade Média a cidade teve uma comunidade de mercadores indianos da cidade de Multan (atualmente no Panjabe paquistanês).
Em 1220, foi tomada por Gêngis Cã após um cerco de 15 dias e em 1370 foi integrada no Império Timúrida. Há registo, embora sem detalhes, dum encontro ocorrido na cidade entre o monarca timúrida Ulugue Begue e uma embaixada do Tibete no inverno de 1420-1421. Bucara foi perdendo importância a favor de Samarcanda, a capital timúrida, mas voltou a prosperar e a ganhar protagonismo após ter sido tomada pelos xaibânidas em 1506 e, principalmente, quando a tornou capital do Canato de Bucara, na segunda metade do . Este estado, do qual também fez parte Samarcanda, foi um dos três canatos usbeques formados na sequência do colapso do Canato de Chagatai; os outros dois foram o de Cocande e o de Quiva.
Em 1599 subiu ao poder no Canato de Bucara uma nova dinastia, de ascendência astracânida, que rapidamente foi abalada em querelas internas marcou o início do declínio do canato. Em 1740 o canato foi invadido pelo rei persa Nader Xá, que nomeou como governador . Este proclamou-se emir e fundou a e o Emirado de Bucara.
thumb|“Bazar em Bucara”, uma pintura do russo Vasily Verechagine datada da década de 1870, atualmente no Museu Nacional de Varsóvia
Apesar de ter perdido grande parte do seu território para o Império Russo em 1868 e se ter tornado um protetorado russo em 1873, o emirado manteve a cidade até 1920, quando pelo Exército Vermelho, durante a Guerra Civil Russa. As tropas soviéticas comandadas pelo general bolchevique Mikhail Frunze atacaram Bucara em 31 de agosto o emir Maomé Alim Cã fugiu para Duchambé, na parte oriental do emirado e atualmente no Tajiquistão; mais tarde fugiu para Cabul, no Afeganistão. A 2 de setembro, depois de quatro dias de combates, a cidadela do emir (a Ark) foi destruída e a bandeira vermelha foi desfraldada no cimo do minarete da Mesquita Kalyan. A 14 de setembro, foi formado o Comité Revolucionário de Bucara, chefiado por A. Mukhitdinov. À frente do Conselho dos Nazires do Povo (governo) ficou Fayzulla Khodzhayev.
A existiu entre 1920 e 1925, ano em que a cidade foi integrada na República Socialista Soviética Usbeque. Fitzroy Maclean, na altura um jovem diplomata na embaixada britânica em Moscovo, fez uma visita subreptícia a Bucara em 1938, onde passeou e dormiu em jardins públicos. Nas suas memórias “” descreveu-a como uma "cidade encantada com edifícios que rivalizavam com a melhor arquitetura da Renascença italiana". Na segunda metade do , a guerra no Afeganistão e a guerra civil do Tajiquistão provocou uma vaga de refugiados de falantes de dari e em Bucara e Samarcanda. A integração desses refugiados na população tajique local contribuiu para a criação dum movimento para anexação dessas cidades pelo Tajiquistão, país com o qual as cidades não fazem fronteira.
Principais monumentos históricos
Conjuntos arquitetónicos Po-i Kalyan
Também chamado ou escrito Po-i-Kalan (, que significa "ao pé do grande [minarete]") é o conjunto arquitetónico da Mesquita Kalyan, conhecida especialmente pelo seu grande minarete, o Minarete Kalyan , que é a construção mais antiga do conjunto e está na origem do nome original do conjunto em persa. Além da mesquita e do minarete, o complexo inclui ainda as madraças Miriárabe e Emir Alim Cã (). A praça, que até à segunda metade do foi o local dum mercado de algodão, é um dos ícones turísticos do Usbequistão.
Lyab-i Hauz
thumb|Lyab-i Hauz e khanqah de Nadir Divambegui
O conjunto de Lyab-i Hauz (também escrito Labi-Hauz, Labi Hovuz, Lyab-i Khauz e Lab-e hauz; do persa , que significa "junto ao lago"), que significa "junto ao lago") é uma área que rodeia um dos últimos hauz (lagos ou tanques) em Bucara. Antes do período soviético existiam vários desses lagos, que funcionavam como as principais fontes de água da cidade, mas também contribuíam para a propagação de doenças, o que levou a que fossem drenados durante as décadas de 1920 e 1930. O Labi Hovuz foi mantido devido a ser o centro dum conjunto arquitetónico datado dos séculos XVI e XVII. Dele fazem parte a Madraça Kukeldash, do , a maior da cidade, situada na margem norte do lago. Nas margens oriental e ocidental do lago encontram-se o khanqah (albergue para sufis itinerantes) de Nadir Divambegui e a madraça de Nadir Divambegui, ambos do .
Há também uma escultura de metal representando Nasrudin Hoca, o sábio popular e satírico, perspicaz e de espírito caloroso, que é personagem de numerosos contos infantis da Turquia, Ásia Central e Paquistão. Nasrudin está montado numa mula, com uma mão no coração e a outra segurando uma tabuleta acima da cabeça onde se lê "tudo bem".
Khoja Gaukushan
O conjunto de Khoja Gaukushan ou de Khoja Gaukushon é um dos maiores conjuntos monumentais da cidade. É composto pela Mesquita Khoja Kalon, cujo minarete é o mais alto de Bucara a seguir ao Minarete Kalyan, duas madraças (Khoja Gaukushan e Mir Haidar Bala) e um hauz (tanque ou lago artificial), o qual é alimentado pelo canal Shah Rud, que corre nas proximidades. A mesquita e a Madraça Khoja Gaukushan foram construídas entre 1562 e 1579 pela proeminente família de cojas Jubari (ou Djuibar ou Dzhuybarian), que detinha um vasto império comercial, eram líderes da comunidade islâmica Naqshbandi local e estiveram ligados à ascensão ao poder de , o último monarca xaibânida de Bucara. Devido ao traçado das ruas envolventes, a Madraça Khoja Gaukushan tem planta trapezoidal, e não retangular como é usual, e a mesquita não tem o eixo orientado para Meca, o que também é muito incomum. Cerca de metade da mesquita, a parte norte, onde se situava a sala de orações, foi demolida.
Complexo arquitetónico Bahoutdin Este é uma necrópole em homenagem a Baha-ud-Din Naqshband Bukhari (conhecido localmente como Shaykh Bohoutdin ou Bahoutdin; ) o fundador da tariqa (ordem sufista) Naqshbandi, considerado o patrono espiritual dos governantes de Bucara. Os principais monumentos do conjunto são a dahma (estela funerária) de Bahoutdin, o khanqa de Abdul-Lazizkhan e as mesquitas de Khakim Kushbegi e de Muzaffarkan. O conjunto é candidato a Património Mundial desde 2008.
Mausoléus Mausoléu Samânida