miniatura|Ilustração de 1851 na história da arquitetura de Veneza de John Ruskin: The Stones of Venice miniatura|Registo arquitetónico de 1845 de uma arquitetura histórica (Neues Lusthaus em Estugarda) thumb|Padrões egípcios, motivos ornamentais e capitéis, ilustrador desconhecido, publicado por L. Prang & Co., 1874 thumb|Policromia ática thumb|Exemplos de motivos ornamentais e capitéis gregos antigos, desenhados em 1874
A História da arquitetura é uma disciplina académica, inserida no campo da História da Arte, que se dedica ao estudo sistemático da evolução das formas, estilos, técnicas e teorias da construção e do projeto arquitetónico, desde as suas origens pré-históricas até à atualidade. As suas bases teóricas no mundo ocidental consolidaram-se no Renascimento, através da dualidade entre a abordagem biográfica e contextual de Giorgio Vasari e o levantamento sistemático e empírico de Andrea Palladio, influenciando a formação interdisciplinar entre a história da arte e a prática arquitetónica. É uma ciência e disciplina cujo objeto de estudo é a análise do desenvolvimento funcional, construtivo e estético da arte da arquitetura no tempo e no espaço.
É a ciência da arte, que traça as mudanças na arquitetura através de várias tradições, regiões, tendências estilísticas abrangentes e datas. Acredita-se que o início de todas essas tradições esteja na satisfação da necessidade básica de abrigo e proteção por parte do homem.Ching, Francis, D.K. and Eckler, James F. Introduction to Architecture. 2013. John Wiley & Sons. p13 Historiograficamente, esta origem é frequentemente reinterpretada através do conceito de "tipo" ou da cabana primitiva, servindo de fundamento ontológico para a autonomia da arquitetura em relação à decoração superficial e aos estilos históricos.
Transmitem-se conhecimentos e competências sobre a arquitectura e o urbanismo produzidos no âmbito da cultura ocidental e oriental, estimulando-se a sedimentação de um quadro de referências, a partir de casos de estudo paradigmáticos das formas e modelos de fazer arquitectura e cidade. No âmbito da historiografia contemporânea, a disciplina evoluiu para uma prática de "crítica histórica", onde o relato histórico é entendido como uma narrativa ou "projeto" teórico que utiliza a genealogia do passado para fundamentar intervenções no presente e no futuro. A história da arquitetura confere uma visão global da arquitetura produzida em differentes períodos e geografias, com o objetivo de desenvolver o conhecimento crítico da arquitetura e das suas múltiplas implicações ambientais, sociais, culturais e políticas, onde o especialista ou discente explora o objeto arquitetónico valorizando aspetos de implantação territorial e urbana, dimensão e programa, morfologia e tipologia, técnica e construção. Atualmente, este olhar crítico expande-se para além do eixo Euro-Americano, integrando perspectivas do Sul Global e tratando a história como uma "matéria viva" que reavalia a modernização em contextos periféricos.
Abrange áreas que, na contemporaneidade, se consolidaram como práticas disciplinares especializadas, como urbanismo, engenharia civil, arquitetura naval, arquitetura militar e arquitetura paisagista.Architecture. Def. 1. Oxford English Dictionary Second Edition on CD-ROM (v. 4.0) Oxford University Press 2009 A disciplina distingue-se pela sua forte institucionalização e ligação direta à preservação do património arquitetónico, integrando hoje os desafios das tecnologias digitais na documentação e análise do ambiente construído.
Definição
Na maioria dos casos (mas nem sempre), os períodos estudados pela História da Arquitetura correm paralelos aos da História da Arte, embora existam momentos em que as estéticas se sobreponham ou se confundam. Não raro, uma estética que é considerada vanguardista nas artes plásticas pode ainda não ter encontrado sua representação na arquitetura, e vice-versa. A história da arquitetura define-se, assim, como história da arte do disegno com todas as limitações que isso traz em relação ao enquadramento do objeto arquitetónico: o edifício isolado, desmembrado em planos e elementos ornamentais que dão suporte mais à análise estilística que a uma análise do espaço.
A arquitetura é um registo contínuo da história da civilização, abrangendo uma vasta gama de materiais – dos tijolos de barro secos (adobe) aos modernos sistemas estruturais em concreto armado e ferro fundido – e escalas que vão das primitivas tumbas sagradas aos grandiosos arranha-céus contemporâneos. Assim como acontece com quase toda atividade humana, é difícil determinar um período histórico ou uma região e dizer que a arquitetura começou naquele momento. Contudo, o registo mais antigo de arquitetura está associado aos povoados pioneiros que surgiram no Levante e na Mesopotâmia (Oriente Médio) no sétimo milénio a.C. (cerca de 7000–6000 a.C.), quando as primeiras construções permanentes foram erguidas, Jericó (Levante) em que muros e estruturas com indícios de ocupação remontam a cerca de 8000 a.C.; a Çatalhöyük (Anatólia, Turquia) - um grande assentamento urbano com arquitetura de tijolos de barro rebocado e decoradas com pinturas de elaboradas cenas com seres humanos e animais datada de cerca de 7500–5700 a.C. ou Çayönü (Turquia) onde foram encontrados alguns dos vestígios mais antigos de tijolos, datados de cerca de 7500 a.C. No Oriente Médio e na Ásia Central no sétimo milênio a.C. as primeiras residências foram construídas, usando tijolos de lama secados ao sol, conhecidos como tijolos crus — material que, ainda hoje, é um dos mais utilizados, principalmente em construções vernaculares. No entanto, no Japão surge a arquitetura mais antiga no Período Jōmon (que se estende aproximadamente de 10.000 a.C. a 300 a.C.). Este período é notável por ser um dos mais longos períodos neolíticos do mundo. Os primeiros vestígios de arquitetura de assentamento datam de cerca do 10º milénio a.C. (Período Jōmon Inicial), embora a arquitetura se consolide mais tarde. As habitações mais antigas eram as Tateanashiki Jūkyo (casas de poço), que consistiam em cabanas cavadas no chão. Um buraco era escavado e, sobre ele, eram levantados pilares e uma armação de telhado (geralmente cónica ou piramidal), cobertos com palha.
Partindo das indicações de Vitrúvio e, em particular, das primeiras releituras interpretativas sistemáticas do seu De architectura (século I a.C.) nos séculos XV e XVI, a arte da arquitetura adquiriu um carácter disciplinar que a tornou cada vez mais parecida a uma ars liberalis em vez de uma mera ars mechanica como era geralmente considerada, tal qual a medicina, na época de Augusto (século I a.C. - I d.C.) e, de novo, durante a Idade Média. Desde o Renascimento, a proliferação significativa e constante de textos (manuscritos e impressos, acompanhados ou não de desenhos e ilustrações) escritos em torno das questões da arquitetura contribuiu decisivamente para a formulação teórica e a determinação científico-disciplinar de uma atividade profissional essencialmente empírica, embora baseada em tradições e princípios de construção. De uma prática artesanal quase anónima, com segredos e conhecimentos específicos que só poderiam ser adquiridos frequentando uma oficina-laboratório, a arquitetura emancipou-se cada vez mais dessa estreita esfera formativa, tornando-se sensível a estímulos e solicitações de natureza mais ampla e variada. É, de fato, ao fenómeno singular dos tratados dos séculos XV e XVI (LB Alberti, Filarete, Francesco di Giorgio, S. Serlio, Vignola, Palladio, V. Scamozzi, etc.) que devemos o desencadeamento daquele longo processo evolutivo e distintivo que tanto caracterizou e caracteriza a disciplina arquitetónica a ponto de permitir à historiografia crítica (desde o século XVII) defini-la como uma arte 'única entre as artes'. Apesar da afirmação da arquitetura como arte e ciência, e da presença de aspectos subjetivos ligados à percepção do espaço na concepção das obras, a racionalidade do disegno readquire o seu papel de representação "científica", reafirmando-se como essência do ensino oficial da disciplina. Como observa Didi-Huberman a imagem permite a desconstrução temporal, já que expõe a heterogeneidade subjacente aos períodos ditos históricos. Se a história da arte é mais uma poética — ou uma montagem não científica do saber — que uma ciência exata e universal,DIDI-HUBERMAN, G. Devant le temps. Paris: Les Éditions de Minuit, 2000, p.9-55. as imagens que a instrumentalizam são capazes de desconstruir o edifício histórico, mostrando a fragmentação das idéias sobre a arte que, apesar de contemporâneas, não são homogêneas. No caso da história da arquitetura, as imagens se encontram no centro da discussão sobre a pertinência do desenho como essência da arquitetura.
A escrita sistemática, portanto, e especialmente o componente teórica, vagamente explícita ou decididamente tendenciosa, que subjaz aos tratados de arquitetura, diferenciando-os de simples manuais práticos ou guias técnico-construtivos, determinaram a transformação decisiva do projeto arquitetónico numa disciplina moderna, cientificamente avaliável e com princípios transmissíveis, transcendendo os limites de uma troca estrita de experiências. O papel inovador da escrita deve, no entanto, ser associado ao papel tradicional do desenho (planeamento ou representacional: desenho, perspectiva), entendido, no entanto, como um meio inevitável entre a concepção e a construção e entre o projeto e a comunicação. Este papel, o do desenho, prefigurativo em relação à fábrica e tornado cada vez mais necessário também para satisfazer as necessidades avaliativas de uma clientela ampla e variada.
Cronologia
As primeiras grandes obras de arquitetura remontam à Antiguidade, mas é possível traçar as origens do pensamento arquitetônico em períodos pré-históricos, quando foram erguidas as primeiras construções humanas.
Pré-História thumb|left|Habitação de ossos de mamute, semelhante às que foram construídas em Mezhirich 15 000 anos atrás Paleolítico Os humanos e os seus antepassados têm vindo a criar vários tipos de abrigos há pelo menos centenas de milhares de anos, e a construção de abrigos pode ter estado presente no início da evolução dos hominídeos. Todos os grandes símios constroem "ninhos" para dormir, embora em diferentes frequências e graus de complexidade. Os chimpanzés constroem regularmente ninhos com ramos entrelaçados; estes variam consoante o clima (os ninhos têm uma cama mais espessa quando está frio e são construídos com suportes maiores e mais fortes em climas ventosos ou chuvosos).McLester, E. (2018, July 26). Chimpanzee ‘nests’ shed light on the origins of humanity. The Conversation. Os orangotangos constroem atualmente os ninhos mais complexos de entre todos os grandes primatas não humanos, com tetos, mantas, almofadas e "beliches".