thumb|Dados de astronomia, por Cyclopaedia (1728) A história da ciência na Era do Iluminismo traça os desenvolvimentos na ciência e tecnologia durante o Iluminismo, quando estas ideias estavam sendo disseminadas pela Europa e América do Norte. Geralmente, o período abrange desde a Revolução Científica, durante os séculos XVI e XVII, até o início do século XIX, após a Revolução Francesa (1789) e o Período Napoleônico (1799–1815). A revolução científica viu a criação das primeiras sociedades científicas, o surgimento do heliocentrismo, o deslocamento da filosofia natural Aristotélica e da antiga doutrina médica de Cláudio Galeno. No século XVIII, a autoridade científica começou a substituir a autoridade religiosa, e as disciplinas de alquimia e astrologia perderam credibilidade científica.
Embora o Iluminismo não possa ser classificado em uma doutrina específica ou conjunto de dogmas, a ciência passou a desempenhar um papel de liderança no discurso e no pensamento do Iluminismo. Muitos escritores e pensadores desse movimento intelectual tinham formação em ciências e associaram o avanço científico com a derrubada da religião e da autoridade tradicional em favor do desenvolvimento da liberdade de expressão e pensamento. De modo geral, a ciência iluminista valorizava muito o empirismo e o pensamento racional, e estava incorporada ao ideal iluminista de avanço e progresso. Como acontece com a maioria das visões do Iluminismo, os benefícios da ciência não foram vistos universalmente; Jean-Jacques Rousseau criticou a ciência por distanciar o homem da natureza e não fazer as pessoas se tornarem mais felizes.Burns (2003), entry: 7,103.
Durante o Iluminismo, a ciência foi dominada pela sociedade acadêmica e científica, que transformaram as universidades como centros de pesquisa e de desenvolvimento científico. Ambos também foram a espinha dorsal do amadurecimento da profissão científica. Outro desenvolvimento importante foi a popularização da ciência entre uma população cada vez mais alfabetizada. Filósofos apresentaram ao público muitas teorias científicas, principalmente por meio da Encyclopédie e da popularização do newtonianismo por Voltaire, bem como por Émilie du Châtelet, o tradutor francês da Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, obra de Newton. Alguns historiadores definem o século XVIII como um período monótono na história da ciência,see Hall (1954), iii; Mason (1956), 223. no entanto, o século viu avanços significativos na prática da medicina, matemática e física; o desenvolvimento da taxonomia biológica; uma nova compreensão do magnetismo e da eletricidade; e o amadurecimento da química como disciplina, que estabeleceu as bases da química moderna.
Universidades thumb|O prédio principal da Universidade Yale (1718-1782) O número de universidades em Paris permaneceu relativamente constante ao longo do século XVIII. A Europa tinha cerca de 105 faculdades em 1700. A América do Norte tinha 44, incluindo as recém-fundadas de Harvard e Yale.Porter (2003), 44. O número de estudantes universitários continuou o mesmo durante o Iluminismo na maioria das nações ocidentais, com exceção da Grã-Bretanha, onde o número de alunos e instituições aumentaram.Porter (2003), 52. Os estudantes universitários eram homens de famílias abastadas, buscando uma carreira em medicina, Direito ou na Igreja. As próprias universidades existiam principalmente para educar futuros médicos, advogados e membros do clero.Porter (2003), 45.
O estudo da ciência sob o título de filosofia natural foi dividido em física e um agrupamento conglomerado de química e história natural, que incluía anatomia, biologia, geologia, mineralogia e zoologia.Porter (2003), 79-80. A maioria das universidades europeias ensinaram uma forma cartesiana de filosofia mecânica no início do século XVIII e, aos poucos, adotou o newtonianismo. Uma exceção notável foram as universidades na Espanha, sob a influência do catolicismo, se concentraram quase inteiramente na filosofia natural aristotélica até meados do século XVIII; eles estavam entre as últimas universidades a fazê-lo. Outra exceção ocorreu nas universidades da Alemanha e da Escandinávia, no qual o professor da Universidade de Halle, Christian Wolff, ensinou uma forma de cartesianismo modificada pela física leibniziana.Burns (2003), entry: 239.
thumb|esquerda|Bomba de ar de Robert Boyle, usada nas palestras de demonstração de Pierre Polinière Antes do século XVIII, as aulas de ciências eram quase todas ministradas por meio de palestras formais. A estrutura das aulas começou a mudar nas primeiras décadas do século XVIII, quando as demonstrações físicas foram adicionadas às palestras. Pierre Polinière e Jacques Rohault estavam entre os primeiros a fornecerem demonstrações de princípios físicos em sala de aula. Os experimentos variaram desde balançar um balde de água na ponta de uma corda, demonstrando que a força inercial centrífuga manteria a água no balde, até experimentos mais impressionantes envolvendo o uso de uma bomba de ar.Sutton, (1995), p. 195.) Uma demonstração particularmente dramática da bomba de ar envolveu colocar uma maçã dentro do recipiente de vidro da bomba de ar, e remover o ar até que o vácuo resultante fizesse a maçã explodir.Sutton, (1995), p. 199. As manifestações de Polinière foram tão impressionantes que ele recebeu um convite para apresentar suas aulas para Luís XV em 1722.Sutton, (1995), p. 195.
Algumas tentativas de reformar a estrutura do currículo da ciência foram feitas durante o século XVIII e as primeiras décadas do século XIX. Começando por volta de 1745, o grupo político sueco Chapéus fez propostas para reformar o sistema universitário separando a filosofia natural em duas faculdades separadas de física e matemática. As propostas nunca foram colocadas em prática, mas representam os inúmeros pedidos de reforma institucional no final do século XVIII.Porter, (2003), p. 54. Em 1777, o estudo das artes em Cracóvia e Vilna, na Polônia, foi dividido em duas novas faculdades de filosofia moral e física. No entanto, a reforma não sobreviveu após a Terceira Partição em 1795. Durante a Revolução Francesa, todas as universidades da França foram abolidas e reformadas em 1808 sob a única instituição da Université imperiale. A Université dividiu a artes e a ciência em faculdades separadas, algo que nunca havia sido feito antes na Europa. O Reino Unido dos Países Baixos empregou o mesmo sistema em 1815. Entretanto, os outros países da Europa não adotaram uma divisão semelhante das faculdades até meados do século XIX.Porter, (2003), p. 55.
thumb|A antiga entrada da Universidade de Göttingen As universidades na França queriam desempenhar um papel subestimado no desenvolvimento da ciência durante o Iluminismo. Esse papel foi dominado pelas academias científicas, como a Academia Francesa de Ciências. As contribuições das universidades na Grã-Bretanha foram mistas. Por um lado, a Universidade de Cambridge começou a ensinar o newtonianismo no início do iluminismo, mas não conseguiu se tornar uma força central por trás do avanço da ciência. No outro extremo do espectro, estavam as universidades escocesas, que tinham fortes faculdades de medicina e se tornaram centros de desenvolvimento científico.Burns, (2003), entry: 239. Sob Frederico II, as universidades alemãs começaram a promover as ciências. A mistura única de física cartesiana-leibniziana de Christian Wolff começou a ser adotada em universidades fora de Halle. A Universidade de Göttingen, fundada em 1734, era muito mais liberal do que seus congêneres, permitindo que os professores planejassem suas próprias aulas e selecionassem seus próprios livros didáticos. Göttingen também enfatizou a pesquisa e a publicação.Porter, (2003), p. 57. Um desenvolvimento mais influente nas universidades alemãs foi o abandono do latim em favor do vernáculo alemão.Butts, (1955), p. 29.
No século XVII, os Países Baixos desempenharam um papel significativo no avanço das ciências, incluindo a filosofia mecânica de Isaac Beeckman e o trabalho de Christiaan Huygens sobre cálculo e astronomia.Jacob, (1988), pp.52-53. Professores de universidades na República Holandesa estavam entre os primeiros a adotar o newtonianismo. Da Universidade de Leiden, os alunos de Willem Gravesande passaram a espalhar o newtonianismo para Harderwijk e Franeker, entre outras universidades holandesas, e também para a Universidade de Amsterdã.Jacob, (1988), pp. 182-187.
Embora o número de universidades não tenha aumentado durante o iluminismo, as novas instituições públicas e privadas aumentaram o investimento na educação. A maioria das novas instituições enfatizava a matemática como disciplina, tornando-as populares com profissões que exigiam algum conhecimento prático de matemática, como comerciantes, oficiais militares e navais e engenheiros.Porter, (2003), p. 73. As universidades, por outro lado, mantiveram sua ênfase nos clássicos, grego e latim, incentivando a popularidade das novas instituições com pessoas que não haviam sido matriculados.
Sociedade acadêmica científica As sociedades acadêmica científica surgiram na Revolução Científica como criadoras do conhecimento científico em contraste com a escolástica da universidade.Gillispie, (1980), p. xix. Durante o Iluminismo, algumas sociedades criaram ou mantiveram vínculos com universidades. No entanto, fontes contemporâneas distinguiam as universidades das sociedades científicas ao afirmar que a utilidade da universidade estava na transmissão do conhecimento, enquanto as sociedades funcionavam para criar conhecimento.James E. McClellan III, “Learned Societies,” in Encyclopedia of the Enlightenment, ed. Alan Charles Kors (Oxford: Oxford University Press, 2003) (accessed on June 8, 2008). À medida que o papel das universidades na ciência institucionalizada começou a diminuir, as sociedades acadêmica científica tornaram-se o papel fundamental da ciência organizada. Depois de 1700, um grande número de academias e sociedades oficiais foram fundadas na Europa e, em 1789, havia mais de setenta sociedades científicas oficiais. Em referência a este crescimento, Bernard de Fontenelle cunhou o termo "A Era das Academias" para descrever o século XVIII.Porter, (2003), p. 90.
Sociedades científicas nacionais foram fundadas ao longo da era do Iluminismo nos focos urbanos do desenvolvimento científico em toda a Europa. No século XVII, a Royal Society de Londres (1662), a Académie Royale des Sciences de Paris (1666) e a Akademie der Wissenschaften de Berlim (1700) foram fundadas. No início do século XVIII, a Academia Scientiarum Imperialis (1724), em São Petersburgo, e a Academia Real das Ciências, em Estocolmo (1739) foram criadas. Sociedades regionais e provinciais surgiram a partir do século XVIII em Bolonha, Bordeaux, Copenhague, Dijon, Lyon, Montpellier e Uppsala . Durante este auge de crescimento, novas sociedades foram fundadas entre 1752 e 1785 em Barcelona, Bruxelas, Dublin, Edimburgo, Göttingen, Mannheim, Munique, Pádua e Turim. O desenvolvimento de sociedades inexploradas, como a privada Naturforschende Gesellschaft de Danzig (1743) e a Lunar Society de Birmingham (1766-1791), ocorreram paralelamente ao crescimento de sociedades nacionais, regionais e provinciais.Porter, (2003), pp. 90-91.
thumb|Sede principal da Academia Imperial de Ciências – a Kunstkammer em São Petersburgo