350px|thumb|Mapa da conquista romana da Hispânia, desde o início da Segunda Guerra Púnica (219 a. C.) até às Guerras Cantábricas (). Apresenta os avanços territoriais com a localização dos principais povos pré-romanos a divisão original das províncias da Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior.
A conquista romana da Península Ibérica iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica (), quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cneu Cornélio Cipião Calvo, para ali se movimentaram taticamente, a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região.
De facto, a influência cartaginesa na Península Ibérica permitia um expressivo reforço, tanto de suprimentos quanto de homens, a Cartago. A estratégia do senado romano visava, assim, enfraquecer as forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da península Itálica.
A derrota dos cartagineses, no entanto, não garantiu a ocupação pacífica da Península. A partir de , registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente Lusitanos, conflitos que se estenderam até , denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, especialmente na região da atual Andaluzia.
Ao iniciar-se a fase imperial romana, a Pax Romana de Augusto também se fez sentir na Hispânia: com o fim das Guerras Cantábricas, a partir de , as legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita, ocupada por povos cântabros e ástures. Com esta ocupação, asseguravam-se as fronteiras e pacificava-se a região, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena romanização.
A invasão: Cartago contra Roma
thumb|Primeira divisão provincial: (), vigorou durante a República Romana, expandindo-se à medida das conquistas até ao fim das guerras lusitanas, quando são criadas a bética e a Lusitânia thumb|Divisão provincial de Agripa, vigorou de até cerca de thumb|Divisão provincial de Diocleciano que vigorou c.300 a 410, e cuja inovação mais importante foi a criação das chamadas dioceses
O primeiro combate importante entre Cartagineses e Romanos foi a Batalha de Cissa (), provavelmente próxima a Tarraco (atual Tarragona), embora os historiadores tenham tentado identificá-la com Guissona, na actual província de Lérida. Os Cartagineses, sob comando de Hanão, foram derrotados pelas forças romanas sob comando do próprio Cneu Cornélio Cipião Calvo. O caudilho dos Ilergetes, Indíbil, que combatia aliado aos Cartagineses, terá sido então capturado. Porém, quando a vitória de Cneu parecia próxima, acudiu Asdrúbal Barca, com reforços, que dispersaram os romanos sem, no entanto, os derrotar. Assim, as forças opostas regressavam às suas bases militares — os Cartagineses a Cartago Nova (actual Cartagena) e os Romanos a Tarraco — e já só no ano seguinte a frota de Cênio Cipião venceu Asdrúbal Barca na foz do rio Ebro. Pouco depois chegaram reforços da Itália dirigidos por Públio Cornélio, permitindo o avanço dos Romanos em direcção a Sagunto.
Atribui-se a Cneu e Públio a fortificação de Tarraco e o estabelecimento de um porto militar. A muralha da cidade foi provavelmente construída sobre a anterior muralha ciclópica, já que nela se observam algumas marcas de trabalho da pedra tipicamente ibéricas.
Ainda no ano de há registo de combates entre Cneu e Públio contra os iberos, provavelmente de tribos a sul do rio Ebro, embora sem grandes consequências para Roma. Já no ano seguinte, receberam os Cartagineses reforços, encabeçados por Himilcão, dando-se novo combate na foz do Ebro, a Batalha de Dertosa, segundo parece, próximo de Amposta ou Sant Carles. Para prejuízo de Cartago, deste confronto saíram os Romanos vencedores.
A rebelião de Sífax em , aliado de Roma, na Numídia (Argel e Orã) obrigaria Asdrúbal a regressar à África com as suas melhores tropas, deixando o caminho livre para a progressão romana. Asdrúbal Barca, já na África, conseguiria o apoio de Gala, um outro rei númida, senhor da região de Constantina e, com a ajuda deste (e do seu filho, Massinissa), conseguindo a derrota de Sífax. Regressou em à Península fazendo-se acompanhar de Massinissa e os seus guerreiros númidas.
Algures entre , Cneu e Público regressaram ao Ebro. Sabe-se que em os "Cipiões" incluíam no seu exército um forte contingente de milhares de mercenários celtiberos. Estes actuavam, frequentemente, como mercenários.
As forças cartaginesas estruturaram-se em três exércitos, comandados respectivamente pelos irmãos Barca (Asdrúbal e Magão) e ainda por outro Asdrúbal Giscão, filho do comandante cartaginês Aníbal Giscão, morto durante a Primeira Guerra Púnica. Do lado oposto, os romanos organizaram-se em três grupos, comandados por Cneu, Públio, e ainda por Tito Fonteio. Asdrúbal Giscão e Magão Barca, apoiados pelo númida Massinissa, conseguem derrotar Públio Cipião, matando-o na Batalha de Cástulo. Cneu Cipião, em pleno combate a , na Batalha de Ilorci, assiste à deserção dos mercenários celtiberos — a quem Asdrúbal Barca ofereceu uma soma maior daquela paga por Roma — e é obrigado a retirar-se. Faleceu durante a retirada, deixando os Cartagineses aptos a atravessar o rio Ebro, que só puderam ser contidos graças à intervenção do equestre Caio Lúcio Márcio Sétimo, eleito como general pelas tropas. O cenário destes combates é, porém, incerto, embora sabendo-se que Indíbil combatia novamente do lado dos cartagineses.
No ano seguinte, , foi enviada uma expedição dirigida por Tibério Cláudio Nero com vista à captura de Asdrúbal Barca. Contudo, Cláudio traiu a sua palavra e fugiu desonrosamente. O senado insistiu, e enviou novo exército ao rio Ebro, para conter o avanço das tropas cartaginesas em direcção à Itália. O líder desta nova força foi o célebre Cipião Africano, filho do general homónimo, morto em combate em Cipião fazia-se acompanhar do procônsul Marco Silano (que deveria suceder a Cláudio Nero) e do seu companheiro de armas, Caio Lélio, chefe de esquadra. À sua chegada, os exércitos cartagineses encontravam-se instalados da seguinte forma: aquele dirigido por Asdrúbal Barca encontrava-se próximo da nascente do rio Tejo; o exército de Asdrúbal Giscão na região da futura Lusitânia, próximo à actual cidade de Lisboa. O exército de Magão encontrava-se na zona do estreito de Gibraltar. Cipião, aparentemente desprezando a importância da região do Ebro, atacou directamente Cartago Nova por terra e por mar. A capital púnica peninsular, cuja guarnição, insuficiente, era dirigida por outro Magão, foi obrigada a ceder, sendo ocupada pelos Romanos. Rapidamente, retornou Cipião a Tarraco antes que Asdrúbal atingisse as desguarnecidas linhas do Ebro.
Esta operação marcou o início da submissão de grande parte da Hispânia Ulterior. Cipião soube convencer vários caudilhos ibéricos, até então aliados a Cartago, como Edecão (inimizado com Cartago desde que a sua mulher e filhos foram tomados como reféns), Indíbil (pela mesma razão), e Mandónio (declarado inimigo por Asdrúbal Barca).
No Inverno de , Cipião avançou em direcção a Sul, chocando com o exército de Asdrúbal Barca (que, por sua vez, se deslocava para Norte), próximo a Santo Tomé (Jaén), na aldeia de Bécula, onde decorreu a batalha de Bécula. Não obstante Cipião reclamar para si a vitória, que permanece por confirmar, o facto é que Asdrúbal Barca prosseguiu o avanço em direcção ao Norte com a maior parte das suas tropas, atingindo o sopé das montanhas dos Pirenéus.
Sabe-se que, desta forma, Asdrúbal cruzou os Pirenéus passando pelo região basca, provavelmente na tentativa de conseguir uma aliança com estes embora, em todo o caso, os bascos não dispusessem de grandes meios de oposição faze à força cartaginesa. Asdrúbal acamparia no Sul da Gália entrando na Itália em . No ano seguinte Magão transladou as suas tropas para as Baleares e Asdrúbal Giscão manteve-se na Lusitânia.
Em , reorganizados os cartagineses e com novos reforços procedentes da África e dirigidos por Hanão, conseguiram recuperar a maior parte do Sul da Península. Após a submissão desta zona por Hanão, uniu-se Asdrúbal Giscão na região, e Magão regressou à Península. Pouco depois, as forças de Hanão e Magão foram derrotadas pelo exército romano a mando de Marco Silano, de onde resultou a captura de Hanão e a retirada de Giscão e Magão para as principais praças-fortes até receberem novos reforços desde África (). Entretanto recrutaram contingentes de indígenas e confrontaram-se com os Romanos na batalha de Ilipa (na zona da actual Alcalá del Río), na província de Sevilha. Nesta batalha vence Cipião sem sombra de dúvida, obrigando nova retirada de Magão e Asdrúbal para Gades. Cipião tornara-se assim dono de todo o sul peninsular, e pôde cruzar a África onde se encontrou com o rei númida Sífax, que já o havia visitado na Hispânia.
Aproveitando uma convalescença de Cipião, algumas unidades do exército aproveitaram-se para amotinar-se exigindo os salários em atraso, o "motim de Sucro". Por sua vez, a oportunidade foi aproveitada pelos Ilergetes (a mando de Indíbil) e pelos Ausetanos (a mando de Mandónio) que iniciariam uma rebelião dirigida, sobretudo, aos procônsules Lúcio Cornélio Lêntulo e Lúcio Mânlio Acidino. Cipião soube conter o motim, colocando um ponto final na revolta dos ibéricos. Indíbil foi morto em combate e Mandónio foi preso e executado ().
Magão e Asdrúbal abandonaram Gades com todos os seus barcos e tropas para acudir a Aníbal, já na Itália. Roma tornava-se assim senhora de todo o Sul da Hispânia, dos Pirenéus ao Algarve, no seguimento da costa e, para o interior, de Huesca em direcção ao Sul até ao rio Ebro e para leste em direcção ao mar.
A partir de então, iniciou-se a administração romana da Península, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, doravante integradas no território controlado pela República Romana. Assim, a porção ocupada ficava desde já dividida em duas províncias: a Citerior, a Norte, e Ulterior, a Sul, com capital em Córdova. A administração ficava incumbida a dois pretores bianuais, que nem sempre se cumpriam.
A resistência thumb|300px|Mapa da invasão romana das Astúrias e da Cantábria. thumb|Bronze de Alcântara, inscrição latina declarando a rendição incondicional ("deditio") ante os romanos do povo que habitava um castro entre o território dos Lusitanos e dos Vetões, , Cáceres Nesse contexto, destaca-se um grupo de Lusitanos liderados por Viriato, eleito por aclamação. Esse grupo infligiu duras derrotas às tropas romanas na região da periferia andaluz, tornando Viriato um mito da resistência peninsular.
Em o pretor Sérvio Galba aceitou um acordo de paz com a condição de entregarem as armas, aproveitando depois para os chacinar. Isto fez lavrar ainda mais a revolta e durante oito anos os romanos sofreram pesadas baixas, culminando no assassínio de Viriato por três aliados tentados pelo ouro romano. Mas a luta não parou e Roma enviou à Península o cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico, que pactuou e fortificou Olisipo, estabeleceu a base de operações em Móron próximo de Santarém, e marchou para o Norte, matando e destruindo tudo o que encontrou até à margem do Rio Lima. Mas nem assim Roma conseguiu a submissão total e o domínio do norte da Lusitânia só foi conseguido com a tomada de Numância, na Celtibéria que apoiava os castros de noroeste. Em , Júlio César dá o golpe de misericórdia aos lusitanos.
No século I, consegue-se a Pax Augusta: a Hispânia é dividida em três províncias. Neste período o geógrafo Estrabão, e o historiador universal Trogo Pompeu descrevem assim os seus habitantes: . Outro historiador romano, :