alt=Mapa da Guiné, com ponto vermelho na região sudoeste apontando a provincia de Macenta|miniaturadaimagem|Em vermelho, a região da Guiné, onde a população Zialo se encontra A língua zialo, também conhecida como ziolo, zialu, shialu e ziyolo, é a língua falada pelo povo Zialo, na Guiné. O idioma faz parte da família linguística Níger-Congo e conta com cerca de 25.000 falantes, localizados principalmente em aldeias próximas da província de Macenta. O zialo encontra-se em situação ativa, especificamente no nível 6a (vigoroso) de acordo com a escala EGIDS.
Etimologia Por se tratar de uma descoberta recente, ainda não há informações sobre a etimologia da palavra zialo. Existe, apenas, a hipótese de que é um termo emprestado do looma, por começar com a consoante Z, fenômeno que não ocorre em palavras nativas do zialo.
Distribuição A língua zialo é falada por aproximadamente 25 mil pessoas, das quais cerca de 60% residem em 45 aldeias Zialo, enquanto o restante reside em cidades vizinhas maiores, como Macenta, Kissidougou, N'Zérékoré e Conakry.
Região de Zialo A região de Zialo, ou "país Zialo", como é referida pelos falantes franceses, é uma faixa estreita de terreno montanhoso e arborizado que se estende por 50 quilômetros ao norte do rio Makona, fronteira entre a Guiné e a Libéria. Atualmente, entretanto, há uma tendência de realocar aldeias para lugares mais baixos e próximos de rotas comerciais. A área tem entre 25 e 30 quilômetros de largura, estreitando-se ao norte. Os limites do território são marcados, em maior parte, por traços naturais, como árvores especificas ou desfiladeiros. O termo "país Zialo" não reflete corretamente aos limites linguísticos do idioma, porém é relevante do ponto de vista histórico, já que refere-se a terras em que o zialo era utilizando anteriormente.
Dialetos A lingua é dividida em 5 dialetos, mutuamente inteligiveis. São eles:
Kelighigo (Kεliɣigɔ): refere-se à parte sul da região e ao pequeno enclave Gilawotazu ao sul da estrada nacional. Abrange aldeias como Gozõbu, Gilawotazu, Wulilazu e Bobolazu. Bayaw̃a: localizado a noroeste de Kelighigo, ocupa o centro da subprefeitura de Panziazou e as aldeias vizinhas de Dulumay, Gavi Koylazu, Sevelazu, Bemelazu, Falasa, Kotulazu e Boyga. Maior-Zialo (Wɔlɔ-Ziyɔlɔ): abrange Tewulazu, Lelebega, Zẽbezu, Kelekelemay, Zughulakolo, Bobo e Wũbiya. Esse dialeto é considerado o mais velho entre os zialo. Lawolozu: dialeto mais setentrional, localizado ao norte do rio Boya, cujos falantes povoam as aldeias de Botema, Tenevasala, Lãbu, Kotuw̃a, Bãbezu, Bule e Seɓelazu. Caracteriza-se por ser o dialeto mais remoto de todos o zialo, com peculiaridades na gramática e no vocabulário. Alguns falantes admitem lawolozu como uma língua própria.
Línguas relacionadas Linguística e culturalmente, os Zialo se consideram próximos dos Bandi, da Libéria, os Mende, de Serra Leoa e os Looma, da Guiné e da Libéria.
É necessário reconhecer que as línguas zialo, bandi e mende raramente interagem, já que são divididas pela fronteira nacional. Assim, a intensa semelhança entre elas está relacionada ao parentesco genético entre os idiomas. Segundo tradições orais populares, as três comunidades linguísticas costumavam ser uma só. Entretanto, apesar da proximidade entre as línguas, principalmente em relação à estrutura gramatical, elas não são inteligíveis.
Já a língua looma teve forte influência sobre o zialo devido aos seus processos migratórios. Looma é amplamente falada em Macenta e considerada uma língua franca em aldeias de mercado na estrada, fazendo com que seja uma língua de prestígio muito utilizada no cotidiano dos Zialo. Uma vez que as duas línguas têm cerca de 85% do léxico básico em comum, especialmente em tonologia e morfologia, muitos falantes começam a misturar elementos dos dois, introduzindo numerosas palavras emprestadas do looma em sua fala cotidiana.
Além disso, a língua mel também tem relação com o zialo e foi responsável por mudanças na língua quando o povo Kissi do Norte penetrou em suas terras. Atualmente, a população da maioria das aldeias Zialo, especialmente situadas mais perto da estrada nacional, inclui até 30% de famílias Kissi, e a língua mel é amplamente falada na região.
História A história do idioma está diretamente relacionada com a organização da população Zialo. Segundo as tradições orais, a população se originou nas planícies do sul, no território da Libéria, e a migração foi direcionada para as colinas do norte, chegando ao local atual durante o século XVIII. A maioria das aldeias de Zialo identifica suas raízes em alguma aldeia do sul, por meio da presença de semelhanças entre elas. Tal processo migratório destoa da migração dos outros falantes de línguas Mande do sudoeste, que vieram do norte para o sudoeste da região de savana florestal da Guiné, em torno da cidade de Musadu, o que evidencia a migração dos Zialo para o norte como um movimento cronologicamente tardio em relação aos outros.
Documentação alt=foto do linguista russo Kirill Babaev|miniaturadaimagem|142x142px|Kirill Babaev, linguista russo que documentou o zialo A língua zialo foi descoberta e documentada em janeiro-fevereiro de 2010 pelo linguista de Moscou Kirill Babaev, durante a Expedição Linguística Russa a Guiné. O zialo nunca havia sido descrito e classificado, já que era considerado um dialeto remoto da língua looma, entretanto, foram notadas diferenças significativas entre as duas. Zialo foi o foco da pesquisa de Babaev devido ao fato de não existir nenhuma descrição do idioma na literatura, até então. O idioma havia apenas sido mencionado em alguns manuscritos e notas de campo como um dialeto zialu, shialu e zialö. Segundo o pesquisador, diversos materiais foram produzidos tendo como base a geração mais velha de aldeões que tem conhecimento apenas superficial das línguas francas da região, looma e francês, na tentativa de preservar os traços próprios do zialo. Além disso, foram cruzados dados morfológicos, lexicais e semânticos fornecidos por vários informantes para garantir uma compreensão fidedigna e identificar variedades dialetais.
Fonologia Vogais As vogais do zialo podem ser divididas nos grupos oral e nasal, de acordo com o local de pronúncia, e em longas e curtas, de acordo com a sua duração. As vogais longas são representadas pela duplicação de seu respectivo sinal (aa), de acordo com a tradicional descrição de línguas da África Ocidental.
+Fonemas vocálicos orais da língua zialoAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaSemiabertaɛɔAbertaä Todas as vogais apresentam as suas correspondentes nasais. São elas [ĩ], [ẽ], [ɛ̃], [ã], [ũ], [õ] e [ɔ̃]
Fenômenos gerais A formação de palavras pode ser totalmente alterada pela duração da vogal. Seguem abaixo exemplos de oposição fonemática entre vogais curtas e longas.
kpàlà ("quadril") / kpáálá ("campo")
pà ("vir") / páá ("matar")
kàlì ("enxada") / kààlì ("serpente")
Vogais longas só podem ser colocadas no início ou no meio da palavra polissilábica e podem aparecer em termos monossilábicos.
fɔ̃ ́ɔ̃ ́ ("bem")
gɛɛli ("insulto")
kpɔ̀ɔ̀lɔ̀ ("palavra, fala")
Sequências de vogais configuram sílabas distintas, podendo ter tons diferentes. Nesse caso, ambas precisam ser abertas ou fechadas.
mɔ̀ɛ̀ ("sogra")
Vogais fechadas e semifechadas podem ser reduzidas a zero antes de /l/, /w/ e /y/.
fòlò [fo lo] ("o dia")
nè-dέ-y [ n dεy] ("minha propriedade")
Casos de nasalidade
A língua zialo possui alguns fenômenos fonológicos com sons nasais.
- Antes das oclusivas /b/, /d/, /g/, as vogais nasais tornam-se vogais simples com consoantes pré-nasalizadas: dã ̀bà [barragem ba] ("crocodilo")
kpã ̀dà [kpan da] ("arma")
- Nasalização em ambiente nasal: quando vogais nasais acompanham as consoantes nasais /m/, /n/, /j/, /ɲ/, /ŋ/ são tratadas como alofones nasalizados de suas vogais orais.
keỹã ́ ("tio")
tõ ̀ỹà ("verdade")
- Nasalidade lexical: vogais nasais podem ser encontradas sem consoantes nasais em palavras emprestadas.
sùyã ́ká ("vazio")
tíkpẽ ́("todo mundo") - Raramente encontram-se vogais nasais longas.<div style="background:transparent;">
Consoantes O zialo possui 25 consoantes, que podem ocupar duas posições fonológicas bem definidas: inicial e medial. Existe também a posição final, ocupada apenas por dois fonemas consonantais. O inventário consonantal da língua contrasta entre sons vozeados e desvozeados. As consoantes em zialo estão representadas a seguir, seguindo o alfabeto fonético internacional adaptado para línguas africanas. + Inventário consonantal da língua zialoBilabialLabiodentalDentalPalatalVelarGlotalPlosiva t dɟ ImplosivaɓFricativa syAfricadaNasalnɲAproximantejLaterall Além disso, há a fricativa alveolo-palatal vozeada /ʑ/, a africada palatal /c͡ç/, a plosiva labiovelar /kp/, a fricativa labiovelar /w/, e o /w/ pré nasalizado, que são consoantes complexas.
Fenômenos gerais
A seguir estão alguns fenômenos vocálicos gerais da língua zialo.
A consoante nasal /ɲ/ é a unica que não pode ocupar a posição medial.
/y/ e /j/ são os dois únicos fonemas que podem ser encontrados na posição final, sendo /y/ considerada uma aproximante na posição final:
tókólàzéy ("começar") kɔỹ ("degustar, colo")
Antes das vogais altas, /d/ e /t/ são palatalizadas, soando alveolar.
dílí ("mosca")
gàtɔ̀ ("entender")
A única raiz de Zialo começada em /Ɣ/ é o advérbio ɣɛ́zɛ́ɣɛ́zɛ́ ("realmente, verdadeiro").
A fricativa /h/ é encontrada no Zialo em apenas um morfema: a conjunção hã ̋ ("até").
A oclusiva /g/, na posição medial é encontrado em afixos ou substantivos compostos. Ocorre principalmente em empréstimos: sùgúlá ("dizer") (sù- prefixo verbal);
pã ̀gɔ̀ ("bom") (-gɔ̀ afixo adverbial);
mã ̀gólò ("manga"); /ɓ/ pode também soar como labiovelar [gb]. Só é medial em termos emprestados prefixados ou compostos: dááɓɔ́lú ("fechar") (prefixo verbal dáá-); jáɓélà ("margem do rio") (já 'água' + kpèlà 'perto') /ʑ/ na posição inicial, é quase sempre encontrado em palavras emprestadas do looma. zúlúbú ("hiena")
zálá ("leão")
/c/ é encontrado em apenas alguns empréstimos:
cèkè ("atieke") (prato local feito de mandioca);
cẽ ̀cẽ ̀ ("cigarra")
/ŋ/ e /ɲ/ são raramente encontradas no Zialo.
ŋàzà ("esposa")
ɲífó ("esfregar")
/l/ é líquida e vibrante, podendo refletir tanto /l/ quanto /r/ em termos emprestados, sem distinção entre eles:
lã ̀bɔ̀‘lamp’ ("lamp") (lâmpada em inglês);
fέnέtέlέ ("fenêtre") (janela em francês).
Tons O item mínimo de distinção de tom no zialo é a sílaba. Os tons podem variar dentro de um morfema. Existem dois níveis de tons em zialo: alto, marcado pelo sinal agudo (á), e baixo, marcado pelo sinal grave (à). A ausência de marca ocorre quando o tom não é claro. Os tons que mudam durante a duração da vogal são chamados de tons de contorno.
A conjunção temporal hã ̋ é a única palavra em zialo que contém um tom superagudo, que foi emprestada à língua.
Em zialo, há a distinção entre o tom lexical (subjacente) e o gramatical (superficial). A alternância entre eles forma palavras diferentes.
pà ("venha") / pá ("matar")
O tom lexical é modificado de acordo com certas regras tonais, descritas abaixo. A imagem tonal resultante dessas regras configura o tom de superfície.
Regras tonais 1. Difusão para a direita: assimila o tom do seguimento seguinte com o tom anterior.
pɛ̀lɛ̀ ("casa"), kólé ("ser branco"), -gì (marcador determinante), ŋ́- (marcador de referencialidade):
pɛ̀lɛ̀kólé-gì pɛ̀lɛ̀wòlè-gì (difusão para a direita do substantivo para o atributo) (ŋ́-)pɛ́lɛ́wòlè-gì (difusão para a direita do marcador de referencialidade para o substantivo) pɛ́lɛ́wòlè-gì ("a casa branca")