200px|thumb|right|Goya, Los Caprichos.
Mecanismo de defesa ou ajustamento designa em psicologia, em geral, e na teoria psicanalítica, em particular, as ações psicológicas que têm por finalidade reduzir qualquer manifestação que pode colocar em perigo a integridade do ego, onde o indivíduo não consiga lidar com situações que por algum motivo considere ameaçadoras. São processos subconscientes ou mesmo inconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos mecanismos de defesa são as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os mecanismos de defesa ficam ativados.
Um conflito cria em nós certa angústia. Essa angústia é o que nos motiva a resolver esse problema. Porém nem sempre o indivíduo é capaz de resolver um problema de forma imediata e direta, pois nossos problemas pessoais não podem ser resolvidos através somente da razão. Isso se dá pelo fato de que os problemas pessoais têm um certo envolvimento emocional que diminui nossa objetividade, e consequentemente somos levados a resolvê-los de forma indireta e tortuosamente, buscando um ajustamento, a fim de adaptar-nos às exigências que nos são impostas pela sociedade em que vivemos. Tais processos adaptativos são o que chamamos de mecanismos de defesa. Os mecanismos mais comuns são a negação, o recalque (ou repressão), a regressão, a projeção, a formação reativa e a sublimação.You're getting defensive again! Anna Freud (1946) "The ego and mechanism of defense" cit. Hook (1994) pg. 230-236
Recalque
O recalque, ou repressão, é o processo automático que mantém fora da consciência, impulsos, ideias ou sentimentos inaceitáveis, os quais não podem se tornar conscientes através da evocação voluntária. O recalque é um dos mais importantes mecanismos de defesa do ego e é utilizado desde os primeiros anos de vida para protegê-lo da angústia originada dos conflitos psíquicos. É um mecanismo de defesa básico e precede a maioria dos outros, os quais, em geral, funcionam como reforços ou adjuntos, quando o recalque é incompleto. Certos traumas e conflitos não resolvidos são recalcados e, se não forem resolvidos, podem se tornar neuroses.
No Brasil, a tradução do termo alemão Verdrängung mais utilizada no meio psicanalítico é recalque, provavelmente pela influência francesa que a psicanálise brasileira sofre (na tradução de Laplanche das Obras de Freud, o termo utilizado é refoulement - "recalcamento"). No entanto, na tradução brasileira das Obras Completas, como também nas traduções inglesa e espanhola, o termo ainda utilizado é "repressão".
Verdrängung é considerado o primeiro mecanismo de defesa investigado por Freud e serve como modelo para a construção de outros mecanismos de defesa mais complexos. Na fase inicial de suas investigações, trabalhando com a neurose histérica, Freud estava preocupado em entender os mecanismos que poderiam explicar os esquecimentos. Freud atribuía a autoria desse conceito a ele próprio, mas em 1914, quando publicou A história do movimento psicanalítico, reconheceu que a ideia já havia sido pensada pelo filósofo Arthur Schopenhauer, na obra apresentada a Freud por Otto Rank, O mundo como vontade e como representação.
Regressão
É o retorno do indivíduo a níveis anteriores do desenvolvimento sempre que depara com uma frustração. É uma sucessão genética e designa o retorno do sujeito a etapas ultrapassadas do seu desenvolvimento. Por exemplo, o choro das pessoas em certas situações pode ser uma regressão à infância, que pode ter tido uma situação em que o choro "resolveu" o "problema", então a pessoa inconscientemente usa aquele mesmo "método" para "resolver" a nova situação.
Usamos a regressão para fantasiar, com o objetivo de criar uma válvula de escape. Defendermo-nos de ameaças e angústias é muito eficiente, pois dissipa a angústia e nos torna capazes de enfrentar novamente o problema. Entretanto, de forma constante, nos afasta da realidade, nos fornece falsos e efêmeros sentimentos de triunfo e o despertar para a realidade (através das constantes pressões do mundo objetivo) pode ser extremamente doloroso.
A regressão geralmente é assemelhada a um ato infantil, mas é mais comum do que as pessoas imaginam, a regressão pode ser desde assistir a um filme até o ato estereótipo da regressão, que seria agir como uma criança e fantasiar seu próprio mundo. Fumar e usar outros tipos de objetos orais que nos proporcionam prazer momentâneo é uma regressão também porque nos remete à satisfação do bebê com a boca e o ato de sugar o leite.
A concepção freudiana a respeito do desenvolvimento da sexualidade inclui a ideia de uma predisposição evolutiva pela qual passa a libido, seguindo uma sequência de fases – oral, anal, fálica – para, após um período de latência, chegar numa organização genital da sexualidade adulta. Ou seja, para Freud a sexualidade está presente desde o nascimento e evolui conforme a criança vai crescendo de modo que, ao final do processo, espera-se que ela se organize sob a primazia da zona erógena genital e esteja a serviço da reprodução. No caso específico da evolução da libido, isso significa que nem todas as fases pelas quais passa o seu desenvolvimento são necessariamente superadas ou completamente ultrapassadas. Com relação aos riscos próprios do caminho evolutivo da libido, Freud sinaliza duas possibilidades. Uma delas seria a de parte da libido ficar estancada nas fases iniciais, pré-genitais, fenômeno ao qual o autor chamou de fixação do instinto. O outro risco apontado se refere à possibilidade de parte da libido que havia evoluído para um estágio posterior retornar para uma fase anterior do desenvolvimento: fenômeno denominado "regressão".
Projeção
Projeção é o processo mental pelo qual as características que estão ligadas ao eu são gradativamente afastadas deste em direção a outros objetos e pessoas. Essas projeções tendem a deslocar-se em direção a objetos e pessoas cujas qualidades e características são mais adequadas para encaixar o material deslocado.
Muitas vezes nos defendemos da angústia gerada por fracasso, culpa ou nossos defeitos projetando a responsabilidade por esse fato em alguém ou em algo.
Temos como exemplos:
um jogador de tênis que, ao perder uma partida, justifica sua perda botando a culpa na qualidade da raquete (aqui se assemelha ao deslocamento); o fato de tratarmos uma pessoa com hostilidade, justificando a nós mesmos que ela é uma pessoa hostil, mas na verdade o único agente cometendo hostilidade somos nós, a outra pessoa está agindo normalmente; o marido feio que exige que sua mulher seja bela, mas na verdade ele pode estar projetando o desejo de ser belo na mulher, já que foi incapaz de cumprí-lo.
Formação reativa
Quando a repressão de fortes impulsos é acompanhada por uma tendência contrária, sob a forma de comportamentos e sentimentos exatamente opostos às tendências reprimidas, tal tendência é o que chamamos de formação reativa. Uma mãe que se preocupa exageradamente com o filho pode ser reflexo de uma verdadeira hostilidade a ele. Uma pessoa demasiadamente valente pode ser reflexo de um medo do oculto. Porém, vale salientar que existem outros fatores que levam a mãe a preocupar-se com o filho e um homem a ser valente, sem ser obrigatoriamente um exemplo de formação de reação.
Esse mecanismo de defesa mantém o impulso indesejado longe do consciente, superenfatizando o impulso oposto.
Muitas atitudes neuróticas são tentativas evidentes de negar ou reprimir alguns impulsos ou de defender a pessoa contra um perigo instintivo. São atitudes tolhidas, rígidas, que obstam a expressão de impulsos contrários, os quais, no entanto, de vez em quando, irrompem por diversos modos.
Nas peculiaridades dessa ordem, a psicanálise, psicologia “desmascaradora” que é, consegue provar que a atitude oposta original ainda está presente no inconsciente. Chamam-se formações reativas essas atitudes opostas secundárias. As formações reativas representam mecanismo de defesa separado e independente ou podem constituir consequência e reafirmação de uma repressão estabelecida.
Quando menores, contudo, significam certo tipo de repressão que é possível distinguir de outras repressões. Digamos: é um tipo de repressão em que a contracatexia é manifesta e que, portanto, tem êxito no evitar atos muito repetidos de repressão secundária. As formações reativas evitam repressões secundárias pela promoção de modificação definitiva, “de uma vez por todas”, da personalidade. O indivíduo que haja constituíndo formações reativas não desenvolve certos mecanismos de defesa de que se sirva ante a ameaça de perigo instintivo: ele modificou a estrutura da sua personalidade, como se esse perigo estivesse sem cessar presente, de maneira que ele esteja pronto sempre que ocorra.
Sublimação
Próxima ao isolamento, a sublimação consiste na busca de modos socialmente aceitáveis de satisfazer, ao menos parcialmente, as pulsões do id. Caracteriza-se por apresentar uma inibição do objeto e sua dessexualização. É responsável pela civilização, já que é resultante de pulsões subjacentes que encontram vias aceitáveis para o que é reprimido. Dessa forma, é o único mecanismo que nunca é patológico.
Exemplos:
1) um indivíduo que obtém prazer em cortar tecidos humanos pode se tornar cirurgião, para satisfazer seus impulsos tornando este ato (cortar tecidos sem excitação) aceitável socialmente. 2) uma pessoa que gostaria muito de ser agricultor poderá sublimar esse desejo sendo pintor de natureza morta ou mesmo de plantações. 3) um indivíduo com fortíssimos impulsos agressivos ou tendências à combatividade pode se tornar um atleta profissional de esportes de contato - boxeador ou sumô - ou lutas regulamentadas, canalizando sua hostilidade para um contexto competitivo aceito e aplaudido pela sociedade. 4) uma pessoa com uma curiosidade voyeurista intensa ou desejo excessivo de observar a vida alheia pode direcionar essa pulsão para a carreira de jornalista investigativo, escritor de romances realistas ou cineasta, transformando o impulso voyeur em produção artística ou informativa. 5) um indivíduo que apresenta tendências destrutivas ou fascinação por explosivos e fogo pode canalizar essa energia tornando-se um engenheiro de minas ou trabalhar na produção pirotécnica de eventos festivos. Há também a possibilidade sublimatória de ser especialista em demolições controladas, tornando sua pulsão útil e segura para a comunidade.
Racionalização
Existe em nós uma luta constante para dar sentido ao nosso próprio mundo de experiências, uma procura de explicações para nossos fenômenos internos, nossos comportamentos e sentimentos. Para satisfazer essa busca, evitando a angústia e mantendo o autorrespeito, criamos “explicações” altamente racionais para fatores emocionais e motivacionais, para justificar nosso eu (ego); buscamos “boas razões”, ainda que falsas, para nossas atitudes e fracassos.
Tal acomodação ao conflito é o que chamamos de racionalização.
São exemplos de racionalização: um rapaz que viaja de graça em um ônibus e busca várias justificativas para seu ato como “a passagem é muito cara”, “a empresa já tem muito dinheiro”, “eu pago passagem todo dia, um dia a menos não vai fazer diferença”, “o ônibus está lotado, não vou passar pela borboleta, vou ficar aqui mesmo”; um aluno que, não conseguindo responder a uma questão, diz “isso não é interessante de saber mesmo”, “não respondi porque não tive tempo de estudar, pois lá em casa fazem muito barulho”; alguém que não consegue algo que deseja e logo se justifica dizendo que, na verdade, não queria aquilo; um rapaz que foi dispensado por uma garota, da qual estava a fim, logo diz “ela nem era tão boa assim, era até feia, não sei como fui gostar dela”.