Oswaldo Goeldi (Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1895 – Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 1961) foi um desenhista, ilustrador, gravador, e professor brasileiro.
Vida Oswaldo Goeldi nasceu em 1895, no Rio de Janeiro, mas mudou-se para Belém antes de completar um ano de idade, tendo permanecido na capital do estado do Pará até os seis anos. Seu pai foi o cientista suíço Emilio Augusto Goeldi, que veio residir no Brasil em 1884 a convite de D. Pedro II. Instalado em território brasileiro, o naturalista casou-se com Adelina Meyer, pertencente a uma rica família de comerciantes de origem Suíça. Em razão da conexão com o imperador, o pai do artista trabalhou inicialmente na Quinta da Boa Vista, mas mudou-se para Teresópolis em decorrência da República, tendo trabalhado na Colônia Alpina, pertencente à família real.
Em 1893, Emílo Goeldi foi convidado a dirigir o Museu Paraense, atualmente chamado Museu Paraense Emílio Goeldi. Como parte de seu trabalho, realizava viagens de expedição investigatória pela floresta amazônica, tendo representado os interesses brasileiros na disputa territorial sobre o Amapá. Oswaldo Goeldi nasceu em uma das viagens do cientista à capital; em época, o Rio de Janeiro. E por isso, poucos meses após seu nascimento, mudou-se para Belém, onde a família já residia. Seu nome foi uma homenagem a um grande cientista amigo de seu pai, Oswaldo Cruz.
O tempo vivido em Belém, onde Oswaldo Goeldi denvolveu um contato com a fauna e a flora tropical, foi incorporado no discurso do artista em depoimentos futuros, sendo um marco importante na sua imaginação criadora. A experiência nesses primeiros anos de vida marcou seu trabalho futuro e foi revisitada quando o artista, após anos mergulhado no simbolismo e expressonismo europeu, retornou ao Brasil.
Por conta do trabalho desenvolvido por Emílio Goeldi, a família alternava moradia entre Belém, Rio de Janeiro e Suíça. Contudo, em 1905, o cientista e sua família mudaram-se em definitivo para Berna, na Suíça, tendo como justificativa um melhor ambiente para a educação de seus filhos. Tal interesse é reforçado quando em 1907 o pai deixa o cargo de diretor do Museu Paraense, apresentando como justificativa o interesse em cuidar de sua saúde e aumentar a supervisão sobre a formação de seus filhos. Anos depois, Emílio Goeldi tornou-se acadêmico da Universidade de Berna.
Dos 6 aos 24 anos, Oswaldo Goeldi viveu na Suíça. Em 1914, com cerca de 20 anos, ingressou no curso de engenharia da Escola Politécnica, em Zurique; e iniciou seu contato e interesse pelo desenho. O desenvolvimento de sua relação com a arte pode ser conectada ao contato com o fervor da juventude da época, engajada tanto nos debates artísticos, quanto nas reflexões políticas latente nos anos pré-Primeira Guerra. Ainda em 1914, as questões políticas impactaram de forma incisiva sua vida: Oswaldo Goeldi precisou interromper seus estudos em razão de uma convocação de serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial, experiência que o marca significativamente.
Outro momento importante da vida do artista foi a morte do pai, em 1917. O falecimento do cientista leva a viúva, Adelina, a retornar ao Brasil para ficar perto de sua família; mas, inicialmente, Goeldi não volta com seus familiares. O jovem vê na morte do pai a liberdade para explorar seu interesse pelas artes, e convence a mãe de deixá-lo mudar-se para Genebra, onde se matricula, em 1917, na Ecole des Arts et Métiers (Escola de Artes e Ofícios). O desgosto familiar pelo abandono da área científica por Oswaldo Goeldi, bem como a sabida vida boêmia que ele passa a levar após sua decisão, marcam o iníco de um afastamento do seio familiar. O desgosto pela decisão de Goeldi aumenta quando apenas seis meses após matricular-se, Goeldi abandona a escola. Contudo, uma motivação artística levou o artista a essa decisão: queria afastar-se do academicismo dos professores em busca de uma linguagem mais própria, interesse persistente entre diversos artistas que iniciaram a arte moderna.
Formação artística Após abandonar a escola, o artista passa a ter aulas no ateliê dos artistas Serge Pahnnke (1875 - 1950) e Henri van Muyden (1860 - s.d.), mas novamente o interesse em investigar suas próprias potências expressivas, frente ao ensino da reprodução das obras dos mestres, o fez deixar de frequentar ambos os espaços. Nesse período, entra em contato e hospeda-se no ateliê de Hermann Kümmerly, artista suíço a quem Goeldi admirou e com quem aprendeu a litografia. É já nesse primeiro momento que temas recorrentes de sua obra apareceram; a saber: cenas noturnas, casas abandonadas, ruas vazias, figuras fantásticas, etc.
É assim que, ainda em 1917, realiza a primeira exposição individual em Berna, na Galeria Wyss. É através dessa exposição que Goeldi conhece a obra de Alfred Kubin (1877 - 1959), sua grande influência artística. Ano depois, em 1926, Oswaldo Goeldi envia uma primeira carta a Alfred Kubin iniciando 26 anos de troca de correspondências que construiram uma relação de forte vinculação poética, tendo Goeldi reconhecido o artista austríaco como "Venerado Mestre" e Kubin, ao artista mais novo, como seu "único e legítimo aluno e sucessor".
Em 1919 Oswaldo Goeldi retorna ao Rio de Janeiro, pois sua família não consegue mais sustentá-lo na Europa; além de não aprovarem o estilo de vida que ele levava no antigo mundo. Inicialmente, os parentes maternos arranjam para Oswaldo Goeldi um trabalho no London and River Plate Bank, mas o artista não se adapta ao convívio intenso com a família e com a rotina de trabalho em um banco. Nesse período, é através das correspondências e envio de trabalhos para Hermann Kümmerly e Alfred Kubin que reflete sobre sua produção artística e sobre a mudança de ambiente.
O afastamento da família se agravou após o casamento de Mathilde, irmã do artista, com Martin Wenger, amigo europeu de Goeldi. Chamado de Martinus pelo artista, o homem se hospedou na casa de Goeldi no Rio de Janeiro e se tornou sua companhia na vida boêmia até noticiá-lo, de surpresa, do casamento com a irmã, o que não agradou ao artista. A influência do cunhado, que passou a condenar a vida boêmia do antigo amigo, foi definitiva no desentendimento entre o artista e seus parentes. Martin Wenger passou a gerenciar os bens da família e performar uma imagem idônea, apesar de esconder dívidas que eram conhecidas por Goeldi.
Ainda em 1919, após abandonar o emprego arranjado por seus familiares, Oswaldo Goeldi passa a trabalhar como ilustrador nas revistas Para Todos e Ilustração Brasileira. Em 1921, realiza sua primeira individual no Brasil, no Liceu de Artes e Ofícios carioca. A exposição teve crítica negativa em época, apesar de ter sido recebida de maneira relativamente positiva por alguns poucos literatos e artistas. Segundo o crítico de arte José Maria dos Reis Júnior, foi nesse momento que o artista desenvolveu seu problema com o alcoolismo. Visto pela família como uma mancha à imagem do pai, Oswaldo Goeldi é enviado para a Europa em 1922, período em que flerta com pensamentos auto-destrutivos. É através de mensagem e recursos financeiros enviados pela amiga Beatriz Reynal que retorna ao Brasil e é recebido com uma pequena festa.
De volta ao Brasil, Goeldi mergulha ainda mais intensamente em sua produção artística, que mescla, sobretudo nesse momento inicial, a morbidez e a solidão com a paisagem tropical e citadina do Rio de Janeiro, manifestando seu interesse por aquilo que revela o insólito na realidade. Em 1923, Oswaldo Goeldi conhece, nas barcas entre Niterói e Rio de Janeiro, Ricardo Bampi, artista brasileiro com formação em artes gráficas na Alemanha. É com ele que aprende a técnica de xilogravura, seu principal meio de expressão poética até o fim da vida.
Em 1924, o antigo desetendimento com a família se agrava após discussão com o cunhado sobre a venda da Fazenda Alpina, em Teresópolis. Sendo o artista contra a vendê-la, fica ainda mais exaltado ao ser acusação de levar uma vida devassa ocultada pela ideia de ser um artista, o que o leva a bater em Martin Wenger. A disputa só é resolvida judicialmente, com derrota de Goeldi, que vê a fazenda sendo vendida e termina por declinar da herança do pai.
Nos anos entre 1924 e 1930, dividi-se entre pernoites em Niterói e o ateliê na Tijuca, onde trabalha, em geral, embriagado. Sozinho, cria os instrumentos de trabalho necessários à xilogravura, como goivas, utilizando aros de guarda-chuva e bicicleta. O artista também recolhe, seleciona e prepara as madeiras, que se tornam as matrizes de suas impressões.
Em 1929, após viagem à São Paulo, dois artigos sobre o artista, escritos por Mário de Andrade e Geraldo Ferraz, são publicados; mostrando uma mudança no cenário artístico brasileiro. Marca-se, ali, o início do reconhecimento de sua produção.
Na década de 1930, lança o álbum 10 Gravuras em Madeira de Oswaldo Goeldi, com introdução do poeta Manuel Bandeira (1884 - 1968). Apesar de insatisfeito com as impressões, usa o dinheiro recebido da venda dos exemplares para fazer uma viagem à Europa, onde encontra-se com Alfred Kubin e com o amigo Hermann Kümmerly. A visita ao velho mundo aprofunda o sentimento de deslocamento e solidão do artista, que é considerado europeu e/ou alemão no Brasil, pela sua produção artística mórbida e expressionista; mas, na Europa, traz os traços da realidade insólita própria dos trópicos.
No final de 1930, passa a residir em um apartamento alugado em Ipanema, no Rio de Janeiro. Naquele período, Ipanema ainda não era um cobiçado e caro bairro carioca, mas uma região pouco habitada, distante e penetrada pela vasta diversidade da mata atlântica. A experiência com a natureza tropical aprofundou a conexão do artista com a prática da xilogravura e a ideia de um confronto do homem (artista) com a madeira (natureza). Nota-se, neste momento uma preocupação com a capacidade de imbuir seus trabalhos de uma dita "luz tropical".
Até meados de 1940, o maior contato de Oswaldo Goeldi com a classe artística brasileira se deu com aqueles ligados ao campo da literatura. Em 1934, suas xilogravuras ilustraram a conferência sobre o poeta Felippe d'Oliveira feita por José Geraldo Vieira. O artista também contribuiu para periódicos e livros, como Cobra Norato, de Raul Bopp (1898 - 1984), publicado em 1937, com suas primeiras xilogravuras coloridas. Envolve-se profundamente com a obra de Bopp, usando de recursos pessoais para atingir o seu interesse artístico com as gravuras. Ainda em 1937, ilustra também o album André de Leão e o demônio de cabelo encarnado, que traz poema de Cassiano Ricardo.
Em 1941, trabalha na ilustração das Obras Completas de Dostoievski, publicadas pela Editora José Olympio. Em 1955, inicia a carreira de professor, na Escolinha de Arte do Brasil, e, em 1955, torna-se professor da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, no Rio de Janeiro, onde abre uma oficina de xilogravura. Foram seus alunos Adir Botelho (seu assistente e substituto), Anna Letycia (que escreveu sobre Goeldi), Samico, Antonio Dias e Roberto Magalhães. Em 1995, o Centro Cultural Banco do Brasil realiza exposição comemorativa do centenário do seu nascimento, no Rio de Janeiro com curadoria de Noemi Ribeiro, a partir do acervo do Museu Nacional de Belas Artes.
Consolidado como ilustrador, expôs na 25ª Bienal de Veneza, em 1950, e ganhou o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Sua carreira como professor começou em 1952 e, após três anos passou a ensinar xilogravura na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1956 foi realizada sua primeira retrospectiva no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, sua mais importante exposição em vida, e no MAM-SP.