O comércio global de resíduos, ou comércio global de lixo, é o comércio internacional de resíduos entre países para posterior tratamento, descarte ou reciclagem. Nesse tipo de relação comercial, resíduos tóxicos ou perigosos são frequentemente exportados de países desenvolvidos para países em desenvolvimento.

De acordo com o relatório What a Waste: A Global Review of Solid Waste Management, produzido pelo Banco Mundial, os países que mais produzem resíduos sólidos são os mais industrializados e desenvolvidos economicamente."What a Waste: A Global Review of Solid Waste Management." World Bank: 8–13. Urban Development. Web. http://siteresources.worldbank.org/INTURBANDEVELOPMENT/Resources/336387-1334852610766/Chap3.pdf Portanto, os países do Norte Global, que têm maiores taxas de urbanização e melhores índices de desenvolvimento econômico, produzem mais lixo do que os países do Sul Global.

Os atuais fluxos de comércio internacional de resíduos seguem um padrão: resíduos sendo produzidos no Norte Global e exportados e descartados no Sul Global. Vários fatores influenciam no volume de resíduos gerados, incluindo a localização geográfica, o grau de industrialização e o nível de integração na economia global dos países.

Diversos estudiosos e pesquisadores associaram o forte aumento do comércio de resíduos e seus impactos negativos à ascensão da política econômica neoliberal e sua expansão na década de 1980, com a adoção de políticas de "livre mercado".Nixon, Rob. Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Cambridge, MA: Harvard UP, 2011. 1. Print.15 Harv. J. L. & Pub. Pol'y 373 (1992)Fallacies of Free Market Environmentalism, The ; Blumm, Michael C. A liberalização do comércio propõe a desregulamentação, evitando tarifas, cotas ou outras restrições afetem as relações comerciais, com o objetivo de promover as economias dos países em desenvolvimento e integrá-los à economia global.

Os críticos dessa política econômica afirmam que, embora a liberalização do comércio tenha sido projetada para permitir a qualquer país a oportunidade de alcançar o sucesso econômico, as consequências dessas políticas foram devastadoras para os países do Sul Global, paralisando suas economias e criando uma relação de dependência com o Norte Global."Neoliberalism – Neoimperialism." EconomiX-CNRS (2005): 1–12. Web. <http://www.oid-ido.org/IMG/pdf/neoico.pdf >. Mesmo apoiadores dessa política como o Fundo Monetário Internacional afirmam que “o progresso da integração tem sido desigual nas últimas décadas.”"Global Trade Liberalization and the Developing Countries – An IMF Issues Brief. International Monetary Fund. Nov. 2001. Web. 11 Apr. 2014. http://www.imf.org/external/np/exr/ib/2001/110801.htm#i

No âmbito das políticas de liberalização comercial, a importação de resíduos sólidos por países em desenvolvimento é incentivada como um meio para expansão econômica.Johnson, J. “Potential Gains from Trade in Dirty Industries: Revisiting Lawrence Summers’ Memo.” 398–402. Cato Institute. As diretrizes neoliberais preconizam que o caminho para se integrar à economia global é participar da liberalização do comércio e das trocas nos mercados de comércio internacional. A alegação é a de que países menores, com menos infraestrutura, menos riqueza e menos capacidade de produção industrial, deveriam receber resíduos perigosos como forma de aumentar os lucros e estimular suas economias.

Debate atual sobre o comércio global de resíduos

Argumentos favoráveis Os defensores do comércio global de resíduos argumentam que a importação de resíduos é uma transação econômica que pode beneficiar países com pouco a oferecer à economia global. Os países que não têm capacidade para fabricar produtos de alta qualidade podem importar resíduos para estimular sua economia.

Lawrence Summers, ex-presidente da Universidade de Harvard e economista-chefe do Banco Mundial, emitiu um memorando confidencial defendendo o comércio global de resíduos em 1991. O memorando dizia:"Penso que a lógica econômica por trás de despejar uma carga de lixo tóxico num país de menor renda é impecável e deveríamos encarar isso... Sempre pensei que os países na África estão muito 'subpoluídos'; sua qualidade do ar é provavelmente muito ineficientemente baixa se comparada a Los Angeles. Aqui entre nós, o Banco Mundial não deveria estar encorajando mais transferência das indústrias sujas para os países menos desenvolvidos?"Essa posição, que é motivada principalmente pelo lucro econômico e financeiro, exemplifica o principal argumento para o comércio global de resíduos. O Cato Institute publicou um artigo apoiando o comércio global de resíduos sugerindo que "há poucas evidências de que resíduos perigosos, que geralmente são cancerígenos crônicos, contribuem para as taxas de mortalidade nos países em desenvolvimento". Desenvolvendo esse ponto, o artigo argumenta que "as pessoas nos países em desenvolvimento aceitariam racionalmente o aumento da exposição a poluentes perigosos em troca de oportunidades para aumentar sua produtividade - e, portanto, sua renda".

Em geral, o argumento para o comércio global de resíduos se baseia em grande parte na percepção de que os países em desenvolvimento precisam promover seu desenvolvimento econômico. Os defensores sugerem que, ao se engajar no comércio global de resíduos, os países em desenvolvimento do Sul Global expandirão suas economias e aumentarão os lucros.

Críticas Os críticos do comércio global de resíduos argumentam que a falta de regulamentação e políticas fracassadas permitiram que os países em desenvolvimento se tornassem grandes depósitos de lixo tóxico. As quantidades cada vez maiores de resíduos perigosos enviados a países em desenvolvimento aumentam o risco desproporcional que a população dessas nações enfrenta. Eles destacam o fato de que a maioria dos resíduos perigosos do mundo é produzida por países ocidentais (Estados Unidos e Europa), mas as pessoas que sofrem efeitos negativos para a saúde decorrentes da exposição a esses resíduos são de países mais pobres que não os geraram.

Peter Newell, professor de Estudos do Desenvolvimento, argumenta que "a desigualdade ambiental reforça e, ao mesmo tempo, reflete outras formas de hierarquia e exploração através das categorias de classe, raça e gênero".Newell, Peter. "Race, Class, and the Global Politics of Environmental Inequality." Global Environmental Politics 5.3 (2005): 70–94. MIT Press Journals. Web. 14 Mar. 2014. <http://www.mitpressjournals.org/doi/abs/10.1162/1526380054794835>. Argumentando que os efeitos prejudiciais do comércio de resíduos perigosos afetam mais os desfavorecidos do que outros, os críticos do comércio global de resíduos sugerem que as implicações do despejo de resíduos perigosos têm consequências significativas para pessoas não-brancas, mulheres e pessoas de baixa renda em particular.

Criticando o comércio global de resíduos por reproduzir a desigualdade em escala global, muitos ativistas, organizadores e ambientalistas de regiões afetadas no Sul Global manifestaram repúdio às políticas globais de comércio de resíduos. Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, apresenta argumentos contra esse sistema econômico:"Se queremos salvar o planeta Terra, salvar a vida e a humanidade, temos o dever de acabar com o sistema capitalista. A menos que acabemos com o sistema capitalista, é impossível imaginar que haverá igualdade e justiça neste planeta Terra. É por isso que considero importante acabar com a exploração dos seres humanos e a pilhagem dos recursos naturais, acabar com as guerras destruidoras dos mercados e das matérias-primas, à pilhagem da energia, sobretudo dos combustíveis fósseis, ao consumo excessivo de bens e ao acúmulo de resíduos. O sistema capitalista só nos permite acumular lixo."Stefan. "Material World: Evo Morales:A Call for Socialism?" World Socialist Movement. The Socialist Party of Great Britain, n.d. Web. 24 Apr. 2014. <http://www.worldsocialism.org/spgb/socialist-standard/2000s/2008/no-1246-june-2008/material-world-evo-moralesa-call-socialism>.Jean François Kouadio, um morador de uma região próxima a um depósito de lixo tóxico na Costa do Marfim, explica sua experiência com os efeitos de substâncias tóxicas que perduram em sua comunidade. Kuoadio perdeu dois filhos devido aos efeitos dos resíduos tóxicos despejados por grandes corporações ocidentais. Ele descreve a perda de sua segunda filha, Ama Grace, e como os médicos "disseram que ela sofria de glicemia aguda causada pelo resíduo tóxico".Kauodio, Jean Francois. "Dirty Tricks and Toxic Waste in Ivory Coast." BBC, n.d. Web. 26 Apr. 2014. <http://www.informationclearinghouse.info/article23715.htm >. Além das críticas do Sul Global, pesquisadores e acadêmicos do Ocidente começaram a criticar a distribuição desigual dos efeitos negativos que esses despejos de resíduos perigosos estão causando. Dorceta Taylor, professora da Universidade de Michigan, argumenta que as mulheres não-brancas nos Estados Unidos são desproporcionalmente afetadas por essas políticas:"As mulheres não-brancas estão na vanguarda da luta para chamar a atenção para os problemas que estão devastando as comunidades minoritárias - questões como descarte de resíduos perigosos; exposição a toxinas; (...) Suas comunidades, alguns dos ambientes mais degradados (...), são repositórios dos resíduos da produção capitalista e do consumo excessivo. Por isso, elas têm estado na vanguarda da luta pela justiça ambiental; elas são fundadoras de grupos ambientais, ativistas de base, pesquisadoras, organizadoras de conferências, líderes de oficinas, lobistas e organizadoras de campanhas e comunidades."Taylor, Dorceta E. "Women of Color, Environmental Justice, and Ecofeminism." In K. Warren (ed.) Ecofeminism: Women, Culture, Nature(1997), pages 58–70.T.V. Reed, professor de Estudos Ingleses e Americanos na Washington State University, argumenta que a correlação entre colonialismo histórico e colonialismo tóxico é baseada em percepções de terras indígenas como 'desperdício'.Toxic Colonialism, Environmental Justice, and Native Resistance in Silko's "Almanac of the Dead" T. V. Reed MELUS, Vol. 34, No. 2, Ethnicity and Ecocriticism (Summer, 2009), pp. 25–42. https://www.jstor.org/stable/20532677. Ele argumenta que as culturas ocidentais consideraram a terra indígena como "subdesenvolvida" e "vazia", e que as pessoas que a habitam são, portanto, menos "civilizadas". Usando as premissas históricas do colonialismo, o colonialismo tóxico reproduz esses mesmos argumentos ao definir as terras do Sul Global como dispensáveis para os resíduos ocidentais.

Colonialismo tóxico O colonialismo tóxico, definido como o processo pelo qual "Estados subdesenvolvidos são usados como alternativas baratas para a exportação ou eliminação de poluição de resíduos perigosos pelos Estados desenvolvidos", é a crítica central contra o comércio global de resíduos.Laura A. Pratt, Decreasing Dirty Dumping? A Reevaluation of Toxic Waste Colonialism and the Global Management of Transboundary Hazardous Waste, 35 Wm. & Mary Envtl. L. & Pol'y Rev. (2011), http://scholarship.law.wm.edu/wmelpr/vol35/iss2/5 O colonialismo tóxico representa a política neocolonial que continua a manter a desigualdade global por meio de sistemas comerciais injustos. O uso do termo colonialismo se justifica porque "as características do colonialismo, envolvendo dependência econômica, exploração do trabalho e desigualdade cultural, estão intimamente associadas ao novo domínio do colonialismo de resíduos tóxicos".

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