thumb|280px|O antigo Areal da Baronesa, na área mais vegetada junto ao rio, onde hoje se localiza o Quilombo do Areal Os quilombos urbanos de Porto Alegre são um conjunto de onze territórios existentes em Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que se autodeclararam quilombos.Brettas, Andrei."Atlas da Presença Quilombola em Porto Alegre". UFRGS TV, 13/01/2022 Oito foram reconhecidos pela Fundação Palmares, e os demais estão com o processo em andamento.Pires, Cláudia Luisa Zeferino et al. "Uma Porto Alegre Quilombola: seus mapas e suas narrativas". In: Pires, Cláudia Luisa Zeferino & Bittencourt, Lara Machado (orgs). Atlas da Presença Quilombola em Porto Alegre/RS, Volume 1. Letra 1, 2021, pp. 77-81 A Prefeitura reconheceu quatro. São centros de identidade, cultura, tradições e memórias da comunidade negra, mas sua história é geralmente marcada por conflitos, pobreza e discriminação. Segundo Patricia Grossi et al., Porto Alegre é pioneira na emergência de quilombos em território urbano,Grossi, Patricia Krieger et al. "Idosos quilombolas, identidade e território". In: 16º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais: 40 anos da Virada do Serviço Social. Brasília, 30/10-03/11/2019 e de acordo com Cláudia Zeferino Pires, é também a capital brasileira com a maior presença de comunidades quilombolas.Pires, Cláudia Luísa Zeferino. "Quilombos Urbanos e Educação Escolar Quilombola: territórios em disputa - em Porto Alegre/RS. In: Diálogos e Diversidade, 2022 (2) O Quilombo da Família Silva foi o primeiro do Brasil a ter suas terras regularizadas.

Visão geral

thumb|Reportagem da TVE sobre os quilombos de Porto Alegre, 2018 Enquanto que os quilombos primitivamente surgiram no contexto de um sistema escravista e eram locais de reunião de escravos fugitivos, distantes de centros urbanos, os quilombos urbanos atuais, situados em ambientes citadinos multiculturais, fragmentados e dinâmicos, têm sua definição mais ligada à questão étnica da negritude,Gehlen, Ivaldo & Ramos, Ieda Cristina Alves (coords.). Estudo quanti-qualitativo da População Quilombola do Município de Porto Alegre/RS. UFRGS / LAborS, 2008, pp. 52-53 embora o reconhecimento do passado ancestral na escravidão esteja sempre presente. Segundo José Carlos dos Anjos, é significativo que poucos quilombos urbanos de Porto Alegre se autointitulem "remanescentes" de quilombos: "Chamam-se quilombolas em alto e bom som. Não pensam que seus territórios sejam resultados de uma apropriação simbólica, que reinventa uma noção antiga. Seus territórios são quilombos e pronto. [...] Seguir a sério os quilombolas, quando dizem que seu território é um quilombo e que sua cultura é quilombola, implica pesquisar as condições ontológicas de possibilidade desse devir quilombola, como existência, e não como simulacro". Quando reivindicam sua identidade como quilombos, em geral não estão preocupados com uma questão de aprovação social, embora às vezes ela possa estar presente, mas antes de tudo "estão mais preocupados com a garantia de suas condições de existência, enquanto coletivo, em especial com sua segurança territorial".

Os quilombos urbanos porto-alegrenses têm histórias diversificadas. Foram formados em épocas diferentes, a maioria já no século XX, e passaram por situações diferentes. O que os une é uma cultura de base étnica; a auto-identificação de suas populações como quilombolas; suas lutas semelhantes contra a discriminação e pela posse do território onde vivem, muitas vezes violentas, e uma situação de carência crônica de infraestrutura e serviços, sendo todos comunidades pobres e marginalizadas.Gomes, Luís. "77% dos moradores de quilombos de Porto Alegre precisaram sair de casa para trabalhar, diz pesquisa". Sul 21, 18/09/2020 Um estudo de Gehlen & Ramos de 2008 nos quilombos reconhecidos pela Prefeitura mostrou que mais da metade dos adultos tinha o estudo fundamental incompleto, apenas 14% tinham ensino médio completo, apenas 2% chegaram ao ensino superior, quase 60% dos adultos eram trabalhadores precarizados, informais ou biscateiros, 93% das famílias não tinham acesso ao programa de cesta básica do governo federal, as habitações eram precárias e pequenas, 11% não tinham banheiro, 15% não tinham cozinha separada. Queixas sobre dificuldades no acesso à saúde, segurança, moradia, educação, emprego e outros bens e serviços eram generalizadas.Gehlen & Ramos, pp. 66-79 esquerda|thumb|Negros de Porto Alegre em 1895. thumb|esquerda|Negros de Porto Alegre em torno de 1900

A história dos negros na cidade, como em tantas outras, foi marcada pela discriminação, opressão, perseguição e desigualdade, só incluídos da história oficial de maneira negativa e subalterna. Os negros se concentravam principalmente na Bacia do Mont'Serrat, na Colônia Africana, na Ilhota, no Campo da Redenção e no Areal da Baronesa.Anjos, José Carlos dos. "Quilombos na cidade, sob uma perspectiva afro-brasileira". In: Pires, Cláudia Luisa Zeferino & Bittencourt, Lara Machado (orgs). Atlas da Presença Quilombola em Porto Alegre/RS, Volume 2. Letra 1, 2021, pp. 446-460 Ao longo dos séculos XIX e XX essas áreas se tornaram muito valorizadas e as comunidades negras foram despejadas de seus territórios, seja em campanhas de "higienização" e "modernização" da Prefeitura, seja pela pressão da especulação imobiliária, sendo remetidas para as periferias e abandonadas à própria sorte. Se os brancos pobres também foram prejudicados nessas ondas de higienização, a situação dos negros era muito pior, pois ainda havia todo um discurso cientificista classificando-os como raça inferior, irracional, perigosa, dada naturalmente a vícios e vagabundagem.Gehlen & Ramos, pp. 26-28Campos, Deivison Moacir Cezar de. "A ressignificação de Palmares: uma história de resistência". In: Silva, Gilberto Ferreira da; Santos, José Antônio dos; Carneiro, Luiz Carlos da Cunha (orgs.). RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. EDIPUCRS, 2009, pp. 231-245 Segundo Gehlen & Ramos, "além da intervenção no meio urbano, das intervenções físicas, com os bota-abaixo dos cortiços e a eliminação dos becos, era preciso normatizar, disciplinar e controlar estes sujeitos não civilizados".

Porém, alguns pequenos núcleos negros permaneceram ilhados nas "zonas nobres" brancas, formando os atuais quilombos urbanos, e junto com alguns outros centros mais novos e mais distantes da zona central, embora enfrentando frequentes ameaças de esbulho e expulsão, permanecem como focos de resistência, de identidade, de memória e de cultivo de antigas tradições e saberes, bem como focos de produção cultural.Lima, Bárbara. "Territórios quilombolas lutam por uma existência solidária e comunitária na cidade". Jornal da UFRGS, 17/12/2020 São também experiências permanentes de vida em comunidade num espírito solidário, essencial para a superação de carências crônicas em múltiplos níveis. Os quilombos são filiados à Frente Quilombola do Rio Grande do Sul, e são unidos também por um sentimento de pertencimento a uma comunidade maior, envolvendo aspectos de parentesco, sociabilidade e modos de vida. Sandro Lemos, liderança no Quilombo da Família Lemos, disse que os quilombos "são interligados, o que muda é só o CEP, a gente se considera, e somos irmãos, já vem da nossa ancestralidade".

Em 2012 a Prefeitura publicou o Plano Municipal de Promoção da Igualdade Racial, prevendo a adoção de medidas de promoção da saúde, saneamento, segurança, planejamento familiar, desenvolvimento social e econômico sustentável, renda, cidadania, assistência social e segurança alimentar, além de combater abusos aos direitos humanos, e promover a preservação do seu patrimônio cultural material e imaterial e a identificação, titulação e proteção das terras quilombolas.Decreto 17.789, de 11 de maio de 2012. Prefeitura de Porto Alegre Embora o Estatuto da Igualdade Racial de 2010 assegure "aos remanescentes das comunidades dos quilombos o direito à preservação de seus usos, costumes, tradições e manifestos religiosos, sob a proteção do Estado", para obter os benefícios da lei, é preciso o reconhecimento oficial da comunidade como quilombola por parte da Fundação Palmares. A maioria ainda não teve seu território demarcado, o que é um processo separado e compete ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Oito dos onze autodeclarados já foram reconhecidos pela Fundação Palmares, mas a Prefeitura só reconheceu quatro.Os quilombos de Porto Alegre. Prefeitura de Porto Alegre, 12/06/2008 A proteção legal não tem bastado para assegurar os direitos sociais e humanos das populações nem a integridade dos territórios. thumb|O príncipe Custódio, antigo morador da área do Quilombo da Mocambo

A luta pelo território é um dos fatores centrais para o surgimento e fortalecimento da identidade. Antes territórios de exclusão, agora procura-se conceber os quilombos como base para o protagonismo social e político e como focos de culturas ricas e significativas, embora ainda haja um longo caminho a ser percorrido antes que o conceito ganhe aceitação em larga escala. Em 2023 a Prefeitura vetou e a Câmara manteve o veto ao projeto de lei que incluía os territórios negros de Porto Alegre no patrimônio cultural do município.Canto, Andressa de Bem e. "Mantido veto ao projeto que integrava Territórios Negros ao patrimônio cultural da Capital" . Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 13/03/2023 Nas palavras de Daniele Vieira, os territórios negros "são num primeiro momento espaços físicos habitados por pessoas negras. Mas, mais do que isso, são espaços simbólicos, repletos de sentidos e significados relacionados às práticas ali existentes, a uma ancestralidade negra, a uma memória negra, a um modo de ser e estar negro. Para além de espaço físico e apenas funcional – de moradia, de trabalho — estes espaços ganham significados a partir das relações que neles se estabelecem". Embora a população atual possa ser miscigenada, os "territórios negros" são aqueles "nos quais a presença negra é uma questão central".Vieira, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre (1800 – 1970): Geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017, pp. 42-48

Durante a pandemia de covid-19 os quilombos foram duramente afetados, aumentando os índices de fome, dificuldade de acesso ao trabalho, ao emprego e à proteção social.Del Ré, Mégui Fernanda; Santos, Vanessa Flores dos; Koch, Eleandra Raquel da Silva. "Comunidades quilombolas no Rio Grande do Sul, pandemia e necropolíticas". In: Estudos Sociedade e Agricultura, 2022; 30 (1) Um estudo da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre mostrou que durante a pandemia 77% dos moradores dos quilombos da cidade não puderam permanecer em casa; 50% não tinham condições de praticar o isolamento social em caso de contaminação; 70% não tinham mais de um banheiro em casa para uso exclusivo da pessoa infectada, e 40% perderam o emprego. Além disso, os quilombos foram excluídos da primeira rodada de vacinação. Somente em fevereiro de 2021, depois de decisão do Supremo Tribunal Federal, o estado iniciou medidas para combate à epidemia nos quilombos e suspendeu as ações de despejo que estavam em andamento. Durante a pandemia quatro quilombos sofreram tentativas de invasão ou depredações. Onir de Ajaújo, advogado da Frente Quilombola, disse que a demora do INCRA em demarcar os territórios propicia as invasões.Trezzi, Humberto. "Das 11 áreas quilombolas de Porto Alegre, quatro sofreram tentativas de invasões durante a pandemia". Zero Hora, 31/08/2022 Em 2022, após a invasão armada do Quilombo dos Alpes, a Frente Quilombola publicou um Manifesto em Defesa dos Quilombolas de Porto Alegre, onde declarou: thumb|Reportagem do Coletivo Catarse sobre o Quilombo dos Alpes, 2019