A contraofensiva de Carcóvia de 2022 foi uma contraofensiva militar realizada pelas Forças Armadas da Ucrânia no território ucraniano ocupado pela Rússia no oblast de Carcóvia, iniciada em 6 de setembro de 2022.
Durante a ofensiva, a Ucrânia libertou 500 assentamentos e 12 mil quilômetros quadrados no território de Carcóvia.
Contexto As ofensivas russas nos primeiros meses da invasão da Ucrânia conseguiram capturar largos territórios no oblast de Carcóvia, incluindo as cidades estratégias de Izium e Kupiansk. Entretanto, a maior parte do oblast permaneceu sob controle ucraniano, incluindo a capital, Carcóvia, que foi bombardeada incessantemente desde o início das hostilidades com foguetes, artilharia e bombas de fragmentação até meados de agosto.
As forças ucranianas impediram mais avanços russos em Carcóvia e, em março e maio, lançaram contraofensivas empurrando os russos para fora da cidade. Em 6 de junho, um bombardeio russo em Carcóvia matou 606 civis e feriou outros 1.248, de acordo com a Anistia Internacional.
A linha de frente no oblast permaneceu estática pelos meses seguintes, com analistas ucranianos e ocidentais acreditando que a Rússia carecia de forças terrestres para renovar sua ofensiva. O número de mortos em Carcóvia ultrapassou 1 mil em agosto.
Em setembro de 2022, Oleksandr Syrskyi, que estava encarregado da defesa de Kiev no início da invasão e mais tarde recebeu o título de Herói da Ucrânia por seu serviço, foi nomeado para comandar as forças terrestres ucranianas no oblast de Carcóvia. A contraofensiva foi executada sob seu comando.
Contraofensiva
Prelúdio Após semanas de propaganda ucraniana sobre uma contraofensiva no sul do país, a Rússia realocou milhares de soldados, incluindo unidades de elite, para o oblast de Quérson, deixando suas tropas remanescentes em uma "frente esticada e cansada que se estendia por cerca de 1.300 km — aproximadamente a distância de Londres a Praga".
A chegada da artilharia autopropulsada HIMARS fornecida pelos Estados Unidos permitiu que as forças ucranianas atacassem até 70 quilômetros atrás das linhas russas, visando bases e depósitos de munição até Kupiansk e Kivsharivka nas semanas anteriores à contraofensiva. Esses ataques enfraqueceram ainda mais a logística e moral russas.
Em 29 de agosto, a Ucrânia anunciou que em breve lançaria uma ofensiva na região de Quérson, no sul da Ucrânia. Unidades ucranianas atacaram logo depois, e a atenção da Rússia mudou para o sul. Embora a contraofensiva de Quérson possa ter sido genuína, os analistas ocidentais a veem como parte de uma manobra para desviar as forças russas de Carcóvia antes da contraofensiva do leste, que seria muito maior. Em qualquer caso, as forças russas em Carcóvia ficaram sem apoio e despreparadas nos dias anteriores a 6 de setembro.
As autoridades russas adiaram os referendos de anexação na Ucrânia ocupada pela Rússia em 5 de setembro de 2022 devido a questões de segurança.
Primeira fase (6–12 de setembro de 2022) Em 6 de setembro de 2022, as forças ucranianas lançaram a contraofensiva na região de Carcóvia, pegando as forças russas de surpresa. Em uma entrevista de 10 de setembro ao The Guardian, o porta-voz das forças especiais ucranianas, Taras Berezovets, afirmou que a Rússia "pensou que [a contra-ofensiva] seria no sul, mas em vez do sul, a ofensiva aconteceu onde menos esperavam, e isso os fez entrar em pânico e fugir".miniaturadaimagem|A bandeira da Ucrânia hasteada em Balakliia, 8 de setembroAs tropas ucranianas avançaram pelo menos 20 quilômetros em território controlado pela Rússia e recapturaram cerca de 400 quilômetros quadrados de território durante os primeiros dois dias.
Em 9 de setembro, a Ucrânia rompeu as linhas russas, com os militares ucranianos dizendo que haviam avançado quase 50 quilômetros e recapturado mais de 1.000 quilômetros quadrados de território. Este avanço os colocou a aproximadamente 44 quilômetros a noroeste de Izium, a principal base logística russa na região, uma taxa de avanço praticamente inédita desde que a Rússia se retirou de Quieve no início da guerra. O Instituto para o Estudo da Guerra avaliou que as forças ucranianas capturaram aproximadamente 2.500 quilômetros quadrados no avanço.
Um especialista militar disse que foi a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que unidades russas inteiras foram perdidas em uma única batalha.
Ruptura Em 6 de setembro, tendo concentrado suas forças em Pryshyb, uma pequena vila a cerca de 15 km a noroeste de Balakliia, as tropas ucranianas lançaram uma contraofensiva no oblast de Carcóvia, que levou as forças russas de volta à margem esquerda dos rios Donets e Serednya-Balakliika. As forças ucranianas envolvidas eram forças especiais, além de tanques, veículos blindados e tropas da 92.ª Brigada Mecanizada.
No mesmo dia, as forças ucranianas capturaram Verbivka, cerca de 8 km a leste de Pryshyb e menos de 3 km a noroeste de Balakliia. Várias fontes relataram que as forças russas demoliram pontes na periferia leste de Balakliia para impedir novos avanços ucranianos.
As tropas ucranianas partiram então para a ofensiva nas direções de Volokhiv Yar, Shevchenkove, Kupiansk e os distritos de Savyntsi e Kunye, situados a leste de Balakliia. De acordo com fontes russas nesta linha de contato, os ucranianos se opuseram em algumas áreas da linha por forças levemente armadas de separatistas de Donets, enquanto fontes ucranianas disseram que as forças nesta região eram soldados russos profissionais, não conscritos do Donets.
No dia seguinte, as forças ucranianas avançaram cerca de 20 quilômetros em território ocupado pela Rússia, recapturando aproximadamente 400 quilômetros quadrados e alcançando posições a nordeste de Izium. Fontes russas afirmaram que esse sucesso provavelmente se deveu à realocação das forças russas para Quérson, em resposta à contraofensiva ucraniana ali.
Em 8 de setembro, as tropas ucranianas avançaram 50 quilômetros nas posições defensivas russas ao norte de Izium. Unidades SOBR da Guarda Nacional Russa perderam o controle de Balakliia, cerca de 44 km a noroeste de Izium, embora a Ucrânia não tenha estabelecido o controle da cidade até 10 de setembro. Perto da cidade, as forças ucranianas recapturaram a maior base de armazenamento de munição da Direção Central de Foguetes e Artilharia das Forças Armadas da Ucrânia. As forças ucranianas também recuperaram o controle sobre mais de 20 assentamentos. No mesmo dia, a mídia ucraniana informou que as forças ucranianas capturaram um oficial russo de alto escalão na frente de Carcóvia. Com base nas imagens do homem, especulou-se que ele era o tenente-general Andrei Sychevoi, comandante do Distrito Militar Ocidental das Forças Armadas da Rússia.
Em 9 de setembro, o governo provisório apoiado pela Rússia ordenou a evacuação para a Rússia da população de Izium, Kupiansk e Velykyi Burluk. Os residentes locais relataram mais tarde que, neste ponto, os soldados russos na área começaram a fugir das aldeias, deixando para trás seu armamento, antes mesmo da chegada das tropas ucranianas. No final do dia, as forças ucranianas chegaram a Kupiansk, um centro vital na junção de várias das principais linhas ferroviárias que abastecem as tropas russas na linha de frente. O Instituto para o Estudo da Guerra disse acreditar que Kupiansk provavelmente cairia nas próximas 72 horas. Em resposta ao avanço ucraniano, unidades de reserva russas foram enviadas como reforços para Kupiansk e Izium.
Em 10 de setembro, as forças ucranianas retomaram Kupiansk e Izium, e avançavam em direção a Lyman. Uma conselheira do chefe do conselho regional de Carcóvia, Natalia Popova, postou fotos no Facebook de soldados segurando uma bandeira ucraniana do lado de fora da prefeitura de Kupiansk. Agentes de segurança e policiais ucranianos se mudaram para os assentamentos recapturados para verificar as identidades daqueles que permaneceram sob a ocupação russa. Mais tarde naquele dia, o governador do oblast de Lugansk, Serhiy Haidai, afirmou que soldados ucranianos haviam avançado para os arredores de Lysychansk, enquanto guerrilheiros ucranianos teriam conseguido capturar partes de Kreminna. Haidai afirmou que as forças russas fugiram da cidade, deixando Kreminna "praticamente vazia". miniaturadaimagem|300x300px|Tanque russo abandonado pelos russos durante a contraofensiva, Izium O The New York Times disse que "a queda da cidade estrategicamente importante de Izium, no leste da Ucrânia, é o golpe mais devastador para a Rússia desde sua humilhante retirada de Kiev". O porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, respondeu a esses desenvolvimentos afirmando que as forças russas na área de Balakliia e Izium iriam "se reagrupar" na área de Donetsk "para atingir os objetivos declarados da operação militar especial para libertar Donbas". O presidente ucraniano Zelensky disse que "o exército russo hoje em dia está demonstrando o melhor que pode fazer - dando as costas. E, claro, é uma boa decisão." Ele afirmou que a Ucrânia recapturou 2 mil quilômetros quadrados o início da contraofensiva.
Em 11 de setembro, a Newsweek informou que as forças ucranianas "penetraram as linhas russas a uma profundidade de até 70 quilômetros em alguns lugares e retomaram mais de 3 mil quilômetros quadrados de território desde 6 de setembro". Um mapa usado no briefing do Ministério da Defesa russo no mesmo dia confirmou que as forças russas haviam se retirado de Kozacha Lopan, bem como de Vovchansk e de outros assentamentos na fronteira Ucrânia-Rússia. As forças ucranianas também retomaram Velykyi Burluk.
Em 28 de setembro, o Financial Times publicou um artigo com muitos gráficos interativos e deu uma descrição vívida das razões por trás da contraofensiva relâmpago contra Kupiansk. Atribuiu o HIMARS fornecido pelo Ocidente como uma das razões que permitiram à Ucrânia dominar as forças russas em apenas 6 dias, em uma extensão de 90 km (aproximadamente a distância entre Londres a Cambridge), e recuperar mais de 2.500 quilômetros quadrados de terra.
Recuo russo do oblast de Carcóvia Na tarde de 11 de setembro, o Ministério da Defesa da Rússia anunciou a retirada formal das forças russas de quase todo o oblast de Carcóvia. O ministério "anunciou que uma 'operação para reduzir e transferir tropas' estava em andamento". Às 20h daquele dia, mísseis de cruzeiro russos Kalibr atingiram locais críticos da infraestrutura ucraniana (incluindo a usina de energia Kharkiv TEC-5), deixando Poltava, Sume, Carcóvia, Dnipro, Donetsk e partes do oblast de Odessa sem eletricidade. Enquanto isso, confrontos entre atacantes ucranianos e defensores russos continuaram em Lyman.
Em 12 de setembro, de acordo com o resumo do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, as Forças de Defesa ucranianas liberaram as tropas russas em mais de 20 assentamentos, principalmente em Velykyi Burluk e Dvorichna. O chefe russo da autoridade de ocupação de Carcóvia, Vitaly Ganchev, revelou na mídia estatal russa Rossiya 24 que as forças ucranianas superavam as forças russas em "8 vezes". A fronteira com o oblast de Belgorod foi fechada depois que cerca de 5 mil civis foram "evacuados" para a Rússia.
A Ucrânia retomou todo o oblast de Carcóvia a oeste do rio Oskil em 13 de setembro, com a mídia afirmando que as tropas ucranianas haviam entrado em Vovchansk.
Outros ganhos Na manhã de 11 de setembro, o governador do oblast de Lugansk, Serhiy Haidai, afirmou que as forças russas haviam deixado Starobelsk. Na mesma mensagem, ele afirmou que as autoridades ocupacionais russas também estavam saindo de áreas que a Rússia controlava desde 2014, embora não houvesse evidências claras para verificar essa afirmação.