miniaturadaimagem|266x266px|Lapa do Santo - Mapa de Lagoa Santa mostrando a localização da Lapa do Santo em relação aos principais sítios da região nos quais foram encontrados sepultamentos humanos. A região de Lagoa Santa em Minas Gerais, apresenta um rico acervo de sítios arqueológicos, paleontológicos e espeleológicos. A localidade é formada por Planaltos com relevo pouco acentuado e cárstico, onde a topografia apresenta centenas de grutas e abrigos sob rocha em afloramentos calcários, que apresentam características geomorfológicas favoráveis à preservação de registros arqueológicos e paleontológicos. Além disso, a química do solo das cavernas realiza o papel de agente fossilizante e retarda a degradação da parte inorgânica dos ossos. Até a data de setembro de 2021, haviam sido registrados mais 600 sítios arqueológicos presentes na região, sendo os principais o sítio Coqueirinho, Sumidouro, Lapa do Santo, das Boleiras e o conjunto de Lapa Vermelha. O conjunto de mais de 600 sítios abrange diferentes períodos históricos, desde a presença de povos pré-históricos até vestígios de ocupação mais recentes, como a presença de indígenas. O resultado das pesquisas relacionadas a Lagoa Santa trouxeram abundante registros humanos e de fauna demonstrando um grande potencial elucidativo do povoamento do ser humano na América do sul. Foram encontrados entre 200 a 500 fósseis humanos na área de Lagoa Santa, formando a uma ampla coleção osteológica relativa ao Holoceno Inicial nas Américas.esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|Peter Wilhelm Lund, Dinamarquês zoologista. 1801-1880. Primeira escavação

A primeira escavação de Lagoa Santa se deu com o trabalho de Peter Lund, entre 1835 e 1844. Ele explorou aproximadamente 80 áreas, dentre as centenas de sítios localizados com potencial fossilífero. A Gruta do Sumidouro foi o local mais polêmico escavado, por conta do achado de restos de megafauna associados a restos humanos. A partir dessa descoberta, Lund levantou a hipótese de que a ocupação do continente americano teria sido muito anterior ao que se pensava e de que o homem e a megafauna teriam coexistido em Lagoa Santa.

Escavações no século XX

Após a escavação de Lund, a região de Lagoa Santa voltou a ser pesquisada apenas no início do século XX, com o trabalho de equipes do Museu Nacional do Rio de Janeiro e da Academia de Ciências de Minas Gerais. Porém, enquanto as escavações do Museu Nacional não encontraram evidências da convivência entre o homem e a megafauna, as pesquisas realizadas pela Academia de Ciências defendiam a hipótese de Lund sobre a convivência do homem e da megafauna.

Em 1950 foi realizada uma missão americana na região, em que duas respostas às hipóteses de Lund emergiram. Uma vez que nenhum osso de megamamífero foi encontrado nos sítios escavados, concluiu-se que não teria havido uma convivência entre homem e megafauna em Lagoa Santa, entretanto a hipótese de Lund de que a ocupação humana nas Américas teria sido muito mais antiga estava correta, a partir das informações obtidas por datações de por carbono-14.

Após essa missão, ocorreu o trabalho de Annette Laming-Emperaire, nos anos de 1970, com a realização de escavações que mostraram que a ocupação humana em Lagoa Santa podia ser recuada até 11 mil anos e que encontraram um esqueleto humano, com idade estimada entre 11 e 12 mil anos. Esse esqueleto foi batizado de Luzia pelo bioantropólogo Walter Neves e representa um dos esqueletos mais antigos encontrados na América. Por outro lado, não foram achados indícios de contemporaneidade entre homem e megafauna.

Escavações no século XXI

As escavações mais recentes ocorreram entre 2000 e 2009, a partir do projeto “Origens”, coordenado por Walter Neves, onde foram realizadas diversas escavações arqueológicas e paleontológicas em abrigos e grutas da região.

Início da antropologia e arqueologia no Brasil

O histórico arqueológico e paleontológico de Lagoa Santa é fruto de 180 anos de pesquisas e seus registros são bastantes ricos e diversos, demonstrando sinais de ocupação humana que remontam a cerca de 11.500 anos atrás. Os vestígios arqueológicos abundantes da região permitem e permitiram um forte alicerce para o desenvolvimento e entendimento do processo de povoamento das Américas, desde o século XIX até os tempos atuais. Durante os séculos XVIII e XIX as disciplinas modernas de biologia, arqueologia e antropologia estavam em construção e muitos cientistas iniciaram pesquisas interdisciplinares nessas áreas. No Brasil, essas pesquisas se intensificaram com a instalação da corte portuguesa no país, sendo impulsionada pela criação dos museus nacionais.

As pesquisas em Lagoa Santa começaram em 1834, com a chegada do naturalista dinamarquês, Peter W. Lund, em Curvelo, Minas Gerais. Lund vinha de uma excursão pelo interior do Brasil, acompanhado do também naturalista dinamarquês Peter Clausen, e ficou impressionado com os fósseis apresentados a ele por um morador local, o que o fez se instalar na cidade de Lagoa Santa em 1835. Nos dez anos seguintes, Lund explorou arduamente centenas de grutas de Lagoa Santa e obteve milhares de ossos da fauna, dos quais ele fez descrições preliminares de diversas novas espécies. Restos de esqueletos humanos foram encontrados por Lund em seis grutas, sendo a mais marcante a Gruta do Sumidouro, na qual foram encontrados mais de 30 indivíduos misturados com animais extintos da megafauna. Essa convivência era inconcebível para a época, a teoria corrente era de que os seres humanos surgiram na terra após a extinção dos grandes mamíferos. O acervo gerado pelas pesquisas de Lund e Clausen serviu de auxílio no embasamento para construção da teoria evolutiva, através da comparação com os elementos fósseis encontrados e as espécies atuais do continente Sul americano, sendo, até mesmo, citado por Darwin, na origem das espécies.

Impactos das primeiras descobertas de Lagoa Santa

A maioria dos esqueletos encontrados por Lund na Gruta do Sumidouro foram enviados à Europa, o que gerou grande impacto internacional, levando à diversos antropólogos passarem a se debruçar sobre os novos objetos centrais de estudo de Lund: a antiguidade da ocupação humana na América e a convivência entre seres humanos e os mamíferos da megafauna. Inclusive, muitas pesquisas arqueológicas em Lagoa Santa foram guiadas por essas ideias. Alguns antropólogos concordaram com Lund que humanos e megamamíferos conviveram em Lagoa Santa, propondo inclusive hipótese de migração mais antiga para o continente americano. Entretanto, a maior parte dos estudiosos do material de Lund se opuseram à sua afirmação.

No panorama nacional, os crânios encontrados proporcionaram discussões sobre a linhagem de Lagoa Santa, considerada em oposição a dos crânios pré-históricos das populações litorâneas e dos índios atuais. As pesquisas eram centradas em medições detalhadas do crânio por meio de aparatos precisos, sendo que os estudos usavam uma abordagem teórica racialista e tipológica. Lund, por exemplo, acreditava que os crânios de Lagoa Santa apresentavam uma morfologia primitiva, diferente das populações litorâneas pré-históricas e dos índios atuais. Essa hierarquização das populações humanas quanto ao grau de desenvolvimento humano ocorria com frequência e Lagoa Santa era considerada na parte inferior do desenvolvimento biológico e cultural. Um fator fomentador dessas ideias era o fato do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que na segunda metade do século XIX era o centro dos estudos científicos brasileiros, manter contato com a Europa, de onde vinham ideias de frenologia, anatomia comparada e evolucionismo social.

Intervenções Arqueológicas em Lagoa Santa no Século XX

No século XX, a consolidação de outros grandes museus no Brasil marcou um momento de mudanças políticas e institucionais no país. Além disso, as pesquisas nacionais em antropologia estavam bastante voltadas para a diversidade biológica da população brasileira. Esse novo panorama moldou as intervenções arqueológicas em Lagoa Santa no começo do século XX.

A primeira escavação do século XX ocorreu na região de Lapa do Caetano, realizada por Cássio Lanari, que escavou pelo menos três esqueletos humanos. Esses ficaram de posse da família Lanari até serem doados ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. Em 1926 retomou-se às escavações em Lagoa Santa com suporte institucional; Jorge Padberg-Drenkpol, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, buscou testar as ideias de Lund realizando intervenções arqueológicas em Lagoa Santa. Foram escavadas os sítios de Lapa d’Água, Lapa da Amoreira, Lapa do Caetano, Lapa da Limeira e Lapa Mortuária, que continham ossos de humanos e animais, incluindo cerca de 100 esqueletos humanos bastante fragmentados. Tempos depois, Ávila realizou escavações na Lapa das Carrancas, que resultaram em 12 esqueletos humanos. Apesar da quantidade de ossos obtidos, há pouca informação sobre o contexto arqueológico dos materiais.

Paralelamente, a Academia de Ciências de Minas Gerais (ACMG) passou a fazer escavações arqueológicas e paleontológicas na região, realizando-as entre 1930 e 1960. Muitos esqueletos humanos foram obtidos das intervenções arqueológicas, inclusive o crânio do Homem dos Confins, exumado nos anos de 1933 e 1935 da Lapa Mortuária de Confins, junto com o crânio de um cavalo extinto. Esse material foi alvo de tentativas de datação relativa com flúor e fosfato, mas sem resultados conclusivos devido às limitações técnicas da época.

Neste contexto, o debate sobre a origem e a morfologia craniana dos habitantes de Lagoa Santa retomaram, tendo os grupos de pesquisa do Museu Nacional e da ACMG posições divergentes quanto ao tema. O grupo de Minas Gerais defendia a contemporaneidade entre a megafauna extinta e os esqueletos humanos da região, já os pesquisadores do Museu Nacional defendiam a posição oposta. O Homem dos Confins foi utilizado como objeto central da discussão. Deste modo, nota-se que a ACMG e o Museu Nacional foram essenciais para a retomada dos estudos brasileiros em Lagoa Santa.

Missões internacionais miniaturadaimagem|305x305px|Reconstituição de indivíduo humano de sexo feminino (Luzia) com base nos remanescentes do crânio achado em Lapa Vermelha IV, Lagoa Santa, Minas Gerais. Durante a segunda metade do século XX, o Brasil deixou de ser central nas pesquisas das disciplinas de arqueologia, antropologia e biologia. Lagoa Santa continuou a ser estudada principalmente por pesquisadores do Museu Nacional do Rio de Janeiro, com parceria de arqueólogos estrangeiros.

A década de 1950 foi marcada pelas intervenções lideradas por Wesley Hurt, da Universidade de Dakota do Sul, que tinha como objeto principal do estudo a coexistência entre humanos e megafauna extinta. A equipe encontrou 24 sepultamentos e bastante material lítico no abrigo da Lapa das Boleiras e no maciço de Cerca Grande. As datações radiocarbônicas confirmaram a antiguidade dos materiais achados e, consequentemente, comprovaram a ideia de Lund de que a ocupação das Américas era mais antiga do que se imaginavam. Entretanto, não foram encontrados indícios da megafauna extinta, o que embasou a ideia defendida pelos pesquisadores do Museu Nacional.