Batalha de Três Lagoas foi uma ofensiva de revolucionários tenentistas contra as forças do governo do Brasil em 18 de agosto de 1924, estendendo a Revolta Paulista para o sul de Mato Grosso. Liderados por Juarez Távora, os revoltosos vindos de São Paulo sofreram baixas pesadas ao atacar o destacamento legalista do coronel Malan d'Angrogne, na localidade de Campo Japonês, ao sul de Três Lagoas. Esta derrota frustrou a ambição dos revoltosos de se fixar em Mato Grosso, obrigando-os a empreender a Campanha do Paraná.
Os revolucionários esperavam adesões nesse estado, que já era foco de conspiração tenentista, e uma geografia fácil de defender, na qual fundariam a "Brasilândia" ou "Estado Livre do Sul", para prolongar sua guerra contra o governo federal. O primeiro alvo seria Três Lagoas, onde a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil cruzava o rio Paraná. A partir de Porto Tibiriçá, na margem paulista do rio, uma primeira expedição revolucionária foi repelida pela Circunscrição Militar de Mato Grosso em 12 de agosto.
Ambos os lados trouxeram reforços: o batalhão de Juarez Távora e o destacamento Malan, com tropas de Minas Gerais. Os revolucionários desembarcaram no Porto da Moeda no dia 17. O plano de Juarez era manter uma companhia no lado esquerdo, em frente aos legalistas no Campo Japonês. Pela direita, atacar a retaguarda de Porto Independência com sua tropa de choque de combatentes estrangeiros. Um erro de manobra fez a companhia direita atacar o Campo Japonês na manhã do dia 18, deixando o flanco direito exposto.
A primeira linha defensiva legalista, uma companhia da Força Pública de Minas Gerais, cedeu a uma carga de baionetas. Isto deu tempo para que uma companhia do 12.º Regimento de Infantaria atacasse com metralhadoras pesadas o flanco exposto. Seguiu-se uma fuga generalizada dos revolucionários, agravada por um incêndio na macega seca, até o embarque dos sobreviventes para regressar a Porto Tibiriçá. Um oficial tenentista chamou o ocorrido de "mais sangrento combate da revolução paulista".
Influência tenentista na região O sul de Mato Grosso (que ainda não havia separado do norte) tem uma longa história com o tenentismo, episódio de uma participação militar mais ampla nas lutas políticas locais. A baixa oficialidade da Circunscrição Militar de Mato Grosso aderiu maciçamente à primeira revolta tenentista, iniciada em 1922 no Rio de Janeiro. O levante foi chefiado pelo comandante da Circunscrição Militar, o general Clodoaldo da Fonseca, mas ele não foi o verdadeiro cabeça e apenas acompanhou a iniciativa e pressão da oficialidade jovem. A adesão à revolta não foi compartilhada por todas as guarnições e nem por todas as patentes; houve manifestações legalistas de sargentos. O governo estadual em Cuiabá não aceitou a revolta, e não houve entusiasmo popular. Os revoltosos baixaram suas armas sem resistência quando forças legalistas de São Paulo chegaram à divisa.
Vários dos envolvidos exilaram-se nos países vizinhos, escapando à prisão, e a região tornou-se um foco de conspiração militar. A segunda revolta tenentista, deflagrada em 1924 em São Paulo, teve entre seus principais articuladores o capitão Joaquim Távora. Em 1922, este oficial comandara o 17.º Batalhão de Caçadores (BC), de Corumbá, a principal força dos revoltosos em Mato Grosso. Ele foi preso, liberto e considerado desertor, dedicando-se à conspiração. Os planejadores do novo levante contavam com adesões em Mato Grosso, tendo inclusive preparado ordens para as unidades de Coimbra, Corumbá, Campo Grande e Bela Vista. Após a deflagração do movimento em 5 de julho, esta previsão se concretizou, ainda que menor do que o planejado.
Revolta do 10.º RCI miniaturadaimagem|Mapa das guarnições mato-grossenses em 1921
Rumores de levante surgiram em Campo Grande e em Corumbá, onde a flotilha de Mato Grosso recebeu ordens do general João Nepomuceno da Costa, comandante da Circunscrição Militar, para bombardear o 17.º BC se ele aderisse à revolta. Mas só houve levante de fato em Bela Vista, no 10.º Regimento de Cavalaria Independente (RCI). Em 12 de julho, oficiais liderados pelos tenentes Pedro Martins da Rocha e Riograndino Kruel prenderam o comandante, o tenente-coronel Péricles de Albuquerque, e dois capitães de sua confiança. Seu objetivo era se unir aos paulistas.
Os revoltosos ocuparam a estação telegráfica, mas o telegrafista Bonifácio Ferreira conseguiu avisar as autoridades e manter os sargentos do regimento a par das contramedidas legalistas. O general Costa ordenou o bloqueio das saídas de Bela Vista para Ponta Porã, Miranda, Nioaque, Aquidauana e Porto Murtinho. A revolta seria sufocada pelo 11.º RCI, de Ponta Porã, apoiado pelo governo estadual, a Companhia Mate Laranjeira, guardas aduaneiros, vaqueanos e outros. Mas a revolta foi controlada dentro do próprio regimento pelos sargentos, que prenderam seus oficiais na revista do recolher, na noite de 12 de julho. Dois cabos foram feridos pelos revoltosos nesse momento. Esse raro caso de contrarrevolução pelas patentes inferiores foi recompensado pela promoção de 18 sargentos.
O comando da Circunscrição tinha motivos para crer que Bela Vista seria o polo irradiador de revoltas em outras guarnições. Segundo o general Costa, a oficialidade era "quase a mesma [a de 1922], ainda acrescida de novos elementos partidários exaltados contra o candidato vencedor do último pleito presidencial". Constantes atrasos no pagamento dos salários descontentavam a baixa oficialidade e os praças. Faltavam oficiais, e os poucos existentes, nas palavras do oficial, dividiam-se em três grupos: os "francamente revoltosos", os "declaradamente simpáticos" e os "sem ardor pela causa da sustentação do atual governo". Alguns oficiais saíram de Mato Grosso por conta própria para se juntar aos paulistas, e a perspectiva de conseguir adesões foi um dos motivos para a incursão do exército revolucionário no estado.
Situação operacional Mobilização da Circunscrição Militar de Mato Grosso miniaturadaimagem|Conscritos mato-grossenses em 1923 Em resposta à revolta em São Paulo, o Exército iniciou uma grande mobilização e concentração de efetivos em Campo Grande. As unidades mato-grossenses estavam desfalcadas de pessoal e material, do qual o comandante da região já alertava em telegramas ao Rio de Janeiro desde antes do conflito. Somente o 16.º, 17.º, 18.º BCs, um grupo do 11.º Regimento de Artilharia Montada (RAM) e o 10.º RCI estavam minimamente organizados. A convocação de reservistas, recém-implantada no Exército, teve resultados pífios. Os coronéis, antigos oficiais da Guarda Nacional, foram muito mais eficazes; dos aproximadamente dois mil homens disponíveis, pelo menos metade eram irregulares ("elementos patrióticos") convocados por agentes privados, formando unidades de reserva como o 66.º, 67.º e 68.º BCs e o 50.º RCI. Reservistas serviam nessas unidades, mas os oficiais eram muitas vezes da Guarda Nacional, e, portanto, de pouca confiança do Exército.
Os planos para debelar a revolta em São Paulo incluíram desde o início a Circunscrição Militar do Mato Grosso: ela contribuiria com uma das três brigadas que viriam dos estados vizinhos para ocupar a retaguarda dos revoltosos, isolando-os na cidade de São Paulo. O primeiro objetivo era ocupar emergencialmente a cidade de Três Lagoas, na divisa com São Paulo. Por conter a passagem da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil pelo rio Paraná, ela centrou as operações de 1922 e 1924. A primeira unidade a chegar foi a 1.ª Companhia do 17.º BC. No decurso do conflito, a cidade tornou-se centro logístico com grandes estoques de material bélico e gêneros alimentícios.
A corrida para Bauru miniaturadaimagem|Situação militar do interior paulista em julho Em seguida, era preciso ocupar rapidamente Bauru, em São Paulo. Esta cidade, na convergência de três estradas de ferro, era passagem quase obrigatória da capital paulista para Mato Grosso. Entretanto, os legalistas mato-grossenses foram lentos demais para impedir a ocupação da cidade pelos revoltosos em 18 de julho. O trajeto de Campo Grande a Três Lagoas pela via férrea durava algumas horas, mas vinte dias se passaram das ordens de concentração até a chegada ao destino. O transporte era precário — a Circunscrição nem mesmo tinha caminhões próprios, dependendo de particulares. O início das operações foi marcado pela desorganização, a improvisação e a desconfiança do governo com suas tropas. Uma carta anônima publicada mais tarde no jornal A Capital acusou o general Nepomuceno de inépcia.
Só em 29 de julho a primeira força cruzou o rio Paraná, na divisa, e mesmo assim foi atrasada por falta de víveres e munição. A essa hora o exército revolucionário já havia abandonado a cidade de São Paulo e chegado a Bauru, rumando na direção do rio Paraná. Em vez de tomar a Noroeste diretamente para Três Lagoas, eles decidiram chegar à divisa pela Estrada de Ferro Sorocabana, passando por Botucatu. Em 1.º de agosto a Circunscrição foi organizada como um Destacamento de Exército, com duas brigadas mistas e uma brigada de cavalaria. A vanguarda para a ocupação de Bauru seria a 1.ª Brigada Mista, do tenente-coronel Ciro Daltro, mas ele pode ter deliberadamente atrasado o movimento por simpatizar com o oponente. A 5 de agosto a cidade estava ocupada pelo 18.º BC e o 50.º RCI, mas os rebeldes já haviam abandonado o local. Os mato-grossenses encontraram-se ali com o coronel Malan d'Angrogne, que trazia sua própria coluna legalista vinda de Minas Gerais. O "destacamento Malan" era composto das forças anteriormente comandadas pelo general Martins Pereira, acrescidas do 12.º Regimento de Infantaria (12.º RI), de Belo Horizonte.
Operações no rio Paraná miniaturadaimagem|Situação militar no extremo oeste paulista e margens do rio Paraná em agosto As tropas presentes em Bauru foram retiradas para defender Três Lagoas, mas este movimento foi demorado. Mais a sul na divisa, espiões do 11.º RCI vigiavam a passagem fluvial na direção do Paraná. 60–120 homens do 66.º BC, comandados pelo coronel Germano Fetchner, ficaram no Porto XV de Novembro, na foz do rio Pardo. Este local era separado do povoado paulista de Porto Tibiriçá, em Presidente Epitácio, pelo rio Paraná. Porto Tibiriçá foi ocupada em 6 de agosto pela vanguarda do exército revolucionário, aprisionando um pequeno contingente legalista e os vapores Guairá, Paraná, Rio Pardo, Brilhante e Conde de Frontin.
Com apenas recrutas despreparados e em posição desvantajosa no terreno, o comandante abandonou o Porto XV de Novembro e fixou novas posições em Porto Uerê, deixando a navegação livre no rio Paraná. O tenente Aprígio, do exército revolucionário, embarcou quinze soldados no vapor Brilhante, ocupou XV de Novembro e subiu precipitadamente o rio Pardo. À altura da fazenda Uerê, foi emboscado e morto com a maior parte do seu destacamento pelos "patriotas" de um fazendeiro local, o major Manuel Cecílio. Este não soube aproveitar o êxito. Um contingente revolucionário maior estabeleceu patrulhas de cavalaria até as alturas da fazenda Uerê.
Em Porto Tibiriçá, o comando revolucionário divergia sobre o próximo passo, que poderia ser Mato Grosso ou o Paraná. Informado que Três Lagoas estava fracamente defendida, o general Isidoro Dias Lopes, líder da revolta, preferiu Mato Grosso, pois traria resultados imediatos. Asdrúbal Gwyer de Azevedo, comandante da vanguarda, queria um ataque imediato a Três Lagoas, mas a liderança demorou demais para decidir. O governo teve tempo para reforçar o local; as tropas em Bauru já haviam regressado a Três Lagoas em 10 de agosto, e no dia 13 as primeiras forças do destacamento Malan entraram em Mato Grosso.
A ofensiva em Mato Grosso O projeto da "Brasilândia" miniaturadaimagem|Margens do rio Paraná em Três Lagoas