Luís de Orleães e Bragança (Petrópolis, 26 de janeiro de 1878 – Cannes, 26 de março de 1920), cognominado "o Príncipe Perfeito", foi um príncipe brasileiro, segundo filho da princesa Isabel, Princesa Imperial e do príncipe Gastão, Conde d'Eu, integrando, assim, a família imperial brasileira.SANTOS, Armando Alexandre dos. Dom Pedro Henrique, o Condestável das Saudades e da Esperança. 1° ed. São Paulo: Artpress, 2006, pp. 22-23.
Nascido no Brasil durante o reinado de seu avô, o imperador D. Pedro II, Luís viveu a ruptura institucional de 1889 ainda na infância e seguiu para o exílio com seus familiares após a Proclamação da República. Na França, concluiu a formação escolar na École Saint-Jean, em Versalhes, e posteriormente no Stanislas College, inserindo-se no ambiente educacional francês do período.
Ao longo da juventude e da vida adulta, dedicou-se à escrita, reunindo textos que mais tarde seriam publicados como relatos de viagem e memórias de suas experiências, incluindo a tentativa de retorno ao Brasil em 1907, em oposição ao decreto de banimento da família imperial.BR História, edição nº 4, Ano 1, Duetto, 2007Orléans e Bragança, Luiz. Sob o Cruzeiro do Sul Após a renúncia de seu irmão, em 1908, passou a ocupar a posição de principal pretendente dinástico ao abolido trono brasileiro. Nessa condição, manteve articulação com círculos do movimento monarquista e apoiou iniciativas voltadas à restauração da monarquia no Brasil.DE WERK, KAUÊ (2020). ORLEANS & BRAGANÇA A CASA IMPERIAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, RJ. Brasil: [s.n.] p. 109
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, alistou-se como oficial nas Forças Armadas britânicas e serviu em operações em Flandres. Durante o conflito, contraiu uma forma severa de reumatismo ósseo, enfermidade que agravou seu estado de saúde e levou à sua morte, aos 42 anos.
Infância e Juventude Luís nasceu em 26 de Janeiro de 1878, no Palácio Isabel em Petrópolis. Era o terceiro filho, segundo menino, da princesa imperial D. Isabel, e do seu marido, o príncipe consorte Gastão. O príncipe foi batizado em 14 de março na Capela Imperial do Rio de Janeiro, e Recebeu o nome de: Luís Maria Filipe Pedro de Alcântara Gastão Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleães e Bragança. Teve como padrinhos o seu avô paterno, o príncipe Luís, Duque de Némours, representado pelo conselheiro de Estado e senador do Império, o Visconde de Bom Retiro, e sua tia paterna, a princesa Margarida de Orleães, representada pela Baronesa de Santana.
Assim como os demais membros da família imperial, ele pertencia ao ramo brasileiro da Casa de Bragança, sendo referido desde seu nascimento com o prefixo honorífico de "Dom". Sua mãe era a filha mais velha e herdeira presuntiva do imperador D. Pedro II, já seu pai era o filho mais velho do príncipe francês Luís, Duque de Némours e da princesa Vitória de Saxe-Coburgo-Koháry, uma prima da rainha Vitória. Seu avô materno D. Pedro II era filho do imperador e rei Pedro I do Brasil & IV de Portugal, e da aquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria. Enquanto seu avô paterno o Duque de Némours era filho do rei Luís Filipe I de França e da princesa Maria Amélia de Nápoles e Sicília.
Muito cedo revelou interesse pelas letras que, ao se tornar adulto, faria-o dedicar-se a escrever diversas obras que mais tarde publicou relatando suas experiências de viagens: Dans les Alpes, Tour d´Afrique, Onde quatro impérios se encontram, Sob o Cruzeiro do Sul.BR História, edição nº 4, Ano 1. Duetto, 2007, pg.35 Destacado entres os irmãos como o mais estudioso, sua educação incluía escrita, leitura, história, geografia, ciências naturais, desenho, aritmética, álgebra e linguística, em português, francês, e alemão. thumb|left|200px|Luís em 1893.Luís, de natureza irrequieta, a necessidade e ação que, nos anos juvenis, o impelia a esportes impulsionou-o, na maturidade, à ação política.BR História, edição nº 4, Ano 1, Duetto, 2007 Não sendo a toa que no auge da campanha abolicionista, ele e seus irmãos publicavam um jornal abolicionista no Palácio de Petrópolis.CARVALHO, José Murilo de, D. Pedro II, Companhia das Letras, 2007
Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a família imperial se viu numa situação financeira muito complicada, que piorou com a recusa de Dom Pedro II de cinco mil contos de ajuda de custo oferecidos pelos governo republicano.CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. Companhia das Letras, 2007, pg.188 Após passarem por Portugal e Espanha, Resolveram fixar-se nos arredores de Versalhes em 1890, quando Luís tinha treze anos.Carvalho 2007, p. 235.
Vida adulta
Em 1907 Luís planejou um projeto ambicioso que seria desafiar o decreto de banimento da família imperial, viajando para o Rio de Janeiro.<BARMAN, Roderick J., Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX, UNESP, 2005 Sua chegada tendo sido noticiada em alguns jornais, o episódio alcançou grande repercussão entre monarquistas, colocando os descendentes da família imperial no centro das atenções e muitos monarquistas vieram recebê-lo. No entanto, Luís foi impedido de desembarcar, e não lhe foi permitido pisar sua terra natal pelo governo republicano. Do navio, ele enviou um telegrama à sua mãe, dizendo: "Impedido de desembarcar pelo governo, saúdo, da baía da Guanabara, na véspera do 13 de Maio, a redentora dos cativos." Algum tempo depois, relatou as experiências dessa viagem em "Sob o Cruzeiro do Sul", publicado em 1913.
Casamento thumb|Luís e sua esposa, Maria Pia.Depois de um longo périplo pela Argentina, Chile e Peru, Luís voltou à França, ao encontro dos pais e irmãos.
Em 1903, quanto tinha 25 anos, começou a pensar em casamento e, então, passou a visitar os parentes, entre os quais os "Caserta", como eram conhecidos os Bourbon-Sicília. A família Caserta era numerosa, o casal tinha tido doze filhos, oito meninos e quatro meninas, das quais a princesa Maria Pia era a terceira. Inteligente e bonita, com cabelos negros de azeviche e seus olhos azuis pervinca, tinha a mesma idade de Luís. Logo eles ficaram noivos. Entretanto, eles deveriam passar por uma prova de paciência. O irmão mais velho de Luís, Pedro, então herdeiro da Princesa Isabel, tinha, por sua vez, conhecido a jovem condessa Elisabeth de Dobrzenicz. Na época, as regras das casas reais eram restritivas e formais. O herdeiro de um trono só podia casar-se com uma princesa de sangue real. Sua mãe, Dona Isabel, se opôs inicialmente a esse casamento, e pediu junto ao marido, para que o filho aceitasse um espera de cinco anos de reflexão antes de tomar sua decisão.
Em 1908, após os cinco anos de reflexão, Pedro ficará ainda fiel a sua escolhida, e então, renunciou a seus direitos e sua posição como herdeiro de sua mãe em 30 de outubro, oque fez de Luís o novo herdeiro.
Nessa altura, o Conde d'Eu, pai de Luís, tenta rever seus direitos sucessórios franceses, perdidos quando de seu casamento com a Princesa Isabel em 1964. O Conde d’Eu tinha um desejo em deixar uma descendência principesca puramente francesa, e como seu filho mais velho havia renunciado, não haveria problema em que a sucessão francesa viesse a cair na Casa Imperial do Brasil. Um acordo foi firmado em 1909, e ficou conhecido como Declaração de Bruxelas, onde foi reconhecido o pertencimento dos descendestes do Conde d’Eu como membros de um ramo da Casa Real Francesa, assim como o título de Príncipes de Orleães e Bragança para sua descendência.
Luís casou-se com a princesa Maria Pia das Duas Sicílias em 4 de novembro de 1908, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Cannes; e seu irmão Pedro, casou-se, em 14 de novembro, com a condessa Elisabeth de Dobrzenicz, na igreja de Versalhes, após renunciar a seus eventuais direitos ao trono do Brasil.Roderick J. Barman, Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX , UNESP, 2005
Do matrimônio de Luís com Maria Pia nasceram três filhos: Pedro Henrique (1909-1981); Luís Gastão (1911-1931), que faleceu jovem e sem deixar herdeiros, e Pia Maria (1913-2000), futura Condessa René de Nicolay.
A princesa Isabel não tardou a manifestar sua opinião quanto aos netos, escrevendo em 1914 uma carta dizendo: "envio-lhe uma fotografia minha com meus netos do Luís. Pedro Henrique cada vez se desenvolve mais e é criança inteligentíssima. Os avós têm um amor especial pelos queridos netinhos".Lourenço Luiz Lacombe, Instituto Histórico de Petrópolis, 1989, 288 pág. pág. 275-276 .
Atuação política Com a renúncia do irmão, e a ascensão de Luís como novo herdeiro de sua mãe, ele pôde finalmente colaborar efetivamente com o movimento monarquista brasileiro, assumindo claramente sua posição como pretendente ao trono (após sua mãe) e buscando assumir a liderança da campanha restauradora.LIMA, Manuel de Oliveira. O Império brasileiro. São Paulo: USP, 1989, p.70-71 (originalmente públicado em 1927 disponível pela biblioteca brasiliana na versão de 1927) Seu esforço para reverter todo o mal causado pela inércia da família imperial quanto à causa monárquica foi de grande valia, e em 1909 apresentou um manifesto político aos monarquistas brasileiros que tinha por objetivo retomar a campanha que estava estagnada havia anos. Seu intentou logrou sucesso, pois conseguiu reunir correligionários em diversos estados do Brasil.BR História, nº 4, Year 1, Duetto, 2007, p.35 Algumas das cartas de Luís revelam seus planos de restauração, como a escrita para Martim Francisco de Andrada III:MARTINS, Luís. O patriarca e o bacharel. 2.ed. São Paulo: Alameda, 2008, p.148
Atuou de 1907 até falecer prematuramente em 1920, e defendia o federalismo, o serviço militar obrigatório e uma melhoria na qualidade de vida dos operários. No primeiro caso, era a favor de uma maior descentralização e liberdade política e econômica para os estados brasileiros. No segundo, refutava o antigo costume de alistamento das forças armadas baseado em indivíduos provenientes das camadas sociais marginalizadas em favor de uma força militar verdadeiramente profissional formada por elementos de toda a sociedade. O terceiro e mais importante caso era a pregação de uma monarquia amparada numa legislação social que possibilitasse melhores condições de vida para os operários brasileiros.BR História, nº 4, Year 1, Duetto, 2007, p.31 e p.33 Em carta expôs seus pensamentos:
Luís defendia ideias muito a frente de seu tempo e a necessidade de garantir condições dignas de subsistência para os trabalhadores brasileiros seria observada somente trinta anos depois na ditadura de Getúlio Vargas. No início do século XX, tanto o governo quanto os políticos brasileiros sequer admitiam a possibilidade de existência de direitos básicos como férias, greve, horas máximas semanais de trabalho, entre outros. A visão progressista de Luís o fazia ser acusado de "radical" e "socialista" quando na realidade seu intento era justamente impedir a adesão do operariado ao socialismo, comunismo ou mesmo ao anarquismo.BR História, edição nº 4, Ano 1. Duetto, 2007, pg.35
A Primeira Guerra Mundial e últimos anos Em agosto de 1914 se iniciou a Primeira Guerra Mundial, que na época foi conhecida como "A Grande Guerra". Luís, que estava até então servindo no exército austríaco, procurou se alistar para combater ao lado dos aliados. O governo francês tinha indeferido seu pedido, pois todo o príncipe de sangue francês estava automaticamente excluído das forças armadas.
Luís então voltou-se para a Bélgica, pois era aparentado com o rei Alberto I, já que a rainha Luísa, avó deste, era filha de Luís Filipe I. O rei respondeu que a situação seria constrangedora diante de seus aliados, exclusivamente a França. Ele então dirigiu-se ao rei Jorge V do Reino Unido, cujo avó, a rainha Vitória, era prima irmã da Duquesa de Némours. Jorge aceitou engajá-lo como tenente, ao lado do 1 corpo britânico do general Douglas Haig.