Durval Muniz de Albuquerque Júnior (Boqueirão, 1961) é um historiador e professor universitário brasileiro, notório por suas contribuições nos campos da teoria da história e história da historiografia, especialmente no estudo da constituição histórica, discursiva e imaginária do nordeste brasileiro. Sua obra A invenção do Nordeste e outras artes foi aclamada na historiografia contemporânea, recebendo inclusive uma adaptação enquanto peça teatral.

Infância e a Decisão de Ser Professor: Durval relata que sua vocação foi definida muito cedo, por volta dos 9 anos de idade, quando recebeu a tarefa de alfabetizar sua irmã. Como viviam em uma fazenda sem escola próxima, foi alfabetizado pela própria mãe, uma figura central em sua vida, descrita por ele como uma mulher urbana e moderna (técnica de laboratório) deslocada para o mundo rural. Descreve a mãe como seu grande modelo e contraponto ao pai, com quem tinha uma relação mais difícil e distante, marcada pela rigidez da figura masculina sertaneja tradicional.

Trajetória acadêmica Durval Muniz completou sua licenciatura em História na Universidade Estadual da Paraíba, em 1982. Concluiu, no ano de 1988, o mestrado em História na Universidade Estadual de Campinas, realizando também o doutorado na mesma instituição. Possui um pós-doutorado em Educação pela Universidade de Barcelona e em Teoria e Filosofia da História pela Universidade de Coimbra. Foi professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde atualmente leciona no programa de pós-graduação em história, além de ser professor visitante da Universidade Estadual da Paraíba. Também participa do programa de pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco. Um dado sobre a formação do renomado professor é que segundo Durval, em entrevista ao podcast Cata Ehventos diz ter tido uma formação acadêmica marxista durante a Ditadura, mas sem acesso direto aos textos de Marx (que eram proibidos ou de difícil circulação). Sua base foi formada por leitores brasileiros de Marx, como Caio Prado Júnior. Além disso, relata que alguns autores em "proibidos" ou malvistos em seu curso, Gilberto Freyre foi um deles, considerado conservadores em demasia, o que teria gerado uma curiosidade tardia no autor para lê-los e, posteriormente, desconstruí-los. Ainda no campo das curiosidades, Durval foi um grande entusiasma da criação do Partido dos Trabalhadores - PT, em Campina Grande, chegando a ser candidato a vereador (com votação expressiva de seus alunos, mas insuficiente) e atuou como locutor no primeiro comício de Lula na cidade.

Pós-Graduação e a Ida para o Sudeste (Unicamp) A mudança para Campinas é narrada como um ponto de virada (o "choque" do frio e da cidade grande).

Mestrado e Doutorado na Unicamp: Foi aprovado em segundo lugar na seleção, o que surpreendeu a muitos por vir de uma universidade do Nordeste.

Vida Pessoal: Morou na casa de seu tio Jober, no bairro Jardim Eulina, período de adaptação intensa e dedicação exclusiva aos estudos.

A Crítica Decisiva: Conta que um professor - Robert Slenes (por vezes identificado como seu orientador ou um avaliador inicial) criticou seu primeiro texto dizendo: "Você não escreve como historiador, escreve como sociólogo e economista". Essa crítica foi fundamental para que ele buscasse uma narrativa historiográfica própria, mais literária e fluida.

Influências e Referências Citadas Professores Influenciadores

Robert Slenes (Bobby): Seu orientador na Unicamp. Durval o descreve com muito carinho como um orientador aberto, que lhe deu total liberdade intelectual para pesquisar temas que fugiam à ortodoxia da época (como a história cultural e das sensibilidades), além de ser uma figura humana acolhedora.

Edgar de Decca: Citado frequentemente como uma influência intelectual marcante, especialmente pelo livro "O Silêncio dos Vencidos", que ajudou a moldar sua visão sobre a escrita da história.

Professores de Português/Literatura: Ele costuma mencionar professores do ensino básico que o fizeram amar a língua portuguesa, essencial para seu estilo de escrita.

Escritores e Pensadores de Referência (Teoria)

Michel Foucault: A principal referência teórica. Durval se refere a Foucault não apenas como filósofo, mas como um "pensador da experimentação" e historiador das formas de pensamento. A ideia de que o discurso cria a realidade (como em "A Invenção do Nordeste") vem diretamente dessa matriz.

Gilles Deleuze e Félix Guattari: Frequentemente citados em sua abordagem sobre subjetividade e desejo.

Gilberto Freyre: Embora crítico de sua visão essencialista, Durval reconhece Freyre como um escritor genial e uma referência incontornável para entender (e criticar) a formação da identidade nordestina.

Publicações

A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez/Massangana, 1999. O Morto Vestido Para Um Ato Inaugural, Intermeios, 2013. A Feira dos Mitos, Intermeios, 2013. Nordestino - Invençao Do 'Falo, Intermeios, 2013. O Tecelão dos Tempos (Novos Ensaios de Teoria da História), Intermeios, 2019. História - A arte de inventar o passado: (ensaios de teoria da história), Appris, 2019.

Temas e eixos de pesquisa A obra de Durval Muniz de Albuquerque Júnior articula-se em torno de alguns eixos centrais de investigação:

Região, regionalismos e a “invenção do Nordeste”: análise de como discursos, imagens e práticas institucionais constituem “Nordeste” como categoria histórico-cultural e política, com atenção ao conceito de região e seus usos pela historiografia.

História, memória e escrita historiográfica: debates sobre regimes de verdade, autoria, procedimentos analíticos, temporalidade e ética na escrita da história.

Corpo, gêneros e masculinidades: estudos de gênero voltados à construção histórica de masculinidades no Nordeste (1920–1940) e seus estereótipos.

Figurabilidade e cultura visual: estudo sobre a emergência e circulação de imagens associadas ao sertão e à seca em diferentes meios culturais.

Patrimônio, celebrações e sensibilidades: reflexão sobre comemoração, ruína, festa e formação de sensibilidades como objetos da história.

A pele da história: corpo, tempo e escrita historiográfica (2025) Publicado pela Editora Vozes em 2025, o livro articula a escrita da história às dimensões carnais e sensíveis da existência de historiadores e historiadoras, discutindo como afetos, afeções, emoções e sensibilidades atravessam os modos de pensar e redigir o texto historiográfico. A obra propõe uma reavaliação da experiência temporal (tempo e temporalidades) e da forma como o corpo — suas marcas, performances e desejos — informa escolhas de narrativa, estilo e argumento na historiografia contemporânea, ampliando debates já presentes na produção do autor sobre teoria da história e escrita de si.

O lançamento integrou ações públicas de divulgação científica, como o evento realizado no Parque do Museu Câmara Cascudo (UFRN), em abril de 2025, reforçando o interesse acadêmico e extraacadêmico pela obra. Catálogos públicos (editoriais e de livrarias) destacam o caráter “pioneiro” do livro ao aproximar corpo, desejo e escrita historiográfica, bem como sua extensão (384 páginas).

Obras selecionadas

Livros

Artigos

Referências

Bibliografia

Categoria:Historiadores da Paraíba Categoria:Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Categoria:Naturais da Paraíba