João da Silva (Lisboa, 1 de dezembro de 1880 – Lisboa, 6 de março de 1960) foi um escultor, medalhista e joalheiro português. Ele é sobretudo conhecido por ser um medalhista inovador e de elevadíssimo nível técnico e artísticoDuarte, António (1980) Homenagem ao escultor João da Silva, no centenário do seu nascimento, pela Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes..

João da Silva deixou também legado pedagógico, da sua atividade enquanto professor e como teórico do ensino técnico e das artes em geral, com diversos artigos publicados. No campo da ourivesaria, onde também foi reconhecido, João da Silva inseriu-se na estética da Arte Nova, para depois vir a adoptar uma expressão mais próxima da Art Déco. Na Escultura, João da Silva salientou-se pela escultura animalista, de pequena dimensão: os cavalos e os campinos, os burros, os patinhos, os cabritos, os corços, os galos e pintos, os galgos, os gatos, entre outros. Alguns exemplares foram editados em porcelana pela Fábrica alemã Rosenthal e pela Fábrica Vista Alegre. Também se notabilizou pela ligação à moda de alta costura, por ter executado, nos anos 20 do Século XX, estatuetas rigorosas dos modelos da casa parisiense Madeleine et Madeleine. A sua vertente na Arte Religiosa também exerceu influência, enquanto autor de imagens de Cristo (crucificado, escapulário), de Nossa Senhora (Lourdes, Fátima, Conceição), em vulto ou em medalha. Também os retratos são uma vertente importante, como o retrato do pianista Viana da Mota, do escritor e médico Júlio Dinis ou do poeta Augusto Gil.

Na medalhística João da Silva tornou-se bem conhecido através das moedas de escudo, familiares a toda uma geração, com o seu anverso de uma nau, de 10$00, 5$00 e 2$50, emitidas em Portugal entre 1932 e 1951, entre muitas moedas e medalhas comemorativas que executou.

Biografia João da Silva nasceu em Lisboa, em 1 de dezembro de 1880. Logo aos 12 anos começou a trabalhar na Ourivesaria Leitão ao mesmo tempo que frequentou, desde 1893, a Escola Preparatória Rodrigues Sampaio — que depois se transforma na Escola Industrial Príncipe Real em 1895. Aqui é aluno de Giovani Baptista Christoffanetti (1860–1947), Enrique Casanova (1850–1913) e Alfredo Roque Gameiro (1864–1935).Calisto, Judite Maria Domingos (2004). Mestre João Silva um projecto, um museu. (Dissertação de Mestrado em Museologia). Universidade de Évora.Queiroz, João Paulo & Fortes, Arlinda (2021) Para uma cronologia de João da Silva. In Queiroz, João Paulo (Coord.) João da Silva (1880-1960): o escultor animalista. Edições Lisboa Capital Verde, coleção arte. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes e Câmara Municipal de Lisboa. ISBN: 978-989-99822-5-3. Pp 109-234.

A partir dos 17 anos frequenta também a Escola Industrial Afonso Domingues, aproveitando assim as aulas do mestre austríaco Josef Füller (1861–1927).

Com as suas economias, em 1900, viaja para visitar a 2.ª Exposição Universal de Paris, começando nessa ocasião a trabalhar nesta cidade na Maison Fleuret, com Eugène Baptiste Doumenc (1873–1943).

Obtém, depois da viagem a Paris, uma bolsa de 3 anos do Ministério das Obras públicas, concedida por António Arroio, para a sua formação em ourivesaria na Suíça: frequenta, na École des Arts Industrielles Decoratifs, em Genebra, o curso de 'Ciselure, Modelage et Execution (Figure).'Ecole des Arts Industriels (1902) Cérémonie de Distribution des Prix dans L’Aula de L'Université. Geneve: Imprimerie J. Studeb Em Genebra, após o exame de aptidão, é colocado no 4.º ano do curso de 5 anos de duração. É aluno de Barthélémy Caniez (1854–1910), de Jean-Joseph Jerdelet (1841–1911) e Armand Cacheux (1868–1965). alt=João da Silva: Águia. Prata 5,5 x 9,86 cm.|miniaturadaimagem|João da Silva (1880–1960): Águia. Prata 5,5 x 9,86 cm. Casa Museu João da Silva / SNBA.

Findo o curso em Genebra solicita ao Ministério das Obras Públicas o aproveitamento dos dois anos remanescentes da sua bolsa de estudos e parte, em 1904, para Paris, onde se inscreve na École des Beaux-Arts. No curso de Gravure en Medailles é aluno de Jules-Clément Chaplain (1839–1909).

De regresso a Portugal, entre 1909 a 1914, é Professor na Escola Industrial Marquês de Pombal como Mestre de Ourivesaria, Joalharia e Gravura de Medalhas. São deste período algumas das mais significativas criações de João da Silva no campo da joalharia, como é exemplo o tinteiro de honra oferecido a Afonso CostaArroyo, António (2020/1911) O tinteiro monumental oferecido ao senhor doutor Afonso Costa. In Queiroz, João Paulo (Coord.)(2021) João da Silva (1880-1960): o escultor animalista. Edições Lisboa Capital Verde, coleção arte. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes e Câmara Municipal de Lisboa. ISBN: 978-989-99822-5-3. PP. 355-356., a cruz dos evangelhos em estilo renascença em prata e ouro, e o colar com motivo de cigarra de Ema Romero Câmara Reis, ou o Pendentif Perseu e Andrómeda, à mulher de Afonso Costa.Franco, Matilde P. de Figueiredo Sousa (1986) O Escultor João da Silva, grande e esquecido ourives. In Actas do Colóquio de Ourivesaria do Norte de Portugal, Porto, ARPPA/ AIORN, pp. 143 a 152.João da Silva. (1917, setembro e outubro). A Águia: Revista mensal de literatura, arte, sciência, filosofia e critica social, XII (69- 70). alt=João da Silva: Pendentiff Perseus & Andromeda, 1915|miniaturadaimagem|João da Silva (1880–1960): Pendentiff Perseus & Andromeda, 1915 (oferecido por Afonso Costa à sua mulher).

A partir de 1914 regressa a Paris onde irá conservar atelier até ao fim da vida. Neste atelier acolherá o jovem pintor Abel Manta (1888–1982) de 1919 a 1925. Neste período começa a elaborar os seus primeiros monumentos, como "O Triunfo da Diplomacia (à memória do Barão de Rio Branco)," de 1917 (com amplos estudos da anatomia do cavalo) e o Monumento às Crianças Mortas na Grande Guerra, em Pouliguen, no norte de França.

Em Paris, a partir de 1919, executa os retratos em estatueta dos modelos da casa de alta costura Madeleine et Madeleine, assim como elabora a medalha portuguesa da vitória interaliada da Grande GuerraQueiroz, João Paulo & Fortes, Arlinda (2021) As peças animalistas de João da Silva. In Queiroz, João Paulo (Coord.) João da Silva (1880-1960): o escultor animalista. Edições Lisboa Capital Verde, coleção arte. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes e Câmara Municipal de Lisboa. ISBN: 978-989-99822-5-3. Pp 17-99.. Também executa o retrato em miniatura da primeira Miss França, Agnès Sauret (1925), entre outros retratos (Jack Cazol, a família de Germaine de Souza, Mme Renard, Mme Martinet, Lucie).

No começo da década de 20 João da Silva recentra o seu interesse em torno do animalismo e da procura dos tipos portugueses. Inicia a série de miniaturas com o tema "cabritos." São desta época duas das suas obras maiores, os dois campinos a cavalo. Ao primeiro Campino a Cavalo (o jovem "Charuto", de 1921), segue-se o velho campino parado (o "Galamas," em 1923),Queiroz, João Paulo (Coord.) João da Silva (1880-1960): o escultor animalista. Edições Lisboa Capital Verde, coleção arte. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes e Câmara Municipal de Lisboa. ISBN: 978-989-99822-5-3. a que se junta depois o Campino com o cajado, "o Chícharo" de Povos. Os campinos são executados a partir das visitas à Quinta de Pancas do seu amigo e colecionador José Pereira Palha Blanco (1854–1937).Prates, Nuno (2021) Ao gosto de José Relvas, a sua escultura preferida: Capino a cavalo, de João da Silva. In Queiroz, João Paulo (Coord.) João da Silva (1880-1960): o escultor animalista. Edições Lisboa Capital Verde, coleção arte. Lisboa: Sociedade Nacional de Belas Artes e Câmara Municipal de Lisboa. ISBN: 978-989-99822-5-3. Pp 318-325. alt=João da Silva: Retrato Jack Cazol, 1920.|miniaturadaimagem|João da Silva (1880–1960): Retrato do cantor francês Jack Cazol (1874–1935), 1920. Casa Museu João da Silva / SNBA. alt=João da Silva: Campino, 1923. |miniaturadaimagem|João da Silva (1880–1960): Campino, 1923. 55 x 53 cm. Casa dos Patudos, Alpiarça, Portugal.

Complementando os Campinos a Cavalo, executa, entre visitas ao Ribatejo e ao Alentejo, na década de 20, pequenas esculturas das figuras locais (vários pastores, o rapaz montado no burro, rapaz a puxar o burro, o anão, os dois ribatejanos a comer migas).

Em 1923 apresenta Ephyre, a ninfa da Ilha dos Amores, de os Lusíadas, no Salão da SNBA.

A partir de de 1925 João da Silva aprofunda ainda mais a sua produção como medalhista: Camilo Castelo Branco, Rainha Santa, Centenário da Faculdade Medicina do Porto, por exemplo, todos em 1925. A medalhística é uma vertente cada vez mais significativa na sua obra.

Os retratos em miniatura e os bustos de João da Silva logram uma muito subtil tradução da mímica pessoal, da identidade, e um ímpar virtuosismo na sugestão de gestos, tecidos, texturas e seus reflexos. Também de 1925 o retrato da pequena Arlete Leite é de inovador valor expressivo na sua execução plástica, ao incluir no modelo uma boneca de trapos aos pés da pequena. alt=João da Silva: Retrato de Arlete Leite Pinto, 1925.|miniaturadaimagem|João da Silva (1880–1960). Retrato de Arlete Leite Pinto, gesso, 1925, 46 x 27 x 31 cm. Casa Museu João da Silva / SNBA.

Em 1926 executa o monumento a Júlio Dinis (para o Largo Abel Salazar, Porto), assim como a medalha com o mesmo tema.

Ainda na temática dos animais, em 1927 destaca-se a série dos 9 pequenos patinhos, ou "patos marrecos," que serão reproduzidos em bronze na casa Valsuani, em Paris, e também em séries de porcelana numeradas e assinadas, pela fábrica alemã Rosenthal. São peças de muito reduzida escala, que convidam a uma aproximação íntima sintetizando momentos e atitudes que acentuam a sua vertente como escultor animalista.

Em 1926 João da Silva está em Paris e acompanha Afonso Costa no seu exílio, sendo próximo do círculo ilustrado de republicanos, com António Sérgio, Jaime Cortesão, Bernardino Machado, Álvaro de Castro, José Domingos Santos, que aí integram a Liga de Defesa da República.

Em 1931 ganha o concurso para as novas moedas de 10$00, 5$00 e 2$50 escudos, com o tema "Pátria de Navegadores" com a nau quinhentista, além de executar as medalhas do 1.º Congresso Nacional de Engenharia, do III Jubileu do duque de Lafões (Academia de Ciências) e do VII centenário de Santo António.

De Paris regressa a Portugal em 1932, construindo o seu novo atelier com projeto francês, na atual R. Tenente Raul Cascais, onde inaugura logo nesse ano uma exposição individual, com texto de apresentação no catálogo de Reynaldo dos SantosJoão da Silva (1933), Exposição das suas obras de 24-IV a 15-VII de 1933, Lisboa: [S.1.]. [s.n.].

Acabado de chegar ao país, não tardará a ser preso político, em outubro de 1933, e depois de novo em 1949.

Executa neste período, anos 30, o baixo relevo para as Termas do Luso — a imagem designada "Pureza" que permanecerá como imagem de marca destas águas. Também é deste período o monumento a Augusto Gil, na Guarda. Executa o conjunto escultórico do altar da Virgem da Ajuda para a Capela da Nossa Senhora do Resgate, no Instituto do Conde de Agrolongo, em Lisboa, assim como outros monumentos aos mortos da Grande Guerra (Évora, Valença), assim como um importante número de retratos em busto e em plaqueta.