A Festa do Dois de Julho é a comemoração cívica e popular pela Independência da Bahia que ocorre anualmente na cidade de Caetité, no Alto Sertão baiano, realizada há cerca de dois séculos para marcar o fim da Guerra da Independência do Brasil no 2 de julho de 1823, na Bahia. A comemoração conta com a participação das forças de segurança (Exército, Marinha, Aeronáutica, Bombeiros e Polícia Militar), da rede escolar e grupos de montaria, além de participações especiais, como indígenas em 2017. "Dentre as tradições culturais populares, destaca-se o desfile cívico do Dois de Julho, uma festa que acontece desde o século XIX com paradas para discursos, recitação de poesias e apresentações teatrais", como resumiu uma pesquisadora.
Nélson de Araújo, pesquisador do folclore baiano, registrou em seu livro de 1988 "Pequenos Mundos": “Caetité reserva a sua pompa à festa do Dois de Julho, sua mais importante comemoração cívica. Não deixa de causar estranheza que a longínqua, bela e culta cidade da Serra Geral da Bahia, terra de Anísio Teixeira, permaneça fiel a essa tradição, um dos poucos festejos patrióticos genuinamente populares no Brasil, ao passo que algumas cidades do Recôncavo, diretamente envolvidas nas lutas da Independência, já a têm sepultada no esquecimento”. "Na cidade de Caetité, Sudoeste do estado, que todos os anos festeja o 2 de Julho com grande pompa, a cabocla surge num dos carros, matando o "Dragão da Tirania", que representa o colonizador vencido", como assinalou Poliana Antunes.
A comemoração é tombada pelo município em razão de sua importância histórica e cultural, e tem preservados "elementos da festa como a “Levada da Cabocla”, os desfiles cívicos e a representação dos heróis da luta como Maria Quitéria, Joana Angélica e o Periquitão". Registrou o então deputado Paulo Jackson, morto no ano 2000, em artigo intitulado “2 de Julho – O Verdadeiro Grito de Independência”, que “Caetité, minha terra natal, é hoje uma das poucas cidades da Bahia a manter viva a lembrança do 2 de Julho. Ali a data é festejada com brilho! Uma tradição em sintonia com todos que defendem a preservação de nossa memória (…)”.
"A festa começava no dia 30 de junho com o “Bando Anunciador”, grupo de pessoas que saía pelas ruas cantando e anunciando o início do mês de julho e da data cívica de 2 de julho. No dia primeiro de julho, ocorria a levada da cabocla, símbolo maior da Festa de 2 de Julho, ao ponto mais alto da cidade, representando a conquista das tropas brasileiras sob as portuguesas. A festa terminava no dia 2, com o desfile cívico acompanhado por muitos cavaleiros, o "Te Deum" (...) era realizada por festeiros que organizavam o evento num ano e passavam a bandeira para outra pessoa ou família que seria responsável no ano seguinte. Este modelo de organização permaneceu até o início do século XXI, quando a realização da festividade passou a ser de responsabilidade da Prefeitura Municipal".
Contexto histórico
Segundo o historiador Luís Henrique Dias Tavares, “Foram os brasileiros que de fato libertaram a cidade do Salvador de armas nas mãos. Primeiro foram os brasileiros de Santo Amaro, Maragojipe, Cachoeira, São Francisco do Conde, Nazaré das Farinhas, Jaguaripe, que formavam um exército de esfarrapados. Depois, entraram os brasileiros que desceram lá de Caetité, do Sertão e da Chapada Diamantina, formando um exército das mais diferentes cores, de brasileiros filhos de escravos, descendentes de escravos, brasileiros brancos pobres que nada tinham além de uma roça de cana plantada para o senhor de engenho”.
Ainda durante o período das lutas, e tendo já D. Pedro proclamado a independência, expediu o governo a seguinte ordem: AVISO DE 5 DE DEZEMBRO DE 1822Convindo muito que nas províncias deste Império se estabeleça e conserve um só centro de união e de força para se manter a uniformidade do Governo nos diferentes ramos de administração pública: manda Sua Majestade o Imperador pela Secretaria do Estado dos Negócios do Império, que a Vila Nova do Príncipe, de Santa Anna de Caetité, e as outras da Comarca da Jacobina se unam, quanto antes, ao Governo estabelecido na vila da Cachoeira, enquanto o mesmo Augusto Senhor, sobre este objecto, não ordenar o contrário.E há por bem Sua Majestade Imperial agradecer e louvar a Câmara da mesma Vila de Caetité, e as outras que aderiram à sagrada causa do Império Brasílico, entre as quais foram as primeiras, o seu zelo e prontidão, em mandar seus enviados, José António Gomes e o Padre José de Sousa Lima, para, em nome da Câmara de Caetité, lhe dirigirem os puros votos da sua felicidade, obediência, amor e patriotismo.Palácio do Rio de Janeiro, em 5 de Dezembro de 1822 — José Bonifácio de Andrada e Silva.
O primeiro que registrou a possibilidade de a mudança para Caetité do herói das lutas pela Independência, o organizador do "Batalhão dos Periquitos Major Silva Castro em 1827, como sendo o marco do início dos festejos foi o professor Bartolomeu de Jesus Mendes, ao escrever que ele fora provavelmente um dos "introdutores da comemoração cívica do 'Dois de Julho' neste lugar". Apelidado de "Periquitão", Silva Castro (avô do poeta Castro Alves), é um dos grandes homenageados nos desfiles cívicos de Caetité.
Jorge Amado, no livro escrito em 1946 "ABC de Castro Alves", registrou que "O major Silva Castro mandara as filhas solteiras passearem nas fazendas do alto sertão de Caetité. Iriam engordar nos ares de Cajueiros, fazenda das melhores da região..."
O historiador Argemiro Ribeiro de Souza Filho afirma, sobre a importância de Caetité no contexto das lutas, que: “Se a região do Recôncavo foi importante nesse processo de liberdade, o povo do Alto Sertão também tem muito do que se orgulhar, porque foi por aqui que passaram as armas e os alimentos que abasteciam os cerca de 24 mil soldados que lutaram pela Independência da Bahia (...) A população doava o que tinha. Enviaram para Cachoeira alimentos, mantas para soldados, algodão e animais para abastecer os batalhões”. Ribeiro narra que, durante o "processo de afirmação de um único órgão governativo para todo o interior baiano encontrou resistências em algumas vilas, a exemplo de Rio de Contas e Caetité, cujas iniciativas de instalação de governos autônomos foram reprimidas pelo Conselho Interino de Governo instalado em Cachoeira". Outro fato narrado pelo pesquisador foi a acusação do Governo Provisório contra Pierre Labatut, general enviado por D. Pedro para comandar a resistência, de promover “o terror em todas as classes de cidadãos, e principalmente na dos proprietários, de sorte que ninguém se julga seguro e teme ser assassinado a espingarda”; “[...] ele ameaça de matar e enforcar os europeus pacíficos [...] a ponto de ser o Conselho Interino obrigado a publicar” uma “proclamação” visando “tranquilizar” os portugueses europeus residentes nas vilas de Rio de Contas e de Caetité que procuravam abrigo contra as ameaças do comandante-em-chefe do Exército Pacificador".
Ainda de notar a notícia que dá Licurgo Santos Filho acerca de Inocêncio José Pinheiro Canguçu, senhor do Sobrado do Brejo, então no povoado de Bom Jesus dos Meiras, pertencente a Caetité, que fora um "nativista extremado, tanto que riscou do próprio nome o lusitano "Pinto", substituindo-o por "Canguçu", termo designativo de feroz felídeo, variedade de onça das matas brasileiras"; Pedro Calmon, por sua vez, escrevera que "o velho Inocêncio José Pinheiro Canguçu tomara armas pela Independência".
Finalmente o registro do folclorista Nélson de Araújo: "Em Caetité vivia, à época, forte, influente e destacada colônia de portugueses, alguns dos quais perderam a vida nos tumultos mata-marotos, que lá se revestiram de excepcional violência. Maus pedaços deviam ter passado os caetiteenses sob a guante dos colonizadores lusos".
O "Mata-Maroto" em Caetité
Pouco tempo depois de emancipada, em 1810, em Caetité se instalou uma Escola Régia da qual ficara depois encarregado o padre Queiroz Osório – sobrenome este adotado por ocasião da Independência; foi ele um dos chefes dos “patriotas” que, exaltados, protagonizaram “represálias e perseguições” aos portugueses. Registrou Helena Lima que “dois portugueses foram assassinados na cidade, um em frente à igreja, onde o padre Queiroz Osório celebrava. Perseguido, foi procurar refúgio na igreja, mas de lá foi “arrancado e sangrado”. Consta, por conta de quem lhe narrou o fato, diz João Gumes, que ao sair da igreja o padre tocou com o pé o rosto do cadáver dizendo: “me cheira mal o sangue do maroto”.” A autora esclarece, adiante: “O movimento nativista da época da Independência do Brasil e na Bahia, conhecido por “Mata-Maroto”, teve em Caetité, onde a colônia portuguesa era numerosa, forte e rica, grande repercussão. Formaram-se grupos de patriotas que perseguiam, roubavam e até matavam, apesar da prudência e senso de justiça de Joaquim Venâncio Gomes de Azevedo".” Dário Cotrim elucida o papel de Azevedo, situando-a temporalmente: "com a explosão da Abrilada, no ano de 1831, os "marotos" que moravam na capital da província fugiram para o desconhecido sertão, endo alguns deles chegado aqui no arraial [do Gentio] sob a proteção do intendente de Caetité, Joaquim Venâncio de Azevedo". O mesmo autor registra que, num recrudescimento das lutas, vários portugueses houvessem perdido a vida, como ocorreu ao irmão do português Antônio José da Silva, que foi "cruelmente massacrado" enquanto que este escapou, refugiando-se num morro no distrito do Gentio.
Lima narra também alguns dos episódios, como o ocorrido “durante o período mais agudo da perseguição”, quando “um português, dono do sobradinho na praça de Santana (demolido em 1974), deu uma grande festa e quando havia a maior animação, fugiu, desaparecendo da cidade; regressou depois de algum tempo, quando já não havia perigo”. O professor Zezito Rodrigues registrou que "Em 1823, “membros do partido brasileiro” se juntam para hostilizar as famílias portuguesas, com ameaças, mortes e conflitos abertos motivando as fugas dessas famílias para o povoado da Malhada, às margens do Rio São Francisco. Este episódio motiva o envio de tropas de Minas Gerais sob comando do Coronel Jacinto Pinto Teixeira para pacificar a vila, feita pela força, após superação dos conflitos dos partidários da contenda".
Histórico
Nélson de Araújo em 1988 ponderava: "Acredita-se que desde a Independência da Bahia a festa se vem realizando, com eventuais interrupções. Em 1884 é certo que já existia, pois nesse ano a comissão organizadora adquiriu um local para a construção de um teatro denominado Dois de Julho". (grifo original)
"Já no século XIX uma comissão formada por cidadãos influentes cuidava de organizar o cortejo. Durante o ano a comemoração ia sendo planejada até culminar no cortejo que percorria as ruas principais – passando pela via que ainda hoje mantém o nome de Rua 2 de Julho. Cortejo essencialmente a pé, mas já contando com a cavalaria." Maria Lúcia Porto Silva Nogueira observa que "Vários memorialistas reafirmam a importância do desfile cívico do Dois de Julho em Caetité. Era uma festa que, desde o século XIX acontecia na cidade, e por isso deixou os seus moradores impregnados de um “verdadeiro civismo”. Havia uma comissão organizadora que se esmerava nos preparativos e ensaios e depois os festejos que duravam três dias, cooptando o entusiasmo e participação da população; durante e o desfile, havia várias paradas para discursos e recitação de poesias e, no terceiro dia, com apresentações teatrais, encerravam-se as festividades. Esta festa que é realizada até hoje, já passou por várias fases, alternando períodos de maior ou menor entusiasmo e até de alterações no seu ritual".