Paulina Luisi Janicki (Colón, 22 de setembro de 1875 – Montevidéu, 16 de julho de 1950) foi líder do feminismo no Uruguai. Em 1909, foi a primeira mulher uruguaia a licenciar-se em medicina e foi uma firme defensora da educação sexual nas escolas. Representou o Uruguai em conferências internacionais de mulheres e viajou pela América Latina e Europa. Foi ainda a primeira mulher latino-americana a participar da Liga das Nações e tornou-se numa das suas ativistas mais influentes.
Biografia Paulina Luisi nasceu na Argentina em 1875. A sua mãe, Maria Teresa Josefina Janicki, era descendente de imigrantes polacos e pensa-se que o seu pai, Angel Luisi, era de ascendência italiana. Pouco depois do nascimento de Paulina Luisi, a família mudou-se para o Uruguai. Luisi também tinha duas irmãs, Clotilde Luisi, a primeira advogada no Uruguai, e Luisa Luisi, uma poeta.
Maria, a mãe de Luisi, encorajou-a a seguir os seus sonhos, apesar das restrições sociais impostas às mulheres no início do século XX. O pai, Angel, educador e socialista, incutiu nela desde cedo "um desejo incontido de justiça e liberdade". Tal como o seu pai, Luisi tornou-se numa socialista interessada em questões de reforma moral.
Educação médica e ensino Luisi completou o bacharelato em 1899 e formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade da República do Uruguai. Em 1908 tornou-se a primeira profissional médica e de cirurgia do sexo feminino do Uruguai. Tornou-se chefe da clínica de ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Montevidéu. Em 1907 havia apenas quatro mulheres médicas e trezentos e cinco homens médicos no Uruguai. Luisi escreveu artigos médicos sobre temas que vão desde a profilaxia de doenças contíguas, higiene, eugenia, escolas ao ar livre, qualidades hereditárias e doenças sociais, até o "comércio de escravos brancos", prostituição, doenças venéreas e direitos maternos.
Educação sexual Em 1916, Luisi discursou no Primeiro Congresso Pan-Americano da Criança, dando ênfase à sociologia e à educação de mulheres e crianças na América Latina. Neste discurso, Luisi defendeu programas obrigatórios de educação sobre saúde sexual no sistema escolar público, desde o ensino primário até ao secundário, bem como o direito das mulheres ao voto, ambos temas polémicos. Luisi definia a educação sexual como uma ferramenta pedagógica para ensinar o indivíduo a submeter os impulsos sexuais à vontade de um intelecto instruído, consciente e responsável.Luisi 1950: 82–83 in Little 1975: 394 As aulas de educação sexual enfatizariam a necessidade de força de vontade e autodisciplina, exercício físico regular e moderado para queimar a energia sexual e a importância de evitar entretenimentos sexualmente estimulantes.Little 1975: 395 Ao contrário da educação sexual, as aulas de educação para a saúde debruçar-se-iam sobre aspectos científicos da reprodução das espécies, história natural, anatomia, higiene pessoal e prevenção de doenças venéreas. Devido aos temas por ela defendidos, Luisi foi acusada de ser anarquista e revolucionária, e de querer ensinar alunas a prostituirem-se. Em 1944, as suas sugestões para a educação em saúde sexual foram finalmente incorporadas ao sistema escolar público uruguaio. Luisi acreditava que “o homem e a mulher nada mais são do que duas formas do mesmo ser, dotados apenas das diferenças que a preservação da espécie exige.". Assim sendo, as diferenças anatómicas não deviam definir papéis sociais diferentes para homens e mulheres. Luisi trabalhou ainda como professora na Escola de Formação de Professoras de Mulheres e como fomentadora da inclusão da higiene entre as disciplinas ensinadas às futuras professoras. As suas palestras e argumentos eram elaborados especificamente para introduzir a profilaxia como uma disciplina no programa de formação de professores.
Influências feministas Josephine Butler, uma famosa reformadora moral inglesa do século XIX, exerceu forte influência sobre Luisi. A sua luta contra a Lei de Doenças Contagiosas de 1864 e sua fundação da Federação Abolicionista Internacional em Genebra, na Suíça, para combater o comércio de escravos brancosChataway, 1962, in Little, 1975: 391 foram fontes de inspiração para Luisi.Luisi, 1948: 24–26, in Little 1975: 391
As ideias feministas de Luisi baseavam-se em movimentos paralelos ocorridos no início do século XX. Enquanto Luisi era ainda estudante, a feminista liberal argentina Petrona Eyle correspondeu-se com ela na qualidade de presidente da Universitarias Argentinas (Associação Argentina de Mulheres Universitárias, afiliada à Associação Americana de Mulheres Universitárias (AAUW)), e recrutou-a para a organização. Numa carta datada de 1 de maio de 1907, Eyle encorajava Luisi e suas colegas da universidade a formar uma filial uruguaia das Universitarias, afirmando que “embora não haja muitas de vocês agora, vocês serão sempre o núcleo ao qual outras se irão juntar.”.Ehrick, 410 miniaturadaimagem|231x231px| Mapa incluído no livreto Planisfério indicando a posição atual dos direitos políticos das mulheres no mundo em 1929, no qual Luisi detalha a situação dos direitos de voto das mulheres em diferentes países do mundo. Consta que Luisi e outros terão aceite este convite para se juntarem às suas companheiras argentinas em 1907. Importante também para a inserção de Luisi nas redes feministas liberais pan-americanas e para sua propulsão à liderança do feminismo liberal uruguaio foi sua participação no Congresso de Mulheres ( Congreso Femenino ) realizado em Buenos Aires em 1910.Little 1975: 391 Aí conheceu feministas argentinas importantes, como Alicia Moreau de Justo e Cecilia GiersonDrier, 1920 in Little 1975: 391 . Organizada pelas Universitarias, a conferência reuniu mais de 200 mulheres, com representantes da Argentina, Uruguai, Peru, Paraguai e Chile . Foi provavelmente nesta conferência que Luisi contactou com muitas dos líderes (ou futuras líderes) do feminismo liberal na América do Sul, onde ela estabeleceria contatos e amizades que perdurariam por décadas.Ehrick, 410 Em viagens à Europa conheceu mulheres como Ghenia Avril de Saint Croix, presidente do comité de unidade moral do Conselho Internacional de Mulheres, e Julie Siegfried, presidente do Conselho Nacional de Mulheres francês.Acción Femenina, 1917: 134 in Little 1975, 391
Ativismo feminista no Uruguai e nas Américas
Feminismo uruguaio Antes do ativismo feminista de Luisi, eapesar da posição progressista do país em relação à legislação social no início do século XX, não havia movimentos pelos direitos das mulheres no Uruguai. Como representante uruguaia na reunião do Primeiro Congresso Científico Pan-Americano em 1915, Luisi ajudou a fundar uma Auxiliar Pan-Americana de Mulheres, que defendia a "melhoria social e económica" das condições das mulheres e crianças. Terá sido esta experiência que a encorajou a desenvolver organizações de mulheres no seu país.
Luisi, juntamente com Isabel Pinto de Vidal e Francisca Beretervide, fundou o Consejo Nacional de Mujeres (CONAMU), uma filial do Conselho Internacional de Mulheres no Uruguai em 1916 e tornou-se a fundadora e editora principal do boletim Acción Femenina (Ação Feminina) do CONAMU. O boletim centrava-se sobretudo em tópicos relativos aos valores e à igualdade das mulheres. Na edição de 1917, Luisi publicou sua definição de feminismo afirmando que o termo implica "...que a mulher é algo mais do que material criado para servir e obedecer ao homem como uma escrava, que ela é mais do que uma máquina para produzir filhos e cuidar do lar; que as mulheres têm sentimentos e intelecto; que é sua missão perpetuar a espécie e isso deve ser feito com mais do que as entranhas e os seios; deve ser feito com uma mente e um coração preparados para ser mãe e educadora; que ela deve ser parceira e conselheira do homem, não sua escrava.".Acción Femenina, 1917: 48 in Little 1975: 387 O CONAMU serviu como um local para as mulheres se apoiarem mutuamente, com Luisi na vanguarda, e concentrou-se nos problemas sociais, incluindo o bem-estar social e a educação das mulheres, as condições das mulheres trabalhadoras, o alcoolismo e a igualdade de padrões morais.
Luisi foi também uma forte defensora das mulheres trabalhadoras. Criou os dois primeiros sindicatos femininos no Uruguai - Unión de Telefonistas (Sindicato das Telefonistas) e as Costureras de sastrerías (Costureiras de Alfaiataria). Luisi trabalhou ainda com o Sindicato dos Trabalhadores de Telefones para obter melhores condições de trabalho. A noção de sufrágio feminino era mais aceite no Uruguai na década de 1910 e, em 1919, Luisi fundou a Alianza de Mujeres para los Derechos Femeninos (Aliança das Mulheres pelos Direitos das Mulheres), que era afiliada à Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino. A Alianza pressionou as autoridades eleitas para que decretassem os direitos políticos das mulheres e trabalhou em estreita colaboração com o deputado Alfeo Brum para que o Congresso aprovasse um projeto-lei autorizando o voto das mulheres a nível municipal, por forma a que pudessem cumprir o seu "legítimo dever social de prestar serviços aos diferentes domínios do bem-estar público". O projeto não foi aprovado. Com o sufrágio estagnado, quatro anos após a sua criação, a Alianza expandiu a sua agenda para incluir os direitos económicos e civis das mulheres.
Feminismo Pan-Americano Para além de lutar pelos direitos das mulheres no Uruguai, Luisi aspirava criar um movimento feminista pan-americano, com vista a alcançar a igualdade globalmente. Luisi viajou para os Estados Unidos na esperança de que as feministas americanas apoiassem o desenvolvimento dum feminismo pan-americano, mas não encontrou solidariedade por parte das mulheres norte-americanas em relação às feministas sul-americanas. Foi só durante o período da Segunda Guerra Mundial que Luisi mais uma vez defendeu a “sororidade” entre as feministas dos EUA e da América Latina. O ativismo de Luisi foi reconhecido internacionalmente e era popular na América Latina. Em 1947, o Primer Congreso Interamericano de Mujeres (Primeira Conferência Interamericana de Mulheres) na Guatemala prestou homenagem a Luisi, reconhecendo-a como a mãe do feminismo interamericano. miniaturadaimagem| Paulina Luísi (1919)
Radio Femenina O ativismo de Paulina Luisi também teve lugar nas rádios públicas da América Latina. Na década de 1930, Luisi participou nas emissões da Radio Femenina , emissora do Uruguai. No ar, Luisi encorajava as feministas a permanecerem ativas para que conseguissem ser forças de influência mediadora e pacificadora. O forte alcance e influência de Luisi deve-se ao facto da emissora de rádio permitir que ela falasse livremente e chegasse além da Argentina e do Uruguai. A personalidade radiofónica de Luisi colocava-a numa posição de mais sénior entre as feministas. Um marco no seu envolvimento na rádio ocorreu nos seus últimos anos, quando incentivou as mulheres a votar nas eleições de 1942 no Uruguai para provar que as mulheres eram dignas de exercer o poder de cidadania. Já mais velha, na década de 1940, Luisi ficou conhecida como La Abuela, a avó, apelido que expressava ideais de maternidade ligados ao feminismo.
Trabalho da Liga das Nações sobre Tráfico Sexual Luisi atuou como Delegada do Governo Uruguaio na Comissão da Liga das Nações para a Proteção de Crianças e Jovens, onde assumiu a luta contra o tráfico sexual. Ela também foi membro da Comissão Técnica e foi responsável pela análise da questão do comércio feminino.