miniaturadaimagem|400x400px|Na Rússia. A Alma do Povo (1914), por Mikhail Nesterov. A pintura representa os filósofos Vladimir Soloviov, Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski O idealismo russo refere-se principalmente a movimentos e sistemas idealistas de pensadores situados no contexto cultural e histórico da Era de Prata russa (final do século XIX e começo do XX). Seu conjunto filosófico era heterogêneo.
É um termo empregado a duas tendências: em sentido mais amplo, a um idealismo literário e cultural, que surgiu em reação ao positivismo e que propunha a valorização moral da dignidade humana e a renovação social e espiritual. Seu impulso metafísico definia o movimento modernista russo nessa época, propondo-se como alternativo ao realismo e buscando solucionar os graves problemas políticos e a decadência social. Seus pensadores disseminavam uma ênfase humanista sobre a questão moral, afirmando a possibilidade de uma mensagem universal que era ao mesmo tempo nacional e cosmopolita, baseada nas questões individuais e sociais endereçadas pela tradição cultural russa. Alguns também enfatizavam o papel da religião. Em outro sentido, refere-se em particular a um idealismo metafísico, representado por filósofos russos com tendência sistemática de explicar a mente ou de propor que a realidade era mental (idealismo absoluto). Ambas as tendências costumavam estar unidas em alguns dos principais expoentes.
Culminâncias desse pensamento foram os manifestos coletivos Problemas do Idealismo, em 1902, e Vekhi, em 1909. Dentre os principais pensadores, incluem-se Soloviov, Berdiaev, Bulgakov, Lopatin, Kozlov, Florensky, Losski, Losev. Apesar de dominante, o idealismo russo se encerrou em 1922 quando, devido ao pensamento idealista de seus adeptos se contrapor como uma alternativa à ideologia marxista da União Soviética, diversos intelectuais idealistas ou considerados idealistas pelo regime soviético foram exilados nos chamados navios dos filósofos. Dentre os nomes mais proeminentes de seus expoentes, Nikolai Berdiaev e Nikolai Losski continuaram escrevendo em seu exílio.
História
Desenvolvimento Em revolta contra o positivismo, os pensadores idealistas da Rússia defendiam uma virada à ética, metafísica e inclusive à religião. Essa tendência se iniciou o mais cedo por volta de 1870, com os escritos idealistas metafísicos de Boris Chicherin e Vladimir Soloviov, ambos os quais defendiam a dignidade humana e um fundamento kantiano para a autonomia moral e autodeterminação. Chicherin era o maior teórico hegeliano e liberal russo, e serviu de ponte ligando a precedente época filosófica russa de 1840 ao reavivamento neoidealista da Era de Prata; foi muito influente por suas obras. Soloviov, em 1874, defendera a tese de mestrado A Crise da Filosofia Ocidental: Contra os Positivistas, também altamente impactante. Ambos eram humanistas.
Em 1902, diversos pensadores se reuniram para compor a obra Problemas do Idealismo (Problemy idealizma), que deu publicidade ao programa que estava sendo avançado havia 15 anos pela Sociedade Psicológica de Moscou e à sua campanha pela reforma constitucional, unindo um liberalismo filosófico com o neoidealismo. Em torno dessa publicação, um grupo de intelectuais discutiam em comum uma visão idealista sobre ciências sociais, história, lei, ciência e filosofia de Nietzsche, durando de 1901 a 1903. Dentre eles estavam Nikolai Berdiaev, Piotr Struve, Semyon Frank, Pavel Novgorodtsev, Serguei A. Askoldov, Bogdan Kistyakovski, Sergei Trubetskoy, Sergey Askoldov, Alexander Sergeyevich Lappo-Danilevsky, Dmitri Zhukovskii e Sergey Oldenburg.Boobbyer, Philip Christopher (abril de 1992). A Russian Philosopher: The Life and Vork of Semen Liudvigovich Frank, 1877-1950. Universidade de Londres Os neoidealistas louvavam o método literário dialético de Dostoiévski e é provável que, em grande derivando de seus personagens, absorveram ideias existencialistas e nieztscheanas. O ensaio de Frank, por exemplo, interpretava Nietzsche para fundamentar uma base moral e afirmar a criatividade do indivíduo; ele posteriormente criticaria a moralidade niilista dos partidários socialistas russos e declarou que sua leitura de Nietzsche havia transformado a sua visão de mundo em um idealismo metafísico. Esses pensadores tinham um pensamento sintético e também foram influenciados por Kant, Fichte, Schelling, Hegel e Soloviov.
Segundo Andrzej Walicki, ele foi o "manifesto desafiador e autoconfiante do renascimento neoidealista no pensamento russo". Randall Poole chama-o de um "divisor de águas filosófico". Esse simpósio é reconhecido também por outros historiadores como R. V. Ivanov-Razumnik e Leszek Kolakowski como tendo posição significativa na história intelectual russa, e Gleb Struve, Bernice Glatzer Rosenthal e Martha Bohachevsky-Chomiak afirmam que ele foi um marco documental da revolta geral contra o positivismo durante a Era de Prata. Seus proponentes eram contra o reducionismo científico que era resumido por esse termo, argumentavam que a filosofia especulativa era uma disciplina livre, autônoma e incompatível com a pressão colonizadora do positivismo, e afirmavam que determinados pontos de vista filosóficos impactavam também sobre princípios políticos particulares.
Em comum, esses pensadores idealistas criticavam o marxismo por ele adotar um ponto de vista positivista. Segundo Novgorodtsev, que escreveu o prefácio do simpósio, o principal objetivo do movimento era a restauração da respeitabilidade, conforme escreve: "o imperativo categórico da moralidade, que dá importância primordial ao princípio do significado absoluto da personalidade". Outra característica era a crítica que esses pensadores faziam ao que chamavam de "contrabando" do pensamento: a distorção intelectual que ocorre quando se translada uma área do pensamento (como a ética ou metafísica) a outra (como a empírica e científica), sem se delimitá-las como domínios distintos da experiência humana.
Muitos dos contribuidores dos Problemas do Idealismo eram ex-marxistas. Oito deles teriam papel ativo na fundação da União da Libertação, e quatro se tornariam membros do Partido Constitucional Democrata (dos Kadets). Alguns deles compuseram depois a publicação semanal Vekhi ("Marcos"), culminando em 1909 na crítica ao radicalismo revolucionário da intelligentsia russa e clamando em um manifesto por uma renovação espiritual. Apesar de ter tido menos contribuintes do que os Problemas do Idealismo e diferente da abordagem acadêmica deste último, os Marcos foram uma série que tinha um tom inflamado contra alvos específicos, buscando alternativas para a crise; segundo Caryl Emerson, eles "causaram um dos mais potentes escândalos na história do pensamento russo". O último simpósio foi publicado em 1918, chamado De Profundis (Is glubiny), suprimido pelo governo bolchevique.
Na virada do século, Sergei Bulgakov elaborara publicações programáticas de idealismo e cunhou a fórmula "do marxismo ao idealismo"; seu movimento era representado pela publicação dos Problemas do Idealismo. Bulgakov ecoava A Crise da Filosofia Ocidental de Soloviov, afirmando que havia uma sobrevalorização da ciência a todo custo, depreciando outras partes do ser humano como a liberdade e a religião.
Berdiaev vinculou a tendência idealista ao romantismo russo. Ele afirmou: "A ideia de um espírito livremente criativo é a ideia fundamental de toda a filosofia russa". Também participou da composição dos Problemas do Idealismo, junto com diversos outros pensadores. Ainda apresentava na época vestígios de influências kantianas e marxistas, que depois seriam abandonadas. Depois, em 1904, publicou O novom russkom idealizme ("Sobre o novo idealismo russo") na Voprosy filosofii i psikhologii, em que distinguia a tradição intelectual russa dos eslavófilos e Khomiakov, afirmando que eles esboçaram um "idealismo concreto", contra o "idealismo abstrato" alemão que foi desenvolvido no sistema de Soloviov. Nele, criticou os neokantianos por relegarem o idealismo à epistemologia e recaírem em um fenomenalismo. Assim, Berdiaev deu essa interpretação sobre o movimento idealista russo:"As conclusões revelaram-se as seguintes: o nosso movimento idealista é inteiramente nacional e independente; tenta, com base nas tradições que nos foram legadas pela história do pensamento filosófico, resolver o problema do indivíduo e o problema da progresso, e leva à filosofia da liberdade e à libertação"Já na vertente mais estritamente filosófica, a sede do movimento idealista russo foi a Sociedade Psicológica de Moscou, que publicava a influente Voprosy filosofii i psikhologii. Essa revista fora fundada em 1889 por Nikolai Grot, um professor de psicologia que fez uma virada idealista em seu pensamento, e que atualmente se tornou uma referência recorrente nos estudos do idealismo russo. Os pensadores da Sociedade buscavam, em geral, explicar a natureza da consciência humana. Porém orientações similares de idealismo eram também encontradas em outras universidades, com um principal foco sendo as inspiradoras palestras neokantianas de Alexander Vvedensky. Uma outra das importantes fontes de influência foram também os escritos de teólogos ortodoxos da Academia Teológica de São Petersburgo, do século anterior. No idealismo russo clássico, era característica uma primazia da ontologia sobre a epistemologia e a ética, e poderia haver um humanismo secular, como o de Semyon Frank. Também era característico dos filósofos neoidealistas tomarem por primeiro princípio a defesa da pessoa (lichnost), e seu personalismo fundamentava discussões sobre direito natural e sobre liberalismo; os mais importantes filósofos de Moscou em torno da Sociedade Psicológica que fundamentaram essa dimensão política do liberalismo russo, em articulação idealista e personalista, foram Chicherin, Soloviev, Sergei e Evgenii Trubetskoi, Novgorodtsev e Sergei Kotliarevski.
Os idealistas russos herdavam disposições diretas ou indiretas do platonismo, e Frances Nethercott afirma que havia uma "vertente platônica" do idealismo russo. Mas os idealistas russos não adotavam um mesmo sistema. Por exemplo, com o passar dos anos alguns deles se ativeram ferrenhamente ao monismo e a uma crítica à ciência cada vez mais forte, que beirava ao irracionalismo e a uma substituição pela religião; o exemplo maior disso era Berdiaev, que afirmava o cultivo do espírito como valor absoluto. Já outros neoidealistas defendiam os estudos acadêmicos e os valores democráticos liberais, como representa Kistyakovski.
Apesar de Kant ter formado um grande núcleo de seus ideais, o idealismo russo se caracterizava notadamente por uma sofiologia, uma busca de Sofia em contraste com o Logos, ou razão; também se diferenciavam em afirmar que a mente capta as coisas-em-si como elas são. Isso pode ser visto até Alexei Losev, considerado o último idealista russo. De fato, a aversão ao subjetivismo do kantismo e do idealismo alemão e a distinção de se considerar em certa medida possível o acesso direto à realidade do ser das coisas eram características comuns a toda a filosofia russa do período, não exclusivas do idealismo, mas também adotadas por outras vertentes, como o niilismo e a filosofia soviética materialista. Isso foi chamado de "ontologismo russo".