A teologia do domínio, também denominada dominionismo, é um conjunto de ideologias políticas que buscam submeter a vida pública ao domínio religioso dos cristãos (notadamente neopentecostais), e da interpretação que estes fazem da lei bíblica. O grau de aplicação das normas, e as formas usadas para adquirir autoridade administrativa, variam. Por exemplo, a teologia do domínio pode incluir a teonomia, mas não necessariamente envolver a defesa da adesão à Lei Mosaica como base de governo. A denominação é aplicada principalmente a grupos cristãos dos Estados Unidos da América, embora também esteja presente no Brasil.
Seguidores destacados desta ideologia, incluem o reconstrucionismo cristão calvinista, cristianismo carismático e os movimentos pentecostais do Reino Agora (Kingdom Now) e a Nova Reforma Apostólica. A maioria dos grupos contemporâneos incluídos na teologia do domínio surgiram nos anos 1970 de movimentos religiosos que reafirmam aspectos do nacionalismo cristão. O integrismo da Igreja Católica, é considerado algumas vezes como parte integrante da denominação dominionista, mas trata-se de um movimento muito mais antigo e com diferenças marcantes em relação ao dominionismo protestante, visto que está vinculado à doutrina de que a Igreja Católica é a única igreja verdadeira.
Etimologia thumb|"Moisés apresentando as Tábuas da Lei", Philippe de Champaigne, c.1648 A teologia do domínio é uma referência à tradução da Bíblia do Rei Jaime de Gênesis 1:28, no qual Deus concede à humanidade o "domínio" sobre a Terra:
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: "Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra".
Em fins dos anos 1980, proeminentes autores evangélicos usaram a expressão teologia do domínio e termos semelhantes, como dominionismo, para denominar um agrupamento de variados movimentos teológicos que apelavam diretamente àquela passagem no Gênesis. Cristãos tipicamente interpretam o versículo como a responsabilidade sobre a Terra dada por Deus à humanidade, mas um dos aspectos mais distintos da teologia do domínio, é que isto é interpretado como um mandato para a administração cristã em assuntos civis, não menos do que em outros assuntos humanos.
Tipos Reconstrucionismo cristão protestante Um exemplo de dominionismo na teologia reformada é o reconstrucionismo cristão, que se originou nos ensinamentos de R. J. Rushdoony nas décadas de 1960 e 1970. Sua teologia concentra-se na teonomia, no governo da Lei de Deus e em sua crença de que toda a sociedade deveria ser ordenada de acordo com as leis que governavam os israelitas no Antigo Testamento. Suas ideias sobre a lei bíblica no governo civil são expostas de forma mais abrangente em The Institutes of Biblical Law, mas ele escreveu muitos outros livros que tratam do assunto. O sistema proposto por Rushdoony é fortemente calvinista ao enfatizar a soberania de Deus sobre a liberdade e ação humana e negar a operação dos dons carismáticos nos dias atuais (continuacionismo). Ambos os aspectos estão em oposição direta à teologia do Kingdom Now ("Reino Agora", numa tradução livre).
Um dos principais seguidores de Rushdoony foi seu genro, Gary North. Militante anticomunista e adepto das teorias econômicas liberais de L. von Mises e Friedrich Hayek, North fundou o Institute for Christian Economics (ICE), instituição voltada para divulgar o reconstrucionismo dentro de um arcabouço de economia liberal, visando atingir um público mais amplo. Autor prolífico, com mais de 50 livros lançados, North também fundou a Dominion Press, uma editora voltada para a difusão do reconstrucionismo. Segundo North, a pobreza é algo natural, pois apenas Deus escolhe quem deseja enriquecer; o Estado somente pode promover a melhoria das condições de vida da população, caso siga estritamente a lei bíblica. North não acreditava em liberdade ou neutralidade religiosa, e trabalhava pela construção de uma sociedade baseada na Bíblia, onde finalmente seria negada "a liberdade religiosa dos inimigos de Deus". Mesmo na defesa da aplicação da pena capital, North seguia a Lei Mosaica: os condenados sofreriam lapidação, "devido à ampla disponibilidade de pedras e seu baixo custo". Na década de 1990, North também previu que o bug do milênio causaria um colapso global, dando aos cristãos a oportunidade de "impor o domínio por meio das igrejas".
Outra importante personalidade desta corrente teológica foi Francis Schaeffer, que embora fosse crítico de Rushdoony, notadamente quanto a separação entre Igreja e Estado, contribuiu para divulgar o reconstrucionismo através dos seus escritos, particularmente da trilogia Morte da Razão, O Deus que intervém e O Deus que se revela, traduzida para diversos idiomas. Em 1981, Schaeffer também foi o autor de Um manifesto Cristão, obra que pretendia se contrapor ao Manifesto Comunista (1848) e ao Manifesto Humanista (1973). Segundo o Manifesto de Schaeffer, os EUA haviam se desviado dos seus princípios bíblicos e adotado um ponto de vista humanista (e portanto ímpio), que incluíam a legalização do aborto e a secularização das escolas públicas. Embora considerada uma obra menor no conjunto de publicações de Schaeffer, o Manifesto serviu como texto-base de fundamentação da nova direita cristã.
Um outro nome de peso dentro do reconstrucionismo é C. Peter Wagner, falecido em 2016. De origem anglicana, Wagner se tornou um influente teólogo junto às denominações neopentecostais, as quais ele denominava de terceira onda. Publicou mais de 80 livros, sobre guerra espiritual, maldições hereditárias e temáticas assemelhadas. Foi um dos grandes impulsionadores da Nova Reforma Apostólica (NRA), que pretende constituir um governo apostólico para submeter todos os segmentos da sociedade ao comando de Jesus Cristo. Wagner foi o responsável pela popularização da teologia do domínio em vários países, inclusive no Brasil, onde esteve diversas vezes como convidado, pelo Ministério Internacional da Restauração e pela Igreja Batista da Lagoinha.
Adeptos plenos do reconstrucionismo, são poucos e marginalizados entre a maioria dos cristãos. Dave HuntHunt, Dave 1988. Whatever Happened to Heaven? Harvest House. Albert James Dager,Dager, Albert James. 1990. Vengeance is Ours: The Church in Dominion Sword Publishers; The World Christian Movement Sword Publishers., Albert James Dager, Hal LindseyLindsey, Hal 1990. The Road to Holocaust, Bantam e Thomas IceIce, Thomas, and H. Wayne House 1988. Dominion Theology: Blessing or Curse?, Multnomah Pub (), criticam especificamente o reconstrucionismo cristão de um ponto de vista cristão, e discordam em bases teológicas dos seus elementos teocráticos, calvinistas, e pós-milenaristas. J. Ligon Duncan, Sherman IsbellIsbell, Sherman 1997. "The Divine Law of Political Israel Expired: Part II e Part III ". Recuperado 6 de outubro de 2007., Vern PoythressPoythress, Vern S. 1991. The Shadow of Christ in the Law of Moses. Brentwood Tennessee: Wolgemuth & Hyatt Publishers Inc., Robert GodfreyGodfrey, W. Robert 1990, "Calvin and Theonomy," in Theonomy: A Reformed Critique, William S. Barker and W. Robert Godfrey eds., pp. 299–312, (Grand Rapids, Michigan: Academie Books, 1990). e Sinclair FergusonFerguson, Sinclair 1990. "An Assembly of Theonomists?" in Theonomy: A Reformed Critique, William S. Barker and W. Robert Godfrey eds., pp. 315–349, Grand Rapids, Michigan: Academie Books, 1990. analisam o reconstrucionismo como calvinistas conservadores, fazendo principalmente uma crítica teológica de seus elementos teocráticos. Michael J. McVicar observou que muitos dos principais reconstrucionistas cristãos também são escritores importantes nos círculos paleolibertários.
Alguns cientistas sociais usaram a palavra dominionismo para se referir à adesão ao reconstrucionismo cristão.
Integrismo católico thumb|upright=1.5|Comício da Frente Patriótica, 1936 O integrismo (integralismo) católico tem sido caracterizado como uma forma de teologia dominionista, mas na realidade é muito mais antigo e teologicamente distinto do dominionismo defendido pelos protestantes. Antonio Spadaro e Marcelo Figueroa disseram que os integralistas católicos firmaram uma aliança ecumênica não tradicional com os reconstrucionistas protestantes, que compartilham "o mesmo desejo de influência religiosa na esfera política". Da mesma forma, no National Catholic Reporter, Joshua J. McElwee escreveu que os integralistas católicos, juntamente com os seus homólogos protestantes, desejam estabelecer um “tipo teocrático de Estado”. Mas, em última análise, os objectivos dos dominionistas protestantes e dos integralistas católicos são divergentes, uma vez que os integralistas católicos aderem à doutrina de que a Igreja Católica é a "única igreja verdadeira" e que toda forma de protestantismo é "herética". No entanto, isso não impediu a cooperação entre eles, quando esta foi mutuamente benéfica.
O integrismo católico tem uma história muito mais longa do que o dominionismo protestante que surgiu nos EUA na década de 1970 e, na verdade, tem a sua raiz na doutrina católica tradicional sobre as relações Igreja-Estado que se desenvolveu quando os governos da Europa eram quase todos estados confessionais católicos e tinham o catolicismo como sua religião oficial. Tal concepção política foi denominada "Cristandade", com o ápice da autoridade política em mãos do Sacro Imperador Romano e o ápice da autoridade espiritual detida pelo Sumo Pontífice (Papa). Após o movimento em direção ao secularismo liberal e a abolição de igrejas nacionais, vários estados modernos eventualmente reagiram com um integralismo revivido, muitas vezes de forma fascista ou protofascista, como na Espanha sob a liderança de Francisco Franco, em Portugal sob António Salazar e na Áustria sob Engelbert Dollfuß e sua Frente Patriótica. Hoje, apenas um punhado de países mantém o catolicismo como religião oficial estabelecida de estado, mas ainda existem movimentos noutras nações e entre alguns na hierarquia católica, que apoiam um renascimento do integrismo em estados que se tornaram seculares.
Nos últimos anos, um "integrismo católico revivido" tem sido notado entre a geração mais jovem de católicos que escrevem para sites como o The Josias. Pode-se dizer que o integralismo é apenas a continuação moderna da concepção católica tradicional das relações Igreja-Estado elucidada pelo Papa Gelásio I e exposta ao longo dos séculos até o Sílabo dos erros, que condenou a ideia de que a separação entre Igreja e Estado é um bem moral. Por exemplo, alguns católicos elogiaram as ações de Pio IX no Caso Mortara de 1858, no qual ele ordenou o rapto de um menino judeu de seis anos, que teria sido supostamente batizado sem o consentimento dos pais. Um relato sistemático do integralismo católico como uma filosofia política coerente, foi escrito pelos teólogos católicos Thomas Crean e Alan Fimister: Integralism: a manual of political philosophy.
Hoje, os tratados políticos da Igreja Católica com vários países, conhecidos como concordatas, são criticados por alguns grupos liberais e democráticos de direitos humanos, por promoverem o integrismo católico. Mais de 200 concordatas estão em vigor. Algumas delas garantem explicitamente que o catolicismo seja reconhecido como religião oficial de Estado em vários países, e outras concedem reconhecimento histórico da fé católica e concedem certos direitos e privilégios à Igreja.
Teologia pentecostal do Reino Agora A teologia do Reino Agora (Kingdom Now) é um ramo da teologia do domínio que tem seguidores dentro do pentecostalismo, e despertou atenções desde fins dos anos 1980.