Nicholas Ray, nome artístico de Raymond Nicholas Kienzle (Galesville, Wisconsin, 7 de agosto de 1911 — Nova Iorque, 16 de junho de 1979) foi um cineasta norte-americano que dirigiu vários clássicos de Hollywood, como Rebel Without a Cause (Juventude Transviada), em 1955, e Wind Across The Everglades (Jornada Tétrica), em 1958, entre muitos outros.
Vida pregressa Nicholas Ray nasceu em Galesville, Wisconsin, o mais novo de quatro filhos e único filho de Olene "Lena" (Toppen) e Raymond Nicholas Kienzle, um empreiteiro e construtor. Seus avós paternos eram alemães e seus avós maternos eram noruegueses. Ele cresceu em La Crosse, Wisconsin, também a cidade natal do seu futuro colega diretor Joseph Losey. Um estudante popular, mas errático, propenso à delinquência e ao abuso de álcool com seu pai alcoólatra como exemplo, aos dezesseis anos Ray foi enviado para viver com sua irmã mais velha e casada em Chicago onde estudou na Waller High School e mergulhou na vida noturna. Ao retornar a La Crosse em seu último ano, emergiu como um orador talentoso, vencendo um concurso na estação de rádio local WKBH (agora WIZM) enquanto também frequentava um teatro local.
Com bom desempenho em inglês e em oratória, mas acumulando reprovações em latim, física e geometria, o futuro cineasta formou-se em 1929 nas últimas colocações de sua turma na La Crosse Central High School. Estudou drama por dois anos na La Crosse State Teachers College (atual Universidade de Wisconsin–La Crosse), antes de alcançar as notas mínimas para tentar ingresso na Universidade de Chicago, no outono de 1931. Apesar de permanecer apenas um semestre devido ao excesso de álcool e ao baixo rendimento, o estudante estabeleceu laços com o dramaturgo Thornton Wilder, então professor da instituição.
Durante sua passagem por Chicago, o aspirante a diretor atuou na Student Dramatic Association e, ao regressar para sua cidade natal, fundou o La Crosse Little Theatre Group, responsável por diversas montagens em 1932. Também voltou a se matricular brevemente no State Teachers College, retomando sua coluna “The Bullshevist” no jornal estudantil Racquet. De acordo com o biógrafo Patrick McGilligan, nessa época, em parceria com Clarence Hiskey, organizou encontros para estruturar um núcleo local do Partido Comunista. No início de 1933 abandonou definitivamente a instituição e passou a adotar o nome “Nicholas Ray” em sua correspondência.McGilligan, 2004, pp. 28–32. Através de Wilder e outros contatos, conheceu Frank Lloyd Wright em Taliesin, em Spring Green, sendo convidado a organizar o recém-construído Hillside Playhouse, dedicado a apresentações musicais e teatrais. Foi ali, em sessões regulares que exibiam produções estrangeiras, que o jovem provavelmente teve o primeiro contato com um cinema fora do padrão de Hollywood. O vínculo com Wright, contudo, se rompeu em 1934, resultando em sua expulsão do local.McGilligan, 2004, pp. 32–44.
Após essa experiência, o futuro realizador deslocou-se a Nova Iorque, onde entrou em contato com o teatro político da Grande Depressão. Regressando depois da ruptura em Taliesin, associou-se ao Workers' Laboratory Theatre, posteriormente rebatizado como Theatre of Action, chegando a se apresentar em diversas montagens sob o nome artístico Nik Ray. Nesse período colaborou com intérpretes que mais tarde escalaria em filmes, como Will Lee e Curt Conway, além de estabelecer amizades duradouras, incluindo Elia Kazan.Eisenschitz, 1990, pp. 22–25. Em seguida trabalhou para o Federal Theatre Project, parte do Works Progress Administration, e conviveu com o folclorista Alan Lomax, viajando pelo interior dos Estados Unidos em busca de músicas tradicionais.Deutsch & Shaw, 2015, pp. 110–115. O resultado foi o programa radiofônico Back Where I Come From (1940–41), transmitido pela CBS, com artistas como Woody Guthrie, Lead Belly e Pete Seeger. No contexto da Segunda Guerra Mundial, passou a dirigir programas de propaganda radiofônica para o Escritório de Informação de Guerra dos Estados Unidos e para a Voice of America, sob coordenação de John Houseman. Investigado pelo FBI em 1942 por supostas ligações comunistas, acabou classificado como “perigo em potencial”, embora a acusação tenha sido posteriormente arquivada.Eisenschitz, 1990, p. 70; McGilligan, 2004, pp. 97–98, 103–104, 519. Reaproximado de Kazan e de sua esposa, Molly, acompanhou o diretor a Hollywood em 1944, atuando como assistente em Laços Humanos.
De volta ao leste dos Estados Unidos, o diretor estreou na Broadway em 1946 com o musical Beggar's Holiday, de Duke Ellington e John Latouche. No mesmo ano havia sido assistente em Lute Song, supervisionado por John Houseman. Ainda em parceria com ele, envolveu-se em produções televisivas, como a adaptação de Sorry, Wrong Number, transmitida pela CBS em janeiro de 1946, que o jovem cineasta acabou encenando sozinho devido à agenda de seu mentor.Eisenschitz, 1990, pp. 82–83; McGilligan, 2004, pp. 114–115. Pouco depois, iniciou a carreira cinematográfica com They Live by Night (1949), produzido pela RKO Pictures.
Carreira They Live by Night foi analisado (sob um de seus títulos de produção, The Twisted Road) já em junho de 1948, mas só chegou aos cinemas em novembro de 1949, devido ao caos administrativo gerado pela aquisição da RKO Pictures por Howard Hughes.Brog, 1948. Como resultado da demora, os dois filmes seguintes do diretor — A Woman's Secret (1949), também da RKO, e Knock on Any Door (1949), produzido pela Santana Productions de Humphrey Bogart em parceria com a Columbia Pictures — foram lançados antes de sua estreia oficial. Quase uma leitura impressionista do film noir, estrelada por Farley Granger e Cathy O'Donnell como um ladrão e sua esposa recém-casada, a obra destacou-se pela empatia com jovens marginalizados, um dos temas recorrentes na filmografia de Ray. A narrativa sobre amantes em fuga influenciou outros longas que exploraram a dinâmica de casais criminosos, como Gun Crazy (1950), de Joseph H. Lewis, Bonnie and Clyde (1967), de Arthur Penn, e Badlands (1973), de Terrence Malick, além de Thieves Like Us (1974), de Robert Altman, também baseado no romance de Edward Anderson.
The New York Times recebeu o filme positivamente, apesar de considerar “equivocado” o olhar compassivo do cineasta para rebeldes e criminosos, e destacou sua habilidade técnica: “boa, realista produção e direção precisa... O cineasta tem olhar atento para os detalhes da ação. Sua encenação do assalto a um banco, visto apenas pelo jovem no carro de fuga, é um excelente momento de cinema agitador. E o modo sensível como coloca seus atores diante de estradas, acampamentos e motéis sombrios contribui para a compreensão vívida de um drama pessoal em fuga desesperada.”Crowther, 1949. Ainda no gênero noir, o realizador dirigiu In a Lonely Place (1950), com Humphrey Bogart no papel de um roteirista acusado de assassinato, e On Dangerous Ground (1951), protagonizado por Robert Ryan como um detetive violento que encontra redenção ao investigar um crime numa comunidade rural. Nesse mesmo período, também assinou A Woman’s Secret, estrelado por sua futura esposa Gloria Grahame, e Born to Be Bad (1950), com Joan Fontaine como uma ambiciosa socialite.
Em janeiro de 1949, o cineasta foi anunciado como responsável por I Married a Communist, projeto idealizado por Hughes para testar a lealdade política de seus contratados. Como John Cromwell e Joseph Losey recusaram a direção e foram subsequentemente boicotados, esperava-se que Ray sofresse represálias. No entanto, antes do início das filmagens, afastou-se do projeto, e, em vez de ser suspenso, teve o contrato renovado com aval do magnata. O próprio diretor afirmou décadas depois que Hughes “o salvou da lista negra”, embora biógrafos apontem que ele pode ter colaborado privadamente com o Comitê de Atividades Antiamericanas para se proteger.Eisenschitz, 1990, pp. 123–125; McGilligan, 2004, pp. 167–170, 210–211. Seu último trabalho para a RKO foi The Lusty Men (1952), estrelado por Robert Mitchum como um veterano de rodeio dividido entre treinar um jovem competidor e envolver-se sentimentalmente com a esposa deste. Anos depois, em 1979, o próprio Ray descreveu o longa como “a história de um homem que quer se recompor antes de morrer.”Eisenschitz, 1990, p. 479.
Após deixar a RKO, o diretor assinou com Lew Wasserman, agente da MCA Inc., que conduziu sua carreira durante os anos 1950. Nesse período, Ray trabalhou em quase todos os grandes estúdios, transitando entre westerns, melodramas e projetos mais experimentais. Os dois filmes que consolidaram sua reputação surgiram nessa fase: Johnny Guitar (1954), produzido pela Republic Pictures, um western estilizado com Joan Crawford e Mercedes McCambridge que encantou críticos franceses — François Truffaut o chamou de “a Bela e a Fera dos faroestes”Truffaut, 1955, p. 5.Truffaut, 1978, p. 142. —, e Rebel Without a Cause (1955), rodado na Warner Bros. com James Dean, Natalie Wood e Sal Mineo, que revolucionou a representação da juventude no cinema americano. Lançado pouco após a morte de Dean, o longa tornou-se o maior sucesso comercial do cineasta e o exemplo mais puro de seu estilo, caracterizado pelo uso expressionista da cor, pela valorização da arquitetura como elemento narrativo e pela empatia com desajustados sociais.The Playlist Staff, 2012.
Na sequência, Ray dirigiu melodramas como Bigger Than Life (1956), com James Mason, e The True Story of Jesse James (1957), além de dramas de época como Wind Across the Everglades (1958), na Warner, e Party Girl (1958), na MGM. Antes, porém, assinara Bitter Victory (1957), filmado no deserto da Líbia com Richard Burton e Curd Jürgens, recebido friamente pelo público americano, mas elogiado por críticos europeus como Jean-Luc Godard e Éric Rohmer.Eisenschitz, 1990, pp. 308–311. Na virada da década, o cineasta expandiu sua escala de produção com The Savage Innocents (1960), épico sobre os inuit protagonizado por Anthony Quinn, e King of Kings (1961), um drama bíblico que enfrentou problemas de produção e críticas negativas na imprensa religiosa americana.Eisenschitz, 1990, pp. 348–375.Walsh, 1961, pp. 71–74.
Em seguida, assinou contrato para dirigir 55 Dias em Pequim (1963), sobre a Rebelião dos Boxers, estrelado por Charlton Heston, Ava Gardner e David Niven. Devido ao desgaste físico e emocional durante as filmagens, Ray sofreu uma crise cardíaca e foi substituído por Andrew Marton, embora tenha permanecido oficialmente creditado como diretor na estreia londrina.Eisenschitz, 1990, pp. 379–387; McGilligan, 2004, p. 437. O longa representou sua última produção de grande estúdio em Hollywood, marcando o início de uma fase de trabalhos independentes e colaborações mais experimentais, muitas vezes fora dos Estados Unidos. Carreira posterior
A partir do início da década de 1960, após 55 Days at Peking, Nicholas Ray passou a enfrentar dificuldades para trabalhar em Hollywood e concentrou seus esforços na Europa. Entre os projetos concebidos nesse período estavam uma adaptação de The Lady from the Sea, de Henrik Ibsen, idealizada inicialmente para Ingrid Bergman e depois para Romy Schneider; o romance Next Stop—Paradise, do polonês Marek Hłasko; e o faroeste Under Western Skies, escrito em colaboração com o romancista James Jones, em 1963.Eisenschitz, pp. 390–394.