A Linha da Beira Alta é uma linha ferroviária internacional que liga o entroncamento ferroviário da Pampilhosa (Linha do Norte), perto de Coimbra, à fronteira com Espanha, em Vilar Formoso, com percurso paralelo ao eixo do rio Mondego. É uma linha electrificada de Bitola ibérica (1,668 m), sendo composta principalmente por via única, num comprimento total de cerca de 202 km. Afirma-se como o principal acesso por caminho de ferro entre Portugal e o resto da Europa, sendo por isso considerado como um eixo ferroviário de grande importância. Foi construída pela Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta para abrir uma nova ligação internacional, mais próxima de Coimbra, e unir a rede ferroviária ao importante Porto da Figueira da Foz. Foi inaugurada em 3 de Agosto de 1882. Sofreu importantes obras de beneficiação nas décadas de 1980 e 1990, tendo sido modernizadas as instalações de sinalização e comunicação, e electrificada e renovada a via em toda a sua extensão.
thumb|left|Estação de Pampilhosa. A Linha da Beira Alta segue pelas vias ao fundo à direita. Descrição Características físicas A Linha da Beira Alta compreende-se entre as Estações de Pampilhosa e Vilar Formoso, com uma extensão de aproximadamente 202 km. Utiliza principalmente via única, com alguns troços duplicados. Conta com doze túneis, que no seu total atingem um comprimento de cerca de 3300 m. Inicialmente, incluía também o Ramal da Figueira da Foz, atingindo então um comprimento de 252,522 km.
A Linha está electrificada, utilizando um sistema de alimentação 2x25 kV ~ 50 Hz com a catenária e o feeder nos mesmos suportes, formando uma linha bifásica e 50 kV. A energia eléctrica é fornecida por linhas de 220 kV a três subestações de tracção eléctrica, construídas em Mortágua, Gouveia e Sobral da Serra. Foram construídos três postos de catenária, em Pampilhosa, Oliveirinha e Vila Franca das Naves, e 14 autotransformadores de 50/25 kV.
Conta com um Sistema de Sinalização Automática e Equipamentos Complementares de Apoio à Exploração, que inclui a automatização de passagens de nível, a sinalização das estações, e o comando centralizado de circulação com telecomando e telecontrolo, graficagem automática das circulações, seguimento automático das composições, o CONVEL — Controlo Automático de Velocidade, e um programador de itinerários. Para as comunicações, a Linha da Beira Alta utiliza o Sistema Integrado de Telecomunicações e Telecomando de Circulação, que engloba a Rede Telefax, o Sistema Rádio Solo-Comboio, a Rede Geral de Telefonia, as Redes de Exploração (compostas pela Regulação de Circulação, Rede de Bateria Local, Rede de Comunicações Locais, Rede das Passagens de Nível, Rede dos Sinais Absolutos, Regulação de Energia, Telefones de estação, Redes Locais de Rádio e Supervisão Técnica), a Rede de Transmissão de Dados, e os Sistemas de Informação ao Público (formado pela Sonorização e Sincronismo Horário).MARTINS et al, 1996:203-204
Sendo a principal ligação ferroviária entre Portugal e o estrangeiro, a Linha da Beira Alta foi considerada como um eixo de interesse ibérico pela Comissão Técnica Luso — Espanhola, estando integrada igualmente no Esquema Director das Redes Transeuropeias de Transporte da União Europeia, e no Eixo E 05 da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa.
Está dividida em 17 secções de linha, divididas por 18 estações.
Devido ao acidentado relevo que atravessa, esta linha possui um traçado bastante sinuoso, com muitas curvas de raio reduzido, e extensas rampas com declives da ordem dos 14 a 17 por mil.MARTINS et al, 1996:198-199
thumb|left|Comboio Intercidades na Linha da Beira Alta, rebocado pela locomotiva 5604. Tráfego Em 1996, a Linha da Beira Alta era diariamente utilizada por cerca de trinta comboios de passageiros e mercadorias, alcançando normalmente o limiar da saturação devido ao aumento sazonal da procura.
Em 2018, no que diz respeito ao serviço de passageiros, é utilizada pelos comboios regionais entre Coimbra e Guarda, e entre Guarda e Vilar Formoso, pelos Intercidades entre Lisboa-Santa Apolónia e Guarda e pelo comboio internacional Sud-Expresso/Lusitânia, operado em parceria entre a CP e a RENFE, que liga Lisboa-Santa Apolónia a Irún/Hendaye e Madrid-Chamartín.(Nota: Serviços Internacionais, Sud-Expresso/Lusitânia fora de serviço desde maio de 2020).
Material circulante Entre o material a vapor utilizado nesta linha, destacam-se as três locomotivas que foram fornecidas pela Henschel & Sohn em 1931, e que posteriormente foram integradas na CP como a Série 801 a 803.MARTINS et al, 1996:90 Em termos de material a gasóleo, circularam as locomotivas das Séries 1500 e Série 1800, tendo estas últimas conduzido o Sud Expresso durante um curto espaço de tempo. Outra série que passou pela Linha da Beira Alta foram as locomotivas 1960, onde faziam todo o tipo de comboios, incluindo os Intercidades e Sud Expresso.MARTINS et al, 1996:92 Entre o material eléctrico, destacam-se as locomotivas da Série 5600 da CP.
thumb|left|Estação de Celorico da Beira, nos primeiros anos. História Planeamento Primeiros planos Já nos primórdios dos caminhos de ferro em Portugal se pensou em levar o comboio até à região da Beira Alta, tendo os primeiros planos para a linha de Lisboa ao Porto, na década de 1850, incluído um ramal para a Beira Alta, que partiria no lanço a Norte de Coimbra.SERRÃO, 1986:236 Em 1859, o engenheiro Francisco Maria de Sousa Brandão procedeu ao reconhecimento do terreno entre Coimbra e a fronteira com Espanha, de forma a estudar as condições para a abertura da futura Linha da Beira Alta, que devia ligar a Paris, passando por Valladolid.SERRÃO, 1986:237 O percurso de Sousa Brandão fazia a linha sair da Estação de Coimbra-B em reversão, e passar por Miranda do Corvo.
Em 10 de Abril de 1864, a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses inaugurou o lanço entre Taveiro e Estarreja da Linha do Norte, no qual se situam as estações de Pampilhosa e Coimbra-B. Foram estudados vários percursos para a primeira parte da Linha, até Santa Comba Dão, que foi estabelecido como um local de passagem obrigatória; o lanço principal foi proposto pelo engenheiro Boaventura José Vieira, que fazia a fazia a via férrea sair da Estação Ferroviária de Coimbra-B, seguindo depois pelo Vale de Coselhas até atingir o Rio Mondego. Depois acompanharia o rio ao longo da sua margem direita, passando por Penacova, até atingir a foz do Rio Dão, onde passaria para a margem esquerda, continuando até ao local onde seria construída a Estação de Santa Comba Dão. Considerava-se que a cidade de Coimbra devia ser o ponto inicial da Linha, devido à sua condição como capital da região da Beira Alta, e por motivos militares. Do ponto de vista técnico, este traçado faria de Coimbra o centro de uma malha ferroviária baseada no vale do Rio Mondego, e que estabeleceria uma ligação directa por via férrea ao Porto da Figueira da Foz.
thumb|left|Fotografia antiga da Estação de Mortágua.
Novo percurso No entanto, os habitantes de Coimbra protestaram contra o início da Linha da Beira Alta naquela cidade, motivo pelo qual o ponto de entroncamento foi posteriormente modificado para a Pampilhosa. No entanto, esta modificação criou graves defeitos na organização da rede ferroviária, dificultando a gestão dos caminhos de ferro no âmbito da defesa militar do país, e gerando problemas económicos a nível nacional, e em Coimbra em particular. Com efeito, pensa-se que, caso a cidade tivesse sido ligada directamente à região da Beira Alta pelo caminho de ferro, podia-se ter afirmado como um importante centro industrial e comercial na região centro do país, em ligação com o Porto da Figueira da Foz. Com o cruzamento das duas linhas na Pampilhosa, tornou-se necessário fazer ali o transbordo do tráfego entre Coimbra e a região da Beira Alta, processo que complicou e encareceu o movimento de passageiros e mercadorias; por outro lado, o aumento do tráfego trouxe um grande desenvolvimento à estação e à aldeia da Pampilhosa, tendo-se formado aqui um importante polo ferroviário e industrial.BORGES, 1987:151
Caso a linha se tivesse iniciado em Coimbra, a ligação à Figueira da Foz teria sido assegurada por uma só linha ao longo da margem direita do Mondego, por uma região rica em produção agrícola, enquanto que em vez disso tiveram de se construir dois ramais, um a partir de Alfarelos, e outro a partir da Pampilhosa, percorrendo este último uma zona pobre, que pouco tráfego trouxe para o caminho de ferro.
Em compensação pela Linha da Beira Alta não se iniciar em Coimbra, foi construído um ramal desde a estação de Coimbra-B até uma gare no centro da cidade, que constituiu a primeira secção do Ramal da Lousã.
A construção da Linha da Beira Alta apresentava uma elevada importância, pois além de abrir uma nova ligação internacional, que encurtaria a distância entre Portugal e a França, iria servir uma região com uma forte densidade populacional, um grande número de indústrias, principalmente de fiação e tecelagem, e uma considerável produção agrícola, especialmente de gado e vinho.SANTOS, 1995:116-118 Com efeito, desde a sua abertura que se revelou como uns dos eixos mais importantes da rede ferroviária portuguesa, tanto do ponto de vista nacional como internacional.
thumb|left|Cartaz promocional, 1936
Esta ligação foi discutida pela primeira vez numa proposta parlamentar em 1874, tendo sido modificada por comissões parlamentares no ano seguinte; a proposta foi ratificada por uma lei de 26 de Janeiro de 1876, que estabeleceu a cidade de Coimbra como ponto inicial da Linha. Foram abertos dois concursos, em 20 de Maio e 11 de Setembro do mesmo ano, mas só apareceu uma proposta, que foi recusada porque se considerava prejudicial aos interesses públicos; entretanto, em 25 de Maio foi aprovado um novo plano, que estabelecia a estação inicial na Pampilhosa. Devido ao insucesso dos concursos, em 8 de Janeiro de 1877 o governo entregou ao parlamento uma moção para realizar a construção desta linha, mas no debate que se seguiu, decidiu-se fazer um novo concurso, que foi aberto pela lei de 23 de Março de 1878. A abertura deste concurso inseriu-se numa fase de grande desenvolvimento do caminho de ferro, iniciada nesse ano pela pasta de Serpa Pimentel.SERRÃO, 1986:238
left|thumb|Viaduto das Várzeas, fotografado por Emílio Biel.
Concessão e construção No dia 3 de Agosto de 1878, foi lavrado o contrato com a Société Financière de Paris, que fundou a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta para construir e explorar o troço da Pampilhosa a Vilar Formoso. O estado concedeu um subsídio de 25.837.579 francos, que seria pago em três fases: a primeira seria quando estivessem concluídas todas as terraplanagens e obras de arte, a segunda após a via estar completamente assente, e a terceira quando se iniciasse a exploração. O contrato determinou que as obras deviam começar em 3 de Novembro desse ano, e a linha devia entrar ao serviço em 3 de Agosto de 1882. Porém, a companhia conseguiu iniciar os trabalhos ainda em Outubro de 1878. As obras decorreram com regularidade, tendo as terraplanagens sido inicialmente feitas à razão de 297.734 m³ por mês, e nos finais à razão de 308.923 m³ por mês. Desta forma, conseguiram-se executar todas as terraplanagens, num valor de 6.416.250 m³, antes do período previsto, apesar de terem sido abertas trincheiras em granito duro, e escavados onze túneis, que no seu total atingiram 2.778 m de extensão, dos quais 1.104 pertenciam ao Túnel de Salgueiral. Foram construídas várias pontes metálicas, como o Viaduto das Várzeas, cuja montagem foi contratada à casa Eiffel.REIS et al, 2006:33
Entretanto, em 8 de Janeiro de 1879 foram publicados os estatutos da Linha da Beira Alta.MARTINS et al, 1996:248
thumb|left|Estação de Figueira da Foz, fotografada por Emílio Biel. Ligação à Figueira da Foz