A Diocese de Macau (em latim: Dioecesis Macaonensis) é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Macau, na República Popular da China. Foi erecta pelo Papa Gregório XIII através da bula "Super specula militantis Ecclesiae", a 23 de Janeiro de 1576, seguindo o rito romano.Papa Gregório XIII, Bula Super specula militantis Ecclesiae (1576), in Bullarium patronatus Portugalliae regum, Tomo I, pp. 243–245 Inicialmente com jurisdição eclesiástica sobre a China, o Japão e as ilhas adjacentes, actualmente a diocese apenas exerce jurisdição sobre o território da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Está dividida em nove paróquias.Directório Católico de Macau, Diocese de Macau, secção C: Paróquias e Capelas. A sua criação em 1576 confirmou o papel que a então colónia portuguesa de Macau desempenhava como centro de formação e de partida de missionários católicos, nomeadamente jesuítas, para os diferentes países da Ásia, principalmente para a China e o Japão. Anteriormente vinculada ao Padroado português (até 1999) e sufragânea da Arquidiocese de Goa (até 1976), a Diocese de Macau é hoje uma diocese isenta, ou seja, está imediatamente sujeita à Santa Sé.Diocese de Macau no GCatholicPapa Paulo VI, Bula Ad nominum, 1 de Janeiro de 1976, in Acta Apostolicae Sedis 68 (1976), pág. 307. (em latim) É independente da hierarquia católica chinesa e da Associação Patriótica Católica Chinesa. Desde 2016, D. Stephen Lee Bun-sang é o Bispo de Macau.Monsenhor Manuel Teixeira, "Bispos, Missionários, Igrejas e Escolas: no IV Centenário da Diocese de Macau" (Macau e a sua Diocese, Vol. 12), Macau, Tipografia da Missão do Padroado, 1976; págs. 33, 98, 100, 101, 102 e 103.

Em 2022, a Diocese contava aproximadamente com 32,5 mil católicos (aproximadamente 4,8% da população local). A população católica de Macau é bastante multicultural, sendo principalmente constituída pelas comunidades chinesa (chineses de Macau, chineses de Hong Kong, chineses provenientes da China Continental, etc.), lusófona (portugueses europeus, luso-descendentes de Macau ou macaenses, africanos provenientes dos PALOPs, brasileiros, timorenses, etc.) e anglófona (maioritariamente filipinos). Por isso, as celebrações litúrgicas são habitualmente realizadas em cantonês, português e/ou inglês. O mandarim, o tagalog e o vietnamita também são usados para a celebração regular de algumas Missas.Horário das Missas, no site oficial da Diocese de Macau. Em 2022, a diocese contava com um bispo, um bispo-emérito, 13 padres diocesanos residentes e 1 padre diocesano que residia fora de Macau, 20 padres especiais, 60 padres regulares e 30 irmãos religiosos, 147 religiosas e 175 missionárias voluntárias. Em 2023, existiam em Macau 10 institutos religiosos masculinos,Directório Católico de Macau (edição de 2023), Diocese de Macau, secção F: Institutos Religiosos (Masculinos) 16 institutos religiosos femininosDirectório Católico de Macau (edição de 2023), Diocese de Macau, secção G: Institutos Religiosos (Femininos) e 2 institutos seculares.Directório Católico de Macau (edição de 2023), Diocese de Macau, secção E: Institutos Seculares

A Igreja Católica local possui uma vasta rede de serviços de assistência social e de educação, constituída em 2022 por 22 instituições de serviço social, onde se incluem sete creches; seis sanatórios para idosos; quatro centros de reabilitação para deficientes físicos e mentais; cinco lares para crianças de famílias monoparentais e/ou problemáticas; e 31 estabelecimentos de ensino (incluindo a Universidade de São José), com cerca de 32,3 mil alunos.Entidades Associadas da Universidade Católica Portuguesa, no site da Universidade Católica Portuguesa. Actualmente, a Diocese dispõe de um seminário, o Seminário de São José, para a formação de novos sacerdotes diocesanos.Formados novos padres após interregno de duas décadas, Jornal Tribuna de Macau, 17 de Fevereiro de 2015

A Diocese de Macau tem São Francisco Xavier e Santa Catarina de Siena como santos padroeiros e Nossa Senhora da Imaculada Conceição como padroeira principal. Na cidade de Macau, São João Baptista é também venerado como seu padroeiro, desde a vitória dos portugueses contra os invasores holandeses na Batalha de Macau (em 1622).Os 4 Padroeiros de Macau (2) – São João Baptista e o Monumento da Vitória, Crónicas Macaenses, 27 de Fevereiro de 2014. O lema da diocese é Scientia et Virtus (Ciência e Virtude). A sua catedral é a Igreja da Sé, que, juntamente com a Igreja de S. Lourenço, a Igreja e Seminário de S. José, a Igreja de St. Agostinho, a Igreja de S. Domingos, as Ruínas de S. Paulo, a Igreja de St. António e a Capela de N. Sra. da Guia, foi incluída em 2005 no "Centro Histórico de Macau", que por sua vez está incluído na Lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO.Breve introdução sobre a Diocese de Macau, no site oficial da Diocese de Macau.O Centro Histórico de Macau , com a lista dos monumentos classificados.

História

thumb|260px|esquerda|A fachada da já destruída Igreja da Madre de Deus, anexa ao Colégio de São Paulo. A igreja foi reconstruída em 1602 e destruída em 1835, restando apenas as Ruínas de São Paulo, que inclui a fachada.Ruínas de S. Paulo , no site da Rede do Património Cultural de Macau

O Papa Gregório XIII, através da bula "Super specula militantis Ecclesiae", a 23 de Janeiro de 1576, erigiu a Diocese de Macau, com jurisdição eclesiástica inicial sobre a China, o Japão e as ilhas adjacentes, separando-a da Diocese de Malaca. A Diocese era a sede do Padroado Português no Extremo Oriente,Decreto-Lei n.º 81/88/M querendo isto dizer que o Estado português patrocinava, influenciava e protegia a Igreja Católica nos seus domínios.

Aquando da fundação da Diocese, Macau já era um sítio com muitos cristãos: em 1568, o número de católicos era de 5 mil, contra os 600 católicos registados em 1561. Em 1644, a cidade de Macau chegou a ter 40 mil católicos, mas, nos primórdios do século XVIII, já só restavam 19509 católicos, de entre uma população total de 20,5 mil habitantes. Sendo um importante estabelecimento comercial português em meados do século XVI, Macau tornou-se também num importante ponto de partida de missionários católicos para os diferentes países da Ásia, principalmente para a China e o Japão. Eles construiram igrejas, instituições de caridade e de educação, nomeadamente o Colégio de São Paulo (fundado no séc. XVI) e o Seminário de São José (fundado no séc. XVIII). Estas instituições académicas, ambas criadas pelos jesuítas, serviam para formar missionários e padres. Mas, o Colégio foi destruído por um incêndio em 1835 e o Seminário, devido à falta de vocações sacerdotais, deixou de funcionar em 1967. Além da evangelização, estes religiosos católicos, nomeadamente Matteo Ricci, promoveram também o intercâmbio ético, cultural e científico entre o Ocidente e o Oriente. Vários missionários jesuítas, que também eram cientistas, músicos, artistas e escritores, chegaram a desempenhar importantes funções e cargos na Corte imperial chinesa, nomeadamente durante o reinado de Kangxi (1661-1722).Número de fiéis e sacerdotes católicos caiu para metade desde 1978, Jornal Tribuna de Macau, 27 de Dezembro de 2007

O primeiro a ser sagrado Bispo de Macau foi D. Leonardo de Sá, que só chegou a Macau em 1581, sendo a Diocese administrada pelo bispo D. Belchior Carneiro Leitão até à data mencionada. Foi este bispo jesuíta português que fundou, em 1569, o Hospital dos Pobres (mais tarde renomeado de Hospital de São Rafael) e a Santa Casa da Misericórdia, a primeira instituição europeia de caridade e de beneficência em Macau que tem por objectivo atender às necessidades dos pobres da Cidade.Santa Casa da Misericórdia , no site da Rede do Património Cultural de Macau Esta instituição contribuiu muito para o desenvolvimento da assistência social de Macau. D. Belchior fundou também uma leprosaria junto à Igreja de S. Lázaro para cuidar dos leprosos.Monsenhor Manuel Teixeira, "Vultos marcantes em Macau", Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982Igreja de São Lázaro e adro , no site da Rede do Património Cultural de MacauMonsenhor Manuel Teixeira, "Bispos, Missionários, Igrejas e Escolas: no IV Centenário da Diocese de Macau" (Macau e a sua Diocese, Vol. 12), Macau, Tipografia da Missão do Padroado, 1976; págs. 43, 44 e 100

Aquando da sua fundação, a Diocese de Macau, vinculada ao Padroado português e sufragânea da Arquidiocese de Goa, teve jurisdição sobre vários territórios eclesiásticos existentes no Extremo Oriente, nomeadamente a China, o Japão, o Vietname e ilhas adjacentes. No entanto, com o decorrer dos tempos, a Igreja Católica começou a criar gradualmente novas dioceses e circunscrições eclesiásticas no Extremo Oriente e, consequentemente, a Diocese de Macau começou, aos poucos, a perder territórios e igrejas que outrora foram criadas e/ou administradas por ela.Gabinete de Comunicação Social do Governo da RAEM, Macau Livro do Ano 2006,Católicos - Cristianismo - Religiões e Hábitos, págs. 540-541. Com a criação da Diocese de Funay (1588) no Japão, dos Vicariatos Apostólicos de Tonquim e da Cochinchina (1659),Papa Alexandre VII, Breve Super cathedram (1659), in Bullarium patronatus Portugalliae regum, Tomo II, p. 95 do Vicariato Apostólico de Nanquim (1659, elevado a diocese em 1690)Papa Alexandre VIII, Bula Romanus Pontifex Beati Petri (1690), in Raffaele de Martinis, Iuris pontificii de propaganda fide. Pars prima, Tomo II, Roma, 1889, p. 122 e da Diocese de Pequim (1690),Papa Alexandre VIII, Bula Romani Pontificis pastoralis solicitudo (1690), in Raffaele de Martinis, Iuris pontificii de propaganda fide. Pars prima, Tomo II, Roma, 1889, p. 125 a jurisdição da Diocese de Macau ficou reduzida a Macau e ilhas adjacentes, Timor e as Províncias chinesas de Guangxi, Hainão e Guangdong.Monsenhor Manuel Teixeira, "Bispos, Missionários, Igrejas e Escolas: no IV Centenário da Diocese de Macau" (Macau e a sua Diocese, Vol. 12), Macau, Tipografia da Missão do Padroado, 1976; págs. 34, 37, 38, 39 e 57.

Não obstante, principalmente durante o bispado de D. João de Casal (1690-1735), a diocese participou na controvérsia dos ritos na China, que dividiu os missionários e prejudicou muito a evangelização na China. D. João de Casal, defendendo a sua autoridade episcopal vinculada ao Padroado português, entrou em conflito directo com o legado papal Charles de Tournon, que chegou a Macau sem a autorização do Padroado em 1707, depois de ser expulso da China pelo Imperador Kangxi. D. João de Casal chegou mesmo a proibir o clero local de obedecer aos decretos de Tournon que condenavam os ritos chineses como supersticiosos e incompatíveis com o catolicismo. Com o agravar dos conflitos, houve até trocas de excomunhão entre os dois prelados. Tournon acabou por morrer em Macau no dia 8 de Junho de 1710. Por causa da controvérsia dos ritos, o Imperador Kangxi, que anteriormente era favorável ao cristianismo, decidiu proibir em 1721 a actividade evangelizadora dos missionários europeus na China. Em 1732/1734, o Imperador Yongzheng expulsou todos os missionários da China, excepto aqueles que trabalhavam na Corte imperial como cientistas ou sábios (na sua maioria, eram jesuítas). Macau serviu-se assim de cidade de refúgio para dezenas de missionários expulsos, incluindo alguns bispos.; págs. 33-40

Durante o reinado do Imperador chinês Qianlong (1736-1796), as perseguições religiosas aos católicos chineses continuaram, afectando inclusivamente Macau: em 1748, foi decretado a proibição da conversão de chineses ao catolicismo e o encerramento da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, que era na altura a igreja responsável pela maioria dos baptismos de chineses em Macau.Jorge M. dos Santos Alves, Macau, in Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. J-P, pp. 159-163.