Antoine Hercule Romuald Florence, conhecido como Hercule Florence ou Hércules Florence, (Nice, – Campinas, ), foi um inventor, desenhista e polígrafo monegasco-brasileiro, além de pioneiro da fotografia.
A ele é creditada a invenção independente da fotografia no Brasil, três anos antes de Louis Daguerre mas seis anos após Nicéphore Niépce, e a criação do termo photographie em 1834, alguns anos antes de John Herschel cunhar independentemente o termo photography.
Biografia Desde pequeno, Hércules Florence, já vivendo em Mônaco desde os três anos, após a morte de seu pai, demonstrou possuir notável talento para o desenho. Ao ler Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, apaixonou-se pela vida no mar.
Em 1820, com apenas 16 anos, obteve a autorização de sua mãe e tornou-se grumete. Sua primeira parada marítima foi o grande porto belga de Antuérpia, onde, desafortunadamente, foi assaltado e espoliado de seus principais bens e dinheiro. O então aventureiro fez uma viagem praticamente a pé até o principado francês de Mônaco, passando por uma breve estada na Holanda.
Sua desdita no porto belga não o desanimou e, em 1º de maio de 1824, após renovar seu passaporte, chegou ao Brasil a bordo da fragata Maria Thereza, aportando no Rio de Janeiro. A fragata ficou estacionada um mês e seguiu seu trajeto, porém sem o jovem Florence, que se fixaria no Brasil por toda a vida.
Em princípio, o então jovem viajante, sem falar o idioma local, obteve emprego, inicialmente, como caixeiro numa casa de roupas, transferindo-se, logo a seguir, para o estabelecimento de outro francês, Pierre Plancher, proprietário de uma livraria e uma tipografia.
A vida do pesquisador estava prestes a mudar quando, por meio de um anúncio, chegou ao seu conhecimento que uma expedição científica tinha muita demanda para desenhistas em seus quadros para que estes fizessem a documentação e relato ilustrado da viagem, que seguiria pelos rincões mais afastados do norte do Brasil.
A expedição Langsdorff
thumb|right|Trajeto da expedição. miniaturadaimagem|Ilustração de Hercule Florence de 1827 Um ano depois, Florence ficou fascinado com a perspectiva de realizar uma viagem pelo interior do Brasil. Sua grande aventura teve início quando foi informado de que um naturalista alemão, o Barão Georg Heinrich von Langsdorff, pretendia empreender uma expedição científica por várias províncias do país, incluindo a Amazônia, e necessitava de um desenhista.
Florence conseguiu ser admitido no cargo pelo seu talento artístico e pelos seus conhecimentos de cartografia. Juntamente com Aimé-Adrien Taunay completou a dupla de desenhistas incumbida de realizar a documentação iconográfica ao longo do extenso trajeto da expedição.
Deve-se a Florence o relato completo dessa aventura, percorrida ao longo de 13 000 quilômetros entre os anos de 1825 e 1829, assim como a maior parte da documentação iconográfica. Para além dos relatos documentais da jornada, foi nesta expedição, que transformaria a vida pessoal e acadêmica de Florence, que o pesquisador formatou e deu vida, posteriormente, às suas revolucionárias invenções sonoras conhecidas na atualidade como zoophonie ou zoophonologie, com apontamentos de comunicação regular entre animais de uma mesma espécie.
Nela se percebe sua preocupação em registrar com rigor científico a natureza e os índios das regiões visitadas. Essa coleção de imagens é de valor inestimável para os estudos antropológicos e etnográficos, conforme é atestado por cientistas brasileiros e estrangeiros.
Após seu retorno da expedição, contraiu núpcias com Maria Angélica A. M. Vasconcelos, filha de importante político paulista, fixando residência na pacata vila de São Carlos (atual Campinas), um dos polos culturais mais importantes do Estado de São Paulo. Florence havia conhecido sua futura esposa dias antes da partida da viagem que mudaria a sua vida, na cidade de Porto Feliz, situada na região de Itu e Sorocaba.
Com Maria Angélica teve:
Amador Bueno Machado Florence Celestina Machado Florence Adelaide Machado Florence Francisco Alvares Machado Florence Cândida Machado Florence Antonio Hercules Machado Florence Angelica Machado Florence casada com Delfino Pinheiro de Ulhôa Cintra Júnior Arnaldo Machado Florence Paulo Machado Florence
As dificuldades encontradas por Hércules para publicar satisfatoriamente suas pesquisas, teses e descobertas durante sua longa viagem, fizeram-no, entre os anos de 1832 e 1836, dedicar-se a encontrar uma maneira inventiva para impressão e gravura de seus estudos. Destes seus intentos surgiu o que se chamou de Poligraphye. O método serviu, de início, para expor ao público acadêmico suas observações sobre o conceito de zoophonie trabalhado pelo desenhista na Amazônia.
Primeiras invenções: a zoofonia, a poligrafia e a fotografia Pretendendo publicar um estudo que fizera sobre os sons emitidos pelos animais, produto de suas observações anotadas na selva durante a expedição (o qual intitulou "zoophonie"), deparou com a inexistência de oficinas impressoras na Província de São Paulo.
Decidiu então idear seu próprio método de impressão, a Poligraphie, e em 1832, já se encontrava estabelecido comercialmente oferecendo ao público seus escritos e desenhos, além de manter, ao mesmo tempo, uma loja de tecidos.
Observando o descolorimento que sofriam os tecidos de indianas expostos à luz do sol e informado pelo jovem boticário (e futuro botânico de nomeada) Joaquim Correia de Melo das propriedades do nitrato de prata, deu início às suas investigações sobre fotografia. Suas primeiras experiências com a câmera obscura datam de janeiro de 1833 e encontram-se registradas no manuscrito Livre d'Annotations et de Premier Matériaux.
Mais de 150 anos depois, o exame detalhado desse manuscrito por Boris Kossoy levou-o a comprovar o emprego pioneiro de Florence da palavra "photographie", pelo menos cinco anos antes que o vocábulo fosse utilizado pela primeira vez na Europa.
Importância científica e acadêmica thumb|200x|Primeira fotocópia, realizada por técnica de revelação e fixação, por Florence, circa 1833. Desta feita, Hércules Florence galgou espaço na galeria dos grandes inventores e cientistas de seu tempo.
No Brasil, ao lado de Bartolomeu Lourenço Gusmão, conhecido como "O Padre Voador", percursor da aeroestação, bem como, um pouco a seguir, Padre Roberto Landell de Moura, o primeiro a difundir emissões de rádio no mundo, e Alberto Santos Dumont, inventor do primeiro avião a planar em voo livre pelos ares.
A consistência dos estudos do franco-brasileiro, portanto, seus registros e correlações em campo de pesquisa, em muito contribuíram para a evolução da fotografia como conceito, atividade e área de atuação.
Por meio de suas obras e do casamento valioso, Hércules teve grande prestígio e convívio com a alta sociedade brasileira, incluindo políticos e intelectuais de seu tempo e que o ajudaram a desenvolver seus novos conceitos e experiências.
Uma de suas invenções mais marcantes e de valor quotidiano foi o que posteriormente batizaram de Papel Inimitável, que, como o próprio nome o diz, evita fraudes e falsificações em cédulas, nôminas e documentos da burocracia estatal ou em qualquer registro de valor bancário. Sobre sua descoberta, diz-se:
O processo para se conseguir este produto final consistiu em situar uma placa de vidro como matriz e enegrecê-la com o fumo de um lampião, adicionando, em seguida, uma camada de borracha arábica. Com o endurecimento da borracha e o auxílio de um alfinete, era possível registrar ilustrações ou escritos na superfície do produto ao se retirar a camada dura da parte inferior do vidro.
Entre os anos de 1830 e 1862, o inventor realizou registros periódicos e regulares sobre suas teorias, experiências e realizações. Escritos todos em sua língua materna, o francês, Florence os reuniu em um grande livro intitulado “L’Ami Des Arts Livré à Lui Même ou Recherches Et Découvertes Sur Différents Sujets Nouveaux”, isto é, "O amigo das artes entregue a si mesmo ou pesquisas e descobertas em novos tópicos diferentes", em tradução livre.
A obra abrigava uma pequena coleção de três cadernos de anotações chamados pelo próprio autor de "Correspondence" ("Correspondência"), já que se tratava de compilações de cartas do próprio Florence a amigos e intelectuais a respeito de suas pesquisas. Assim, Hércules os editou para conter toda e cada anotação, tentativa e erro de suas invenções e ideias.
Por meio de uma de suas principais criações, a Poligrafia, o francês pôde imprimir de maneira eficaz e substancial estas cartas, registros e, pro fim, a junção destas todas na grande obra acima citada, resultando em uma organizada e valiosa fonte posterior de conhecimento e leitura para universidades e cursos ou áreas em que seus inventos tiveram influência direta.
Com resultados práticos cada vez mais satisfatórios, Florence decidiu utilizar-se da câmera escura para aumentar a qualidade da imagem prostrada no papel, seja ela desenhos ou escritos. Ao fazer algum registro na prancha e usando a luz solar e do cloreto de prata ou ouro como tinta para impressão, Hércules chegou de modo empírico a algo muito perto do que hoje conhecemos como a fotografia moderna. A base era sobreposta aos cloretos dos metais e, em seguida, exposto à luz solar, produzindo uma imagem nítida como produto.
Em seu manuscrito "L'Ami Des Arts...", o pesquisador cita seus experimentos de imprimir cópias utilizando a luz do sol como fonte primária, explicando o método para, em contacto com o coreto dos metais, originar o que ele próprio chamou de "Photographie":
Florence teve especial ajuda do botânico, químico e farmacêutico Joaquim Corrêa de Mello para obter estes resultados em seus experimentos. Ele trabalhava na farmácia do sogro de Hércules, Francisco Álvares Machado e Vasconcellos:
Hercules Florence faz, da mesma forma, menção honrosa aos auxílios e trabalhos conjuntos que Corrêa de Mello realizou com ele, contribuindo, também nos textos de "Correspondence" o emprego do termo Photographie ao amigo e colega:
A importância maior de Joaquim Corrêa de Mello, contudo, não se limitou a estes auxílios pontuais. Florence já o havia manifestado o seu desejo de criar um método simples para impressão em média e larga escala através da luz solar, com o diferencial de que esta não necessitasse do complexo maquinário tipográfico. Desta forma, Mello sugeriu a utilização dos sais de prata para que fosse possível o escurecimento natural da fotografia em função da luz.
Quando do teste prático, o franco-brasileiro registrou a utilização dos sais de ouro e prata e seus resultados. Estes foram certamente os primeiros experimentos da história fotográfica a usar este método:
Em suma e contas feitas, o pesquisador francês teve o notável êxito de ter construído, de maneira modesta e até rudimentar, uma câmera escura fazendo uso de uma lente única e de uma paleta de cores como base, obtendo uma imagem fotográfica e cunhando o termo que se eternizou como a atual Fotografia.
Como a imagem inicial se perdeu, o pesquisador repetiu o experimento por mais algumas vezes e, persistindo o erro, decidiu utilizar o negativo da imagem sobreposta com o papel sensibilizado com os sais metálicos para, sob a ação da luz solar, conseguir o positivo da mesma imagem, tal e qual o processo que foi explanado acima. Se constatarmos que o cientista inglês Willian Fox-Talbot, percursor reconhecido da fotografia, fez uso do mesmo procedimento metodológico, porém alguns anos depois, fica fácil compreender que Florence o antecedeu na invenção de uma foto impressa.
"Um inventor no exílio" miniaturadaimagem|direita|Pintura de Hércules Florence feita por Oscar Pereira da Silva