Luís Antônio Reis da Cunha (Belém, 30 de junho de 1928 – Belém, 20 de novembro de 1998), mais conhecido como China, foi um futebolista brasileiro que atuou como meia (tanto na esquerda como na direita), notabilizado como maior ídolo desse esporte na Tuna Luso.DA COSTA, Ferreira (2018). CHINA (Luis Antonio Reis da Cunha. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, pp. 303-312 Embora fosse luso-brasileiro como o próprio clube, sendo seu pai português, recebeu o apelido por ter olhos levemente puxados. A alcunha foi inspirada na repercussão da Revolução Comunista Chinesa, frequentemente noticiada na adolescência dele.
Apesar de ao longo da carreira ter recebido ofertas até de equipes da Região Sudeste do Brasil, notadamente um interesse do Corinthians noticiado nacionalmente em 1956 e em 1957, e outro do Vasco da Gama, também em 1957, China seguiu na Tuna. Defendeu a “Águia do Souza” por mais de dez anos seguidos, em período no qual os cruzmaltinos mais puderam antagonizar com a dupla Remo e Paysandu nos torneios paraenses. Na chamada “Era China”, a Tuna também se tornou o primeiro time do Pará a disputar o Brasileirão, na Taça Brasil de 1959.
China também é o único futebolista tunante a ter quatro títulos oficiais no futebol como jogador titular, desconsiderando-se troféus de torneios amistosos. Venceu os campeonatos paraenses de 1948, 1951, 1955 e 1958, em um período em que o Paysandu vivenciou seu pior jejum histórico (nove anos de 1947-56)DA COSTA, Ferreira (2018). CAMPEONATO PARAENSE DE FUTEBOL 1908-2018 Clubes Campeões - Técnicos - Artilheiros. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, pp. 303-312 e no qual os clássicos com o Remo também tiveram o auge de hostilidades.DA COSTA, Ferreira (2018). 1953 - Bicampeonato de futebol é comemorado pelo Remo. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 102 O jogador também obteve títulos de “campeão do norte” com a seleção paraense no antigo e então valorizado Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Jogou por essa a seleção entre 1950 e 1960.DA COSTA, Ferreira (2013). A seleção do Pará através dos tempos. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 306-331
Bom driblador, veloz e considerado atrevido, ele já aplicava chutes similares à folha-seca características de Didi antes de este consagrar nacionalmente a jogada em 1957. Em sua homenagem, a Federação Paraense de Futebol instituiu, a partir de 2024, a “Taça Antônio Cunha” para premiar os campeões da nascente Supercopa local.
Carreira O primeiro estadual e a volta olímpica internacional thumb|right|300px|Segundo agachado na Tuna Luso que venceu o campeonato paraense de 1948: Bereco, Dodó, Sabá, técnico Salvador Perine, Conde, Totinha e Biroba; Palito, China, Tidoca, Teixeirinha e Daniel.
Em sua juventude, já trabalhava como torneiro mecânico, na Pará Electric, gerando desaprovação do pai, o português António Augusto Cunha, a frequência com que se propunha a jogar futebol – inicialmente, em times do bairro de São Brás, onde defendeu primeiramente o Bacurau Esporte Clube e depois o Ancorino Futebol Clube. Steleo Menezes, que na década de 1980 viria a ser presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Pará, convenceu o pai de China a, ainda que relutantemente, autoriza-lo a seguir jogando quando o Ancorino foi convidado a disputar partida no município de Castanhal. China marcou dois gols em vitória de 4-1.
Ganhando fama em jogos de várzea, China foi em 1947 observado por Miguel Cecim, nome histórico da Tuna Luso – único treinador três vezes campeão paraense com o clube, em 1951, 1958 e 1988. Cecim na época treinava os juvenis tunantes e seu convite a China foi rapidamente aceito. Após somente três partidas pela equipe cruzmaltina juvenil, China foi guindado à de aspirantes. Em 14 de dezembro de 1947, conseguiu seu primeiro gol pela equipe principal, ocasião em que já conseguiu marcar três vezes, em goleada de 9-1 sobre o Transviário, pelo campeonato paraense daquele ano.
O Paysandu foi o campeão de 1947, seu quinto troféu seguido, feito que em janeiro de 1948 originou seu apelido de “Papão da Curuzu”.DA COSTA, Ferreira (2002). 1948 - Nasce o "Papão da Curuzu". Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, p. 52 Pelo restante de 1948, os alviazuis, treinados pelo pioneiro educador físico Nagib Coelho Matni, tiveram a temporada recordista de gols – 130, incluindo-se amistosos.DA COSTA, Ferreira (2018). 1948 - BICOLOR MARCA 130 GOLS NA TEMPORADA. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 214 Mas a campeã estadual foi a Tuna, já sob protagonismo de China, autor do único gol no duelo pelo Torneio Início e, no estadual, autor de outro em clássico Pa-Tu vencido por 4-1. Ele também marcou em vitória de 5-3 no clássico Re-Tu.DA COSTA, Ferreira (2013). 1948 - Tuna põe fim a jejum de sete anos e coloca a faixa de campeã. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 87-88 A Tuna, que em 1937, 1938 e 1941 havia obtido seus três primeiros títulos paraenses no futebol, encerrou ali um jejum de sete anos; a equipe tinha como único remanescente de alguma das conquistas anteriores o lateral Bereco, de 1941.
Como campeã estadual, a Tuna foi a equipe paraense requisitada por emissários da Guiana Neerlandesa para participar de quadrangular comemorativo ao aniversário da princesa Guilhermina dos Países Baixos. Voltou invicta de Paramaribo, vencendo por 4-1 o MVV, por 2-0 a própria seleção surinamesa, por 3-1 o Robinhood e por fim empatando em 1-1 na revanche com a seleção local.DA COSTA, Ferreira (2013). Excursão invicta da Tuna ao Exterior em 1949. Memorial Cruzmaltino. Belém: ArtGráfica, pp. 68-70 Bastante festejada no regresso a Belém, a Tuna tornou-se o primeiro time do Pará a obter uma conquista internacional.DA COSTA, Ferreira (2018). EXCURSÃO INVICTA DA TUNA AO EXTERIOR EM 1949. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 30
Em 1949, o campeão paraense, contudo, foi o novo clube de Nagib Matni - o Remo, após nove anos de jejum,DA COSTA, Ferreira (2018). 1949 - Remo acaba jejum de 9 anos e conquista o campeonato de futebol. A enciclopédia do Esporte Paraense. Belém: Valmik Câmara, p. 97 mas goleado por 4-1 com dois gols de China em amistoso em junho. Em janeiro de 1950, ele estreou pela seleção paraense, no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Nagib era o treinador, em campanha marcante. "Campeã do Norte" ao vencer por 4-1 a seleção amazonense em Belém e, na sequência, vencer em casa por 3-2 o seleção cearense e empatar em 2-2 com ela em Fortaleza, a seleção do Pará rumou ao Rio de Janeiro para a fase final do Brasileiro, enfrentando Minas Gerais nas quartas-de-final.
O empate em 1-1 em General Severiano, em que os mineiros igualaram aos 40 minutos do segundo tempo em 26 de fevereiro, forçou jogo-extra em 1º de março, novamente dramático: Minas abriu 2-0, mas o Pará empatou – sendo de China o primeiro gol da reação, em cabeceio de "rara habilidade", na descrição do jornal carioca Diario da Noite. Antes da prorrogação, os paraenses também tiveram gol anulado e pênalti desperdiçado. No primeiro minuto do segundo tempo da prorrogação, os mineiros conseguiram o gol da vitória. Apesar do desfecho, uma multidão dirigiu-se ao aeroporto de Belém para recepcionar o retorno dos paraenses, bastante elogiados. Naqueles dias, China tivera em fevereiro prospectada sua contratação pelo Sport Recife, que havia contratado Salvador Perine; treinador tunante do título paraense de 1948. o Diario de Pernambuco chegou a noticiar o jogador como "uma das maiores revelações do futebol paraense nos últimos anos (...), parte da nova geração de cracks", como exímio "no malabarismo" e profissional "na acepção do termo".
Permanecendo na Tuna, no decorrer de 1950 ele chegou a marcar dois gols em vitória amistosa de 4-2 sobre o Paysandu, e outro em 2-0 sobre o Remo pelo estadual, sem impedir o bicampeonato dos azulinos - que ali tiveram sua única derrota no certame.DA COSTA, Ferreira (2013). 1950 - Remo se mantém firme e forte e conquista a faixa de bicampeão. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 92-93 Naquele ano, em 23 de março, a Tuna também pôde empatar em 2-2 com o Flamengo, em visita da equipe rubro-negra a Belém. Também em 1950, em setembro, China reforçou pontualmente o Remo para amistosos contra equipes do Maranhão, inclusive marcando gols tanto sobre o Juventude como sobre o Moto Club.
O segundo estadual e auge do clássico com o Remo thumb|right|300px|Penúltimo agachado na Tuna Luso vice do Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste de 1952: Macaco, Dodó, Biroba, Bereco, Zé Maria e Abimael; Teixeirinha, Juvenil, Satiro, China e Daniel. thumb|right|300px|A troca de agressões com Julio Véliz em clássico Re-Tu de 1953. thumb|right|300px|China e Véliz reconciliados em 1977, em registro da revista Placar.
O título paraense voltou ao bairro do Souza em 1951, ano em que China marcou em quatro clássicos diferentes com o Remo - primeiramente, em 4-0 pelo Torneio Início e, pelo estadual, em derrota de 3-1 e em empate em 3-3. Ao longo do estadual, ele precisou ficar quase dois meses inativo: em vitória de 6-2 em clássico com o Paysandu, em 23 de setembro, China marcou duas vezes.DA COSTA, Ferreira (2013). 1951 - Tuna Luso Caixeiral conquista o 5º título de Campeã. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 94-96 Contudo, também sofreu uma entorse, a tornar necessário até que engessasse o pé. Ausentou-se de três jogos, precisando recuperar-se da lesão e depois recuperar a forma, só voltando a jogar em 15 de novembro.
Nesse ínterim, o Remo venceu o segundo turno, forçando uma série melhor-de-três para definir o campeão. Bastaram dois jogos: no primeiro, a "Lusa" venceu por 4-1 em pleno Baenão, já em 23 de dezembro. Embora China não chegasse a marcar, rendeu expulsão do remista Nonato, após lance desleal deste. A segunda decisão, iniciada em 30 de dezembro na Curuzu, só foi finalizada em 6 de janeiro do ano seguinte: um forte temporal paralisou o jogo aos 41 minutos do primeiro tempo, ainda em 0-0. Na retomada da partida, Daniel abriu o marcador para a Tuna, Itaguary empatou e China recolocou a "Águia" na frente. Daniel marcou novamente, finalizando o escore.
Como campeã paraense de 1951, a Tuna participou, já em maio de 1952, do "Torneio dos Campeões do Norte–Nordeste", organizado no Recife pelo Náutico, com participação também de América de Natal, Ceará, Confiança, CRB, Treze e Ypiranga. Ao descrever a Tuna, o Diario de Pernambuco rotulou como "diabólica" a ala formada por China e Teixeirinha. Os paraenses chegaram à decisão, tendo China marcado o gol de honra na derrota de 5-1 para o anfitrião Náutico; a defesa cruzmaltina havia se comprometido ao levar dois gols antes dos 15 minutos de jogo, tendo China assinalado o tento com a partida já sob o placar provisório de 4-0. O Diario de Pernambuco considerou-o a maior figura paraense em campo, embora ressalvasse algum excesso na troca de passes, mas reconhecesse que o placar elástico causou surpresa nos próprios recifenses.
No primeiro semestre de 1952, China foi novamente convocado por Nagib Coelho Matni à delegação do Pará no Brasileiro de Seleções Estaduais, mas viajou já contundido e com escalação sob risco, não vindo a entrar em campo da campanha. Naquele ano, destacou-se especialmente contra o Paysandu; marcau em seis clássicos Pa-Tu diferentes: em 3-2 e em derrota de 2-1 peça “Taça Cidade de Belém”; em amistosos, chegou a marcar três vezes em 7-2, outras duas em 4-2 e mais uma em 2-1; e, pelo estadual, marcou em derrota de 4-2. Também pelo estadual, conseguiu sete gols em uma só partida, em 8-3 sobre o Auto Clube, além de marcar em 1-1 com o campeão Remo.DA COSTA, Ferreira (2013). 1952 - Remo retoma o caminho das vitórias festejando a 17ª conquista. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 97-99