A língua hdi (em hdi: xdí; AFI: /xdi/), também conhecido como hide, xədi ou tur, é uma língua afro-asiática pertencente ao ramo das línguas chádicas, mais especificamente, do subgrupo biu-mandara. Ela se encontra em um estado estável em desenvolvimento com 29 mil falantes atualmente, dado de 2001, localizados nos países de Camarões e Nigéria, com uma predominância na vila de Tourou, localizada na Comuna de Mokolo, na província Extremo Norte (em francês: Extrême-Nord; em inglês: Far North) de Camarões.

Hdi é utilizado no primeiro ano de escolas primárias em Camarões, prática comum com línguas indígenas nas escolas públicas do país. Além disso, ela possui um suporte digital em ascensão, apresentando alguns conteúdos na forma digital, com destaque a ferramentas de tradução ou correção ortográfica. Além disso, 700 alunos adultos estão em programas de alfabetização cada ano.

O surgimento da língua possui muita semelhanças com o de outras línguas do ramo biu-mandara, principalmemte pela proximidade e pelas relações de trocas comerciais entre esses povos, o que impacta diretamente a língua, possuindo empréstimos das línguas hauçá, fula e francês. Ainda, mesmo existindo menções sobre ela desde 1971, nos trabalhos de Ekkehard Wolff, apenas em 2001 foi publicada a primeira gramática sobre a língua pelo linguista Zygmunt Frajzyngier.

Hdi é uma língua tonal que utiliza um alfabeto latino expandido com 45 letras, possuindo dígrafos relacionados a indicação dos tons, que são elementos essenciais no léxico e na função semântica das palavras. Além disso, a reduplicação de verbos é um fenômeno comum na língua que serve para indicar tanto pluralidade relacionada ao verbo quanto seu aspecto. Ela é uma língua ergativa-absolutiva com ordem VSO, com o sujeito e objeto relacionando-se com o verbo principalmente pela adição de afixos, que possui singular, plural e dual, o último ocorrendo apenas na primeira pessoa, a qual também possui uma separação de inclusivo e exclusivo.

Etimologia O termo endônimo xdí possui diversos usos, sendo eles, um topônimo correspondente ao termo Tourou, que é a vila onde predominante a língua é falada, o autônimo da língua e um etnônimo. A origem mais provável para esse termo é que ele tenha derivado de uma palavra que signifique 'homem', uma vez que outras línguas chádicas possuem palavras que são cognatos do termo xdí, como hìdé, que é um dos exônimos da língua.

Enquanto que o termo mais utilizado para representar a língua é hdi, uma transcrição do endônimo, em que o 'h' inicial representa a consoante velar fricativa desvozeada. Essa é a transcrição mais próxima da pronúncia da palavra (/xdi/) e ainda é compatível com a estrutura fonêmica existente na língua, a qual é composta por um encontro consonantal inicial seguido por uma vogal anterior fechada.

O exônimo tur é utilizado por ter a mesma pronúncia em inglês que o nome da vila onde hdi é majoritariamente falado, Tourou.

Distribuição A língua hdi está em um estado de desenvolvimento com cada vez mais pessoas em programas de alfabetização na língua, 700 adultos cada ano, e escolas primárias públicas em Camarões ensinando ela no primeiro ano. Além disso, a presença desse idioma nos meios digitais também está em ascensão com o surgimento de ferramentas digitais como tradutores e corretores ortográficos adaptados para essa língua.

Os falantes da língua hdi estão concentrados principalmente em Camarões, especialmente na vila de Tourou e em povoados vizinhos, totalizando cerca de 25 mil pessoas. Além disso, há uma comunidade de aproximadamente 5 mil falantes na Nigéria, resultado da migração para cidades como Mubi e Yola. A vila de Tourou está localizada em uma região montanhosa na fronteira entre Camarões e Nigéria, a aproximadamente uma hora de viagem de carro ao norte de Mokolo, resultando em uma dificuldade de disseminação da língua.

Dialetos Mesmo com um número de falantes relativamente pequeno e localizações em uma área mais restrita, ainda existem algumas diferenças, principalmente léxicais, de dialetos nessa língua. Essas diferenças são encontradas ao comparar o dialeto falado na região mais próxima do centro de Tourou e em uma área mais remota, chamada de ndrúk. A seguir estão alguns exemplos dessas diferenças:

+Comparação entre dialetos da língua hdi Centro ndrúk Portuguêsdzà'ádàMarcador de futuroííyùEu

Além dessas diferenças nos dialetos causada por uma diferença geográfica, observa-se mudanças consideráveis na sintaxe de hdi por falantes que passam muito tempo fora de suas comunidades. As principais diferenças observadas são que períodos simples tendem a ter o formato SVO e períodos compostos com verbos frequentes normalmente possuem a ordem principal-subordinada. Essas ordens não são características do hdi, mas estão presentes nas línguas com as quais seus falantes entram em contato, como fula, hauçá, mafa e canúri.

Línguas relacionadas alt=Nigeria_Benin_Cameroon_languages|miniaturadaimagem|Mapa das principais línguas em Nigéria, Camarões e Benin Mesmo que os falantes de hdi estão localizados em uma região relativamente isolada, eles entram em contato com falantes de outras línguas, recebendo empréstimos linguísticos principalmente das línguas fula, mafa e hauçá. Além das línguas que existem empréstimos, os falantes de hdi costumam utilizar o francês, língua oficial de Camarões, o inglês, gvoko e vemgo-mabas.

A língua hdi faz parte do ramo mandara das línguas biu-mandaras. Esse ramo pode ser dividido da seguinte forma:

Uma pesquisa realizada pelo linguista Cameron Hamm sobre as línguas dos sub-ramos lamang e glavda, com 3 dialetos da língua guduf-gava, indicou que a maior similaridade lexical do hdi ocorre com a língua vemgo-mabas, com 82% de similaridade. A seguir, está representada uma tabela com a similaridade do hdi com as línguas e dialetos analisados:

+ Similaridade lexical com hdi Língua Similaridade (%) Hdi 100 Vemgo-mabas 82 Lamang 76 Gvoko 68 Dghwede 50Gava48Guduf48Chikide47 Cineni 45 Glavda 44

E, por fim, uma comparação entre vocábulos de línguas dos sub-ramos lamang e glavda, as quais foram analisadas na pesquisa do linguista:

+ Comparação de palavras entre os sub-ramos lamang e glavda Palavra Lamang Hdi Vemgo-Mabas Gvoko Dghwede Guduf Gava Chikide Cineni Glavda Boca ewe wi wi ʒaɲwe wi ʒaʝa ʒaʝa ʒaʝa ʒaʝa ʒaʝa Olho ili iri ili odo ʁiɛ dija dija dija gija gija Dente ɬiɗɲi ɬiʔiɲ ɬiɾiɲ ɬiɾ ɬiɾɛ ɬiɗe ɬiɗa ɬɾɗa ɬɾɗa ɬɾɗa Sangue uɓíji us uʔus uza ʊzoʔa vəʒa vəʒa vəʒa avza avza Osso χʷuɗʃí ʁuɗʃí ʁuɗʃí iʈali ʈala ʈala ʈala ʈala ʈala ʈala

História

História da língua esquerda|miniaturadaimagem|Mercado local da vila de Tourou A história oral sobre o surgimento da língua diz que a população de Tourou teria sido estabelecida por Matsa e seu filho Gulu. Matsa é descrito como um dos doze filhos de Kďeri, uma figura ancestral importante na tradição local. Os outros filhos de Kďeri são associados à fundação de diversas comunidades e povoados na região, incluindo Kapsiki, Margi, Mabas, Gdalu (ou Gdolu), Xduvun, entre outros. Ainda, destaca-se três desses grupos, Kapsiki, Margi e Mabas, falam línguas pertencentes ao ramo biu-mandara.

A vila de Tourou está localizada em uma região montanhosa na fronteira entre Camarões e Nigéria, resultando em uma dificuldade de disseminação da língua. Mesmo assim, a língua hdi sofreu influências de idiomas vizinhos, especialmente de civilizações com as quais mantém relações comerciais. Entre esses grupos estão os canúrios, que tradicionalmente comercializam feijão, enquanto os hdi trocam milho-de-guiné. Essas interações contribuíram para o enriquecimento lexical e cultural da língua hdi.

História moderna de Tourou miniaturadaimagem|Territórios ocupados e que estão sob a influência do Boko Haram A vila de Tourou e sua região têm enfrentado desafios significativos ao longo de sua história moderna. No final do século XIX e início do século XX, a área foi alvo de frequentes ataques do infame traficante de escravos Hamman Yaji (Vaughan e Kirk-Greene, 1995). Os homens capturados por Yaji foram forçados a construir a estrada entre Mokolo e Tourou, cujos vestígios ainda podem ser observados na região. Esses ataques tiveram impactos profundos na comunidade hdi, gerando desconfiança em relação a instituições externas. Por muitos anos, os falantes de hdi relutaram em enviar seus filhos à escola, temendo que isso fosse uma forma de separá-los de suas famílias. Desde 2013, a região tem sido afetada por insurgências da seita terrorista Boko Haram, que intensificou a instabilidade e a insegurança na área.

Além de seu contexto histórico, Tourou é conhecida como uma atração turística, principalmente devido ao mercado local e às cabaças pintadas caracteristicamente usadas pelas mulheres como chapéus. Esses elementos culturais destacam a riqueza das tradições locais, mesmo em meio aos desafios enfrentados pela comunidade.

História da documentação A primeira menção da língua hdi ocorreu entre 1971 e 1972 pelo linguista Ekkehard Wolff, que a considerava um dialeto da língua lamang, mas não mostrou argumentação que suportasse essa afirmação. O primeiro trabalho exclusivo ocorreu em 1971 pelo linguista Paul Kazuhisa Eguchi, que escreveu um dicionário que descreve uma parte do vocabulário da língua e a considerava uma língua independente, dado a falta de inteligibilidade mútua entre hdi e as línguas vizinhas.

Mesmo que a língua já fosse conhecida e abordada desde metade do século XX, as primeiras gramáticas sobre ela só foram registradas no final desse século e início do século XXI, sendo um rascunho de gramática escrito em 1994 pela linguista Elizabeth Gathman e uma gramática completa publicada em 2001 pelo linguista Zygmunt Frajzyngier.

Atualmente, o uso da língua nos meios digitais está em uma situação de ascensão com o desenvolvimento de ferramentas digitais que suportam essa língua, além de produções em vídeo e uma versão digital em hdi da Bíblia católica.

Fonologia

Consoantes O inventário consonantal da língua hdi inclui consoantes implosivas, plosivas, nasais, fricativas, africadas, vibrantes e aproximantes. Além da presença de consoantes pré-nasalizadas, glotalizadas e labializadas, totalizando 41 fonemas consonantais, sendo que 33 estão representados na tabela a seguir:

+Fonemas consonantais da língua hdiBilabialLabiodentalAlveolarPalatalVelarPlosivap b t d k ɡ Implosiva ɓ ɗ Nasal m n ŋ Vibrante r Africadat͡sd͡z t͡ɕ d͡ʑ Fricativa ɸ β f v s z ç ʝ x ɣ Fricativa lateral ɬ ɮ Aproximantew j Aproximante lateral l

Consoantes pré-nasalizadas, glotalizadas e labializadas Além dos fonemas consonantais já mencionados, em hdi existem dígrafos que são formados por uma consoante nasal antes de uma vogal, gerando uma consoante pré-nasalizada, a junção de uma pausa glotal (') e uma consoante, que resulta em uma consoante glotalizada. e a existência da consoante velar labializada. Esses fonemas estão representados a seguir: + Consoantes pré-nasalizadas e glotalizadas da língua Bilabial Labial Alveolar Palatal Velar Labializadakʷ Pré-nasalizadas ᵐb ᵐd, ⁿd, ⁿd͡z ⁿg Glotalizadas'w'j

Vogais Existem 5 fonemas vocálicos que são utilizados em palavras que não são empréstimos e estão retratadas na tabela seguinte. Além disso, alguns empréstimos linguísticos utilizam também a vogal "o": + Vogais da língua hdi AnteriorCentral PosteriorFechada Semifechada o Média Central

Tons