Como parte da Guerra de Gaza, as Forças de Defesa de Israel (FDI) utilizam inteligência artificial para executar de forma rápida e automática grande parte do processo de determinação do que bombardear. Israel expandiu consideravelmente os bombardeios na Faixa de Gaza, que em guerras anteriores eram limitados pela escassez de alvos para a Força Aérea Israelense.

Essas ferramentas incluem o “Evangelho”, uma inteligência artificial que analisa automaticamente os dados de vigilância em busca de edifícios, equipamentos e pessoas que se acredita serem inimigos e, ao encontrá-los, recomenda alvos para bombardeio a um analista humano que pode então decidir se deve ou não repassá-los ao campo. Outra ferramenta é o “Lavanda”, um “banco de dados impulsionado por IA” que lista dezenas de milhares de homens palestinos ligados, por inteligência artificial, ao Hamas ou à Jihad Islâmica Palestina, e que também é utilizado para recomendação de alvos.

Críticos argumentaram que o uso dessas ferramentas de inteligência artificial coloca os civis em risco, desfoca a responsabilidade e resulta em violência militarmente desproporcional, violando o direito internacional humanitário.

O Evangelho Israel usa um sistema de inteligência artificial chamado “Habsora” ou “O Evangelho”, para determinar quais alvos a Força Aérea Israelense atacará. Ele fornece automaticamente uma recomendação de alvo para um analista humano, que decide se repassará a recomendação para os soldados no campo. As recomendações podem ser desde combatentes individuais, lançadores de foguetes, postos de comando do Hamas, até residências privadas de suspeitos de membros do Hamas ou da Jihad Islâmica.

A inteligência artificial pode processar informações muito mais rápido do que os humanos. O tenente-general aposentado Aviv Kohavi, chefe das Forças de Defesa de Israel até 2023, afirmou que o sistema poderia produzir 100 alvos de bombardeio em Gaza por dia, com recomendações em tempo real sobre quais atacar, enquanto analistas humanos poderiam produzir 50 alvos por ano. Um professor entrevistado pela NPR estimou esses números como 50–100 alvos em 300 dias para 20 oficiais de inteligência, e 200 alvos em 10–12 dias para o Evangelho.

Contexto tecnológico As inteligências artificiais, apesar do nome, não são capazes de pensar ou ter consciência. Em vez disso, são máquinas desenvolvidas para automatizar tarefas que os humanos realizam por outros meios. O Evangelho utiliza o aprendizado de máquina, onde uma inteligência artificial é encarregada de identificar padrões em grandes quantidades de dados (por exemplo, exames de tecidos cancerosos, fotos de expressões faciais, vigilância de membros do Hamas identificados por analistas humanos) e, em seguida, busca esses pontos em comum em novos materiais.

Não se sabe quais informações o Evangelho utiliza, mas acredita-se que ele combine dados de vigilância de diversas fontes em enormes quantidades.

As recomendações são baseadas na correspondência de padrões. Uma pessoa com semelhanças suficientes com outras pessoas rotuladas como combatentes inimigos pode ser rotulada como combatente.

Em relação à adequação das inteligências artificiais para a tarefa, a NPR citou Heidy Khlaaf, diretora de engenharia de Garantia de Inteligência Artificial na empresa de segurança tecnológica Trail of Bits, dizendo que "os algoritmos de inteligência artificial são notoriamente falhos, com altas taxas de erro observadas em aplicações que exigem precisão, exatidão e segurança". Bianca Baggiarini, professora do Centro de Estudos Estratégicos e de Defesa da Universidade Nacional da Austrália escreveu que as inteligências artificiais são "mais eficazes em ambientes previsíveis, onde os conceitos são objetivos, razoavelmente estáveis e internamente consistentes". Ela contrastou isso com a diferenciação entre um combatente e um não combatente, o que nem mesmo os humanos frequentemente conseguem fazer.

Khlaaf destacou ainda que as decisões de um sistema desse tipo dependem inteiramente dos dados nos quais foi treinado e não se baseiam em raciocínio, evidências factuais ou causalidade, mas apenas em probabilidade estatística.

Operação A Força Aérea Israelense ficou sem alvos para atacar na guerra de 2014 e na crise de 2021. Em uma entrevista à France 24, o jornalista investigativo Yuval Abraham da +972 Magazine, afirmou que, para manter a pressão militar e devido à pressão política para continuar a guerra, o exército bombardeava os mesmos locais duas vezes. Desde então, a integração de ferramentas de inteligência artificial acelerou significativamente a seleção de alvos. No início de Novembro, as FDI declararam que mais de 12 000 alvos em Gaza tinham sido identificados pela divisão de administração de alvos, que utiliza o Evangelho. A NPR escreveu, em 14 de dezembro, que não estava claro quantos alvos do Evangelho haviam sido atingidos, mas que o exército israelense afirmou estar atualmente atacando até 250 alvos por dia. Os bombardeios também se intensificaram a um ritmo que o artigo de 14 de dezembro chamou de surpreendente: na época, o exército israelense declarou ter atingido mais de 22 000 alvos dentro de Gaza, a uma taxa diária mais que o dobro da do conflito de 2021, sendo mais de 3 500 deles desde o colapso do cessar-fogo em 1.º de dezembro. No início da ofensiva, o chefe da Força Aérea declarou que suas forças atacavam apenas alvos militares, mas acrescentou: "Não estamos sendo cirúrgicos".

Uma vez que uma recomendação é aceita, outra inteligência artificial, a Fábrica de Fogo, reduz o tempo de preparação do ataque de horas para minutos, calculando a carga de munições, priorizando e atribuindo alvos a aeronaves e drones, e propondo um cronograma. Segundo um artigo da Bloomberg publicado antes da guerra, essas ferramentas de inteligência artificial foram desenvolvidas especificamente para um confronto militar e uma guerra por procuração contra o Irã.

Uma mudança que o The Guardian observou é que, como os principais líderes do Hamas desaparecem em túneis no início de uma ofensiva, sistemas como o Evangelho permitiram que as FDI localizassem e atacassem um número muito maior de agentes juniores do Hamas. O jornal citou um oficial que trabalhou na seleção de alvos em operações anteriores em Gaza, afirmando que, enquanto as casas de membros juniores do Hamas anteriormente não eram alvos de bombardeio, ele acredita que agora as residências de suspeitos de ligação com o Hamas estão sendo atacadas independentemente da patente. Na entrevista à France 24, Abraham, da +972 Magazine, caracterizou isso como possibilitar a sistematização do lançamento de uma bomba de 900 kg em uma casa para matar uma única pessoa e todos ao seu redor — algo que antes era feito apenas contra um grupo muito pequeno de líderes seniores do Hamas. A NPR citou uma reportagem da +972 Magazine e sua publicação irmã Local Call afirmando que o sistema está sendo usado para fabricar alvos para que as forças militares israelenses possam continuar a bombardear Gaza em grande escala, punindo a população palestina em geral. A NPR observou que não verificou essa alegação e que não estava claro quantos alvos estão sendo gerados exclusivamente pela inteligência artificial, mas ressaltou que houve um aumento substancial no número de alvos, com um alto número de vítimas civis.

Em teoria, a combinação da velocidade de um computador para identificar oportunidades com o julgamento humano para avaliá-las pode permitir ataques mais precisos e reduzir o número de vítimas civis. O exército e a mídia israelenses têm enfatizado a minimização dos danos a não combatentes. No entanto, Richard Moyes, pesquisador e diretor da ONG Article 36, apontou para “a destruição generalizada de uma área urbana com armas explosivas pesadas” para questionar essas alegações. Já Lucy Suchman, professora emérita da Universidade de Lancaster, descreveu os bombardeios como “voltados para a máxima devastação da Faixa de Gaza”.

O The Guardian escreveu que, quando um ataque contra residências privadas de pessoas identificadas como combatentes do Hamas ou da Jihad Islâmica é autorizado, os analistas de alvos sabem antecipadamente o número estimado de civis que serão mortos. Cada alvo possui um arquivo com uma pontuação de danos colaterais, estipulando quantos civis provavelmente morrerão no ataque. Segundo uma fonte sênior do exército israelense, os agentes usam uma medição "muito precisa" da taxa de evacuação de civis de um prédio pouco antes de um ataque. “Usamos um algoritmo para avaliar quantos civis ainda estão no local. Ele nos dá um sinal verde, amarelo ou vermelho, como um semáforo.”

Uso em 2021 Kohavi comparou a divisão de alvos que utiliza o Evangelho a uma máquina e afirmou que, uma vez ativada na guerra de maio de 2021, ela gerou 100 alvos por dia, dos quais metade foi atacada, em contraste com os 50 alvos por ano em Gaza antes disso. Aproximadamente 200 dos 1 500 alvos atacados por Israel em Gaza durante a guerra vieram do Evangelho, incluindo tanto alvos estáticos quanto em movimento, segundo o exército.

O relatório pós-ação do Jewish Institute for National Security of America identificou um problema, afirmando que o sistema tinha dados sobre o que era um alvo, mas não tinha dados sobre o que não era. O sistema depende inteiramente de dados de treinamento, e as informações que os analistas humanos examinaram e consideraram não constituir um alvo foram descartadas, o que gerava o risco de viés. O vice-presidente expressou sua esperança de que isso tenha sido corrigido desde então.

Organização O Evangelho é usado pela divisão de administração de alvos do exército (também chamada Diretoria de Alvos ou Diretoria de Ataque)), que foi criada em 2019 dentro da diretoria de inteligência das FDI para lidar com a escassez de alvos para bombardeio pela força aérea. Kohavi descreveu essa divisão como sendo “impulsionada por capacidades de inteligência artificial” e composta por centenas de oficiais e soldados. Além do seu papel em tempos de guerra, o The Guardian escreveu que ela ajudou as FDI a construir um banco de dados com entre 30 000 e 40 000 militantes suspeitos nos últimos anos e que sistemas como o Evangelho desempenharam um papel fundamental na elaboração de listas de indivíduos autorizados a serem assassinados.

O Evangelho foi desenvolvido pela Unidade 8200 do Corpo de Inteligência de Israel.

Lavanda O The Guardian definiu o Lavanda como um banco de dados baseado em inteligência artificial, segundo depoimentos de seis oficiais de inteligência dados à +972 Magazine/Local Call e compartilhados com o The Guardian. Os seis afirmaram que o Lavanda desempenhou um papel central na guerra, processando rapidamente dados para identificar potenciais combatentes juniores como alvos, chegando a listar até 37 000 homens palestinos que a inteligência artificial vinculou ao Hamas ou à Jihad Islâmica Palestina. Os detalhes sobre o funcionamento do Lavanda ou como ele chega às suas conclusões não foram incluídos nos relatos publicados pela +972/Local Call, mas, depois que uma amostra da lista apresentou uma taxa de precisão de 90%, as FDI aprovaram o uso amplo do sistema para recomendação de alvos. Segundo os oficiais, ele foi usado em conjunto com o Evangelho, que focava em prédios e estruturas em vez de indivíduos.