Ativismo menstrual é toda forma de ação que luta contra a narrativa cultural dominante sobre a menstruação, isto é, que a considera algo nojento, exclusivamente feminino e que deve ser escondido. O ativismo menstrual é plural e pode se dar em diversas áreas, como educação, arte, saúde, comunicação, design de produtos, entre outras, que resistem às descrições hegemônicas sobre menstruação e criam ou resgatam outras percepções sobre a experiência menstrual.BOBEL, Chris., FAHS, Breanne. The Messy Politics of Menstrual Activism. In: BOBEL, C., WINKLER, I. T.. FAHS, B., HASSON, K. A., KISSLING, E. A., ROBERTS, T. (orgs) The Palgrave Handbook of Critical Menstruation Studies, Palgrave Macmillan, p. 1001-1018, 2020. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK565605/?report=reader>. Acesso em: 09/4/2025. Também faz parte da ampla gama de atuação dos diversos ativismos menstruais a resistência ao modelo biomédico que patologiza e hiper medicaliza as experiências menstruais.GUILLÓ-ARAKISTAIN, Miren. La In-corporacicón de la Investigación: políticas de la menstruación y cuerpos (re)productivos. Nómadas (Col), n. 39, p. 233-245, 2013. Disponível em: <LA IN-CORPORACIÓN DE LA INVESTIGACIÓN: POLÍTICAS DE LA MENSTRUACIÓN Y CUERPOS (RE)PRODUCTIVOS (redalyc.org)>. Acesso em 15/4/2025.ROHDEN, Fabíola. Uma Ciência da Diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001.

Tipos de ativismo menstrual pelo mundo Uma das principais estudiosas do tema é Christina Bobel, professora de Estudos sobre Sexualidade, Gênero e Mulheres da Universidade de Massachusetts. Para ela, a história dos ativismos menstruais nos Estados Unidos remonta à década de 1960 com uma tentativa de ressignificação do menstruar como uma fonte de poder, irmandade e conexão espiritual. Nas décadas seguintes, outras perspectivas se somaram a essa, como a do movimento de mulheres pela saúde, que passou a denunciar o uso de substâncias tóxicas em absorventes, e o movimento pelo meio ambiente, que alertou para o potencial poluente dos produtos menstruais e propôs outras formas de gerir o sangue menstrual. Atualmente, os ativismos menstruais são diversos e utilizam diferentes estratégias, como humor, arte, educação e participação política, para cumprir a missão que têm em comum, isto é, desafiar tabus menstruais e lutar para que as pessoas que menstruam sejam apoiadas em todas as suas necessidades para menstruar com dignidade.

Ainda no contexto estadunidense, Christina Bobel diferencia duas formas de ativismo menstrual: o feminista-espiritual e o radical. A primeira forma está relacionada a reivindicar a menstruação como uma experiência saudável, espiritual, empoderadora e prazerosa; através de práticas de bem estar, o autocuidado é promovido especialmente em grupos de mulheres brancas e de classe média. A segunda forma é descrita como um ativismo anti essencialista que desafia o estigma menstrual e critica a indústria de “higiene feminina” por suas práticas de acumulação capitalista que colocam em risco quem menstrua; esse ativismo não considera a menstruação como uma marca de feminilidade, mas sim como mais um processo corporal colonizado.

Na Espanha, observa-se um campo de ativismos menstruais heterogêneos e conectados com pautas feministas, ecologistas e anticapitalistas, com ações e reflexões que podem ser organizadas em três eixos: a crítica ao complexo industrial higiênico-farmacológico; a crítica ao produtivismo como exploração e a recuperação de poderes e saberes sobre o corpo. No primeiro eixo, as ativistas alertam para uma guerra discursiva em que a narrativa biomédica afasta as pessoas menstruantes do conhecimento sobre seus corpos e atribui a menstruação de características pejorativas, como suja e fedida, uma ignorância instrumentalizada para a submissão; ainda no mesmo eixo, há também a crítica aos danos à saúde que o uso de absorventes tóxicos e medicamentos hormonais pode produzir em nome da acumulação capitalista com a venda desses produtos. No segundo eixo, as ativistas reivindicam a expressão da menstruação real, que pode ser incômoda e demandar descanso, algo mal visto na lógica produtivista do capital. No terceiro eixo, estimulam o uso de instrumentos de autoconhecimento e de diálogo com pessoas menstruantes mais velhas com o intuito de conhecer o próprio ciclo e resgatar práticas menos invasivas de gestão menstrual; dessa forma, defendem o corpo como um local de resistência.

No Brasil, ativistas menstruais denunciam a sobretaxa de absorventes, o absenteísmo escolar, a falta de acesso a saneamento básico e educação de qualidade e os impactos negativos do tabu menstrual na subjetividade e no pertencimento social de pessoas que menstruam. As ações de ativismos menstruais no Brasil, assim como outras da América Latina, reivindicam o tema da menstruação como um tema político e abrangente, que vai além da garantia de absorventes e do debate sobre higiene e saúde. Os ativismos menstruais brasileiros, em sua maioria, se organizam em coletivos, ONGs e projetos sociais que promovem o debate público sobre o tema da menstruação (especialmente no contexto escolar com práticas de educação menstrual),RAMÍREZ, Carolina. Educación Menstrual Emancipadora: una vía para interpelar la misoginia expresada en el tabú menstrual. Medellín: Ensayo, 2022. incluindo também a confecção e distribuição de kits com recursos para gestão menstrual para população em vulnerabilidade. Há ainda grupos ativistas cujas ações se concentram no resgate de saberes populares sobre a menstruação, que remontam a outras configurações étnicas e religiosas e diferem do que propõe o saber médico ocidental institucionalizado.MORAIS, Janaina de Araujo. Portal Vermelho: uma etnografia sobre corpo, gênero, sangue, emoções e experiência. 2021. Tese (Doutorado) – Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2021. Capítulo 2 - pg 86 -129.

Exemplos de ativismos menstruais As estratégias para implementar ações de ativismo menstrual são diversas, desde oficinas sobre menstruação,RAMÍREZ, Carolina. Educación Menstrual Emancipadora: una vía para interpelar la misoginia expresada en el tabú menstrual. Medellín: Ensayo, 2022. passando por modelos de ginecologia alternativos à ginecologia alopática até exposições de arte feitas com sangue menstrual.MORAIS, Janaina de Araujo. Portal Vermelho: uma etnografia sobre corpo, gênero, sangue, emoções e experiência. 2021. Tese (Doutorado) – Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2021. Capítulo 2 - pg 86 -129.MANICA, Daniela Tonelli; RIOS, CLARICE. (In)visible Blood: menstrual performances and body art. VIBRANT (FLORIANÓPOLIS), v. 14, p. 124-148, 2017. Evento Estranhas entranhas, LEIC, UFRJ, 2017 A seguir, alguns exemplos.

No campo das artes, o documentário Rubra Fluidez produzido pela atriz, ativista e educadora menstrual Camila Matzenauer, consiste em uma performance baseada em relatos de primeira menstruação.MATZENAUER, Camila; BIANCALANA, Gisela. Rubra Fluidez: uma performance sobre a menarca. Contemporânea, v.2, n.3, e6, p. 01-08, 2019. Além disso, há iniciativas que utilizam sangue menstrual para produzir arte, como o projeto Menstrala, conduzido por Vanessa Tiegs e que conta com 88 imagens produzidas com sangue menstrual.

No campo da educação, destaca-se, no cenário latino americano, a Emancipadas Escuela de Educación Menstrual y Educación Sexual, que atua de modo virtual e presencial fornecendo cursos diversos de formação crítica sobre menstruação e temas correlatos.

Há também iniciativas que reúnem os objetivos de construir novas narrativas menstruais e facilitar o acesso a recursos para gestão da rotina menstrual, como o Projeto Menst.Rua faz colação de lambe lambes pela cidade de Manaus visibilizando a menstruação e promovendo novos discursos sobre ela, ao mesmo tempo em que distribui kits com absorventes e outros itens de cuidado pessoal.FERREIRA, Letícia Santos. Menstruação, gênero e subjetividade: articulações a partir da vivência em oficinas de educação menstrual na cidade de Santo André. 2024. Dissertação (Mestrado) - Programa de Ciência Humanas e Sociais. Universidade Federal do ABC, São Bernardo do Campo.

Ver também Pessoas que menstruam

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