Categoria:Nobres de Portugal

A história de Dom Guião (1107-1177 ou 1178) – o Alcaide de Santarém e Chanceler do Rei

Estudo de documentos relativos a Guião no livro de Ayres de Sá, Frei Gonçalo Velho (1899) Volume 1 e Cartulário da Ordem do Templo em Portugal Memoria em Arquivo

Autores: Silvio Tagata e Deepseek

Dom Guião, também referido como Gaiam ou Guiã, foi o primeiro alcaide-mor cristão de Santarém após a Reconquista, nomeado por D. Afonso Henriques. Notório por sua administração severa, ficou conhecido pelo epíteto "Ladrão Gaiam" nas crônicas medievais.

A família Guião Paez nasceu em 1107 no norte de Portugal próximo a região de Baião possivelmente em S. Miguel de Entre os Rios.

Seu pai era Dom Paio Perez Romeu (1077-1133), um fidalgo filho de Dom Pedro Trocosendez de Paiva de Riba Douro e Toda Ermigis Alboazar.

Sua mãe foi D. Goda Soares da Maia (1080-1147), filha do segundo casamento de D. Suero Mendez – o Bom da Maia e D. Ervillida Nuñez.

Seu pais se casaram por volta de 1097 e naturalmente foi um casamento político unindo os Paiva de Ribadouro aos Maia dando-lhe uma ascendência de alta nobreza. Localização Geográfica: 41.1623128234383, -8.038978613680928

O domínio da família O domínio de D. Paio foi assim composto:

1 - Núcleo Central (Zona do Tâmega/Douro, atual Zona de Penafiel):

Guilhufe, Lagares, S. Salvador de Galegos, S. Pedro de Abragão, Vimieiro: Todas estas localidades estão a menos de 10-15 km umas das outras. Era o coração do seu domínio, onde ele podia estar em qualquer ponto em poucas horas.

2 - Extensão para Sul (Zona de Baião):

Complentes (Cumieira), Figueira, Lardosa: Estas propriedades, já no concelho de Baião, estão na margem sul do Douro. A distância de S. Paio de Portela até aqui é de cerca de 20-25 km. Era a fronteira do seu senhorio, perfeitamente administrável numa jornada diária, mas já representando a expansão do seu poder para além do núcleo duro.

3 - As "Joias da Coroa" Estratégicas:

S. Miguel de Entre os Rios: Este nome é fantástico. "Entre os Rios" sugere quase certamente uma localização entre o Douro e um seu afluente (como o Tâmega ou o Cabrum). Esta propriedade era literalmente o "coração geográfico" do seu senhorio, o que a torna outro candidato de topo para ser o centro das suas terras. Esta propriedade, pelo nome, era provavelmente a chave de articulação entre todas as outras, o "centro geográfico" do seu poder.

S. Paio de Portela: O Nome "Portela": Este é o fator decisivo. "Portela" significa passo de montanha ou passagem estreita. No contexto medieval, quem controlava a "portela" controlava a estrada, o comércio e o movimento de tropas. Era uma localização estrategicamente vital e, portanto, um local de elite para a construção de um solar ou torre de menagem de uma família poderosa. Era mais do que uma terra; era um ponto de controle, dado sua centralidade Geográfica, cruzando a localização das outras propriedades (majoritariamente concentradas nas atuais freguesias de Penafiel e Baião), S. Paio de Portela situa-se numa zona que permite uma administração e deslocação eficiente entre esses domínios.

A Estratégia de Paio Perez Romeu

Estratégicamente esse domínio mostra que D. Paio não era um simples proprietário de terras; era um senhor territorial com um domínio concentrado e estrategicamente posicionado a norte do Douro, com extensões para sul. A escolha de S. Miguel de Entre os Rios como solar principal faria todo o sentido, permitindo a defesa por ser uma posição elevada e defensável numa passagem estratégica; facilitar o controle sendo uma via de comunicação crucial; e por fim a permitir um administração eficiente pois seria o local central para gerir as suas vastas propriedades em Penafiel e Baião.

A "Jornada de Um Dia" (Dieta): a acessibilidade a cavalo

Um senhor precisava de poder visitar, administrar e defender as suas propriedades. A distância máxima que um homem a cavalo podia percorrer num dia (ida e volta, para ainda ter horas de luz para tratar de assuntos) era cerca de 25-30 km.

Este raio de ação era conhecido como a "dieta" (de dies, dia em latim). Um domínio organizado dentro de uma "dieta" era um território coeso, controlável e defensável.

Conclusão: Um Senhorio Modelar

A distribuição das propriedades de Paio Perez Romeu não era aleatória. Era a manifestação física do seu poder e uma ferramenta de administração eficiente. Ele podia:

·        Partir de S. Paio de Portela ou S. Miguel de Entre os Rios de manhã.

·        Chegar a qualquer uma das suas terras antes do meio-dia.

·        Resolver problemas, cobrar rendas, supervisionar a lavoura.

·        Regressar à sua residência ao final do dia.

Isso tornava o seu domínio não apenas rico, mas também forte, coeso e facilmente defensável contra ameaças externas ou contra a ambição de outros nobres vizinhos.

Infância e adolescencia. D. Guião foi o sexto e último filho de Paio Perez Romeu e D. Goda Soares da Maia, nascendo num ambiente onde a herança familiar era tanto um privilégio quanto um campo de batalha.

1.     Soeiro Paez Soeiro Moro (1100)

2.     Maria Paez (1102)

3.     Pero Paez (1103)

4.     Martim Paez (1105)

5.     Eyo Paez (1106 [ativa em 1141])

6.     Guião Paez (1107- 1177/8)

A Grande Divisão: Uma Guerra de Avós

A casa dos Romeu não era unida. Abrigava duas poderosas linhagens em tensão:

O Campo de Soeiro (Mouro): Liderado pelo pai, Paio Romeu. Soeiro era o seu orgulho, o herdeiro que encarnava a linhagem paterna: os Romeus de Paiva, senhores da fronteira, com sua riqueza prática e sua conexão estratégica e culturalmente mista (cristã-moçárabe) herdada da avó paterna, Toda Ermigis Alboazar. Soeiro recebia os melhores treinos, as melhores espadas e a certeza de herdar o solar de Paiva.

O Campo de Guião: Liderado pela mãe, D. Goda. Guião, seu caçula favorito, era a encarnação da sua própria linhagem materna: a nobreza "pura" e prestigiada da Casa da Maia, representada pelo seu pai, Soeiro Mendes "o Bom". Nela, Guião não era um filho menor; era o herdeiro espiritual do prestígio e do status superior dos Maia.

O Conflito Irmão:

Neste caldeirão, a rivalidade entre Soeiro (o "Mouro", herdeiro do território) e Guião (o "Maia", herdeiro do prestígio) era inevitável e muito mais do que birras infantis. Era o embate de duas identidades familiares. Guião via no irmão mais velho não um exemplo, mas um "senhorzinho irritante" privilegiado, que provocava e oprimia os mais novos, confidente do apoio incondicional do pai.

A Aliança com Eyo:

Neste ambiente, Guião forjou uma aliança estratégica e afetiva com a irmã Eyo Paez, criando um laço profundo de proteção mútua contra a arrogância do primogénito.

Os Irmãos do Meio:

Os outros irmãos – Maria, Pero e Martim – viviam à sombra deste conflito dinástico. "Ora assistiam, ora apanhavam", figurantes num drama onde as maiores expectativas e atenções estavam divididas entre o herdeiro do norte (Soeiro) e o predestinado do sul (Guião).

Os irmão assim cresceram, entre “respeite o mais velho” e “não bata no mais novo” as brigas foram constantes, com em qualquer outra família nobre.

Nenhum era santo e pelo menos o herdeiro e o mais novo ganharam status e experiencia que os levariam a patamares mais altos, os demais não tinham outras grandes expectativas como segundos, terceiros ou quartos filhos da nobreza. Exetuando Eyo que ficou ao lado de Guião, os demais não tomaram partidos.

O desenvolvimento da família. Soeiro Paez Soeiro Moro (1100), como esperado herdou o ramo principal do norte e passou a ser conhecido como Soeiro Mouro de Paiva e foi o único a dar seguimento a descendencia dos Paiva.

Maria Paez (1102), Passou a se chamar Maria Paez de Curveira ao se casar com D. Egas Bufo,

Pero Paez (1103), passou a se chamar Pero Galego e pode ter ficado como administrador de S. Salvador de Galegos, sendo a parte que lhe coube como herança.

Martim Paez (1105), passou a ser chamado de Martim Saído, talvez tenha tido uma vida fora do núcleo familiar, talvez em Leão ou Castela, onde Saído pode significar exilado.

Eyo Paez (1106) casou-se com Dom Gomes Viegas de Baião e tornou-se senhora de vastas terras e foi a fundadora do Mosteiro de Vila Boa do Bispo (Marka), por volta de 1141. A doação do mosteiro foi posteriormente confirmada por seu neto, D. Godinho Viegas.

Trajetória de Guião Paez Guião Paez (1107- 1177/8) casou-se som Ermesenda Pelaiz (ou Pelagiz) (1108-1179) por volta de 1126.

Em 1127 nasce seu primogênito Ermigius, nome dado em homenagem à sua avó Toda Ermigis Alboazar.

Em 1133 seu pai falece e Soeiro assume como novo senhor dos Paiva Romeu, desse modo Guião precisaria deixar o territorio.

Durante o período de luto em que acompanhou sua mãe, sua leal protetora, foi aproveitado para que D. Goda e D. Guião consolidassem o controle sobre a herança em Montemor, planejando a sua estratégia de inserção na corte e nas campanhas do Sul, junto com um contato da região o Dom Gundisalvus Godiniz um parente distante de D. Goda que os introduziu nas redes de poder locais.

D. Goda, após ficar viúva, tornou-se benfeitora do Mosteiro de Paço de Sousa, também conhecido como Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa) fica na freguesia de Paço de Sousa, concelho de Penafiel, no distrito do Porto, por um breve período. Isso serviu de exemplo e treinamento para a filha D. Eyo que mais tarde fundaria o Mosteiro de Vila Boa do Bispo que ficaria em Marco de Canaveses, que é literalmente o concelho vizinho a leste de Penafiel. São territórios contíguos e historicamente ligados à mesma esfera de influência da alta nobreza (Maia, Ribadouro, Gascos).

Isso demonstra que D. Goda era uma Matriarca Estratégica, não uma figura passiva (a "viúva") e sim uma nobre astuta e piedosa. Ela não esperou o filho agir; ela já tinha os seus próprios projectos e influência. A sua ação como benfeitora de Paço de Sousa foi um ato de Piedade para Assegurar a sua salvação e a da alma do marido falecido; Prestígio Afirmando o seu lugar como uma mulher poderosa e influente naquela sociedade e além disso exemplo, que serviu de modelo direto para a sua filha, D. Eyo. Isto mostra uma transmissão de poder e influência de mãe para filha.

O que nos leva a deduzir uma Educação das Mulheres da Elite: Este ponto sugere que as mulheres desta família não eram meras espectadoras. Elas eram educadas na gestão do poder, da riqueza e da piedade familiar. A fundação de mosteiros era uma das ferramentas mais poderosas para isso.

Então em 1135 ou 1136 D. Guião, Ermesenda, Ermigius e sua mãe D. Goda deixam as terras do norte e seguem para a propriedade chamada Infesta que ficava no arrebalde de Montemor-o-Velho, na freguesia de São Miguel. D. Guião decide abandonar o nome Paez e criar sua própria família.

De 1136 a 1142 D. Goda e D. Guião expandiram sua influencia junto ao Alcaide de Montemor, D. Paio Gomes da Silva e através deste estreitando laços com Egas Gomes de Sousa que foi um dos nobres mais poderosos e influentes do reino de D. Afonso Henriques. Ele era o tenens (governador) da importante região da Extremadura Portuguesa (a área entre o Tejo e o Mondego, crucial na consolidação do reino).

Por ocasião das diversas batalhas em 1139, D. Guião prestou serviços a Afonso Henriques recebendo em 1140/1141 como recompensa as propriedades seguintes, assim o Paço de Randulfo tornou-se a nova residencia da família: Tipo de BemLocalizaçãoObservaçõesHerdadeTermo de LeiriaInclui o "Paço de Randulfo", o "Porto de Martim Moniz" e uma "senara" à face da vila.CasasNa mesma herdadeEdificadas pelos Templários.TerrenoIntra-muros de LeiriaCom posse dos TempláriosAlmuniaSociedade com João MuiximUma quinta de regadio.

Em 1140 nasce sua filha D. Eyo, nomeada em homenagem a sua querida irmã Eyo Paez, agoa Eyo Viegas de Baião que se tornou-se senhora de vastas terras e logo (cerca de 1141) seria a fundadora do Mosteiro de Vila Boa do Bispo (Marka).