miniaturadaimagem|Combate entre navios de guerra portugueses e piratas berberescos.|350x350px O fenómeno da pirataria em Portugal regista-se praticamente desde a origem do país e continuou até 1830, com um pico nos sécs. XVI e XVII. Ela motivou a criação da Marinha Portuguesa, a mais antiga do mundo ainda em funcionamento e condicionou muito a vida das populações costeiras, sobretudo no Algarve.

Embora alguns portugueses tenham participado em acções de corso contra os navios de potências hostis, a grande maioria dos piratas que actuaram em águas portuguesas eram franceses, ingleses, holandeses e, sobretudo, muçulmanos do al-Andalus ou do Magrebe. Isto deu origem à expressão anda mouro na costa, usada para denunciar um perigo iminente.

História Com o declínio do Império Romano e o estabelecimento dos vândalos no norte de África, a pirataria, antes suprimida, regressou à península Ibérica e a todo o Mediterrâneo. Posteriormente deram-se ataques de vikings contra o território peninsular e depois de muçulmanos do al-Andalus, primeiro do Califado Omíada e depois almorávidas e almóadas.Pires, Hélio: "MIL ANOS DA INCURSÃO NORMANDA AO CASTELO DE VERMOIM", CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, p. 111-126.

Durante a Reconquista deram-se ataques piratas de parte a parte mas, sobretudo de muçulmanos contra as costas e navios dos reinos cristãos, Portugal entre eles. Durante este período, Mumadona Dias mandou construir o castelo de Guimarães para proteger os habitantes e os monges de um mosteiro próximo de ataques piratas muçulmanos ou normandos. 32 anos após a conquista de Lisboa, na Primavera de 1179 Ganim ben Mardanis entrou no estuário do Tejo com uma frota de nove galés, capturou duas galés portuguesas que se encontravam de vigia e assolou os arredores de Lisboa antes de regressar a Sevilha com ricos despojos.Saturnino Monteiro (2013): Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa volume 1, pp. 23-27. É neste contexto que se deu a Batalha Naval do Cabo Espichel. Durante este período, os tavirenses liderados por Abdulla Ibn Ubeidala eram descritos até por muçulmanos como "um verdadeiro bando de piratas".Lynne Brooker: "Waiving the Rules: Pirates of the Algarve" at algarvehistoryassociation.com

Embora haja menção de "galés do rei" e de um "mestre" responsável por elas, a pressão da pirataria muçulmana levou à reorganização e fundação da Marinha Portuguesa pelo almirante Manuel Pessanha.

Em 1207, o rei D. Sancho convidou os trinitários, cuja Ordem havia sido oficialmente fundada em 1198, a estabelecerem-se definitivamente em Portugal.Rodrigues, Ana Patrícia e Bastos, Maria Rosário: "[Cativos Cristãos da Costa Algarvia: A Ordem da Santíssima Trindade em Lagos (Séculos XVII-XIX)]" in Entre-margens: a eterna «torna-viagem». Vivendo no limite dos recursos costeiros e marinhos? – Tomo XI da Rede BRASPOR, pp. 29-39. Esta Ordem dedicava-se à libertação de cativos em poder dos muçulmanos e recolha de fundos para pagar resgates. Fixaram-se em Santarém em 1208, Lisboa em 1218, Silves em 1239, Sintra em 1400 e Faro em 1415. Mais tarde, o rei D. Afonso V fundou o Tribunal da Rendição dos Cativos em 1450, passando a Coroa a tutelar o resgate de prisioneiros, com excepção da assistência, recolha de esmolas e cuidados com os enfermos, órfãos e pobres. Foi também criado por este rei o posto de alfaqueque-mor, oficial que tinha por funções resgatar cativos, escravos e prisioneiros de guerra.

A cidade de Alcácer do Sal era uma importante base de piratas e corsários muçulmanos mas a sua conquista pelos portugueses em 1217 e, mais tarde, do Algarve mitigou os ataques contra a navegação e território português.Thomas Heebøll-Holm, Philipp Höhn, Gregor Rohmann: Merchants, Pirates, and Smugglers: Criminalization, Economics, and the Transformation of the Maritime World (1200-1600), Campus, 2019, p. 300 Privados de bases na costa ocidental da península Ibérica, os piratas e corsários muçulmanos deslocaram a sua actividade para de Granada, Marrocos ou Argel, tendo as cidades do Magrebe tido um destaque especial no seu desenvolvimento.

O Algarve passou a ser a região de Portugal mais afectada por ataques piratas. Após a abolição da Ordem do Templo, o rei D. Dinis fundou a Ordem de Cristo a 14 de Março de 1319 para substituí-la e sediou-a em Castro Marim, para ajudar a combater a pirataria magrebina. O alcaide e o aguazil de Lagos convenceram o rei D. Afonso IV a mandar amuralhar a cidade como protecção contra os piratas, que desembarcavam para capturar gado e pessoas, mais tarde vendidas nos mercados de escravos no norte de África. Marrocos e Argel revelaram-se especiais protagonistas destes ataques. miniaturadaimagem|O "Sá das Galés", alcaide do Porto, donatário de Matosinhos e especialista naval. Os portugueses também participaram em acções de corso reguladas pela Coroa, contra a navegação muçulmana hostil ou potências em guerra com Portugal. O alcaide-mor do Porto e donatário de Matosinhos, João Rodrigues de Sá, conhecido como o Sá das Galés, autorizava o uso deste último porto como base de corso por homens como Fernão Coutinho, que tinha ali um navio. Com a Conquista de Ceuta em 1415, a guerra de corso ganhou maior expressão. O capitão de Ceuta D. Pedro de Meneses promoveu a actividade corsária contra as costas e navegação muçulmana inimiga, de Granada, Marrocos e Argélia e o Infante D. Henrique, feito responsável pelo abastecimento daquela praça-forte pelo rei D. João I, incumbiu João Gonçalves Zarco, genro do Sá das Galés, de patrulhar as costas sul de Portugal para defendê-las de ataques piratas. miniaturadaimagem|Anfa, depois do ataque português. Alcácer-Ceguer era uma vila de "homens de guerra, principalmente no negócio do mar, no qual erao muy exercitados, e acostumados a fazer mal, e dano aos Christãos da Hespanha, e a outros que navegavam para aquelle Estreyto" segundo Damião de Góis. A próspera cidade de Anfa, em Marrocos, era uma conhecida base de piratas ou corsários e, segundo Leão o Africano, de lá partiam a saquear as cidades da península Ibérica. Em 1469, portanto, uma armada portuguesa, chefiada pelo duque de Viseu arrasou a cidade.Fernando Pessanha: A conquista e destruição de Anafé (Casablanca) pelo Infante D. Fernando (1468) – Considerações sobre uma pouco conhecida operação anfíbia. in Revista de História de Sociedade e Cultura, 2018, p. 97-117. Em 1490, os portugueses arrasaram Targa, outra conhecida base de piratas, na Expedição a Targa.

Com a conquista de Granada em 1492, muitos piratas mudaram-se para Marrocos e de Larache, Tetuão e, sobretudo, Salé, atacavam as costas e navegação da Península Ibérica.Fernando Pessanha: "O CORSO E A PIRATARIA NO GOLFO LUSO-HISPANO-MARROQUINO: DA CONQUISTA DE CEUTA (1415) À MORTE DE D. MANUEL (1521)" in Revista Portuguesa de História Militar, ano II, nº 2, June 2022. Alguns eram judeus sefarditas expulsos, como Sinan Reis ou Samuel Pallache.Lynne Brooker: "Pirates of the Algarve ", 3rd September 2018, at portugalresident.comminiaturadaimagem|As caravelas redondas desempenharam um papel importante no combate à pirataria. Por volta de 1520 D. Manuel reforçou a marinha portuguesa de forma a tornar mais eficaz a defesa contra a pirataria com a criação de três armadas de guarda-costeira: a Armada da Costa, cuja função era defender a navegação na costa ocidental de Portugal entre o Cabo Espichel e a foz do Douro, com especial atenção às naus da Carreira da Índia de regresso a Portugal do Oriente;Godinho, Rui: "Armada da Costa" in Navegações Portuguesas, em http://cvc.instituto-camoes.pt/ a Armada do Estreito, que actuava no Algarve, Mar das Éguas e Estreito de Gibraltar, e a Armada das Ilhas, que patrulhava os Açores.

Devido a conflitos entre Espanha e França, as costas da Península Ibérica passaram a ser percorridas por piratas franceses que atacavam a navegação portuguesa também. Até meados do séc. XVI, os portos de Matosinhos, Leça, S. João da Foz, Massarelos, Miragaia e Porto registaram a perda de 39 embarcações para corsários franceses.

O governador de Cacelha Velha, D. Simão de Meneses, escreveu em 1548 que os pescadores de atum de Cacela, Santo António e da Gomeira tinham mudado as suas residências mais para o interior para evitarem as depredações de piratas. Em 1559, 13 galés, aparentemente turcas, atacaram Porches-o-Velho às 3 da manhã de 13 de Julho."A nossa história" in jf-armacaodepera.com As mulheres e crianças foram evacuadas para Silves e a milícia local de moradores mobilizada. Os piratas, em número de 1000, saquearam as casas de 20 residentes em Monte Canelas mas viram-se obrigados a reembarcar pelos cavaleiros, milicianos e residentes armados vindos de Armação de Pêra, Alcantarilha e Canelas entre outros, comandados pelo capitão Pedro da Silva.

Devido à ameaça pirata, o rei D. João III assinou com o Imperador Carlos V um convénio de apoio mútuo na defesa da navegação, que previa que as armadas portuguesas defendessem os navios mercantes espanhóis em águas portuguesas e vice-versa.Augusto Salgado: "Corso e Pirataria" in Navegações Portuguesas, em http://cvc.instituto-camoes.pt/ Iniciou também a fortificação das costas de Portugal, tarefa mais tarde continuada por D. Sebastião. No Algarve foram construídos fortalezas, atalaias e fachos ao longo da costa; alguns exemplos podem ser admirados ainda hoje, tal como o Forte do Rato em Tavira, o Forte de São João da Barra em Cabanas de Tavira ou a Torre D'Aires perto de Luz de Tavira.

Em 1566, o Funchal sofreu um grande ataque de piratas franceses liderados por Peyrot de Monluc, que pilharam a cidade durante quinze dias.António Brehm, Cristina Trindade: "O Saque ao Funchal em 1566 e as suas Repercussões no Reinado de D. Sebastião" in Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, n.º 2, 2020, pp. 15-79, Direcção Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira, https://ahm-abm.madeira.gov.pt.

As costas de Tavira eram atacadas com tanta frequência que os fidalgos daquela região "montavam vigia de dia e noite, com pé no estribo e de lança em riste", segundo o testemunho de frei João de São José, em 1577.

O auge da pirataria em Portugal Integrado Portugal em Espanha, a navegação portuguesa passou a ser visada por piratas e corsários holandeses e ingleses a juntar aos muçulmanos e franceses. miniaturadaimagem|Desenho do ataque de Francis Drake a Sagres. Após ter estalado a Guerra Anglo-Espanhola em 1585, corsários ingleses comandados por Francis Drake atacaram a Baleeira, Beliche, Sagres e Cabo de São Vicente. A 25 de Maio de 1587 Drake tentou saquear a cidade de Lagos mas a defesa montada pelo governador e capitão-geral do Algarve Fernão Teles de Meneses impediu-o. Os Açores foram atacados em 1589 por uma frota de seis navios comandada por George Clifford, que apresou vários navios e saqueou a cidade de Horta, naquela que ficou conhecida como a sua terceira expedição aos Açores. Em 1596 Cádis foi saqueada por corsários ingleses chefiados por Robert Devereux, que depois desembarcaram em Farrobilhas e saquearam Faro também, a 23 de Julho, tendo sido levados, entre outras coisas, os livros do bispo da cidade, mais tarde doados à biblioteca da Universidade de Oxford, onde ainda hoje se encontram. A assinatura de paz com Inglaterra em 1604 levou ao cessamento temporário de ataques ingleses.

Em 1606, os piratas barbarescos passaram a dispor não só de galés mas também de naus e patachos, com mais autonomia e capazes de navegar em alto-mar, depois de se ter fixado em Argel o pirata holandês Simon Danser.Monteiro, volume V, 1994, p. 311.