O Museu Dr. Joaquim Manso é uma instituição museológica de cariz regional e etnográfico situada no Sítio da Nazaré, concelho da Nazaré, Portugal. Instalado numa antiga moradia de veraneio do início do século XX, o museu dedica-se à preservação da identidade marítima e histórica desta localidade costeira.

História A génese desta instituição está ligada ao edifício que a acolhe, uma residência de estio construída nos primórdios do século XX que pertenceu ao Dr. Joaquim Manso, ilustre intelectual, escritor e fundador do periódico Diário de Lisboa. No ano de 1968, o imóvel foi adquirido pelo benemérito nazareno Amadeu Gaudêncio, que procedeu à sua doação ao Estado português com o intuito específico de ali sedear um espaço museológico de natureza etnográfica e arqueológica.

Embora o projecto de instalação tenha sido iniciado em 1972, apenas em 1974 foram executadas as intervenções arquitectónicas necessárias à adaptação da moradia às funções de museu. A inauguração oficial e abertura ao público verificaram-se em 1976.

O acervo original da instituição consolidou-se através dos esforços de um grupo de entusiastas locais, designados como Amigos do Museu da Nazaré, que reuniram as primeiras peças entre as décadas de 1960 e 1970. Ao longo dos anos subsequentes, a colecção foi consideravelmente ampliada mediante uma política de recolha sistemática, que incluiu doações da comunidade, legados, depósitos e aquisições, bem como o produto de campanhas arqueológicas realizadas pela própria instituição durante os anos 70.

Em 1994, o museu foi objecto de uma profunda reestruturação museológica e de obras de beneficiação. Esta intervenção permitiu uma nova organização das colecções e a criação do Jardim Náutico, um espaço exterior dedicado à exposição de embarcações, reforçando o posicionamento do museu como um centro de referência na salvaguarda do património marítimo, com relevo tanto a nível regional como nacional.

Após um período de encerramento iniciado em Março de 2020 devido ao avançado estado de degradação do edificado, o espaço foi alvo de uma profunda intervenção de requalificação e modernização entre 2023 e 2024. Com um investimento global de cerca de 1,1 milhões de euros, as obras focaram-se na recuperação estrutural — incluindo a substituição da cobertura, isolamento térmico e reabilitação de fachadas — e na implementação de um novo projecto museográfico. Além da renovação das áreas expositivas, a intervenção contemplou a actualização das reservas técnicas, do serviço educativo e do centro de documentação, visando dotar a instituição de melhores condições de conservação e de recepção ao público para a valorização do património histórico e etnográfico da Nazaré.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. VI. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 15

Descrição O imóvel organiza-se em dois níveis funcionais distintos. O andar superior destina-se exclusivamente às áreas de serviços técnicos e administrativos, enquanto o piso inferior concentra a recepção, o espaço comercial e as diversas salas de exposição permanente. A envolvente do museu é marcada pela proximidade ao majestoso Promontório e ao complexo religioso composto pela Ermida da Memória e pelo Santuário de Nossa Senhora da Nazaré.

Arqueologia O percurso expositivo percorre a cronologia da presença humana na região, exibindo testemunhos materiais que remontam ao Paleolítico e ao Neolítico, atravessando as Idades do Bronze e do Ferro. A ocupação do território é igualmente documentada através de vestígios da época romana e do período paleo-cristão. Neste âmbito, assume particular importância o conjunto de elementos arquitectónicos provenientes da Igreja de São Gião, estrutura datada do século VII e associada à presença visigótica. Outra peça de assinalável valor histórico é a escultura de São Sebastião, talhada em pedra calcária nos finais do século XV.

A memória da Pederneira, povoação medieval de cariz marítimo que obteve o foral de D. Manuel I em 1514, é evocada pela sua antiga relevância como porto estratégico e estaleiro naval, funções que desempenhou com destaque durante a época da expansão marítima portuguesa.

Etnografia marítima A cultura do mar constitui o núcleo central da exposição, manifestando-se através de uma vasta colecção de etnografia marítima. O museu apresenta uma diversidade de embarcações tradicionais da Nazaré, tanto em dimensões reais como em modelos miniaturizados de rigorosa execução. O percurso detalha as tecnologias de construção naval e os apetrechos de pesca artesanal, tais como aparelhos de anzóis, armadilhas e redes, reflectindo a evolução técnica e as especificidades locais. O núcleo expositivo trata ainda das actividades relacionadas com a pesca, como o transporte, venda e preparação do pescado.

A dimensão espiritual e mítica da comunidade é representada pela iconografia do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré. Esta temática remete para a lenda de D. Fuas Roupinho e o seu salvamento milagroso no precipício durante uma perseguição a um veado sob nevoeiro intenso. A influência destas crenças e superstições é visível não apenas na arte sacra, mas também na escultura popular e nos objectos do quotidiano.

Traje e artes plásticas O traje tradicional ocupa um lugar de destaque na colecção, sendo apresentadas as variantes de trabalho, de gala ou festa, e de luto. A exposição enfatiza a complexidade decorativa dos tecidos e a singularidade do uso de múltiplas saias pelas mulheres nazarenas.

No domínio das artes plásticas e decorativas, o museu integra obras de pintura, desenho, escultura, gravura e cerâmica. Evidencia-se a produção artística de Álvaro Laborinho, cujas pinturas e fotografias, datadas da primeira metade do século XX, constituem registos fundamentais para a compreensão visual e antropológica do dia-a-dia desta vila piscatória e das suas gentes.

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Categoria:Nazaré (Portugal) Categoria:Património edificado na Nazaré Categoria:Museus no distrito de Leiria