Paleoradiologia A paleoradiologia é a disciplina que estuda os materiais bioarqueológicos com recurso às técnicas de imagiologia, como a Radiologia Convencional (RC), a Tomografia Computorizada (TC), a Ressonância Magnética (RM) e a micro-TC .
Estas técnicas são ferramentas de diagnóstico importantes no estudo de corpos mumificados e vestígios esqueléticos, bem como no diagnóstico e identificação de doenças, uma vez que são abordagens não invasivas e não destrutivas, permitindo a visualização das estruturas internas. Além disso, apresentam a vantagem de possibilitar o registo permanente das condições observadas. Em particular, a TC permite a criação de modelos tridimensionais (3D), que se revelam especialmente úteis quando os vestígios humanos não estão fisicamente disponíveis ou quando se pretende uma análise mais detalhada.
As técnicas de imagiologia devem ser encaradas como ferramentas complementares às análises macroscópicas, devendo ser utilizadas sempre que necessário. Embora muitas alterações de origem patológica possam ser identificadas através da observação direta do osso, a imagiologia permite obter informação adicional relevante para o diagnóstico, como é o caso de lesões neoplásicas.
No entanto, é importante ter em consideração que nem todas as alterações observáveis macroscopicamente são detetáveis por estas técnicas. Por exemplo, subtis reações periosteais na superfície do osso. Por outro lado, existem lesões que podem ser identificadas por imagiologia, mas não são visíveis a olho nu, como alterações na díploe, que podem não ser detetadas na análise macroscópica, exceto se o osso estiver fragmentado.
História da Paleoradiologia A paleoradiologia nasceu com a descoberta dos raios X pelo físico alemão, Wilhelm Conrad Röntgen, em 1895 . O potencial desta técnica foi percetível de imediato, tendo os raios X sido aplicados, desde o final do século XIX, em contextos não clínicos, nomeadamente no estudo de corpos mumificados, esqueletos e fósseis.
A primeira radiografia conhecida, no contexto da paleoradiologia, foi realizada em 1896 por Walter König, incidindo sobre duas múmias egípcias: uma criança e um gato. As múmias provenientes do Egito e Peru, constituíram alguns dos principais objetos de estudo inicial, tendo contribuído para o desenvolvimento das primeiras abordagens sistemáticas nesta área e para a publicação de trabalhos pioneiros em paleoradiologia.
O desenvolvimento da paleoradiologia está diretamente ligado à evolução das técnicas de imagiologia. A introdução da TC, no início da década de 1970, representou um avanço significativo, tendo sido aplicada pela primeira vez ao estudo de vestígios humanos antigos em 1979, numa múmia egípcia.
Trata-se de uma área multidisciplinar, que envolve a colaboração entre radiologistas, patologistas, antropólogos e outros especialistas, para fermentar novas ideias e técnicas que impulsionem o desenvolvimento da paleoradiologia e paleopatologia.
Exemplos de Contributos da Radiologia na Paleopatologia
Osteomielite Os padrões radiológicos básicos da osteomielite caracterizam-se essencialmente pela presença de áreas radiodensas, normalmente associadas à formação óssea (involucro), e de áreas radiolúcidas, relacionadas com a destruição óssea (sequestro).
Diversos estudos têm aplicado as técnicas de imagiologia no estudo das alterações ósseas provocadas pela osteomielite, nomeadamente, a RC e a TC. Estas têm auxiliado no diagnóstico através da visualização de espessamentos do osso cortical e alterações na estrutura interna do osso como a formação de osso novo no interior da cavidade medular, bem como a identificação de áreas líticas e a sua extensão. Para além disso, permitem uma melhor definição da cloaca e do sequestro, importantes no diagnóstico da osteomielite. A radiologia pode ainda contribuir para a identificação de possíveis lesões traumáticas que possam ter constituído uma via de entrada para os microrganismos responsáveis pela infeção.
A título de exemplo, no estudo de Fusco et al. (2023), utilizaram a TC para caracterização com mais detalhe de uma possível lesão de osteomielite orbital, onde foi evidenciada uma área radiotransparente, a qual envolvia a díploe e a tábua externa, delimitada por um rebordo radiodenso, na região supraorbitária. No interior da área radiotransparente foi identificado um material denso irregular que, após análise histológica, revelou-se corresponder a tecido ósseo.
Tuberculose No estudo radiológico da tuberculose, no contexto paleopatológico, podem ser observadas principalmente lesões no interior do corpo vertebral, estreitamento do espaço discal e colapso vertebral, o qual pode causar uma cifose aguda . Podem ainda ser identificadas outras alterações ósseas resultantes da artrite tuberculosa, que incluem osteoporose periarticular, estreitamento do espaço articular, erosões e podendo também ocorrer anquilose óssea.
Gooderham et al. (2020) utilizaram RC, TC e mamografia para auxílio na identificação e observação das estruturas internas, de um esqueleto de criança com tuberculose. Através da RC observaram-se lesões líticas nas vértebras, onde com o auxílio da TC foi possível a eliminação da sobreposição das estruturas e consequentemente uma melhor visualização da destruição vertebral. A mamografia permitiu a aquisição de imagens com maior resolução para pequenas lesões ósseas.
No estudo de Coqueugniot et al. (2015) foi utilizada a TC para a criação de modelos 3D dos ossos afetados. Esses modelos permitiram avaliar a extensão das lesões, possibilitando a observação da ausência de estreitamento significativo do canal, algo que na observação macroscópica não era discernível. Foi ainda possível, a nível microscópico, detetar um estádio precoce da infeção por tuberculose no corpo vertebral. Adicionalmente, foi identificado ao nível da articulação sacroilíaca, a presença de dois quistos, o que permitiu a compreensão da disseminação da doença que acabou por infetar e provocar a fusão dessa articulação.
Raquitismo e Osteomalácia Os sinais radiológicos observados em casos de raquitismo incluem deformidades ao nível das metáfises dos ossos longos, evidenciando margens óssea irregulares na placa de crescimento, concavidade e formação de espigões ósseos nas extremidades. Verifica-se igualmente o alargamento da placa de crescimento, contudo, este critério é pouco fiável em espécimes secos devido à sua natureza cartilaginosa, sendo mais evidente e preciso em contextos de corpos mumificados.
Observam-se ainda alterações do padrão trabecular, caracterizadas pelo desaparecimento das trabéculas finas e pela persistência de trabéculas grosseiras e espaçadas. No que diz respeito aos ossos longos, são frequentes curvaturas de natureza biomecânica, incluindo o arqueamento e perda de distinção cortico-medular. Ao nível das costelas, podem observar-se concavidades na junção costo-condral, designadas por rosário raquítico.
Importa, no entanto, salientar que o contributo da imagiologia na identificação de características como as diáfises arqueadas ou o rosário raquítico é particularmente relevante em contextos de corpos mumificados, sendo mais limitado em vestígios esqueléticos, onde estas alterações são geralmente identificáveis por análise macroscópica.
Nos casos de osteomalácia, os principais achados radiológicos correspondem essencialmente a pseudofraturas, conhecidas por «Zonas de Looser», que se apresentam como bandas radiolúcidas lineares, orientadas perpendicularmente ao córtex, e por vezes, com margens escleróticas. Estas lesões ocorrem frequentemente de forma bilateral em locais como o colo do fémur, ramos púbicos, bordo da escápula, rádio, ulna e costelas.
Adicionalmente, pode observar-se uma osteopenia generalizada – no entanto, este sinal pode ser confundido com processos tafonómicos -, associada a um padrão trabecular mais grosseiro e/ou de contornos indefinidos, bem como as deformações vertebrais caracterizadas pela perda de definição das placas terminais e pela compressão bicôncava dos corpos vertebrais, podendo ainda ocorrer a formação de túneis intracorticais nos ossos longos. Neste contexto, o estudo de Welsh et al. (2020) utilizou a micro-TC para a análise não invasiva da estrutura interna do osso, possibilitando a identificação de alterações associadas a défices de mineralização, como áreas de mineralização incompleta e reabsorção óssea. Esta técnica permitiu a observação tridimensional da microarquitetura óssea, mesmo em amostras arqueológicas afetadas por processos tafonómicos, apresentando resultados consistentes com a análise histológica, apesar de algumas limitações ao nível da resolução.
Para o diagnóstico é essencial identificar alterações estruturais internas que não são visíveis macroscopicamente em ossos não danificados. Em casos ativos, a radiologia revela a mineralização deficiente, enquanto em casos cicatrizados pode demostrar a progressiva restauração da estrutura trabecular normal.
Osteoporose A osteoporose apresenta como principal sinal radiológico a osteopenia, que se torna radiograficamente evidente quando ocorre uma perda de cerca de 20% a 40% da massa óssea, como consequência as trabéculas tornam-se mais finas e menos numerosas, especialmente no osso esponjoso do fémur e vértebras. São também frequentes fraturas de compressão dando origem a vértebras em cunha ou bicôncavas, comuns nas regiões torácica e lombar. Um outro achado relevante corresponde à redução da espessura do osso cortical, acompanhada pelo alargamento da cavidade medular devido à reabsorção endosteal. De acordo com Curate (2014), a radiologia é uma das principais abordagens no estudo da perda de massa óssea em contexto paleopatológico, destacando-se a radiogrametria e a densitometria. A radiogrametria permite a avaliação da perda de osso cortical, e embora não seja adequada para o diagnóstico individual da osteoporose nem para a deteção de perda de massa óssea precoce, esta técnica tem sido amplamente utilizada em estudos paleopatológicos, apresentando uma elevada reprodutibilidade. Por sua vez, a densitometria permite a quantificação da densidade mineral óssea, sendo um método preciso para o diagnóstico da osteoporose, contudo, importa ter em consideração que, em estudos paleopatológicos, podem existir limitações devido à ausência de tecidos moles e medula óssea, bem como a influencia de processos tafonómicos.
Tumores Os padrões radiológicos das lesões tumorais refletem não o tumor em si, mas sim as alterações ósseas resultantes da sua atividade biológica, ou seja, a interação entre a destruição óssea induzida pelo processo tumoral e a resposta do tecido ósseo. Assim, as alterações observadas resultam de um desequilíbrio entre a reabsorção e formação óssea, manifestando-se através de áreas radiolúcidas, associadas à destruição óssea, e áreas radiodensas, relacionadas com a formação óssea. A avaliação da agressividade da lesão é um passo fundamental para o diagnóstico diferencial, onde lesões de crescimento lento apresentam, geralmente, margens bem definidas e padrões de destruição do tipo geográfico, enquanto lesões mais agressivas tendem a exibir margens mal definidas e padrões do tipo “moth-eaten” ou permeativo. Adicionalmente, a análise periosteal constitui um importante indicador da dinâmica da lesão, sendo as reações periosteais continuas mais frequentemente associadas a processos não agressivas, enquanto reações interrompidas, como o triângulo de Codman ou padrões espiculados, sugerem uma maior agressividade.
Importa ter em consideração que, em contexto paleopatológico, a ausência de tecidos moles, dados clínicos e exames complementares limita a possibilidade de um diagnóstico definitivo, sendo muitas vezes apenas possível caracterizar o comportamento biológico da lesão.