Characidium satoi, popularmente chamado charutinho, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos crenuquídeos (Crenuchidae). É endêmica do Brasil. Foi descrita em 2015 a partir de exemplares coletados no córrego Curral das Éguas, um afluente do rio Abaeté na bacia do rio São Francisco, em Minas Gerais. Pertence ao gênero Characidium, o mais diverso da subfamília , que reúne pequenos peixes de água doce amplamente distribuídos pela região neotropical. A espécie é conhecida principalmente por apresentar um pronunciado dimorfismo sexual sazonal, condição rara no gênero e registrada pela primeira vez para a família dos crenuquídeos.
É um peixe de pequeno porte, alcançando cerca de 4,4 centímetros de comprimento padrão. Habita trechos rasos e correntosos de riachos inseridos no domínio do Cerrado, sendo encontrado exclusivamente em corredeiras de águas rápidas. A espécie apresenta corpo alongado, linha lateral completa e padrão de coloração caracterizado por barras corporais irregulares. Durante o período reprodutivo, os machos desenvolvem coloração mais escura e uniforme, acompanhada pela presença de ganchos nos raios de algumas nadadeiras, enquanto fêmeas e indivíduos imaturos mantêm o padrão típico de barras verticais.
A distribuição conhecida de C. satoi restringe-se ao Alto São Francisco, embora existam registros que ainda aguardam confirmação para a Bahia e o Distrito Federal. A espécie não é considerada migratória e reproduz-se durante a estação chuvosa. Em avaliação global da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), foi classificada como Dados Insuficientes (DD) devido às incertezas sobre sua distribuição geográfica, enquanto a avaliação nacional conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a classificou como Menos Preocupante (LC). Entre as principais ameaças potenciais destacam-se o assoreamento associado à degradação da vegetação ciliar e os efeitos da fragmentação dos sistemas fluviais.
Etimologia
O nome genérico Characidium deriva de uma forma diminutiva de Charax, enquanto o epíteto específico satoi é um patronímico em homenagem ao biólogo Yoshimi Sato, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), por suas contribuições ao conhecimento e à conservação da ictiofauna da drenagem do rio São Francisco.
Taxonomia
Characidium satoi é uma espécie de peixe caraciforme da família dos crenuquídeos, pertencente à subfamília dos e ao gênero Characidium, o mais diverso da subfamília e amplamente distribuído pela região neotropical. Os representantes do gênero são peixes de pequeno porte, geralmente associados a riachos e cursos d'água de pequeno a médio porte, ocorrendo tanto em ambientes lóticos quanto lênticos. Em geral, as espécies de Characidium apresentam pouco ou nenhum dimorfismo sexual externo, embora C. satoi constitua uma exceção notável por apresentar alterações sazonais de coloração nos machos durante o período reprodutivo. As relações filogenéticas de Characidium satoi dentro do gênero permanecem incertas. A filogenia mais abrangente disponível para Characidium incluía apenas uma parcela limitada da diversidade do gênero e havia sido mais direcionada aos caracidiíneos não pertencentes a Characidium. Sem uma análise filogenética mais ampla, não foi possível atribuir C. satoi com segurança a nenhum dos principais clados previamente reconhecidos para o gênero. A espécie compartilha com C. xanthopterum a presença de dentes unicúspides ou com pequenas cúspides laterais e mediais, ausência de fileira interna de dentes no dentário e ganchos nos raios das nadadeiras pélvicas dos machos. Contudo, difere dessa espécie por não apresentar pigmentação castanho-avermelhada no corpo nem nadadeiras amarelas, e por ocorrer na bacia do São Francisco, onde C. xanthopterum nunca foi registrado. A inserção posterior da nadadeira anal em C. satoi, associada à posição dos primeiros radiais entre a quinta e a sexta vértebras caudais, foi apontada como uma possível condição apomórfica que necessita ser avaliada em futuras análises filogenéticas mais inclusivas.
Foi descrita em 2015 por Marcelo R. S. Melo e Osvaldo T. Oyakawa, com base em exemplares coletados no córrego Curral das Éguas, um pequeno tributário do rio Abaeté, na bacia do rio São Francisco, em Minas Gerais. Na ocasião da descrição, a espécie era conhecida apenas de sua localidade-tipo, situada no alto curso da bacia do São Francisco, a jusante do reservatório de Três Marias. Antes da descrição formal de C. satoi, exemplares da região haviam sido identificados como Characidium fasciatum em um guia de peixes da área da represa de Três Marias publicado em 1984. A reanálise desse material demonstrou, contudo, que os exemplares não pertenciam a C. fasciatum, mas representavam três táxons distintos: Characidium aff. zebra, Characidium aff. bimaculatum e uma espécie ainda não descrita, posteriormente reconhecida como C. satoi. A confusão anterior ocorreu antes da redescrição de C. fasciatum, que esclareceu problemas recorrentes de identificação entre essa espécie e C. zebra. O holótipo é uma fêmea de 50,7 milímetros de comprimento total e 42,33 milímetros de comprimento padrão, coletada em 7 de dezembro de 2012 no córrego Curral das Éguas, município de Três Marias, Minas Gerais, por Marcelo R. S. Melo, Osvaldo T. Oyakawa e P. Camelier, e depositada no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, sob o número MZUSP 114614. A série de parátipos inclui machos, fêmeas e juvenis coletados na mesma localidade em 1988, 2007 e 2012, depositados no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, no Museu Real de Ontário e na coleção zoológica da Universidade Estadual de Campinas.
Diagnóstico
Characidium satoi distingue-se das demais espécies do gênero por uma combinação de caracteres externos e internos. Externamente, diferencia-se pela região situada entre a nadadeira pélvica e a origem da nadadeira anal, que é moderada a fortemente convexa em vista lateral, enquanto essa área é reta na maioria das espécies congêneres. Também se caracteriza pelo padrão de colorido de fêmeas, juvenis e machos fora do período reprodutivo, formado por barras irregulares e descontínuas, com manchas dorsais separadas de marcas ventrais em forma de V, W ou losango. Durante o período reprodutivo, os machos tornam-se mais escuros e uniformemente pigmentados, com padrão de barras pouco distinto ou indistinguível. A espécie apresenta ainda uma possível autapomorfia interna: os primeiros radiais da nadadeira anal inserem-se entre a quinta e a sexta vértebras caudais. Essa condição difere da observada em diversas espécies do gênero, nas quais a inserção da nadadeira anal ocorre mais anteriormente, entre a segunda e a terceira vértebras caudais, como em C. fasciatum, C. lanei, C. lauroi, C. schubarti e C. interruptum, ou entre a terceira e quarta ou quarta e quinta vértebras, como em C. japuhybense, C. pterostictum e C. xanthopterum.
Outros caracteres diagnósticos incluem istmo escamado, linha lateral completa com 34 a 37 escamas perfuradas, origem da nadadeira anal afastada do ânus por quatro a sete fileiras de escamas, extremidade distal dos raios da nadadeira anal alcançando a base do raio caudal ventral e presença de ganchos nos raios das nadadeiras pélvicas dos machos maduros, bem como, em alguns exemplares, nas nadadeiras peitorais e dorsal. A espécie também se diferencia de várias congêneres pela combinação de linha lateral completa, ausência de grande mancha no pedúnculo caudal, nadadeiras dorsal e caudal marcadas por melanóforos e presença de dimorfismo sexual de coloração. Entre as espécies previamente registradas na bacia do São Francisco, C. satoi difere de C. fasciatum, C. zebra, C. lagosantense e Characidium aff. bimaculatum por apresentar barras corporais indistintas, dimorfismo sexual de coloração e nadadeiras dorsal e caudal pigmentadas por melanóforos. Distingue-se de C. fasciatum pelo istmo escamado, de C. lagosantense e C. bimaculatum pelo maior tamanho corporal, e de C. bimaculatum por possuir 34 a 37 escamas perfuradas na linha lateral, em vez de menos de 15, além de não apresentar grande mancha no pedúnculo caudal.
Morfologia
Characidium satoi é uma espécie de corpo alongado e fusiforme, alcançando até 44,3 milímetros de comprimento padrão entre os exemplares examinados, valor que corresponde ao maior tamanho conhecido para a espécie. O perfil dorsal do corpo é moderadamente côncavo entre a cabeça e o último raio da nadadeira dorsal, suavemente côncavo entre o último raio dorsal e a nadadeira adiposa, e reto entre a nadadeira adiposa e a base do raio caudal dorsal. O perfil ventral é reto ou suavemente convexo da sínfise dos dentários até a base das nadadeiras pélvicas, tornando-se moderada a fortemente convexo entre a base das pélvicas e a origem da nadadeira anal. A maior altura corporal situa-se ligeiramente à frente da origem da nadadeira dorsal. A cabeça possui focinho curto e rombo em vista lateral. A boca é pequena e subterminal, com a margem ventral da pré-maxila situada no nível da margem inferior do olho. A extremidade posterior da maxila alcança o nível da margem anterior da órbita. A órbita é oval e levemente alongada anterodorsalmente, com margem livre. As narinas são nitidamente separadas, e a distância entre elas é maior que a distância entre a narina posterior e o olho. A narina anterior possui margem expandida formando um aro circular, enquanto a narina posterior é semilunar. O ramo parietal e o ramo frontal do canal supraorbital laterossensorial estão presentes.
Os dentes do dentário variam de seis a dez e estão dispostos em uma única fileira. Os dentes da pré-maxila variam de cinco a sete, também em uma única fileira. Em ambas as estruturas, os dentes diminuem gradualmente de tamanho posteriormente e podem ser cônicos, unicúspides ou tricúspides, com pequenas cúspides medial e lateral. A maxila não possui dentes. O ectopterigoide apresenta oito ou nove dentes cônicos unicúspides dispostos em uma única fileira. As escamas são cicloides, com raios paralelos no campo posterior. A linha lateral é completa, com 34 a 37 escamas perfuradas. Há quatro fileiras de escamas acima da linha lateral, cinco ou seis abaixo dela, 12 a 14 escamas ao redor do pedúnculo caudal, nove a 12 escamas na série pré-dorsal e quatro a sete escamas entre o ânus e a origem da nadadeira anal. O istmo é escamado. As nadadeiras peitorais apresentam geralmente três raios não ramificados anteriores, oito raios ramificados e um raio não ramificado posterior. As nadadeiras pélvicas possuem um raio não ramificado anterior, sete raios ramificados e um raio não ramificado posterior. A nadadeira dorsal apresenta dois raios não ramificados e nove ramificados, enquanto a nadadeira anal possui dois raios não ramificados e seis ramificados. A nadadeira caudal apresenta geralmente um raio não ramificado dorsal, oito raios ramificados dorsais, nove raios ramificados ventrais e um raio não ramificado ventral. A nadadeira adiposa está presente. Os exemplares examinados possuem 18 vértebras pré-caudais e 34 vértebras totais, além de cinco supraneurais. A bexiga natatória apresenta câmara posterior mais longa que a anterior.