Cabe ibne Maleque (; Iatrebe, c. — Medina, ) foi um ançar, poeta e transmissor de hádices pertencente ao ramo Salima dos cazerajitas. Converteu-se ao islã antes da Hégira e participou do Segundo Pacto de Ácaba, integrando o grupo de medinenses que convidou Maomé a estabelecer-se em Medina. Após a Hégira, tornou-se um dos mais próximos companheiros do profeta, de quem foi considerado um dos principais poetas, ao lado de Haçane ibne Tábite e Abedalá ibne Rauá.

Cabe participou de praticamente todas as campanhas conduzidas por Maomé, distinguindo-se especialmente na Batalha de Uude, onde recebeu numerosos ferimentos e foi o primeiro a reconhecer o profeta após o falso anúncio de sua morte. Tornou-se particularmente conhecido pelo episódio relacionado à Campanha de Tabuque, quando permaneceu em Medina sem apresentar justificativa falsa para sua ausência. Submetido, juntamente com e , a um boicote determinado por Maomé, teve posteriormente seu arrependimento aceito, episódio mencionado nos versículos 117 e 118 da at-Tawba e amplamente preservado na literatura islâmica.

Além de sua atuação militar, Cabe destacou-se como poeta, compondo versos sobre os principais acontecimentos do início do islã e respondendo às sátiras dirigidas contra Maomé e seus seguidores. Suas composições figuram entre as mais importantes da poesia islâmica primitiva, sendo preservadas em grande parte por Ibne Hixame. Também transmitiu cerca de oitenta hádices, conservados nas principais coleções da tradição islâmica, tornando-se uma das mais importantes autoridades entre os companheiros de Maomé tanto na poesia quanto na preservação de seus ensinamentos.

Vida

Cabe ibne Maleque nasceu em Iatrebe, provavelmente por volta de 598. Pertencia ao ramo Salima dos cazerajitas. Antes do islã era conhecido pelo tecnônimo Abu Bixer, mas Maomé passou a chamá-lo Abu Abedalá em referência a seu filho mais velho Abedalá. Também era mencionado pelos tecnônimos Abu Abederramão e Abu Maomé e pela nisba Açalami, alusiva ao seu clã tribal. Seu pai, Maleque, figurava entre os principais chefes de Iatrebe antes do islã, tendo participado com distinção das guerras entre os aucitas e os cazerajitas, além de ser conhecido como poeta. Filho único, Cabe recebeu educação esmerada, aprendendo leitura, escrita e cálculo, conhecimentos pouco comuns entre os árabes da época. Ainda na juventude adquiriu reputação como poeta ao compor versos relacionados aos conflitos entre aucitas e cazerajitas. A Encyclopaedia of Islam observa que sua participação nessas guerras confirma que já havia nascido antes de 600. Cabe converteu-se ao islã antes da Hégira e integrou a delegação de ançares que, durante a peregrinação de 622, encontrou-se com Maomé em Meca para convidá-lo a estabelecer-se em Iatrebe. Participou do Segundo Pacto de Ácaba, episódio que posteriormente consideraria ainda mais importante do que sua participação nas campanhas militares do islã. Segundo o relato preservado por M. Yaşar Kandemir, quando o chefe medinense levou Cabe para conhecer Maomé, este manifestou satisfação ao saber que ele era poeta. Após a Hégira, Maomé estabeleceu um pacto de fraternidade entre Cabe e Talha ibne Ubaide Alá, embora outras tradições indiquem Azobair ibne Alauame como seu irmão de pacto. Ibne Abi Hatime chegou ainda a incluí-lo entre os , embora essa informação não seja consensual.

Ao contrário do que afirmam algumas tradições antigas, Cabe não participou da Batalha de Badre, circunstância confirmada pelo Sahih de Albucari. Em compensação, esteve presente em praticamente todas as campanhas conduzidas por Maomé, com exceção da Campanha de Tabuque. Na Batalha de Uude distinguiu-se pela bravura, recebendo dezessete ferimentos. Durante o combate, Maomé utilizou a armadura de Cabe, enquanto este vestiu a de Maomé. Após espalhar-se o boato de que Maomé havia sido morto, Cabe foi o primeiro a reconhecê-lo ainda vivo e anunciou a notícia aos muçulmanos, sendo imediatamente advertido por Maomé para que se mantivesse em silêncio, evitando chamar a atenção dos inimigos. Algumas tradições acrescentam que também foi encarregado da arrecadação da zacate entre as tribos dos aslamitas e guifaritas. O episódio mais célebre de sua vida ocorreu em 630, quando permaneceu em Medina durante a Campanha de Tabuque. Segundo o próprio relato, preservado nas principais coleções de hádices, adquiriu uma montaria para participar da expedição, mas sucessivos adiamentos, motivados por seu apego ao conforto proporcionado pelos pomares e locais sombreados da cidade, fizeram com que perdesse a partida do exército. Ao perceber que apenas os hipócritas conhecidos e aqueles impossibilitados por extrema pobreza haviam permanecido em Medina, arrependeu-se profundamente. Quando Maomé chegou a Tabuque perguntou por Cabe. Diante da sugestão de que sua ausência decorrera de orgulho, Muade ibne Jabal tomou sua defesa.

Cabe apresentou-se a Maomé após o retorno da expedição e, diferentemente de muitos dos que haviam permanecido em Medina, recusou-se a apresentar uma justificativa falsa para sua ausência. Maomé determinou então que ele, e aguardassem o julgamento divino sobre sua conduta. Os três passaram a sofrer um amplo boicote social: os companheiros deixaram de lhes dirigir a palavra e, posteriormente, Maomé ordenou também que se afastassem de suas esposas. Durante esse período, o rei dos gassânidas, tomando conhecimento de sua situação, enviou-lhe uma carta convidando-o a abandonar Medina e colocar-se sob sua proteção. Cabe, contudo, recusou a proposta por considerá-la mais uma provação, destruindo a mensagem sem lhe dar seguimento. Segundo a tradição islâmica, após cinquenta dias de isolamento foram revelados os versículos 117 e 118 da at-Tawba, anunciando que Deus aceitara o arrependimento de Cabe e de seus dois companheiros. Cabe dirigiu-se imediatamente à Mesquita do Profeta, onde foi recebido por Maomé e pelos demais companheiros com manifestações de congratulação. Em agradecimento pela aceitação de seu arrependimento, ofereceu-se para distribuir todos os seus bens entre os pobres. Maomé, porém, aconselhou-o a conservar parte de seu patrimônio. Cabe seguiu essa orientação, mantendo apenas suas terras em Caibar e distribuindo o restante de seus bens. Outro episódio preservado pelas fontes relata que, certa vez, ao cobrar publicamente uma dívida de Abedalá ibne Abi Hadrade na Mesquita do Profeta, Maomé interveio da janela de seus aposentos e, por meio de um gesto, sugeriu que perdoasse metade da quantia devida. Cabe aceitou prontamente a recomendação.

Durante a crise que precedeu o assassinato do califa Otomão ibne Afane , Cabe posicionou-se firmemente em sua defesa. Após a morte de Otomão, participou de seu sepultamento e compôs três longas elegias em sua homenagem. A Encyclopaedia of Islam observa que ele permaneceu conhecido como partidário de Otomão e, coerentemente com essa posição, recusou-se a prestar juramento de fidelidade a Ali ibne Abi Talibe. Uma tradição considerada fraca afirma que Cabe, Haçane ibne Tábite e Anumane ibne Baxir chegaram a discutir com Ali sobre a morte de Otomão e, posteriormente, dirigiram-se ao encontro de . Nos últimos anos de vida perdeu completamente a visão, sendo conduzido por seu filho Abederramão. A maioria dos historiadores situa sua morte em Medina no ano 50 A.H. (670), embora algumas fontes proponham datas entre 660 e 674 ou mesmo afirmem que teria falecido em Damasco. Casou-se com Ume Mabede Umaira binte Jubair Açalami, transmissora de hádices, bem como com Caíra e Safia, originária do Iêmen, tendo filhos de cada uma dessas uniões.

Poesia

Cabe ibne Maleque já desfrutava de reputação como poeta antes de converter-se ao islã, tendo adquirido notoriedade entre os habitantes de Iatrebe pelos versos que compôs durante os conflitos entre aucitas e cazerajitas. Após sua conversão, passou a figurar, ao lado de Ibne Tábite e Abedalá ibne Rauá, entre os principais poetas de Maomé. Segundo a tradição literária árabe, era considerado um dos cinco grandes poetas de Medina e ocupava posição imediatamente inferior à de Ibne Tábite. A Encyclopaedia of Islam observa que Maomé reconhecia a importância dos poetas na formação da opinião pública e, apoiando-se na interpretação do versículo 227 da ash-Shu'ara, considerava Cabe um de seus poetas oficiais, ao lado de Ibne Tábite e Abedalá ibne Rauá. Grande parte de sua produção foi preservada na Sira de Ibne Hixame, embora a autenticidade de alguns poemas tenha sido discutida pelos estudiosos modernos. Ainda assim, William Montgomery Watt considera que a maior parte deles provavelmente é genuína. Suas composições celebravam sobretudo as campanhas militares do islã, exaltando a coragem dos muçulmanos e procurando enfraquecer o moral de seus adversários. Entre os acontecimentos tratados em seus poemas figuram as batalhas de Badre, Uude, Bir Mauna, a expulsão dos nadiritas, a Trincheira, Caibar, Muta e outras expedições conduzidas por Maomé. Segundo M. Yaşar Kandemir, seus versos também procuravam convencer os adversários de que os muçulmanos continuariam demonstrando bravura nas campanhas futuras, sendo tradicionalmente afirmado que alguns membros da tribo dos daucitas abraçaram o islã influenciados por sua poesia.

Quando foi revelado o versículo que censurava os poetas, Cabe perguntou a Maomé se essa reprovação também o alcançava. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, Maomé respondeu que a luta pela causa de Deus podia ser travada tanto pela espada quanto pela palavra e que os poetas muçulmanos atingiam seus inimigos com a língua da mesma forma que os combatentes o faziam com as armas. Em resposta às sátiras compostas por poetas como , Anre ibne Alás, e , Cabe escreveu numerosas naqāʾiḍ (poemas de réplica satírica), algumas das quais alcançavam cerca de quarenta versos. Sua produção poética também constitui importante fonte para a história do início do islã, pois aborda diversos acontecimentos desde o Segundo Pacto de Ácaba. As tradições bibliográficas mencionam a existência de um divã com suas composições. No , Sami Makki al-Ani reuniu 584 versos atribuídos a Cabe ibne Maleque, dispersos em diferentes fontes, publicando-os sob o título Dīwān Kaʿb b. Mālik al-Anṣārī. Watt considera que, embora menos brilhante tecnicamente que Ibne Tábite, sua poesia se distingue pela nobreza dos sentimentos e pelo entusiasmo genuíno em relação ao islã.

Hádices

Cabe ibne Maleque figura entre os companheiros que transmitiram tradições diretamente de Maomé. Além de Maomé, também narrou hádices de Uçaíde ibne Hudair. Cerca de oitenta hádices são atribuídos à sua transmissão, preservados nas principais coleções da literatura islâmica, incluindo na Kutub al-Sittah e no Musnade de Amade ibne Hambal. Três dessas tradições foram simultaneamente incluídas no Sahih de Albucari e no Sahih de Muslim ibne Alhajaje, circunstância que lhes conferiu posição de destaque entre os hádices considerados mais autênticos. Suas tradições foram transmitidas por diversos membros de sua família, entre eles seus filhos Abedalá, Ubaide Alá, Abederramão, Maomé e Mabede, bem como por sua filha Ume Abedalá e por seu neto Abederramão ibne Abedalá. Também figuram entre seus discípulos companheiros de destaque como Jabir ibne Abedalá, Abedalá ibne Abás e . A Encyclopaedia of Islam observa ainda que muitas informações sobre sua vida e sua poesia foram preservadas no âmbito de sua própria família, sendo seus filhos Abedalá e Abederramão, bem como outros descendentes, citados por autores como Ibne Hixame e Aluaquidi entre as principais autoridades para a transmissão dessas tradições.

Bibliografia

Categoria:Naturais de Medina Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Poetas árabes Categoria:Ançares Categoria:Cazerajitas