A teoria sobre o efeito da legalização do aborto na criminalidade (frequentemente chamada de hipótese Donohue–Levitt) é uma hipótese controversa sobre a redução da criminalidade nas décadas seguintes à legalização do aborto. Seus defensores argumentam que a disponibilidade do aborto resultou em menos nascimentos de crianças com maior risco de cometer crimes. As primeiras pesquisas a sugerir tal efeito foram um estudo de 1966 realizado na Suécia. Em 2001, Steven Levitt, da Universidade de Chicago, e , da Universidade Yale, citando suas próprias pesquisas e estudos anteriores, argumentaram que crianças indesejadas ou cujos pais não têm condições de sustentá-las têm maior probabilidade de se tornarem criminosas. Essa ideia foi posteriormente popularizada por sua inclusão no livro Freakonomics, coescrito por Levitt.

Críticos argumentam que as metodologias de Donohue e Levitt são falhas e que não é possível comprovar uma relação estatisticamente significativa entre o aborto e as taxas de criminalidade posteriores. As críticas incluem a suposição, presente no estudo de Donohue-Levitt, de que as taxas de aborto aumentaram substancialmente após a decisão de 1973 da Suprema Corte no caso Roe v. Wade; críticos utilizam dados censitários para demonstrar que as mudanças na taxa geral de aborto não seriam suficientes para explicar a queda na criminalidade sugerida pela metodologia do estudo (o aborto legal já era permitido sob circunstâncias limitadas em muitos estados antes dessa decisão). Outros críticos afirmam que as correlações entre nascimentos e criminalidade encontradas por Donohue–Levitt não levam em conta de forma adequada fatores de confusão, como a redução no uso de drogas, mudanças demográficas e na densidade populacional, ou outras transformações culturais contemporâneas.

Parte do problema está no longo e incerto intervalo de tempo entre causa e efeito. Se o aumento das taxas de aborto reduz a criminalidade na coorte de crianças nascidas em determinado ano, o efeito só se tornaria perceptível dez a vinte anos depois. Para isolar o efeito do aborto sobre a criminalidade, é necessário controlar outros fatores que afetam as coortes de nascimento (por exemplo, o tamanho relativo da coorte ou a prevalência de criminalidade durante a infância) e aqueles que têm efeitos imediatos em anos posteriores (por exemplo, taxas de salário ou de encarceramento).

Comissão Rockefeller de 1972 12.16 A Comissão Rockefeller de 1972 sobre "Population and the American Future" (População e o Futuro Americano) cita um estudo de 1966 que constatou que crianças nascidas de mulheres às quais havia sido negado o aborto apresentavam, de acordo com o estudo, maior incidência de acompanhamento psiquiátrico, comportamento antissocial e criminoso, além de maior dependência de assistência pública. Em particular, o estudo analisou os filhos de 188 mulheres que tiveram o aborto negado entre 1939 e 1941 no hospital de Gotemburgo, na Suécia. Essas crianças indesejadas foram comparadas a outro grupo, a criança seguinte nascida no mesmo hospital após cada uma das crianças indesejadas. As crianças indesejadas tinham maior probabilidade de crescer em condições adversas, como pais divorciados ou criação em lares adotivos, e maior probabilidade de se tornarem delinquentes e se envolverem em criminalidade.

Estudo de Donohue e Levitt de 2001 Steven Levitt, da Universidade de Chicago, e , da Universidade Yale, retomaram a discussão sobre essa afirmação com seu artigo de 2001, "The Impact of Legalized Abortion on Crime" (O Impacto da Legalização do Aborto sobre a Criminalidade). Donohue e Levitt destacam o fato de que homens entre 18 e 24 anos são os mais propensos a cometer crimes. Os dados indicam que a criminalidade nos Estados Unidos começou a declinar em 1992. Donohue e Levitt sugerem que a ausência de crianças indesejadas, após a legalização em 1973, levou a uma redução da criminalidade 18 anos depois, com início em 1992 e queda acentuada em 1995. Esses seriam os anos de pico de propensão à criminalidade das crianças que não chegaram a nascer.

Segundo Donohue e Levitt, os estados que já haviam legalizado o aborto antes da decisão Roe v. Wade (Alasca, Califórnia, Havaí, Nova Iorque, Óregon e Washington) também apresentaram reduções mais precoces na criminalidade. Além disso, estados com taxas de aborto mais altas registraram uma redução maior na criminalidade, quando corrigido para fatores como renda média. Por fim, estudos realizados no Canadá e na Austrália afirmam ter estabelecido uma correlação entre a legalização do aborto e a redução geral da criminalidade.

Criticismo inicial O estudo foi criticado por diversos autores, incluindo e John Whitley, que argumentaram que Donohue e Levitt partem do pressuposto de que estados que legalizaram totalmente o aborto tinham taxas de aborto mais altas do que estados onde o aborto só era legal sob certas condições (muitos estados permitiam o aborto apenas em circunstâncias específicas antes da decisão Roe), mas que as estatísticas dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) não sustentam essa afirmação. Além disso, se as taxas de aborto realmente causassem a queda da criminalidade, as taxas de criminalidade deveriam começar a cair primeiro entre os mais jovens e, gradualmente, essa queda seria observada em faixas etárias cada vez mais avançadas. Na realidade, argumentam eles, as taxas de homicídio começam a cair primeiro entre os criminosos mais velhos, depois entre a faixa etária seguinte, e assim por diante, até que a queda seja observada por último entre os indivíduos mais jovens. Lott e Whitley argumentam que, se Donohue e Levitt estivessem certos ao afirmar que 80% da queda nas taxas de homicídio durante a década de 1990 se deve exclusivamente à legalização do aborto, esse padrão deveria aparecer em gráficos sem qualquer controle de variáveis, mas o que se observa é justamente o oposto. Além disso, Lott e Whitley apontaram que usar dados de taxas de prisão como proxy das taxas de criminalidade é uma abordagem falha, já que a prisão por homicídio pode ocorrer muitos meses ou até anos após o crime ter sido cometido. Lott e Whitley afirmam que, ao utilizar o Supplemental Homicide Report (Relatório Suplementar de Homicídios), que associa os dados de homicídio ao momento em que o crime ocorreu com dados posteriores de taxas de prisão, os resultados da regressão de Donohue e Levitt se invertem. Um estudo de 2004 conduzido por concluiu que a associação negativa entre a legalização do aborto e as taxas de criminalidade relatada no estudo de Donohue e Levitt era, na verdade, resultado de efeitos de período não mensurados, decorrentes, entre outros fatores, de mudanças no uso de crack. Em 2009, Joyce relatou resultados semelhantes, também negativos, após analisar taxas de homicídio e de prisão por homicídio específicas por faixa etária, em relação à legalização do aborto em diferentes estados e coortes nos Estados Unidos.

Em 2005, Levitt publicou uma réplica a essas críticas no blog Freakonomics, na qual refez seus cálculos para lidar com as deficiências e variáveis ausentes no estudo original. Os novos resultados são quase idênticos aos do estudo original. Levitt sustenta que qualquer uso razoável dos dados disponíveis reforça os resultados do artigo original de 2001. Um estudo de 2004 de Donohue e Levitt respondeu às críticas de Joyce, mostrando que a correlação negativa ainda se mantém quando o período analisado é estendido além dos anos examinados por Joyce, e quando os efeitos da epidemia de crack são devidamente controlados.

Crítica de Foote e Goetz em 2005 Mais tarde, em 2005, Christopher Foote e Christopher Goetz alegaram que um erro computacional na análise estatística de Levitt e Donohue havia gerado uma relação artificialmente inflada entre a legalização do aborto e a redução da criminalidade. Segundo eles, uma vez que outros fatores associados à criminalidade eram devidamente controlados, o efeito do aborto sobre as prisões era reduzido em cerca de metade. Foote e Goetz também criticaram o uso, por Levitt e Donohue, dos totais absolutos de prisões, em vez de taxas de prisão per capita, que levam em conta o tamanho da população. Utilizando estimativas populacionais do Census Bureau (órgão censitário dos EUA), Foote e Goetz repetiram a análise usando taxas de prisão no lugar dos totais simples, e constataram que o efeito do aborto desaparecia por completo.

Donohue e Levitt publicaram, posteriormente, uma resposta ao artigo de Foote e Goetz. Eles reconheceram o erro, mas demonstraram que, com uma metodologia diferente, o efeito da legalização do aborto sobre as taxas de criminalidade ainda se mantinha. Foote e Goetz, porém, logo apresentaram uma réplica mostrando que, mesmo analisando os dados com os métodos recomendados por Levitt e Donohue, os dados não indicavam uma correlação positiva entre as taxas de aborto e as taxas de criminalidade. Eles reconheceram, contudo, que isso não refutava necessariamente a tese de Levitt, e ressaltaram que, diante de dados tão confusos e incompletos, talvez nem seja possível provar ou refutar de forma definitiva a conclusão de Donohue e Levitt.

Hipótese da gasolina com chumbo de Reyes de 2007 Um estudo de 2007 realizado por Jessica Reyes no Amherst College afirmou:Isso implica que, entre 1992 e 2002, a retirada gradual do chumbo da gasolina foi responsável por um declínio de aproximadamente 56% na criminalidade violenta. Testes de sensibilidade confirmam a robustez desses resultados. Os resultados para homicídio não se mostram robustos quando Nova York e o Distrito de Columbia são incluídos, mas ainda assim sugerem uma elasticidade substancial. Não são encontrados efeitos significativos para crimes contra o patrimônio. O efeito da legalização do aborto relatado por Donohue e Levitt (2001) permanece amplamente inalterado, de modo que o aborto explica um declínio de 29% na criminalidade violenta (elasticidade de 0,23), com quedas semelhantes em homicídio e crimes contra o patrimônio. No geral, a retirada gradual do chumbo e a legalização do aborto parecem ter sido responsáveis por reduções significativas nas taxas de criminalidade violenta.

Estudos posteriores Um estudo de 2007 conduzido por Leo H. Kahane, David Paton e Rob Simmons não encontrou uma relação clara e consistente entre aborto e criminalidade na Inglaterra e no País de Gales.

Um estudo de 2014 conduzido por Paolo Buonanno, Francesco Drago, Roberto Galbiati e Giulio Zanella analisou sete países europeus e não encontrou evidências que sustentassem a hipótese Donohue-Levitt. No entanto, um estudo de 2014 conduzido por Abel Francois analisou dados de 16 países da Europa Ocidental referentes ao período de 1990 a 2007, constatando que o aborto causou uma redução significativa nas taxas de criminalidade.

Um estudo de 2017 conduzido por Gary L. Shoesmith concluiu que, "se existe uma ligação significativa entre crime e aborto, isso se deve às diferentes concentrações de abortos entre adolescentes nos diversos estados, e não ao fato de serem indesejados." Em outras palavras, a legalização do aborto reduziu a criminalidade na década de 1990, como indicava a hipótese Donohue-Levitt, mas isso ocorreu puramente por ter reduzido o número de mães adolescentes, e não por algum efeito mais amplo de redução de todas as gestações indesejadas.