A fonética é o ramo da Linguística que estuda os sons produzidos pela fala humana. Essa área procura estudar todos os sons que os seres humanos são capazes de produzir durante a fala, de fácil maneira que todo som produzido durante a fala é importante para a fonética.

Estudos fonéticos

Perspectivas dos estudos fonéticos A fonética estuda os sons produzidos na fala, mas o modo como se estuda esse som pode ser diferente.

Fonética articulatória: Fonética Articulatória se serve de instrumentos que permitem a observação de aspectos diferenciados da dinâmica dos articuladores da fala. As técnicas mais comuns são: (1) a eletropalatografia, que permite saber os pontos de contato da língua com o palato duro e assim lançar luzes sobre os pontos de articulação dos sons; (2) a eletromiografia, que permite conhecer a atividade mioelétrica especialmente dos músculos da língua e descobrir seu posicionamento ao longo do tempo; (3) a eletroglotografia, que traça indiretamente a atividade vibratória das pregas vocais; (4) a ultrassonografia, que permite a observação 2D da superfície da língua de modo mais direto do que na eletromiografia; (5) a articulografia eletromagnética, que permite observar em 3D, via eletrodos em posições previamente definidas do trato e da cabeça, o movimento de articuladores como língua e lábios; (6) a ressonância magnética, que permite a observação de todos os articuladores da fala num plano definido, frequentemente o sagital, na ressonância bidimensional, embora tenha restrições para movimentos muito rápidos, por conta da taxa de imagens por segundo que é capaz de produzir e (7) a pletismografia respiratória de indutância, que serve para o estudo da coordenação entre a fala e a respiração durante a fala a partir da medida na área da seção transversal tanto da caixa torácica quanto do abdômen por meio de duas cintas, uma na altura das axilas e outra na altura do umbigo. Essa panóplia de instrumentos permite o avanço do conhecimento de como são feitos determinados sons. Por exemplo, permite saber que um "'"' caipira pode ser feito com a retroflexão da lâmina da língua ou pelo recuo de seu corpo; que a posição da língua já na altura do "p" de"prata" vs. "preta" é aquela da vogal tônica. Esse conhecimento pode auxiliar, por exemplo, no ensino de pronúncia em língua estrangeira, orientando como os sons são feitos, o que acaba contribuindo também para a percepção desses sons. Se não se dispõe de instrumentos como esses, que normalmente são caros ou podem ser de difícil acesso para o leigo, a observação das características acústicas dos sons pode ser feita dispondo de uma simples gravação.[.]

Fonética acústica: A Fonética Acústica investiga as características materiais do próprio som. Um dos primeiros instrumentos para se examinar a composição sonora foi o espectrógrafo, construído durante a Segunda Grande Guerra. De lá para cá, de analógico passou a ser um simples algoritmo de um programa de software. Grandes avanços foram conseguidos com esse instrumento nas décadas e 1940 a 1960, com os primeiros experimentos de percepção usando fala sintética. Permite conhecer detalhes da produção sonora sem a necessidade de registro direto da articulação, reservando à Fonética Articulatória a tarefa de dirimir alguma dúvida sobre a torma como os articuladores se coordenam para a realização de um som. Ao espectrograma se somam outras técnicas, como o espectro de Fourier, os algoritmos que calculam as frequências dos formantes e descrevem aspectos da atividade laríngea, incluindo o algoritmo que extrai a taxa de vibração das pregas vocais a cada ciclo. No entanto, mesmo com todas essas técnicas não é possível avaliar a forma como percebemos esses sons, que cabe à Fonética Auditiva.[.]

Fonética auditiva: A Fonética Auditiva se serve do conhecimento de como identificamos e diferenciamos os sons entre si, através do estudo do processamento do som pelo sentido da audição, para apontar o conjunto de sons passíveis de serem usados na nossa comunicação. Por exemplo, se sabe que não é qualquer diferença em taxa de vibração das pregas vocais que percebemos como distintas. Na década de 1980, t'Hart (1981) faz experimentos que indicam que, na fala, é preciso uma diferença de cerca de 2 a 4 semitons, unidade musical, para percebermos que dois tons que usamos para dar ênfase em dois momentos são de fato diferentes, sendo que um é mais agudo do que o outro. Por conta do funcionamento de nossa audição, as frequências das ressonâncias já mencionadas são melhor discriminadas quando menores do que3000 Hz do que acima desse valor. O que se passa em nosso sistema auditivo é um reflexo de como funciona nosso cérebro durante a percepção dos sons, do ritmo e da entoação da fala.[.]

A produção dos sons da fala Para a produção dos sons da fala utiliza-se a parte do corpo humano chamada de aparelho fonador, que é composto pelo: sistema articulatório (faringe, língua, nariz, palato, dentes, lábios); o sistema fonatório (laringe), e; o sistema respiratório (pulmões, músculos pulmonares, brônquios, traqueia), onde em conjunto esses aparelhos trabalham para que os sons da fala sejam produzidos.

Algo bastante interessante é que nenhum desses órgãos que compreendem o aparelho fonador tem como função primária a produção dos sons, mas fisiologicamente falando são eles, em conjunto, responsáveis pela realização dos sons da fala humana. Um exemplo disso é que o sistema respiratório tem como função primária a respiração. O sistema fonatório, que é onde a laringe fica, tem como função primária evitar que alimentos entrem para os pulmões. E o sistema articulatório está ligado a questões como morder, mastigar, engolir, cheirar e etc.

Na pesquisa de Blasi et al (2016), a fonte de voz caracteriza todos os sons ressoantes (laterais, vibrantes, tepes, nasais, aproximantes e vogais) e os sons obstruintes vozeados, que englobam os oclusivos, fricativos e africados vozeados.[.]

Os ruídos transientes, de curta duração, estão presentes nas consonantais oclusivos, os contínuos nos fricativos e ambos nos africados. Do ponto vista expressivo, estabelece-se, dessa maneira, a expressividade sonora, o confronto entre sonoridades melodiosas e ruidosas e entre ruídos explosivos e contínuos, que vão ser explorados na prosa, na poesia e no discurso oral para a criação de efeitos de sentido. Um exemplo disso é abordado no Caderno de Linguística. [.]

Ressalta-se que cada segmento fônico ao ser comparado com outro pode ter algumas propriedades compartilhadas e outras não.Se compararmos, por exemplo, as ressoantes nasais e laterais com as obstruintes fricativas e as oclusivas, verificamos que continuidade é compartilhada entre as fricativas, as laterais e as nasais, mas não a propriedade do ruído, que é compartilhada entre fricativas e oclusivas. A observação sobre a combinatória de características fonéticas é referida por Tsur e Gafni (2019) como double-edged pelo fato de que os sons da fala têm múltiplas características, cada uma exibindo um potencial expressivo, isto é, expressão múltiplos polos do sentido.[.]

Os sons da fala A unidade básica de estudo para a Fonética é o fone, ou seja, os sons vocálicos e consonantais encontrados na fala. A fala humana é capaz de produzir inúmeros fones. A forma mais comum de representar os fones pelos linguistas é através do Alfabeto Fonético Internacional (AFI), desenhado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.). Considerando todas as línguas naturais, Silva (2015) aponta que esses fones são classificados como consoantes e vogais e em todas as línguas podemos encontrar esses dois tipos de sons.No I.P.A podemos encontrar todos os sons que já foram encontrados nas línguas estudadas até agora. Há uma separação entre a tabela dos sons consonantais e também dos sons vocálicos.

O foco da análise da expressividade da fala recai sobre o detalhe fonético e sua valoração sonora simbólica, indexical ou sinestésica. Consideramos aqui o simbólico para se referir às associações motivadas de natureza icônica ou imitativa, por exemplo, na atribuição do sentido de vastidão a uma emissão de som longa; o indexical para se referir às associações entre as características sonoras e pessoais, sejam elas de natureza psicológica, social, orgânica ou estilística, por exemplo, os julgamentos de tipo de personalidade, nível social, condições de saúde, ou característica de estilo de fala; e as sinestésicas que remetem a associações multimodais e multisensoriais, visto que abrangem as variadas linguagens de expressão e os cinco órgãos dos sentidos humanos, como quando associamos na poesia o som do [u] a algo lúgubre ou à cor azul ou o som do [i] a objetos pontudos.[.] Transcrição fonética miniaturadaimagem|469x469px|O alfabeto internacional de fonética - tabela fonética consonantal. Silva (2015) também aponta que para a transcrição dos sons da fala colocamos o símbolo que representa os sons entre [ ], como por exemplo [p], que encontramos ortograficamente representado pelo grafema P. Um exemplo de uma transcrição fonética, em português, utilizando o [p] é em [‘pata] - pata quando representado ortograficamente. Um outro exemplo é em [‘kapa], que ortograficamente é capa. Desse modo, esses símbolos entre colchetes são as representações dos sons da fala, interesse de estudo da fonética.

Os sons da fala, além de serem classificados como consoantes e vogais possuem também outras classificações. No caso das consoantes, por exemplo, procura-se saber se o modo de articulação (o modo como o ar foi obstruído no trato vocal durante a produção do som), o lugar de articulação (onde se olha para os articuladores envolvidos para saber onde o som foi produzido no trato vocal) e o grau de vozeamento (para saber se o som é vozeado ou desvozeado, ou seja, se houve vibração ou não das pregas vocais na produção do som).

Assim, quando se classifica um som consonantal deve-se mencionar o modo de articulação, o lugar de articulação e o grau de vozeamento, por essa ordem. Por exemplo:

[p] - Oclusiva bilabial desvozeada; [k] - Oclusiva velar desvozeada; [h] - Fricativa glotal desvozeada; [z] - Fricativa alveolar vozeada; [v] - Fricativa labiodental vozeada; [d] - Oclusiva alveolar vozeada.

Alguns fones são auditivamente próximos entre si a ponto de se tornarem indistinguíveis. Por exemplo, o som de "rr" em alguns dialectos do português do Brasil é realizado foneticamente pela consoante fricativa velar surda (x no AFI). Entretanto, essa pode ser substituída pela consoante fricativa glotal surda (h no AFI) que a palavra que nela estiver continuará a ser reconhecida. A esse fenômeno, dá-se em fonologia o nome de alofonia. Assim, [x] e [h] são alofones do "erre" forte no português do Brasil, ou seja, são realizações diferentes do mesmo fonema.

Um grupo composto de um fone e dos seus alofones para os falantes de um idioma é denominado fonema. Deve-se ressaltar que a alofonia entre dois fones é relativa. Por exemplo, no alemão compõem fonemas separados.

O estudo dos fonemas é desenvolvido pela Fonologia. A fonologia e a fonética são frequentemente confundidas porque os conceitos de fone e fonema também geram confusão, porém elas se distinguem porque ambas olham de maneira diferente para os sons da fala.