A conquista de Ceuta, cidade islâmica tomada pelos árabes aos Visigodos em 709 no Norte de África, retomada por tropas portuguesas sob o comando do rei D. João I, deu-se a 21 de agosto de 1415 e encerrou-se em 22 de agosto de 1415.
O contexto Ceuta é uma cidade costeira do norte de África localizada estrategicamente no estreito de Gibraltar. Em 711, logo após a conquista árabe do Norte da África, a cidade foi usada como ponto de partida para a Invasão muçulmana da Península Ibérica. Porém, a cidade foi destruída em 740 e só reconstruída no , passando para o Califado de Córdova no . Nos séculos seguintes, foi governado pelos Almorávidas. Ceuta viveu então um período de instabilidade política, sob interesses concorrentes do Império Merínida e do Reino de Granada. Uma frota nacérida enviada por Abuçaíde Faraje, governador de Málaga, conquistou Ceuta aos Azáfidas, que a governavam, em Maio de 1306. Mais tarde, em 1309, a cidade foi tomada pelos merínidas com o apoio de uma frota aragonesa.
A cidade mantinha um rico comércio com o Levante, Egito, Líbia, abundante pesca de atum e também apanha de coral, que constituía a sua principal indústria de exportação, além de ser também um conhecido valhacouto de piratas berberes, onde estes vendiam as suas presas capturadas nas costas ibéricas.<ref name="Joaquim Pedro Oliveira Martins 1891, p.28">Joaquim Pedro Oliveira Martins: ' 'Os Filhos de D. João I, Imprensa Nacional, 1891, p. 28</ref> A posição de Ceuta em frente ao estreito de Gibraltar conferia-lhe o controlo de um dos principais mercados do comércio transafricano de ouro sudanês. A sua posse poderia eventualmente permitir a Portugal flanquear o seu rival mais perigoso, Castela.<ref name=Payne>Payne, Stanley G., A History of Spain and Portugal, Vol. 1, Chap. 10 "The Expansion"]</ref> Defendia a cidade um sistema de muralhas construídas por várias dinastias marroquinas ao longo dos séculos, mais recentemente os Merínidas, com um elevado número de portas que podiam revelar-se difíceis de defender.Luís Miguel Duarte: Ceuta: Tudo Aquilo Que Sempre Quisemos Saber e Nunca Ousámos Perguntar in XVII Jornadas de Historia de Ceuta: Portugal Y El Norte de Africa, Historias D'Aquem E D'Além-Mar, Instituto de Estudius Ceutíes, Ceuta, 2016, pp. 75–88. Incluíam as defesas da cidade uma forte cidadela construída pelos Merínidas.
A situação política do Magrebe desordenara-se pouco antes da conquista portuguesa.Livermore, H. V. “On the Conquest of Ceuta.” Luso-Brazilian Review 2, no. 1 (1965): 3–13. http://www.jstor.org/stable/3512869, p. 5. As relações entre os Merínidas de Marrocos e os Nacéridas de Granada encontravam-se tensas desde que o sultão Abuçaíde Otomão III de Marrocos tentara capturar Gibraltar em 1411, pelo que, ainda naquele ano, o emir Yusuf III de Granada instigou uma revolta em Marrocos.Hills, George (1974). Rock of Contention: A History of Gibraltar. Londres: Robert Hale & Company, p. 89. O emir apoiou um pretendente rival ao trono de Marrocos e deflagrou uma violenta guerra-civil; dez cidades ficaram destruídas e Fez perdeu o controlo do norte de Marrocos, que sucumbiu à anarquia.Livermore, H. V. “On the Conquest of Ceuta.” Luso-Brazilian Review 2, no. 1 (1965): 3–13. http://www.jstor.org/stable/3512869, p. 9. Só em fins de 1412 é que os combates cessaram. Uma nova crise sucedeu-se ainda em 1414 pois neste ano o reino de Tremecém logrou instalar em Ceuta Ahmad Ibn Abi Salim como governador, porém este foi rapidamente expulso por Salah ben Salah.Livermore, H. V. “On the Conquest of Ceuta.” Luso-Brazilian Review 2, no. 1 (1965): 3–13. http://www.jstor.org/stable/3512869, pp. 11-12. No entanto, Ibn Abi Salim ainda levou consigo as forças navais da cidade, assim enfraquecendo as suas defesas. Um surto de peste também dizimou a população de Marrocos por esta altura.Duarte, Luís Miguel: "1415 - New Horizons: The Conquest of Ceuta and the Sea" in Fiolhais, Carlos; Franco, José Eduardo; Paiva, José Pedro: The Global History of Portugal: From Prehistory to the Modern World, Sussex Academic Press, 2022, p. 160.
Após ter derrotado um exército Castelhano que invadiu Portugal em 1385 na Batalha de Aljubarrota, o rei D. João I assinou um tratado de paz com Castela, em 1411.Ignacio da Costa Quintella: Annaes da Marinha Portugueza, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1839, pp. 57–70. Ainda antes de assinar a paz com este seu único vizinho, D. João I já tinha lançado olhos a Ceuta e iniciou os preparativos ainda em 1409. O principal promotor da expedição de Ceuta foi o vedor da fazenda João Afonso, equivalente a ministro das finanças. O príncipe-herdeiro D. Duarte, o infante D. Pedro e infante D. Henrique apoiaram com entusiasmo o projecto, pois a perspectiva de tomar Ceuta oferecia-lhes a oportunidade de ganhar riqueza, fama e glória.Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, ed. de Reis Brasil, Mem Martins, Europa-América, 1992, pp. 28-35.
Preparativos Os preparativos para a conquista de Ceuta, como a recolha de materiais e dinheiro, iniciaram-se com anos de antecedência e progrediram lentamente, embora o objectivo tenha sido sempre mantido em segredo. Não foram aumentados os impostos pois isto exigia uma reunião de Cortes e acarretava o risco de vazar o objectivo da expedição projectada. Tampouco se desvalorizou a moeda.Oliveira Martins, 1891, p. 35 Foram contraídos empréstimos, fretados navios estrangeiros, reparadas ou construídas até 30 galés pelo almirante de Portugal Carlos Pessanha, sendo todas as despesas vigiadas de perto.
O Infante D. Henrique, mais tarde apelidado de 'Infante Navegador', foi encarregue de organizar o recrutamento de tropas nas províncias da Beira e Trás-os-Montes e reuni-las na cidade do Porto.Oliveira Martins, 1891, p. 37. O irmão do Infante D. Henrique, Infante D. Pedro foi encarregado de alistar homens no sul, nas províncias da Extremadura, Alentejo e Algarve, com ponto de encontro em Lisboa. Ao príncipe-herdeiro Duarte coube a papelada e e assuntos judiciais, tendo cumprido as suas funções com afinco ao ponto de cair em depressão.
Falsa embaixada à Sicília A fim de explorar previamente as defesas de Ceuta, o rei enviou o Prior do Crato Álvaro Gonçalves Camelo como embaixador ao Reino da Sicília, para propor oficialmente Branca I de Navarra, herdeira daquele trono e regente, o seu casamento com o Infante D. Pedro. Levou consigo duas galés, comandadas pelo capitão-mor-do-mar Afonso Furtado de Mendoça e parou propositadamente em Ceuta para comprar mantimentos. Ali ficaram durante quatro dias, medindo a profundidade do porto. Tendo chegado à Sicília e recebido da parte de Branca uma resposta negativa, tal como o rei antecipara, regressaram a Portugal, parando novamente em Ceuta pelo caminho.
Ao regressarem a Portugal, dirigiram-se ao Palácio de Sintra e, ali, Álvaro desenhou ao rei e aos infantes, em privado, um mapa de Ceuta e da geografia envolvente com areia e fio.
Divulgação do plano ao conselho real Só depois de estar na posse destas informações precisas relativas a Ceuta é que o rei revelou à rainha D. Filipa as suas intenções de conquistar Ceuta. Mais tarde, por ocasião de uma caçada em Montemor-o-Novo, o rei divulgou então o projecto ao Condestável de Portugal, o célebre general Nuno Álvares Pereira, que o aprovou com entusiasmo.
Por fim, o rei divulgou o projecto aos mais altos membros da sua Corte, em Torres Novas, para onde convocou a rainha, os príncipes, o Condestável Nuno Álvares Pereira, o chanceler-real João das Regras, o arcebispo de Braga Lourenço, grão-mestre da Ordem de Cristo Lopo Dias de Sousa, o grão-mestre da Ordem de Santiago Fernando Afonso de Albuquerque, o grão-mestre da Ordem de Avis Fernão Rodrigues de Sequeira, o prior dos Hospitalários Álvaro Gonçalves Camelo, o Marechal de Portugal Gonçalo Vasques Coutinho, o Martim Afonso de Mello, e o alferes real João Gomes da Silva.Oliveira Martins, 1891, pág. 34 Por ordem do rei, o Condestável expressou primeiro o seu voto, que foi a favor da expedição, pelo que, depois, o conselho votou por unanimidade também a favor.
Falsa embaixada à Holanda thumb|O rei João I
O segredo que envolvia os visíveis preparativos da expedição fez com que surgissem entre a sociedade portuguesa numerosas teorias quanto ao seu objectivo. Alguns especulavam que o rei pretendia levar a cabo uma cruzada ao Levante, outros, que pretendia conquistar o Reino da Sicília, outros ainda especulavam (correctamente) que se destinava a Ceuta.Oliveira Martins, 1891, p. 40 Por então, já se haviam espalhado notícias e rumores entre muitos reinos vizinhos e pelos seus governantes relativamente aos preparativos em Portugal para um ataque a um alvo secreto. Os residentes de Ibiza e da Sicília preparam-se para resistir a um possível ataque português, no qual incorreram em despesas consideráveis.Monumenta Henricina Volume I, 1960, pp. 124-126. Alguns franceses escreveram ao rei Fernando I de Aragão expressando as suas suspeitas de que os portugueses se preparavam para participar na Guerra dos Cem Anos ao lado dos ingleses, em França.Monumenta Henricina Volume I, 1960, pp. 126–127.
O rei João II de Castela, o rei Fernando I de Aragão e o emir de Granada Yusuf III de Granada enviaram embaixadas à Corte portuguesa para indagar o propósito dos preparativos do monarca português; ao embaixador castelhano e ao aragonês assegurou-lhes o rei de que a armada não visava nenhum dos seus reinos, mas ao embaixador de Granada só foram dadas respostas evasivas.
De forma a ocultar o verdadeiro objectivo da expedição, D. João I enviou Fernão Fogaça como embaixador ao Conde da Holanda Guilherme VI, com a missão oficial de exigir publicamente ao conde uma compensação por uma série de abusos que os holandeses supostamente haviam cometido no mar contra marinheiros portugueses. O embaixador português avisou de antemão o conde do propósito real desta embaixada falsa e pediu-lhe a sua cooperação, ao que o conde acedeu, portanto o conde recebeu o Fogaça numa audiência pública na qual deu uma resposta tão rude que esta poderia ser entendida como uma declaração de guerra a Portugal. Em consequência disto, espalhou-se o boato de que João fazia-se prestes para atacar a Holanda.
Reunião em Lisboa antes da partida thumb|Cavaleiros portugueses representados nos Paineis de São Vicente Na Primavera de 1415 eclodiu a peste em Lisboa, obrigando a Corte a refugiar-se em Sacavém. A 10 de Julho de 1415, O Infante D. Henrique fez escala em Lisboa com uma frota de 7 galés e 20 naus transportando um numeroso corpo de homens bem equipados. Contava-se entre eles Aires Gonçalves de Figueiredo, um fidalgo de 90 anos, ao comando de uma nau.
A frota portuguesa contava provavelmente com 59 galés, 33 naus ou cocas e 120 navios mais pequenos, transportando cerca de 50 000 homens, dos quais cerca de 20 000 eram combatentes. Incluía mercenários ou aventureiros ingleses, franceses e alemães. Um barão alemão comandava 50 homens da sua casa, ao passo que um inglês chamado Mondo comandava quatro navios.
Contavam-se entre as fileiras da expedição quase todas as personalidades mais importantes de Portugal da época, para além do rei, como o príncipe-herdeiro Duarte, o Infante D. Pedro, o infante D. Henrique, o conde de Barcelos Afonso de Cascais, o condestável Nuno Álvares Pereira, o sobrinho deste Álvaro Pereira, o Grão-Mestre da Ordem de Cristo Lopo Dias de Sousa, o Prior dos Cavaleiros Hospitalários Álvaro Gonçalves Camelo, o Almirante Carlos Pessanha, o Conde de Viana Duarte de Meneses, o general-do-mar Afonso Furtado de Mendonça, o Duque de Bragança Afonso I, o Marechal de Portugal Gonçalo Vascques Countinho e o alferes-real João Gomes da Silva, entre outros. Participaram na expedição todas as principais casas nobres de Portugal, com a notável excepção da família Lima.