Os dasiuromorfos (Dasyuromorphia) constituem uma ordem de animais marsupiais carnívoros que inclui o diabo-da-tasmânia e o extinto tigre-da-tasmânia. Em aparência exterior, estes animais são muito semelhantes aos seus equivalentes placentários que ocupam as mesmas funções na cadeia alimentar, num exemplo de evolução convergente. A maioria dos carnívoros marsupiais extinguiu-se há cerca de 40 mil anos, na sequência das alterações ecológicas resultantes da chegada do homem ao continente australiano.
Há 57 espécies registradas na ordem Dasyuromorphia, das quais 55 pertencem à família Dasyuridae.
Taxonomia e Classificação A Ordem Dasyuromorphia é o grupo que representa maior diversidade de marsupiais carnívoros, anteriormente dividida em três famílias: Thylacinidae, Myrmecobiidae e Dasyuridae.
A família Thylacinidae é composta por formas extintas, incluindo o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), último representante conhecido do grupo. A família Myrmecobiidae é monotípica, contendo apenas o numbat (Myrmecobius fasciatus), espécie insetívora restrita ao sudoeste da Austrália. Já a família Dasyuridae constitui o grupo mais diverso da ordem, reunindo aproximadamente 70 a 75 espécies viventes, distribuídas em diversos gêneros.
Dentro de Dasyuridae, a classificação contemporânea, fortemente baseada em dados moleculares, reconhece principalmente duas subfamílias: Dasyurinae e Sminthopsinae. A subfamília Dasyurinae inclui gêneros como Dasyurus (quolls), Sarcophilus (diabo-da-tasmânia), Dasycercus, Dasyuroides, Myoictis, Phascolosorex e Neophascogale, além de formas relacionadas. Já a subfamília Sminthopsinae abrange gêneros de pequeno porte, como Sminthopsis, Ningaui, Antechinomys e Planigale. Outros gêneros relevantes dentro de Dasyuridae incluem Antechinus, Phascogale e Murexia, que apresentam ampla diversidade ecológica e comportamental.
Além das famílias atuais, há ainda registros fósseis que sugerem a existência de linhagens adicionais extintas, como Malleodectidae, embora estas não façam parte da fauna contemporânea.
O Gênero Dasycerus (Dasyuridae: Dasyuromorphia) apresenta um histórico prolongado de incertezas taxonômicas. Até pouco tempo, eram reconhecidas apenas duas espécies válidas, Dasycercus cristicauda e Dasycercus blythi, enquanto Dasycercus hillieri era tratado como sinônimo júnior de D. cristicauda. Um estudo abrangente realizado por Newman-Martin e colaboradores (2023) reuniu dados de espécimes modernos, históricos e subfósseis provenientes de toda a Austrália, oferecendo a revisão mais completa do gênero até o presente.
Com base na revisão de Newman-Martin et al. (2023), o gênero Dasycercus passa a incluir seis espécies distribuídas principalmente pelas regiões áridas da Austrália:
Dasycercus cristicauda: Espécie-tipo do gênero. A população moderna antes atribuída a ela foi reclassificada como D. hillieri. Seu status de conservação é incerto e pode representar uma das primeiras extinções recentes dentro da família. Dasycercus hillieri (Thomas, 1905): Revalidada como espécie distinta. Inclui a população atualmente existente antes atribuída a D. cristicauda. É considerada uma das poucas espécies ainda viventes. Nomes comuns: Ampurta e Hillier's mulgara. Dasycercus blythi: Espécie previamente reconhecida, agora considerada provavelmente extinta segundo a revisão. Dasycercus woolleyae: Nova espécie descrita a partir de populações antes atribuídas a D. cristicauda. Provavelmente extinta. Ocorreu no Território do Norte e na Austrália Ocidental. Dasycercus archeri: Nova espécie derivada de populações previamente atribuídas a D. cristicauda. Provavelmente extinta. Registrada na Austrália Meridional
Dasycercus marlowi: Nova espécie descrita a partir de populações antes atribuídas a D. blythi. Também considerada provavelmente extinta, com ocorrência no Território do Norte.
Filogenia e Evolução A ordem Dasyuromorphia compreende a grande maioria dos marsupiais carnívoros e insetívoros da Australásia, estando inserida no clado Australidelphia. A história evolutiva do grupo remonta à dispersão de metatérios da América do Sul para a Austrália via Antártida antes do Eoceno, resultando em uma diversificação ocorrida em isolamento prolongado. Durante esse processo, os marsupiais australianos apresentaram taxas evolutivas na mandíbula significativamente mais rápidas do que as linhagens americanas, um fenômeno ligado à necessidade funcional de produzir maiores forças de mordida em espécies carnívoras de grande porte. A evolução morfológica desses animais é caracterizada por uma alta integração craniana, na qual a alometria — a relação entre tamanho e forma — atua como o principal motor da diferenciação fenotípica entre as espécies.
Dentro da ordem, a família Dasyuridae apresenta casos complexos de sistemática e filogenia, como observado no gênero Dasycercus (mulgaras). Análises filogenéticas recentes indicam que o gênero irmão mais próximo de Dasycercus é o kowari (Dasyuroides byrnei), formando um clado robusto e bem sustentado. Revisões taxonômicas integrando dados morfométricos e filogenéticos de espécimes modernos e subfósseis revelaram uma diversidade muito maior do que a anteriormente reconhecida, identificando um total de seis espécies distintas: D. cristicauda, D. blythi, D. hillieri, D. woolleyae, D. archeri e D. marlowi. Entretanto, essa trajetória evolutiva enfrenta ameaças críticas contemporâneas; a provável extinção de quatro dessas seis espécies após a colonização europeia, impulsionada pela predação por gatos e raposas introduzidos, marca o primeiro registro de extinção moderna documentada para a família Dasyuridae.
Conservação Mamíferos australianos têm sofrido declínios populacionais significativos e extinções, especialmente desde a colonização europeia, sendo esse um dos processos mais marcantes na fauna recente da região (Woinarski et al., 2015). Estudos indicam que a introdução de predadores exóticos, particularmente gatos (Felis catus) e raposas (Vulpes vulpes), está fortemente associada a essas extinções (Woinarski et al., 2015).
Esses predadores são identificados como fatores-chave na perda de espécies de mamíferos, tendo contribuído de forma substancial para a redução da diversidade nativa (Woinarski et al., 2015). Como parte da fauna de mamíferos da Austrália, espécies de Dasyuromorphia estão inseridas nesse contexto de impacto causado por espécies introduzidas (Woinarski et al., 2015).
Distribuição A ordem Dasyuromorphia ocorre na região da Australásia, incluindo a Austrália e a Nova Guiné (Kealy & Beck, 2017). Esse grupo corresponde a um clado de marsupiais carnívoros cuja história evolutiva tem sido investigada por meio de análises filogenéticas integrando dados morfológicos e moleculares (Kealy & Beck, 2017).
Os resultados dessas análises permitem compreender as relações evolutivas entre os principais grupos da ordem, incluindo Dasyuridae, Myrmecobiidae e Thylacinidae, bem como estimar o tempo de divergência entre essas linhagens (Kealy & Beck, 2017). Além disso, o uso combinado de evidências fósseis e dados atuais contribui para a reconstrução da história evolutiva do grupo ao longo do tempo (Kealy & Beck, 2017).
Hábitos e Comportamentos Os animais pertencentes à ordem Dasyuromorphia apresentam grande diversidade de hábitos e comportamentos, embora compartilhem características gerais relacionadas ao modo de vida predador ou insetívoro. Essa ordem reúne marsupiais carnívoros da Austrália e Nova Guiné, como o diabo-da-tasmânia, o lobo-da-tasmânia, o mirmecóbio. Em sua maioria, são animais adaptados à caça, à busca ativa por alimento e à sobrevivência em diferentes tipos de ambientes.
Grande parte dessas espécies possui hábitos noturnos ou crepusculares, saindo para se alimentar principalmente ao entardecer ou durante a noite. O lobo-da-tasmânia e o diabo-da-tasmânia, por exemplo, passavam o dia escondidos em tocas, cavernas ou troncos ocos, utilizando esses abrigos para descanso e proteção. Já o mirmecóbio é uma exceção dentro da ordem, apresentando comportamento diurno, ativo durante o dia, quando procura formigas e cupins para se alimentar.
O comportamento social desses animais costuma ser predominantemente solitário. Muitas espécies vivem sozinhas e se encontram apenas no período reprodutivo. O diabo-da-tasmânia demonstra esse padrão, aproximando-se de outros indivíduos principalmente na época de acasalamento ou ao redor de carcaças, quando pode ocorrer agressividade e disputas por alimento. O mirmecóbio também apresenta forte territorialismo, não tolerando outros indivíduos da mesma espécie em sua área de vida, exceto na reprodução.
Quanto à alimentação, a ordem Dasyuromorphia inclui espécies carnívoras, insetívoras e oportunistas. O lobo-da-tasmânia caçava cangurus, aves e pequenos mamíferos, enquanto o diabo-da-tasmânia possui dieta variada, consumindo carcaças, pequenos vertebrados, frutos e até restos de animais atropelados. Já espécies menores, como o dunnart-de-cauda-grossa e o Antechinus flavipes, alimentam-se principalmente de insetos, aranhas, ovos, néctar e pequenos vertebrados. O mirmecóbio é especializado no consumo de formigas e térmitas, utilizando sua língua longa e pegajosa como adaptação alimentar.
Esses marsupiais ocupam diferentes habitats, como florestas tropicais e temperadas, savanas, áreas áridas, brejos, pântanos e matagais. Essa variedade mostra a alta capacidade adaptativa da ordem. Algumas espécies armazenam energia para períodos de escassez, como o dunnart-de-cauda-grossa, que acumula gordura na cauda. Outras desempenham papéis ecológicos importantes, como o diabo-da-tasmânia, que atua na limpeza do ambiente ao consumir carcaças, e o mirmecóbio, que ajuda no controle de populações de térmitas.
Portanto, os animais da ordem Dasyuromorphia apresentam comportamentos variados, porém marcados pela independência, adaptação ao ambiente e eficiência na obtenção de alimento. São espécies fundamentais para o equilíbrio ecológico dos ambientes australianos, exercendo funções como predadores, necrófagos e controladores de insetos.Newman-Martin, J., Travouillon, K. J., Warburton, N., Barham, M., & Blyth, A. J. (2023). Taxonomic review of the genus Dasycercus (Dasyuromorphia: Dasyuridae) using modern and subfossil material; and the description of three new species. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 47(4), 624–661. https://doi.org/10.1080/03115518.2023.2262083
Referências
Categoria:Marsupiais Categoria:Ordens de mamíferos