Fisicalismo é a tese metafísica de que tudo é físico, ou, recorrendo à noção de superveniência, é a doutrina segundo a qual tudo é superveniente ao físico. Fisicalismo é uma forma de monismo ontológico de substância, por oposição ao dualismo ou ao pluralismo.Stoljar, Daniel, "Physicalism", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.), http://plato.stanford.edu/archives/spr2016/entries/physicalism/

A ideia geral é que a natureza do mundo vigente se conforma a uma certa condição: a condição de ser físico. No entanto, a maioria dos fisicalistas não nega que o mundo pode conter itens que, à primeira vista, não parecem físicos — itens de natureza biológica, moral, ou social. Mas eles insistem que, em última instância, esses itens são físicos ou são supervenientes a outros itens físicos.

Terminologia

Os termos "fisicalismo" e "materialismo" são, frequentemente, usados de forma indistinta. Embora o seu significado possa ser semelhante, as suas origens são bastante diferentes. A palavra "materialismo" é muito antiga, mas a palavra "fisicalismo" foi introduzida na filosofia apenas na década de 1930 por Otto Neurath Neurath, O, 1931, ‘Physicalism: The Philosophy of the Vienna Circle’, in R.S. Cohen, and M. Neurath (eds.), Philosophical Papers 1913–1946, Dordrecht: D. Reidel Publishing Company, 1983, pp. 48–51. e Rudolf Carnap,Carnap, R, 1932/33 ‘Psychology in Physical Language’, in A.J. Ayer (ed.), Logical Positivism, New York: The Free Press, 1959, pp. 165–198. ambos membros do Círculo de Viena. Estes filósofos entendiam por fisicalismo a tese linguística de que cada declaração com algum significado é sinónima a alguma declaração física.Hempel, C. 1949, ‘The Logical Analysis of Psychology’, in H. Feigl and W. Sellars (eds.), Readings in Philosophical Analysis, New York: Appleton-Century-Crofts, 1949, pp. 373–384; reprinted in N. Block (ed.), Readings in the Philosophy of Psychology, Volume 1, Cambridge: Harvard University Press, 1980, pp. 14–23. Materialismo, por outro, sempre foi interpretado como uma doutrina metafísica que afirma algo acerca da natureza do mundo. Com a queda do positivismo lógico do Círculo de Viena, esta distinção entre os dois termos foi, em grande parte, rejeitada, e o fisicalismo é visto na filosofia contemporânea como uma tese metafísica.

Outros filósofos sugerem que fisicalismo é distinto de materialismo por outra razão. Enquanto que "materialismo" faz referência direta ao conceito de matéria, o fisicalismo parece ter um domínio mais permissivo. Por exemplo, forças como a gravidade são físicas, mas não é claro que sejam materiais no sentido tradicional do termo. É, portanto, tentador utilizar-se o termo "fisicalismo" para, por um lado, distanciar-se da tese materialista que é cientificamente obsoleta e, por outro, enfatizar a relação desta nova doutrina com as ciências físicas. Na prática, a discussão acerca do significado do termo não tem muita importância pois ambos são usados indistintamente e muitos filósofos fisicalistas utilizam o termo "materialismo" para se referirem à sua doutrina.Lange, F., 1865, , A History of Materialism, London: Routledge, 1925.Dijksterhuis, E.J., 1961, The Mechanization of the World-Picture, Oxford: Clarendon.Yolton, R., 1983, Thinking Matter, Minneapolis: University of Minnesota Press.

Introdução

Se o fisicalismo afirma que tudo é físico, colocam-se três perguntas que nos permite abordar o tema de forma algo sistemática:

O que significa dizer que tudo é físico? O que significa dizer que tudo é físico? É verdade que tudo é físico?

As duas primeiras perguntas são de natureza interpretativa. A primeira, chamemos de questão da plenitude, mantém fixo o problema do que significa satisfazer a condição de ser físico e, em vez disso, indaga sobre que significa tudo satisfazer essa condição. A segunda, chamemos questão da condição, mantém fixo o problema do que significa tudo satisfazer uma certa condição ou outra, e inquere, em vez disso, qual é essa condição, ser físico, que tudo tem de satisfazer.

A terceira pergunta, chamemos de questão do valor de verdade, pede-nos para dizer, uma vez entendido o significado de tudo e de físico, se, de facto, é verdade que tudo satisfaz a condição de ser físico no nosso mundo.

Fisicalismo de superveniência

Uma resposta à questão da plenitudeDavidson, D. 1970 . ‘Mental Events’, in D. Davidson, Essays on Actions and Events, Oxford: Oxford University Press, 207–223. baseia-se na noção de superveniência que pode ser entendida da seguinte forma:

Diz-se que um conjunto de propriedades A (globais) é superveniente sobre um conjunto de propriedades B (básicas) se qualquer alteração no conjunto A implicar uma alteração no conjunto B.McLaughlin, Brian and Bennett, Karen, "Supervenience", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), http://plato.stanford.edu/archives/spr2014/entries/supervenience/

Para efeitos ilustrativos, considere-se o exemplo que David Lewis propõe: "Uma matriz de pintas tem propriedades globais — simetria, desordem, etc — e, no entanto, tudo o que há na figura são as pintas e a ausência delas em cada ponto. As propriedades globais são padrões nas pintas, são supervenientes — duas matrizes não podem diferir nas suas propriedades globais sem diferirem, de alguma forma, na distribuição das suas pintas."Lewis, D. 1986, On the Plurality of Worlds, Oxford: Blackwell.

Um fisicalismo baseado nesta noção de superveniência, chamemos fisicalismo de superveniência, defende que, tal como as características globais da imagem são supervenientes às pintas, também tudo é superveniente ao físico. Uma declaração mais formal desta tese é dada em termos de mundos possíveis:

(1) Fisicalismo é verdadeiro em um mundo possível w se e só se qualquer mundo que seja um duplicado físico de w, for um duplicado simpliciter de w.

Esta é a primeira tentativa de resposta à questão da plenitude que pergunta o que significa dizer que tudo é físico. De acordo com (1), significa que, se o fisicalismo for verdadeiro, não existe um mundo possível que seja igual ao mundo vigente em todas as circunstâncias físicas, mas diferente ao nível psicológico, social ou biológico.

Objeções e respostas

Vejamos, agora, quatro objeções feitas a esta tese inicial e possíveis reformulações da declaração (1) com vista a responder a essas objeções.

A molécula de amónio

Seja W* um mundo possível exatamente igual ao mundo vigente exceto em um aspeto: tem uma molécula de amónio extra localizada nos anéis de Saturno. É natural supor que em W*, a distribuição das propriedades mentais é exatamente igual à do mundo atual. Por outro lado, uma vez que (1) apenas se refere a mundos que são duplicados físicos exatos do mundo vigente e nada diz sobre mundos que são diferentes apenas em pequenos detalhes como o W*, é possível que tal mundo seja radicalmente diferente em termos da distribuição das propriedades mentais. Fica, então, aberta a possibilidade de que, em W*, tudo tem propriedades mentais, ou nada tem, ou algo entre os dois extremos. Mas isto parece intuitivamente absurdo. Kim, J., 1993, Mind and Supervenience, Cambridge: Cambridge University Press.

A resposta mais simples é afirmar que a objeção mistura dois problemas que devem manter-se separados: a questão sobre o que o próprio fisicalismo diz sobre W*, e a questão do que o nosso conhecimento geral diz sobre W*. É verdade que o fisicalismo só por si não diz nada sobre a distribuição das propriedades mentais em W*, no entanto sabemos de forma independente da tese fisicalista qual é essa distribuição - uma idêntica à nossa. Paull, C., and Sider, T., 1992, ‘In Defense of Global Supervenience’, Philosophical and Phenomenological Research, 52: 833–854.Stalnaker, R., 1996, ‘Varieties of Supervenience’, Philosophical Perspectives, 10: 221–241.

O estatuto modal

Alguns filósofos entendem o fisicalismo que, a ser verdadeiro, é uma verdade necessária ou conceptual. Mas a afirmação (1) permite uma interpretação contingente. (1) diz que o fisicalismo é verdadeiro em algum mundo no caso de esse mundo respeitar certas condições, mas deixa em aberto se o mundo vigente de facto satisfaz essas condições. Para alguns, é enigmático que o fisicalismo seja estabelecido usando noções modais e ainda assim seja contingente. Para se ver o problema, note-se primeiro que, fisicalismo de superveniência afirma que:

(2) As verdades físicas implicam logicamente todas as verdades.

S é uma declaração que especifica a natureza física do mundo vigente, e S* é uma declaração que especifica a natureza total do mundo. Então, se fisicalismo for verdadeiro, é verdade que:

(3) S implica S*.

A declaração (3) parece ser equivalente a fisicalismo e é claramente uma verdade necessária. Isto é incompatível com a interpretação de (1) de que fisicalismo é contingente.

A resposta mais simples a esta objeção é dizer que (3) é uma verdade necessária, mas não é equivalente ao fisicalismo. Em vez disso, (3) é uma consequência do fisicalismo dadas várias assunções contingentes. Em particular as assunções contingentes de que S e S* são as declarações que dizemos que são, ou seja, que S especifica a natureza física do mundo vigente, e S* especifica a natureza total do mundo. Por outro lado, (2) é equivalente a fisicalismo, mas não é necessária.

Ectoplasma epifenomenal

Imagine-se um mundo W* que é exatamente igual ao nosso na distribuição das propriedades físicas e mentais, mas com uma diferença: contém algum tipo substância que não interage causalmente com mais nada no mundo, o ectoplasma epifenomenal. Esta possibilidade é incompatível com a possibilidade de o fisicalismo ser verdadeiro no nosso mundo, pois, segundo (1), se o fisicalismo for verdadeiro no mundo vigente, um duplicado físico, tal como W*, tem de ser um duplicado simpliciter, e W* não é um duplicado simpliciter. Parece contraintuitivo dizer que a possibilidade de um mundo como W* nega o fisicalismo no nosso mundo, ou que a veracidade do fisicalismo no nosso mundo nega a possibilidade de um mundo como W.Horgan, T., 1983, ‘Supervenience and Microphysics’, Pacific Philosophical Quarterly, 63: 29–43.Lewis, D. 1983, ‘New Work for a Theory of Universals’, Australasian Journal of Philosophy, 61(4): 343–377.

Uma solução para este problema avançada por Frank Jackson passa por ajustar (1) para que a verdade do fisicalismo exclua a possibilidade do mundo W*:

(4) Fisicalismo é verdadeiro em algum mundo possível w se e só se algum mundo que é um duplicado físico mínimo de w é um duplicado simpliciter de w.

Onde "duplicado físico mínimo" significa um mundo possível que é idêntico em todos as aspetos físicos, mas não contém nada mais; em particular, não contém nenhum ectoplasma epifenomenal. Ao contrário de (1), o fisicalismo de (4) não exclui a possibilidade de W*.Jackson, F. 1993, ‘Armchair Metaphysics’, in J. Hawthorne and M. Michael (eds.), Philosophy in Mind, Amsterdam: Kluwer.

Uma segunda solução, proposta por David Chalmers, sugere substituir (1) por:

(5) Fisicalismo é verdadeiro em algum mundo possível w se e só se algum mundo que é um duplicado físico de w é também um duplicado positivo de w'.

Onde duplicado positivo refere-se a mundo possível que instancia todas as propriedades positivas do mundo vigente, e onde um propriedade positiva é definida como "uma que, se instanciada em um mundo W, é também instanciada pelo individuo correspondente em todos os mundos que contêm W como uma parte própria".Chalmers, D., 1996, The Conscious Mind, New York: Oxford University Press O fisicalismo de (5) também não exclui a possibilidade de W*, e é, portanto, preferível a (4).

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