O Colégio La Salle Carmo é uma escola de nível médio de Caxias do Sul, Brasil. Está localizado na rua Os Dezoito do Forte, 1754, no centro da cidade. É uma das muitas obras dos Irmãos das Escolas Cristãs (os Lassalistas) e está vinculado à Rede La Salle de Educação, que integra a Província La Salle Brasil-Chile. A Província inclui Brasil, Chile e Moçambique e atende cerca de 56 mil alunos de Educação Básica, Superior e Obras Assistenciais. O colégio é uma das mais antigas, qualificadas e tradicionais escolas privadas de Caxias, com uma história de relevantes serviços prestados à educação e à cultura local.
História
O colégio primitivo foi fundado por um grupo de seis irmãos Lassalistas franceses, liderados pelo irmão Anastace Pascal (Anastácio), que chegaram em 28 de janeiro de 1908. Os Lassalistas haviam se instalado no Brasil em 1907, após insistentes pedidos do bispo do Rio Grande do Sul dom Cláudio Ponce de Leão e do padre belga Joseph Martin Moreau. Anastácio foi designado para a antiga colônia italiana de Caxias por dominar o idioma então mais usado no local. Os seis fundadores se instalaram provisoriamente em uma casa alugada de Francisco Balen situada no centro da cidade. E ali mesmo iniciariam sua atividade docente, inaugurando as primeiras aulas em 4 de fevereiro para 30 alunos. Ao final do período letivo havia 97 alunos matriculados. Era nesta época um colégio exclusivo para meninos, que recebiam instrução básica regular e eram catequizados na fé católica. A frequência dos alunos à missa era obrigatória em todos os domingos, e também nas festividades religiosas.Lazzaron, Vanessa. História do Colégio do Carmo de Caxias do Sul/RS: práticas pedagógicas e rotinas escolares (1908-1933). Universidade de Caxias do Sul, 2015, pp. 86-232
Em dois anos de trabalho sua reputação já estava estabelecida e a demanda por matrículas aumentava a ponto de exigir já em 1910 o aluguel de uma sede mais ampla, um grande casarão de madeira nos fundos da Matriz, que funcionava como Salão Paroquial, e os irmãos se instalaram em uma casa anexa. O nome do educandário foi escolhido apenas em 1911, para homenagear a despedida do então pároco de Caxias, o italiano Carmine Fasulo, que fora um apoiador da iniciativa desde o início, conhecendo na Itália e admirando a obra educativa dos irmãos. Em 1913 foi criado um curso noturno para adultos e em 1914 o colégio passou a hospedar candidatos à admissão na Ordem Lassalista.Lazzaron, Vanessa. "Um colégio católico para meninos em Caxias do Sul/RS: história do Colégio do Carmo (1908 – 1933)". In: X Anped Sul. Florianópolis, 2014
Os primeiros anos foram difíceis, havendo uma estrutura precária. Administrativamente o colégio era uma escola paroquial e devia contas ao pároco da Matriz, o qual dependia dos Fabriqueiros (uma Comissão de Obras composta por líderes da sociedade) em todos os assuntos da Paróquia que diziam respeito a finanças e administração de bens e projetos, incluindo a coleta de verbas, a construção e manutenção de edifícios e capelas da Igreja e a continuidade das próprias obras da Matriz, que nesta altura ainda carecia de fachada e de quase toda decoração interna. Por outro lado, o colégio era uma obra Lassalista que tinha legalmente considerável autonomia.Lazzaron, Vanessa. "Um colégio católico para meninos em Caxias do Sul/RS: história do Colégio do Carmo (1908 – 1933)". In: X Anped Sul. Florianópolis, 2014 Por frequentes divergências e disputas de poder entre os três grupos, a aquisição de um terreno e a ereção de uma sede própria foram complicadas e morosas. Os irmãos também entraram em atrito com a Paróquia, especialmente na gestão do pároco João Meneguzzi, pela filosofia educativa que introduziam e por questões de aluguel e financiamento das obras do proposto novo colégio, perpetuando-se por longos anos, conforme afirma Vanessa Lazzaron, um clima de animosidade entre as instituições.
Em 1922 a Paróquia determinou que os irmãos desocupassem o casarão e construíssem uma nova escola em outro local, mas as obras só tomaram impulso em 1924, na direção do irmão Maurício. No ano seguinte foi enfim comprado um terreno para a sede definitiva, onde até hoje está instalado, localizada em frente ao terreno do casarão, no outro lado da rua, e no dia 23 de dezembro foi autorizada a construção. A construção foi organizada pelo diretor, o irmão Maurício, com a ajuda de uma comissão especial formada pelo pároco Meneguzzi e pelo intendente municipal Celeste Gobbato como presidentes honorários; Miguel Muratore, presidente; Aristides Germani, vice-presidente; Mário Pezzi, secretário; Abramo Eberle, tesoureiro, e nove conselheiros. O financiamento veio de empréstimos e doações da comunidade. Muitos membros da comissão doaram importantes somas. As obras iniciaram em 1926 e terminaram em fins de 1929, mas em 1928 já estava em funcionamento parcial. Se denominava então Instituto Nossa Senhora do Carmo. A nova sede foi projetada por Joseph Lutzenberger e executada por Silvio Toigo. Venzo, Michele Maria. "A produção do arquiteto construtor Silvio Toigo influências do projeto à execução". In: IV Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Porto Alegre, 2016 A inauguração em 1929 foi louvada na imprensa:
"Entre os estabelecimentos de ensino existentes em Caxias avulta o Instituto N. S. do Carmo, não só pelo ensino primário, secundário e comercial, subministrado por um corpo docente de reconhecida competência, mas, também pelo aspecto artístico do suntuoso edifício há poucos meses inaugurado, erigido no mais formoso sitio da saudável e industriosa Caxias. [...] Uma estátua original de dois metros de altura, efígie de N. S. do Carmo, ocupa o alto do frontispício e, por sua escultura elegante, obra do sr. Estácio Zambelli, prende e cativa a atenção do visitante. É belíssimo o aspecto do prédio; e as duas torres salientes, a recordarem os castelos das épocas senhoriais ou ainda o conjunto de suas linhas arquitetônicas, e classificam protótipo de singeleza e de perfeição de formas. Na parte central da fachada, graciosas as colunas toscanas sustentam a cornija que serve de base ao vistoso nicho da Virgem do Carmo. Os arcos romanos e os balaústres das galerias formam um completo harmônico e alegre. Janelas em profusão rasgam o edifício e permitem ao ar oxigenado e a plena luz do sol, entrada franca em todos os aposentos. Se o exterior impressiona agradavelmente, satisfaz a todos e revela um acurado bom gosto, o interior do prédio corresponde ao que se pode conceber de mais apropriado a uma casa destinada à cultura intelectual e à formação do caráter de uma juventude forte e sadia. Doze salões, de sete metros de largura por oito de comprimento, alumiados por cinco janelas e uma porta envidraçada constituem as repartições destinadas ao funcionamento das aulas. Uns trezentos colegiais, pensionistas e externos, ocupam, na hora presente, oito desses belos salões. Visitei um dormitório e admirei as suas dimensões. [...] As instalações, elétrica, hidráulica e de higiene são baseadas nas melhores condições modernas vigentes"."Instituto N. S. do Carmo". Caxias, 16/01/1930
Além das salas de aula e administração, o edifício incluía uma capela, alojamentos para os irmãos, uma cozinha, refeitório, enfermaria, laboratórios, um grande pátio e espaços esportivos. Nesta época o colégio tinha alunos externos e outros em internato, e oferecia um ensino dividido em três seções, conforme descrição de Lazzaron:
"a) primeira seção: curso preliminar com duração de um ano, eram recrutados os alunos com idade de seis anos, em que eram ministradas as primeiras lições de religião, leitura, cálculo mental e caligrafia;
"b) segunda seção: curso elementar com duração de três anos, compreendendo as disciplinas de: religião, leitura, caligrafia, português, cálculo mental, aritmética, história do Brasil, desenho, noções de ciências, noções de comércio, os idiomas italiano e francês, gramática e canto;
"c) terceira seção: curso secundário e comércio com duração de cinco anos, envolvendo todas as matérias do curso ginasial, e tinha orientação utilitária e prática em harmonia com as necessidades da época e pretendia atenuar as dificuldades crescentes que os jovens encontravam para escolher a profissão.
"As principais disciplinas ministradas no curso secundário e comercial eram: as instruções religiosa e moral; a gramática, análise, literatura e composição portuguesa; aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, agrimensura e mecânica; contabilidade, direito comercial e economia política; história universal, geografia e cosmografia; caligrafia, datilografia (alunos do curso comercial ou para alunos avulsos), estenografia e metagrafia; desenho de adorno e geometria; física, química, história natural e geologia; idiomas italiano, francês, inglês, alemão, e outros mais idiomas que fossem necessários; música, canto e ginástica".
Segundo Lazzaron, só então, convencido do valor do projeto lassalista, o pároco Meneguzzi passou a apoiar os irmãos, e as disputas cessaram. Em 1929 a prefeitura apoiou a oficialização do curso secundário. A primeira turma de bacharéis formou-se em 1932 mas só neste ano foi oficializada sua transformação em Ginásio Municipal Nossa Senhora do Carmo, com um curso secundário completo de cinco anos e um internato. Era diretor o irmão Fidel. A partir de 1936 o arquiteto Silvio Toigo projetou a ampliação do prédio com duas alas laterais, primeiro a direita e depois a esquerda, mantendo o estilo do projeto original de Lutzenberger, mas as obras exigiriam muitos anos até serem concluídas. Ao longo desses trabalhos, no avarandado ao ar livre por cima da entrada central, foi instalado um grupo escultórico representando São João Batista de La Salle apontando para o céu, rodeado de cinco meninos que simbolizam a juventude dos cinco continentes.Lopes, Rodrigo. "A cidade e o Carmo pelo olhar do Irmão Bonifácio". Pioneiro, 16/06/2015
Em 1936, a pedido da Intendência Municipal, os irmãos se incumbiram da direção do Patronato Agrícola, uma escola técnica profissionalizante para alunos pobres e delinquentes que funcionava como pensionato, mas em 1938 foi devolvido para o município. Ainda em 1938 foram oficializados o Curso Comercial e a Escola de Datilografia, e em 1941 começou a funcionar a Escola Técnica de Comércio.
Os ex-alunos, reunidos em uma associação, desempenharam papel importante no apoio das atividades educativas. Em 1933 fundaram a Conferência de São Vicente de Paulo, depois ramificada em três outras conferências: Burgo, São Pelegrino e Curtume. Em 1936, como escola anexa do Carmo, para alcançar alunos pobres, os ex-alunos fundaram a Escola La Salle do bairro São Pelegrino, com cursos gratuitos primário, ginasial, supletivo e, posteriormente, secretariado e auxiliar de escritório.Werle, Flávia Obino Corrêa & Brito, Lenir Marina Trindade de Sá. "O Professor e a Escola para a Zona Rural: concepções e desdobramentos em uma escola normal rural". In: Contexto e Educação, 2006; 21 (75):109-129 Em 1938, como um resultado das Conferências Vicentinas, fundaram a Sociedade Caxiense de Auxílio aos Necessitados, e em 1949 foi fundada no Burgo a Escola São Vicente para atendimento de mais de 120 crianças pobres.