Primavera Marcelista designa o período inicial do governo de Marcelo Caetano, entre 1968 e 1970, no qual se operou uma certa modernização social e uma liberalização política, a “Primavera Marcelista”, criando a expectativa de uma verdadeira reforma do regime em Portugal, o que não chegou a acontecer.
Contexto Marcelo Caetano foi escolhido para suceder a António de Oliveira Salazar em Setembro de 1968, após este ter sofrido um acidente vascular cerebral que o impossibilitou de continuar a exercer o cargo de presidente do conselho de ministrosSalazar e Caetano - RTP.
Mudanças
Economia Fim do condicionalismo industrial, abrindo-se o país ao investimento estrangeiro. Lançamento de grandes obras públicas, tais como os do porto de Sines e a barragem do Alqueva. Aproximação à então Comunidade Económica Europeia (CEE).
Sociedade Melhoria da assistência social para uma minoria. Ensaio de algumas propostas de democratização do ensino, lançadas pelo ministro da Educação Veiga Simão.
Vida política interna A tentativa de legitimação da viragem política do regime foi feita através das eleições legislativas de 1969, tendo o governo demonstrado sensibilidade a algumas questões de direitos humanos: alargando o direito de voto; legalizando certos grupos oposicionistas (até aí apenas tolerados), sendo-lhes permitida a fiscalização de cadernos eleitorais e do próprio acto eleitoral; e abrandando a censura em época de campanha eleitoralAs eleições na Primavera Marcelista - 1969 - a «evolução na continuidade». Dentro de um conceito de concessão de liberdade possível, registaram-se medidas de descompressão sobre as oposições legais ou semilegais, sendo autorizado o regresso de alguns exilados, como Mário Soares e D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto. Autorizado também o III Congresso Republicano que reuniu a Oposição em Aveiro. Eliminação de algumas restrições à atividade sindical. Abrandamento da vigilância dos serviços de censura, que se passou a designar por Exame Prévio. Redução dos poderes da polícia política, que passou de Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) para Direcção-Geral de Segurança (DGS). Abertura do próprio partido único de apoio ao regime — União Nacional, rebaptizado Acção Nacional Popular, em 1970 — à expressão organizada de opiniões divergentes, com a constituição da Ala Liberal, assumidamente reformista, de que faziam parte Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Mota Amaral, entre outros, e que viria a ter representação parlamentar.
Política colonial Prossecução da opção militar, rejeitando-se a via das negociações e a concessão de independências às províncias ultramarinas. Alterações significativas no discurso oficial, colocando a tónica na autonomia progressiva, subentendendo-se muito tenuemente uma tendência para aceitar independências brancas.
Reações A política de abertura de Marcello Caetano provocou reações muito díspares.
Internacionais
A aproximação à CEE cingiu-se a questões económicas e comerciais, e aproximações adicionais seriam sempre infrutíferas dado o caráter não democrático do regime e da questão colonial; Ida de Marcelo a 16 de Julho de 1973 a Londres é contestada com manifestações com denúncias de colonialismo e do massacre de Wiriamu. Nacionais No campo político afeto ao governo e ao regime houve clivagens, por vezes muito profundas, entre reformadores e integristas; A oposição — tanto a legal, como a ilegal — também se fracionou entre aqueles que aceitavam a liberalização como uma via genuína para a democratização do regime a médio e talvez mesmo a curto prazo e os que continuavam a olhar com desconfiança as novas políticas.
Em Abril de 1969, na cerimónia de inauguração do novo edifício das Matemáticas da nova Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a recusa da palavra ao presidente da Associação Académica de Coimbra — acto que levou o presidente da República Américo Tomás a ser vaiado e o presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, a ser preso —, provocou uma crise académica resultando numa série de greves, que se prolongariam até Setembro desse ano. Este acontecimento, juntamente com a continuação da guerra colonial e a recusa da adopção de reformas mais profundas sugeridas pelos deputados da Ala Liberal — que os levou a abandonar a Assembleia Nacional, indo vários deles fundar o jornal ExpressoOs grandes grupos nos media portugueses — e, mais tarde, a crise do petróleo de 1973 e a consequente subida generalizada dos preços, veio mostrar que as hipóteses de concretização do slogan do regime Evolução na Continuidade eram nulas, abrindo-se o caminho à Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.
Ligações externas
Primavera Marcelista Revista Visão História: A queda de Salazar e a "primavera marcelista"
Categoria:Estado Novo (Portugal)