O eterno retorno (também conhecido como eterna recorrência) é uma teoria de que o universo e toda a existência e energia estiveram recorrentes e continuarão a ocorrer, de forma autossemelhante, um número infinito de vezes através do tempo ou espaço infinito, ou de que há um padrão cíclico de certas recorrências, como em eras na roda do tempo. A teoria é encontrada na filosofia indiana e no Egito antigo, bem como na literatura da sabedoria judaica (Eclesiastes) e foi posteriormente adotada pelos pitagóricos e estoicos. Com o declínio da antiguidade e a expansão do cristianismo, a teoria caiu em desuso no mundo ocidental, com exceção do filósofo do século XIX, Friedrich Nietzsche, que conectou o pensamento a muitos de seus outros conceitos, incluindo o amor fati. O eterno retorno se relaciona também à filosofia do pré-determinismo.

Premissas lógicas Uma premissa básica de recorrência parte da suposição de que a probabilidade de um mundo surgir exatamente como o nosso é diferente de zero. Se o espaço e o tempo são infinitos, segue-se logicamente que nossa existência deve ocorrer um número infinito de vezes.Tegmark M., "Parallel universes". Sci. Am. 2003 May; 288(5):40–51.

Em 1871, Louis Auguste Blanqui, assumindo uma cosmologia newtoniana em que o tempo e o espaço são infinitos, alegou ter demonstrado recorrência eterna como uma certeza matemática.

Em uma das cenas do documentário "Uma Viagem ao Infinito", um dos físicos explica o "paradoxo da maçã fechada numa caixa infinita". Segundo ele, se colocássemos uma maçã em uma caixa completamente fechada, de onde nada entra nem sai, e esperássemos milhões e milhões de anos antes de abri-la novamente, a maçã estaria intacta. Isso ocorreria porque a maçã apodreceria e se tornaria pó, que ainda conteria energia química. Essa energia eventualmente seria liberada, tornando-se extremamente quente, e as partículas começariam a se fundir. Esse processo levaria muito tempo, pois as reações nucleares acontecem de forma extremamente lenta, mas, eventualmente, ocorreriam. Com o passar dos bilhões e bilhões de anos, o plasma se converteria em fótons, e os neutrões se transformariam em prótons "e a outras partículas fundamentais". "Se deixarmos a maçã na caixa por um tempo infinito, suas partículas passarão por todos os estados possíveis (...) até que comecem a repetir estados anteriores. E, se esperarmos novamente por muito tempo, poderemos abrir a caixa e ver a maçã".

A teoria da relatividade geral de Einstein afirma que o tempo é uma dimensão do espaço-tempo e não pode ser separado do espaço. Isso implica que o passado, o presente e o futuro coexistem como partes de uma mesma estrutura espaço-temporal. Essa ideia é conhecida como "universo bloco" (do inglês block universe). Nessa perspectiva, o tempo pode ser comparado a um bloco onde todos os eventos – passados, presentes e futuros – coexistem. Assim, nessa concepção, todos os eventos do universo já estão estabelecidos no espaço-tempo.

O teorema da recorrência de Poincaré demonstra que, em certos sistemas dinâmicos, quase todos os pontos retornam a uma região específica do espaço de estados infinitas vezes. Em outras palavras, o teorema afirma que, salvo um conjunto de medida nula, quase todos os pontos de uma região específica do espaço de estados retornarão a essa região infinitas vezes.

O estudioso de Nietzsche Walter Kaufmann descreveu um argumento originalmente apresentado por Georg Simmel, que refuta a alegação de que um número finito de estados deve se repetir em uma quantidade infinita de tempo:

Antiguidade clássica thumb|250px|0 Ouroboros é um signo para a eternidade direita|miniaturadaimagem|Escaravelho em um afresco. No Egito antigo, o escaravelho (besouro de esterco) era visto como um sinal de eterna renovação e reemergência da vida como o deus Khepri, por seu movimento lembrar o do nascimento e pôr do Sol. Era também um lembrete da vida futura. (Ver Atum e Ma'at)

Os maias e astecas também tiveram uma visão cíclica do tempo.

O livro de Eclesiastes na Bíblia Hebraica declara: "O que foi voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra vez; não existe nada de novo debaixo do sol". (Eclesiastes 1:9, Rei Salomão).

Grécia Antiga Na Grécia Antiga, o conceito de eterno retorno estava relacionado com Empédocles, Zenão de Cítio, e principalmente no estoicismo (veja ecpirose, palingênese), além do próprio pensamento histórico mítico. Ele se associa às noções de recriação, regeneração e reestabelecimento da ordem divina, derivada das cosmologias e mitos do Oriente Próximo, como do deus Fanes, de rituais de reencenação da Mesopotâmia e também da Pérsia, incorporando-se nos mistérios órficos e dionisíacos gregos.Nelson, Hubert Wayne (1980). Kykloi: cyclic theories in ancient Greece. Dissertations and Theses. Paper 3266. Portland State University. A eterna recorrência era uma imagem implicada no símile movimento celeste das constelações. Ele também é uma interpretação considerada por mitologistas e filólogos como um tema nas narrativas da visão mítica grega, como por exemplo na proposta de eterno retorno de Eliade, e é relacionada aos termos aion (éon, como um recomeço perpétuo ou uma repetição) e nostos (νόστος; retorno, volta à casa), sendo presente como um tempo divino que destina a temporalidade humana a um objetivo (telos) do próprio princípio (arché). Um exemplo é o retorno à era dourada no ciclo das raças gregas. Está relacionado também ao conceito do tempo como tendo duas faces, na dicotomia entre Cronos (em grego, com a letra K), que habita a Ilha dos Bem-Aventurados e representa a não temporalidade e eternidade, protegendo a perfeição imutável do Céu, e Chronos (com Ch), o desenrolar temporal dos eventos: um aspecto do tempo voltado para a preservação, simbolizada no Cronos conservador "devorador do tempo", que ingere e retém os deuses em seu ventre; e em seguida o Chronos portador do tempo, soltando-os na linha temporal e voltando à manutenção em destruição. Assim afirma Reynal Sorel sobre o papel de Cronos/Chronos:Sorel, Reynal (1994). Les Cosmogonies grecques, p. 42. In Laurent, Régis; Selous, Trista (2015). An Introduction to Aristotle's Metaphysics of Time: Historical research into the mythological and astronomical conceptions that preceded Aristotle’s philosophy (em inglês). Villegagnons-plaisance Ed. ISBN 978-2-9533846-1-1. p. 99.No desenvolvimento da filosofia grega, esse contexto alcançou dimensão metafísica na investigação de ideias como o devir até o caráter do desdobrar do tempo na ontologia de Platão e Aristóteles, como descreve Jean Brun:Brun, Jean (1961). Aristote et le Lycée, PUF. p.26. In Laurent, Régis; Selous, Trista (2015). An Introduction to Aristotle's Metaphysics of Time: Historical research into the mythological and astronomical conceptions that preceded Aristotle’s philosophy (em inglês). Villegagnons-plaisance Ed. ISBN 978-2-9533846-1-1. p. 99.Em Platão, estreia-se o chamado "Mito de Cronos" no diálogo Político 271c-274d, recorrente também depois em Leis, em que se considera a mítica Idade de Ouro regida pelo deus Cronos como sendo um modelo perfeito a ser espelhado e a que se deve voltar. Ele é interpretado como uma eterna recorrência, por exemplo por Marsilio Ficino remetendo-o ao giro da Alma do Mundo, em que o padrão da aparente rotação celeste é repetido em correspondência terrena. Também foi associado ao conceito de Grande Ano Platônico ou então interpretado não literalmente para se referir ao ciclo de criação do mundo sensível a partir do mundo inteligível, como por Proclo. Ao começo e final do mito em Político, diz-se que há dois estágios do sentido do tempo no cosmos, em um dos quais, inverso ao atual, Deus rebobina a história e o sentido de envelhecimento das coisas para a restauração da ordem:"A razão pela qual revivemos esta lenda deve ser contada, para que possamos avançar à frente depois. Pois quando o tempo de todas essas condições foi cumprido e a mudança estava para ocorrer e toda a raça nascida na terra finalmente se esgotou, uma vez que cada alma cumpriu todos os seus nascimentos ao cair na terra como semente seu número prescrito de vezes, então o timoneiro do universo largou o leme e retirou-se para seu lugar de visão, e o destino e o desejo inato fizeram a terra girar para trás.""Portanto, naquele momento Deus, que fez a ordem do universo, percebeu que esta estava em apuros, e temendo que pudesse afundar na tempestade da confusão e naufragar no mar ilimitado da diversidade, Ele assumiu novamente seu lugar como seu timoneiro, reverteu tudo o que havia se tornado doentio e instável no período anterior, quando o mundo fora deixado a si mesmo, colocou o mundo em ordem, restaurou-o e tornou-o imortal e sem idade. Então agora toda a história está contada; mas para nosso propósito de exibir a natureza do Rei será suficiente retornar à parte inicial da história. Pois quando o universo voltou a ser novamente o atual caminho de geração, a idade dos indivíduos parou novamente, e isso levou a novos processos, o inverso daqueles que haviam ocorrido antes. Pois os animais que haviam se tornado tão pequenos que quase desapareceram passaram a crescer maiores, e os recém-nascidos da terra com cabelos grisalhos morreram e passaram novamente abaixo da terra. E todas as outras coisas mudaram, imitando a condição do universo e se conformando a ela, e assim também a gravidez, o nascimento e a criação necessariamente imitaram e se conformaram com o resto"Alguns dos pitagóricos afirmavam uma teoria de eterna recorrência, conforme Eudemo de Rodes (c. 370 - c. 300 a.C.):“Pode-se estar preocupado se o mesmo tempo se repete, como alguns dizem. A mesmidade é dita de múltiplas formas, e parece que há uma recorrência de verão, inverno e outras estações e períodos. Assim também os movimentos do mesmo tipo se repetem, pois o sol completará solstícios e equinócios e outros percursos. No entanto, se acreditarmos nos pitagóricos, as mesmas coisas em número se repetem, e eu irei contar esta história, cajado em mãos, para vocês aí sentados e todas as outras coisas também serão semelhantes, então é razoável supor que o tempo será o mesmo também. Quando o movimento é um e o mesmo, e de modo semelhante todas as coisas são as mesmas, então o antes e o depois são um e o mesmo, assim como o seu número. Então todas as coisas serão as mesmas, com o resultado de que o tempo também."

Pensamento latino helenístico miniaturadaimagem|360x360px|"O Redemoinho dos Amantes", de William Blake. Diferente da opinião de Dante no Canto V, Blake discorda da condenação eterna dos amantes no círculo do inferno: a evidência disso é sua escrita espelhada do título da gravura e os amantes adúlteros representados unidos em um "Sol do Perdão". Northrop Frye considera a versão beatificada desse "eterno girar" como vista depois no Terceiro Paraíso:Frye, Northrop. Notebooks of the Bible. Completed Works 13 (2003). p. 409. Citado em Denham, Bob (ed.). "A Little Chrestomathy of Frye on Sci–Fi". The Educated Imagination. Citação: "Beatified version of the whirlwind of lovers in hell: “dun giro e d’un girare e d’una sete” [with one circle, with one circling, and with one thirst, 35]." "De um giro, e de um girar, e de uma sede, somos nós, que volvemos com os princípios celestes".Alighieri, Dante (1320). Divina Comédia, Canto VIII, 34-35